ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 562 - 24/11/2009
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TWITTER & TELEVISÃO
O pio estridente de Silvia

Por Gabriel Priolli em 3/11/2009

"Se você está achando que é coisa de adolescente, vai mudando o seu conceito", diz logo @Zeluiznogueira, com a tela de seu poderoso Mac luzindo de cores, caras e pulsões, as múltiplas janelas abertas com vídeos, fotos, textos e ferramentas provindas de todas as partes do planeta web. No centro de tudo, uma página aberta no Twitter. Estou em Brasília e um dos maiores produtores de audiovisual da cidade está me trazendo ao olho do furacão. "Você tem de entrar na coisa hoje. Vai mudar a sua cabeça".

Lembro da frase horas depois, diante do meu modesto PC, quando concluo a assinatura no serviço criado em março de 2006, que já conquistou mais de 40 milhões de usuários no mundo todo e cresce exponencialmente em 2009, em ritmo superior a 10 milhões de aderentes por mês. O sistema pede que eu digite duas palavras enviadas por ele num campo de comando, para me dar acesso ao novo mundo da comunicação cibernética. Acho graça delas: "Stridente Silvia". Uau! Uma Silvia barulhenta vai mudar a minha cabeça! Digito a senha, dou enter e adentro.

Zé Luiz não estava exagerando e Silvia é mesmo do barulho. Caio numa plataforma de comunicação totalmente inovadora, que é pura estridência de vozes, diversidade de fontes, convergência de mídias, confluência de idéias. Uma nova ágora, praça do povo, agora universal, democrática e totalmente simétrica. Um espaço ao mesmo tempo público e despudoradamente privado, onde cidadãos famosos e anônimos, pequenos e grandes, jovens e maduros, emitem mensagens curtas sobre os fatos de sua vida, suas impressões e nos dão conta das coisas que gostam, com links que nos remetem para os mais variados conteúdos. Anotações, vinhetas, piadas, perguntas, broncas, poemas, slogans, canções, cantadas, filmes, desenhos, fotos – tudo que couber, em texto ou link, numa caixa de diálogo de até 140 caracteres.

Fluxo contínuo

Dois grupos de pessoas são bem nítidos no Twitter. Primeiro, os famosos fazendo evasão de privacidade para consumo dos fãs, como o âncora William Bonner, aliás @realwbonner (194.288 seguidores até este parágrafo), que pede ajuda para escolher a gravata com que fará o Jornal Nacional da noite, propõe jogos e atividades, deleita-se com as onomatopéias do internetês e emite seus pios (twits) incansavelmente, ao menos 12 horas por dia. Não, claro, sem enfrentar a ironia dos seguidores, sobretudo do sempre mordaz serpentário da imprensa. "@realwbonner é um dos trigêmeos brincando no PC", resume @alcidesouza, devidamente retransmitido (RT) por @mauriciostycer e @marionstrecker até a minha caixa de entrada (reenviar mensagem alheia é parte básica do jogo).

No momento em que eu escrevia este texto, Bonner postava sucessivos twits para explicar aos seguidores porque não mantém um blog. "Eu me divirto muito com essa bobagem que escrevo, e vejo que muitos de vocês também se divertem e se surpreendem", dizia o jornalista. "Isso é Twitter. Mensagens curtas, descompromissadas. Um blog seria insuportável, só com essas brincadeiras. (...) Mas é fato que minha atividade profissional me obriga a botar limites nessa brincadeira toda. (...) Não ponho, aqui, opiniões sobre questões relevantes e polêmicas. Podem apostar que eu tenho essas opiniões".

O outro grupo nítido de "tuiteiros" é o dos cidadãos comuns. Na maioria jovens e universitários, em busca de seu espaço no mundo do trabalho ou de visibilidade para o que já fazem e pensam. Eles desfrutam da inédita horizontalidade que o mecanismo do Twitter estabelece entre "normais" e celebridades, muito maior do que a dos blogs ou sites. Um produtor cultural do ABC paulista, por exemplo, pode polemizar com a cantora Maria Rita (@MROficial, 64.562 seguidores) acerca do trabalho de Marcelo Tas (429.465), algo que seria bastante improvável em outras circunstâncias. A cantora tecla: "Discordo, @penachiando. Tem mais no livro do @marcelotas do que só frases. Na entrevista ele explica bem. Deve ser interessantíssimo! Bjo...".

Mas há um terceiro grupo que está em grande ebulição e talvez seja o responsável pelo posicionamento do Twitter como a marca do momento, na vasta e efêmera seara da internet. É a turma que o utiliza a serviço. Empresas, instituições e profissionais, sobretudo da mídia e da política, já descobriram o potencial da plataforma e mergulham nela, utilizando-a como chamariz para blogs e sites onde podem ampliar e aprofundar os conteúdos. Põem seu manequim bem vestido na vitrine online, para que o público os veja e chegue mais rápido ao seu trabalho.

