Hanna Rosin
"O personagem-título do filme O Povo contra Larry Flynt - [dirigido por Milos Forman] atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros -, antes um mero editor milionário de pornografia suja, racista, escatológica, feia e violentamente agressiva às mulheres, finalmente chegou ao patamar da respeitabilidade.
Arrastado do fundo da fossa negra a tempo de comemorar o 25o aniversário da revista Hustler, o velho remexedor de cocô foi qualificado retrospectivamente de defensor intransigente das liberdades americanas. É uma transformação que as pessoas que conhecem a Hustler há tempo observam com espanto.
Entre uma e outra viagem de costa a costa do país para autografar sua recém-lançada autobiografia, An Unseemly Man (Um Homem Indecoroso), Flynt está fazendo malabarismos para atender solicitações da imprensa. E a cobertura é respeitosa, quase reverente: 'O filme, que chegou em boa hora, é o mais patriótico do ano', delira Frank Rich em The New York Times.
Barry Hannah, num perfil escrito em tom de veneração absurda na George, está quase mudo de admiração: 'Flynt e eu temos a mesma idade, e quando o vê, você se sente um relativo covarde na luta pela liberdade'.
Não é que a revista de Flynt deva ser boicotada porque corrompe mentes jovens. E não é que ele próprio não mereça crédito por combater e ganhar, com o veredicto da Suprema Corte, em 1988, um dos processos mais importantes movidos em torno da liberdade de imprensa. Mas daí a dizer que é nosso herói são outros 500.
Em sua busca desesperada por uma retumbante epifania liberal, a mídia parece haver aceito sem questionar a imagem edulcorada que Larry Flynt pinta de si mesmo.
(....) É compreensível que Milos Forman tenha uma impressão exagerada do heroísmo de Flynt. Afinal, como ele mesmo observa, os dois regimes brutais aos quais sobreviveu, o nazismo e o comunismo, 'começaram com cruzadas contra pervertidos'. Mas não faz sentido Frank Rich ou Barry Hannah repetirem o mesmo refrão.
O processo no qual o filme inteiro de Forman se baseia nem sequer dizia respeito à censura. O próprio título do filme é uma mentira. O processo em questão não foi 'O Povo contra Larry Flynt', não foi um esforço feito pelo Estado para censurar a liberdade de expressão.
Foi um processo por calúnia e difamação movido por um cidadão, o reverendo Jerry Falwell, para provar que outro cidadão, Larry Flynt, mentira sobre ele numa entrevista em tom paródico em que Flynt dizia que havia tido relações sexuais com sua mãe.
Flynt não foi aos tribunais para impedir que o Estado totalitário escorregasse pelo íngreme declive da censura. Foi aos tribunais para proteger sua conta bancária. E, ao fazê-lo, acabou - inteiramente por acaso - protegendo o direito à livre expressão."
("Forman perverte imagem do 'pervertido' Flynt", Folha de S.Paulo, 28/3/97, publicado originalmente em The New Republic.)
Lizia Bydlowski
"É difícil alguém extrair um dedal de simpatia por um sujeito como Mobutu Sese Seko, ditador do Zaire há mais de três décadas, ruim como a peste, cleptocrata de escol. Mas não deixa de ser melancólico observar como o homem que foi mantido e apoiado durante tanto tempo pelo Estados Unidos, em nome do combate ao comunismo, paparicado por todos os presidentes americanos de sua época, desde John Kennedy até George Bush, aproxima-se do fim praticamente abandonado, descartado por obsoleto e até constrangedor. Em processo acelerado de metástase política, o ditador já era. Todos concordam com isso, desde os zairenses mais humildes até o The New York Times, que, não obstante o apoio à política externa de sucessivos governos americanos, agora houve por bem clamar: 'Chega de Mobutu'."
("O salvador da pátria", Veja, 26/3/97.)
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