ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
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Observatório no Rádio
Programa 1171
>>A imprensa e o equilibrista
>>Ainda a Venezuela
Postado por Luciano Martins Costa em 24/11/2009 às 9:20:32 AM
 
 

A imprensa e o equilibrista

Os principais jornais brasileiros foram cautelosos e conservadores na cobertura da visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil.

O Estado de S.Paulo, que tem maior tradição na cobertura da política internacional, preferiu abrir a reportagem principal citando uma frase do presidente Lula da Silva sobre o suposto direito do Irã de desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos.

Mas ressaltou o esforço brasileiro para se equilibrar no jogo das compensações diplomáticas, ao manter em destaque também a atitude do presidente brasileiro, de defender o direito dos israelenses a um Estado seguro e soberano e o estabelecimento de relações pacíficas entre israelenses e palestinos sem interferência do Irã.

A Folha de S.Paulo foi por um caminho semelhante, mas preferiu destacar o fato de o presidente brasileiro ter reafirmado que, embora busque manter as melhores relações possíveis com o Irã, tem uma política externa balizada pelos compromissos com a democracia e o respeito à diversidade.

A Folha viu nessa declaração uma crítica ao governante iraniano, que se tornou notório por representar um regime tirânico, que persegue homossexuais e outras minorias, desestabiliza as relações internacionais e é acusado de apoiar movimentos terroristas.

Os três jornais brasileiros de relevância nacional buscam equilibrar as entrevistas e artigos que pendem para um lado ou para outro das controvérsias sobre os conflitos no Oriente Médio.

Mas o Globo é o único a destacar na manchete um dos lados da questão, ao afirmar que “Lula é criticado por legitimar Ahmadinejad”. Citando “analistas internacionais”, o jornal carioca tenta na verdade legitimar uma opinião do próprio jornal.

Comparado aos outros dois diários, o Globo claramente sai da linha e contamina o noticiário com uma seleção menos equilibrada de opiniões. 

Assim como acontece com o noticiário sobre a Venezuela de Hugo Chávez e como ocorreu durante a crise do gás com a Bolívia, há dois anos, a imprensa brasileira tem mantido uma posição contrária às escolhas da diplomacia brasileira.

De modo geral, a imprensa também se opôs à escolha do Brasil por privilegiar as relações com seus vizinhos mais próximos e desprezar o  projeto da Alca, insistentemente proposto pelo governo do ex-presidente George W. Bush.

O caso do Irã é ainda mais complexo, porque representa uma tentativa brasileira de se destacar no cenário internacional estabelecendo relações com um protagonista que não faz questão de ser ou parecer racional.

Mas torcer o noticiário para um dos lados também não contribui para amenizar conflitos.

Ainda a Venezuela

O noticiário sobre a Venezuela segue contaminado pela escolha a priori da imprensa brasileira, que se recusa a tentar explicar o que realmente acontece no país governado por Hugo Chávez.

O Observatório da Imprensa na TV começou na semana passada e prossegue nesta terça-feira seu trabalho de revelar aquilo que não está dito nos jornais: a radicalização dos protagonistas da política venezuelana contaminou a imprensa local e pode conduzir o país a um confronto de graves proporções.

A imprensa brasileira claramente se omite ou toma partido, deixando de cumprir seu papel de contribuir com informação de qualidade para uma eventual pacificação.

Hugo Chávez tem certamente um perfil belicoso e suas declarações, assim como algumas de suas atitudes políticas, o transformam em personagem controverso.

Mas a imprensa já tomou partido e não tem se esforçado para explicar o que se passa na Venezuela.

Alberto Dines:

Hugo Chávez continua produzindo manchetes. Mas a nossa mídia ainda não conseguiu vencer a sua adoração pela lei do menor esforço para explicar os bastidores da guerra da mídia que sacode a Venezuela. O “Observatório da Imprensa” foi lá para mostrar o dramático confronto que está em gestação. Hoje o segundo episódio da série realizada pelo jornalista Cláudio Bojunga e o cineasta José Araripe Jr. Às 23 horas pela TV-Brasil em rede nacional. Em S.Paulo pela NET, Canal 4 e 181 da TVA.

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Observatório no Rádio
Programa 1170
>>Dinheiro sujo na mídia
>>Poupando o Supremo
Postado por Luciano Martins Costa em 23/11/2009 às 9:14:02 AM
 
 
Dinheiro sujo na mídia

A Folha de S.Paulo destaca, nesta segunda-feira, que as indústrias que mais poluem no Brasil e que mais contribuem para a emissão de gases do efeito estufa são também as que mais influenciam as comissões do Congresso Nacional encarregadas de encaminhar as votações da legislação ambiental.