Em cerca de um mês de uso, testemunho: o Twitter acelera inacreditavelmente o ritmo de consumo e difusão de informações. O fluxo de entrada de novos dados, indispensáveis ao uso profissional, ultrapassa de longe a atualização em geral diária do e-mail e elimina a necessidade de garimpagem em múltiplos sites. Não é necessário buscar a informação, ela vem a você. O tempo todo, sem cessar, 24 horas por dia. Basta seguir as fontes certas e você, como já faz usando este Observatório da Imprensa, "nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito". Até porque já terá lido tudo que ele contém, no mínimo um dia antes.

Televisores desligados

O poder de difusão do Twitter teve confirmação cabal nas últimas semanas. Em 13 de outubro, alguém postou logo cedo uma reportagem de TV portuguesa, onde a atriz Maitê Proença (@Maite_Proenca,se for ela mesma, com meros 417 seguidores; perfis falsos vicejam) era duramente criticada por gracinhas e comentários infelizes que perpetrou, em matéria para o programa Saia Justa, do GNT. O assunto explodiu e as reações negativas avolumaram-se de tal forma, nos dois lados do Atlântico, que tornou-se imperativo um pedido de desculpas. Às 21:58, o site do GNT divulgou um vídeo gravado por Maitê, com suas constrangidas explicações ("O brasileiro é muito brincalhão, a gente brinca com aquilo por que tem afeto..."). Foram menos de 12 horas do início ao auge, para um factóide midiático de alcance internacional.

Na quinta-feira (29/10), o assunto foi "a moça da Uniban". Uma testemunha do espetáculo de intolerância protagonizado por alunos da universidade paulista, que vaiaram, insultaram e ameaçaram uma colega por usar um microvestido, postou as imagens também pela manhã. A violência espantosa das cenas reverberou pelo Twitter como se fosse um comando de Marcelo Tas (ele pode quase tudo lá; se mandar segui-lo, como fez comigo, você pode ganhar 800 seguidores num dia). Transformou-se no filé do noticiário nos portais e assunto compulsório da noite, nos telejornais. Deu à estudante de turismo Geyse Arruda seus 15 minutos de fama nos programas de auditório do dia seguinte, que certamente serão prorrogados nas capas de revistas masculinas, adiante.

Twitter na hora, TV mais tarde – aqui está o ponto mais delicado, para quem observa a nova mídia pela ótica da veterana. A ágora virtual traz novos problemas para a já complexa conjuntura que a televisão enfrenta, obrigada a reciclar o seu mastodôntico modelo de operação num ambiente de pura mutabilidade na mídia. A instantaneidade na oferta de conteúdos e a capacidade de multiplicação do Twitter põem a televisão em camisola, encanecida e cansada, para enfrentá-lo na raia de competição. Mídia-mãe até agora, senhora de respeito, vê mais um garoto abusado surgir no campo ameaçador da internet, pronto a lhe passar a perna.

Não apenas o Twitter, certamente, mas a internet como um todo, em seus inumeráveis serviços, rouba telespectadores em ritmo dramático. No domingo (18/10), chamou a atenção a baixa audiência do Fantástico, que obteve na Grande São Paulo magros 18 pontos contra 16 de Gugu Liberato e 11 do humorístico Pânico. Mas pouco se atenta para o fato de que a soma desses índices, mesmo acrescida dos obtidos pelos demais canais, dificilmente ultrapassa os 60 pontos – numa noite de domingo, no maior mercado de televisão do país. Ou seja: quase a metade dos televisores está desligada, no horário mais importante do dia mais nobre da televisão.

Poder de concisão

À parte a instantaneidade na difusão de informações, com a qual a TV ainda poderia competir, ainda que a duras penas, o Twitter e os sites de compartilhamento de vídeos aos quais ele remete – You Tube, Vimeo, Blip TV, Google Vídeo – estão demolindo a idéia de "grade de programação", ou da oferta de conteúdo audiovisual centralizado, organizado e disponível em horários predeterminados. O conteúdo desejado, seja ele o novo blockbuster do cinema americano lançado ontem ou o programa de TV preferido, o usuário quer buscar sozinho, varrendo a rede. Não quer esperar para vê-lo no ar, quando e se a televisão dignar-se a disponibilizá-lo.

Como programar a televisão, numa época em que o telespectador quer fazer isso por ela? É a pergunta mais cruel por trás da telinha, resumida, a propósito, numa aguda charge de Dahmer (@malvado) à qual cheguei graças ao colega Alexandre Matias, do blog "Trabalho Sujo", via twitter (@trabalhosujo). Vai abaixo, com um poder tão grande de resumir as coisas que não cabe acrescentar nada. Sobretudo quando já estou muito além dos 140 toques.

