Entre aspas


Teixeira Coelho
Renato Janine Ribeiro
Graça Caldas
Hanna Rosin
Lizia Bydlowski

Teixeira Coelho

"Não será coincidência se assistimos, neste momento, aos trabalhos de outra CPI, a brasileira (1), cujos investigadores-acusadores e depoentes-acusados esforçam-se arduamente por 'não dizer', usando as palavras do 'dizer', por 'não se fazer entender', usando as palavras do 'fazer-se entender'... E não são apenas eles que se entregam a essa prática, visivelmente gozosa (e histriônica), nos senadores, e cínica (e arrogante) nos depoentes: é também a TV, e a imprensa, e a universidade e a..."

("A peste da linguagem", Folha de S.Paulo, 30/3/97.)

(1) O autor mencionara antes uma CPI sobre o seqüestro e assassinato, em 1976, do líder da democracia-cristã italiana Aldo Moro, CPI de que participou o escritor (e então deputado) Leonardo Sciascia. Em 1978, Sciascia publicou L'Affaire Moro.



Renato Janine Ribeiro

"A ameaça à liberdade, à igualdade, à humanidade mesma está cada vez menos na força física. Essa, hoje, é pouco mais que um resíduo folclórico, com o qual se lida nos cantos perdidos da sociedade. A força que realmente silencia o dissidente é hoje a econômica, e a democracia não é mais, em sua essência, aquele conjunto de relações que suprimem a força bruta: é aquele que abre a caixa-preta do poder econômico, que, pelo menos, limita sua desmedida.

Por isso, é primordial debater o princípio mesmo segundo o qual a palavra sustenta a democracia: que palavra? Qual modelo de palavra estará presente nessa discussão? É possível haver uma palavra democrática que seja, ao mesmo tempo, densa (prenhe, por exemplo, de poesia)? É possível ser democrática uma palavra que seja, ao mesmo tempo, suja (carregada, por exemplo, de manipulação ideológica)?"

("A palavra democrática", Folha de S.Paulo, 30/3/97.)



Graça Caldas


"A força ideológica dos meios de comunicação de massas é inegável. O mito da neutralidade da informação foi há muito derrubado. (....) Na verdade, a imprensa livre está sempre a serviço dos proprietários dos meios de comunicação de massa. A diversidade no controle da mídia e a pluralidade dos veículos é a única forma de se assegurar a democratização da informação. (....)

Embora a grande imprensa venha cumprindo um papel relevante no processo de democratização da informação, é sempre bom lembrar que, operando num sistema capitalista de livre concorrência de mercado, a imprensa tem oscilado entre a divulgação e a omissão da informação de acordo com seus compromissos e conveniências."

("O latifúndio do ar - Mídia e Poder na Nova República", tese de doutorado apresentada à Escola de Comunicação e Artes da USP, São Paulo, 1995, págs. 1-2)


Hanna Rosin

"O personagem-título do filme O Povo contra Larry Flynt - [dirigido por Milos Forman] atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros -, antes um mero editor milionário de pornografia suja, racista, escatológica, feia e violentamente agressiva às mulheres, finalmente chegou ao patamar da respeitabilidade.

Arrastado do fundo da fossa negra a tempo de comemorar o 25o aniversário da revista Hustler, o velho remexedor de cocô foi qualificado retrospectivamente de defensor intransigente das liberdades americanas. É uma transformação que as pessoas que conhecem a Hustler há tempo observam com espanto.

Entre uma e outra viagem de costa a costa do país para autografar sua recém-lançada autobiografia, An Unseemly Man (Um Homem Indecoroso), Flynt está fazendo malabarismos para atender solicitações da imprensa. E a cobertura é respeitosa, quase reverente: 'O filme, que chegou em boa hora, é o mais patriótico do ano', delira Frank Rich em The New York Times.

Barry Hannah, num perfil escrito em tom de veneração absurda na George, está quase mudo de admiração: 'Flynt e eu temos a mesma idade, e quando o vê, você se sente um relativo covarde na luta pela liberdade'.

Não é que a revista de Flynt deva ser boicotada porque corrompe mentes jovens. E não é que ele próprio não mereça crédito por combater e ganhar, com o veredicto da Suprema Corte, em 1988, um dos processos mais importantes movidos em torno da liberdade de imprensa. Mas daí a dizer que é nosso herói são outros 500.

Em sua busca desesperada por uma retumbante epifania liberal, a mídia parece haver aceito sem questionar a imagem edulcorada que Larry Flynt pinta de si mesmo.

(....) É compreensível que Milos Forman tenha uma impressão exagerada do heroísmo de Flynt. Afinal, como ele mesmo observa, os dois regimes brutais aos quais sobreviveu, o nazismo e o comunismo, 'começaram com cruzadas contra pervertidos'. Mas não faz sentido Frank Rich ou Barry Hannah repetirem o mesmo refrão.

O processo no qual o filme inteiro de Forman se baseia nem sequer dizia respeito à censura. O próprio título do filme é uma mentira. O processo em questão não foi 'O Povo contra Larry Flynt', não foi um esforço feito pelo Estado para censurar a liberdade de expressão.

Foi um processo por calúnia e difamação movido por um cidadão, o reverendo Jerry Falwell, para provar que outro cidadão, Larry Flynt, mentira sobre ele numa entrevista em tom paródico em que Flynt dizia que havia tido relações sexuais com sua mãe.

Flynt não foi aos tribunais para impedir que o Estado totalitário escorregasse pelo íngreme declive da censura. Foi aos tribunais para proteger sua conta bancária. E, ao fazê-lo, acabou - inteiramente por acaso - protegendo o direito à livre expressão."

("Forman perverte imagem do 'pervertido' Flynt", Folha de S.Paulo, 28/3/97, publicado originalmente em The New Republic.)


Lizia Bydlowski

"É difícil alguém extrair um dedal de simpatia por um sujeito como Mobutu Sese Seko, ditador do Zaire há mais de três décadas, ruim como a peste, cleptocrata de escol. Mas não deixa de ser melancólico observar como o homem que foi mantido e apoiado durante tanto tempo pelo Estados Unidos, em nome do combate ao comunismo, paparicado por todos os presidentes americanos de sua época, desde John Kennedy até George Bush, aproxima-se do fim praticamente abandonado, descartado por obsoleto e até constrangedor. Em processo acelerado de metástase política, o ditador já era. Todos concordam com isso, desde os zairenses mais humildes até o The New York Times, que, não obstante o apoio à política externa de sucessivos governos americanos, agora houve por bem clamar: 'Chega de Mobutu'."

("O salvador da pátria", Veja, 26/3/97.)


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