Segundo o jornal paulista, empresas de setores altamente comprometidos com o aquecimento global formam as doze associações que contribuíram com R$ 60 milhões nas campanhas eleitorais de 2006.

O dinheiro das indústrias de energia, cimento, papel e celulose, agronegócio, mineração, siderurgia e óleos vegetais ajudou a eleger metade dos parlamentares que compõem a comissão da Câmara dos Deputados que está conduzindo as mudanças no Código Florestal.

A reportagem é importante para que o leitor entenda como funcionam os lobbies e como uma decisão nas urnas influenciada por propaganda política bem elaborada e com muito dinheiro acaba produzindo resultados contrários ao interesse do cidadão.

Algumas dessas empresas, como a Bunge, estão envolvidas em campanhas internacionais para desestimular a adoção de metas ambiciosas para o problema das mudanças climáticas, observa a Folha.

O que o jornal esqueceu de mencionar é que as mesmas empresas também se destacam no uso de publicidade para tentar convencer o público de suas boas intenções quanto ao meio ambiente.

A propaganda desses setores, tanto nos jornais quanto na televisão, destaca-se por mencionar invariavelmente suas grandes preocupações com a questão ambiental.

Muitas delas também se apresentam como campeãs da responsabilidade social e costumam financiar os cadernos especiais dos jornais sobre meio ambiente e sustentabilidade.

Não se trata de dizer às organizações jornalísticas que devem rejeitar o dinheiro de empresas sujas – o que também não seria absurdo – , mas talvez fosse o caso de também esclarecer aos leitores a relação que existe entre o lobby que se movimenta para amenizar a legislação de proteção ao patrimônio ambiental e a publicidade que tenta preservar a reputação desses mesmos financiadores.

Ou será que o “lobby” funciona no Congresso mas se torna inofensivo quanto atua sobre a imprensa?

Poupando o Supremo

Alberto Dines: - O Supremo Tribunal Federal não ajudou o cidadão brasileiro a definir o que é certo e errado nem a distinguir justiça da injustiça. Votou pela extradição do militante italiano Cesare Battisti, mas entregou a decisão final ao chefe de outro poder, o presidente da República. A ambigüidade em matéria de delitos e penas é desastrosa, deixa a cidadania desnorteada em questões sobre as quais não poderia haver dúvidas e vacilações. O assassinato político é um assassinato, não há atenuantes sobretudo quando o crime aconteceu num regime democrático.

A nebulosa decisão adotada pelo STF estabelece uma cadeia de relativismos que tornará a sociedade brasileira ainda mais permissiva e permeável à delinqüência do que era antes. E a imprensa ainda não conseguiu reunir a coragem para enquadrar nossa suprema corte. Exceto o Estado de S. Paulo que em sua edição de domingo revelou o clima entre os ministros e mostrou a precariedade do seu debate interno.

As decisões do STF são definitivas, irrevogáveis, mas nada impede que sejam discutidas e contestadas pela sociedade. Nada impede que a imprensa seja tão veemente na crítica à instância máxima do Judiciário como tem sido com o chefe do Legislativo. A não ser que a inapetência da imprensa por uma crítica mais contundente seja uma espécie de retribuição às sentenças favoráveis em duas causas consideradas cruciais para as empresas de comunicação: o fim da Lei de Imprensa e o fim da exigência do diploma para o exercício do jornalismo.

Nos dois casos o STF foi conduzido pela opinião do seu presidente, o ministro Gilmar Mendes, contrariando o bom senso e o bom funcionamento da justiça e nos dois casos a imprensa, muito agradecida, poupou o supremo-magistrado. Agora, não estão em discussão os seus desmandos, mas a sua forma de comandar uma instituição que, sob hipótese alguma, pode ser colocada sob suspeição.

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Observatório no Rádio
Programa 1169
>>Em busca da razão
>>A guerra civil midiática
Postado por Luciano Martins Costa em 20/11/2009 às 9:28:12 AM
 
 

Em busca da razão

Os jornais comentam nesta sexta-feira que o governo decidiu alterar a estratégia para o encontro da ONU sobre mudanças climáticas porque foi convencido de que a ex-ministra Marina Silva, relatora da Comissão de Meio Ambiente do Senado, iria propor transformar a manifestação de intenção para a redução de emissões de gases poluentes em compromisso legal e obrigatório.

A simples presença da senadora acreana entre os possíveis candidatos à sucessão do presidente Lula da Silva tem sido um elemento fundamental para que não apenas muitos políticos de repente se transformem em ecologistas, mas também se nota que a própria imprensa deixa de tratar a sustentabilidade como assunto marginal e se rende à evidência de que é na verdade o tema central em todos os debates atuais.