Comentários (7)
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Marcelo Idiarte , Porto Alegre-RS - Diagramador
Enviado em 5/11/2009 às 7:23:42 PM
Como a própria web, o Twitter abriga um lado bom e outro totalmente dispensável. O lado bom é neste sentido de atuar como um agregador de notícias em tempo real. Através dele recebo uma parte razoável do conteúdo dirigido à internet, seja de sites ou blogs. Talvez alguém cogite que para isso existe o RSS. Sim: estou inscrito em 18 deles, de jornais a sites especializados em aviação, de blogs a sites especializados em programação e segurança web. O Twitter não substitui: apenas amplia e agiliza um mundo onde a informação é tão volumosa que se você ler apenas cinco ou seis jornais provavelmente vai perder algo (ou vai saber depois dos outros) e se ler mais do que isso provavelmente é só o que você fará durante o dia. O lado dispensável do Twitter é essa gente que entra lá para falar de iniquidades pessoais - caso de anônimos, artistas e até de alguns "jornalistas". Quando entrei no Twitter eu logo procurei por algumas pessoas que admiro em jornalismo, como Luis Nassif, Heródoto Barbeiro e Gabriel Priolli - que a exemplo de Alberto Dines não estava lá. É bom saber que agora posso "seguí-lo", pois a mim não interessa seguir gente que não tem nada a dizer e gente que só usa o Twitter para fazer promoção de si e de seus produtos mercadológicos. Agora, essa do Bonner perguntar qual gravata usar é boa... Por mim não importa a cor, desde que ele faça um nó de marinheiro e alguém puxe.
Gersier Lima , Montes Claros-MG - Radialista
Enviado em 4/11/2009 às 12:02:26 PM
"Não ponho, aqui, opiniões sobre questões relevantes e polêmicas. Podem apostar que eu tenho essas opiniões".(Bonner) E quais seriam?Essa minha mania de duvidar,de questionar,principalmente de pessoas ditas "públicas".É que tenho presenciado nessa minha vida tanta demagogia,tanta hipocrisia que vc ao ver uma declaração como essa,fica sempre com "um pé atrás".Acompanhando certa vez,por dever de ofício,a um ex governador de Minas em visita a pequenas cidades do interior,o vi sorridente,acenando,etc..Ganhou abraços e inúmeros presentes de pessoas humildes que foram descartados à beira de uma estrada entre uma cidade e outra.Vcs,pela atitude dele,já devem saber a qual partido ele pertence.Houvesse o twitter anos atrás,ele seria desmascarado prontamente.
Wilson Marini , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 3/11/2009 às 6:55:46 PM
Concordo com Gabriel Priolli em relação á agilidade. A sensação é que o e-mail vai se aposentando. Entrei há menos de um mês e os contatos, descobertas e links interessantes se ampliaram enormemente. A propósito dos falsos perfis, Arnaldo Jabor de hoje diz que tem 26 mil seguidores sem que jamais tenha entrado no twitter. O governador Serra é "vítima" de um homônimo (oportunista? brincalhão?) por isso criou o seu perfil com o sinal underline após o nome. Aí caimos na questão que é mais antiga que o twitter: a confiabilidade na web. Há que fazer o crivo, sempre. De novo, as ferramentas do velho jornalismo são indispensáveis. Ah, o meu twitter é @wilsonmarini
Silvana Martins , Campo Grande-MS - Artista plástica
Enviado em 3/11/2009 às 6:07:55 PM
Estardalhaço eu acho que também não precisa, mas concordo que seguir as pessoas ou canais certos nos ajuda a situar nesse mundo. Acho que quando estamos no meio do furacão não temos muita noção dos movimentos dos ventos, mas certamente o Twitter é um divisor de águas. Nossas maneiras de comunicar e receber as informações já mudaram quando passamos a ter opção de escolher os conteúdos e programações. É a individualização e personalização dentro da globalização. @windsgirl
Liara Abrão , Uberlândia-MG - Jornalista
Enviado em 3/11/2009 às 5:47:32 PM
Tive grande resistência a esta incrível ferramenta da internet, e como sua seguidora no Twitter, Priolli, CONCORDO com tudo o que escreveu. Vejo um tsunami de informações de multiplas tribos. Como jornalista, pratico minha habilidade de escrever sucinta e objetivamente. Penso muito mais sobre temas, sobre musica, sobre arte, sobre profissão, mercado e outros temas quando leio 140 caracteres (de anônimos ou famosos), que me proporcionam grandes reflexões! Incrível o Pio Estridente da Silvia !
Cristiana Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 3/11/2009 às 4:52:01 PM
O Twitter não conta pq foi criado com esse fim mesmo, ser um braço da TV na rede. Só tem bobeira ali , depois vai tudo pra TV. Aliás, a turma do twitter é da TV.
sergio ribeiro , são paulo-SP - bancário
Enviado em 3/11/2009 às 12:32:04 PM
Realmente não vejo isso com esse estardalhaço todo. Cada vez mais estamos circundados de informação e imagem, e cada vez mais parece que estamos rodeados de coisas desnecessárias. Antes de entrar neste Observatório, para ler este texto, dei de cara com fotos de Gisele Bundchen grávida e outras informações "importantíssimas" de famosos que não conheço. As perguntas que não querem calar é: será que precisamos mesmo de tanta informação ou até conseguiremos lidar com tanto conteúdo? Será que estamos mesmo caminhando para um mundo mais interessante ou será mais tedioso?
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