Em função desse fenômeno, o projeto de emenda à Política Nacional de Mudanças Climáticas já foi aprovado quinta-feira na Comissão de Infraestrutura do Senado e deve seguir sua tramitação sem sobressaltos, pois nem mesmo a bancada ruralista, seguramente o núcleo mais obscuro do Congresso, terá coragem de se opor ao compromisso.

A representação brasileira deve chegar a Copenhague, em dezembro, na condição de líder dos países em desenvolvimento e portadora de iniciativas concretas para a redução das emissões de gases do efeito estufa, conforme destaca o Globo em entrevista.

Trata-se de uma oportunidade histórica para o País, que também se destaca entre as nações que venceram mais rapidamente a crise financeira internacional.

Mais do que isso, porém, o tema sustentabilidade, que por enquanto ainda é tratado de forma simplista na questão ambiental, cria as condições para a superação de outros impasses.

O mais importante e perigoso deles é a radicalização política que impede uma relação civilizada entre o atual governo e a oposição, com marcante participação de uma imprensa claramente partidarizada.

A irracionalidade que tem sido característica da imprensa e das relações políticas no Brasil nos últimos anos pode dar lugar a um diálogo proveitoso, se as partes se conscientizarem de que há muito mais riqueza nos debates sobre desenvolvimento sustentável do que nas atuais querelas que movem as opiniões.

Mas a imprensa tem que se desarmar e ampliar sua visão para os grandes desafios e oportunidades que se abrem para o Brasil. 

A guerra civil midiática

Alberto Dines:

- O que impressiona no programa sobre a Venezuela exibido pelo “Observatório da Imprensa” (terça, 17/11) é, em primeiro lugar, a intensidade da polarização em torno da mídia. Mentes lúcidas, racionais, extremamente sofisticadas, não conseguem esconder o dramático impasse. Independente das posições, pró ou contra Hugo Chávez, todos  os venezuelanos ouvidos concordam num ponto: não existe possibilidade de diálogo.

Já não existe necessidade de se fazer um bom jornalismo porque na Venezuela ninguém quer jornalismo, todos querem propaganda. No entanto, este quadro pré-ruptura não consegue motivar a mídia latino-americana e internacional. Somos obrigados a reconhecer que a cobertura desta guerra midiática na Venezuela esta igualmente intoxicada pelos ressentimentos e preconceitos que correm fora dela.

Surge então a grande questão: porque razão os grandes veículos, brasileiros e estrangeiros, não conseguem aquele mínimo de equilíbrio para reproduzir ao menos o inexorável caminhar para o confronto?  Será tão difícil reunir e comparar opiniões divergentes, sem tomar partido?

Já que no interior da sociedade venezuelana os ânimos estão tão exaltados, fora dela, em outros contextos e continentes, não seria possível repetir a experiência do “Observatório da Imprensa” com mais recursos e para audiências maiores? Falta disposição, falta senso de urgência ou simplesmente falta solidariedade?

A verdade é que ser solidário com a Venezuela, neste momento, significa não tomar partido algum e, assim, escapar da terrível compulsão maniqueísta. A terceira via nada tem de escapista, ao contrário, é a única alternativa capaz de mostrar aos beligerantes que existem outras dinâmicas além da confrontação. Não adianta convocar a OEA, a UNESCO, a ONU ou o Tribunal de Haia. É preciso convocar a própria mídia internacional para exibir o seu poder de persuasão. E se este potencial já está esgotado teremos que admitir que o jornalismo já não faz sentido.

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Luciano Martins Costa
O programa Observatório da Imprensa no Rádio, produzido pela Cultura AM de São Paulo, é apresentado por Luciano Martins e
tem a participação de Alberto Dines. É transmitido de segunda a sexta-feira pelas emissoras abaixo. Para ouvir as emissoras pela internet clique sobre o nome sublinhado. São Paulo
* Cultura FM (103,3 mHz) de São Paulo, 9h;
Cultura AM (1200 kHz) de São Paulo, 9h;

Rio de Janeiro
* Rádio MEC AM (800 kHz), 10h30;

Brasília
* Rádio Nacional FM (96,1 mHz), 10h30;
* Rádio Nacional AM (980 kHz), 12h30.

Rio Grande, RS
* Rádio Universidade Federal do Rio Grande FM (106,7 mHz), 11h30

Belo Horizonte
* Rádio Inconfidência AM (880 kHz), 9h30;
* Rádio Inconfidência FM (100,9 mHz), 12h30.


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