ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 282 - 24/11/2009
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LEONEL BRIZOLA, 1922-2004
Um guerreiro contra a manipulação da mídia

Por Luiz Antonio Magalhães em 22/6/2004

Leonel de Moura Brizola sempre foi um homem obstinado. Único brasileiro a conquistar, pelo voto, o governo de dois estados da Federação (o Rio Grande do Sul e, por duas vezes, o Rio de Janeiro), Brizola concorreu duas vezes à presidência da República e poderia ter participado de outra – era candidato declarado à eleição que nunca houve, em 1965. Foi também companheiro de chapa de Luiz Inácio Lula da Silva no pleito de 1998, quando a dupla perdeu para Fernando Henrique Cardoso.

A obstinação é certamente uma das características mais marcantes da personalidade do ex-governador, morto na segunda-feira, 21/6. Uma das grandes batalhas da sua vida, especialmente após a sua volta do exílio, em 1979, foi contra o que considerava abusos da mídia brasileira, especialmente da Rede Globo. Na realidade, Leonel Brizola foi um dos políticos brasileiros que melhor percebeu a importância de lutar por espaço na imprensa e também como usar a seu favor o tempo e as laudas que lhe eram oferecidos. Quando todas as portas se fechavam, chegava a pagar por anúncios pagos nos principais jornais do país para registrar sua mensagem, às mais das vezes indignadas.

Aliás, era antiga a percepção de Brizola sobre a importância da mídia. Em 27 de agosto de 1961, após a renúncia do presidente Jânio da Silva Quadros, o então governador gaúcho comandou, do Palácio Piratini, em Porto Alegre, uma reação que garantiu a posse do vice-presidente João Goulart, que estava em visita oficial à China. O golpe contra a posse de Jango corria solto e Brizola decidiu então requisitar os transmissores da rádio Guaíba para fazer um pronunciamento a todo país, conclamando o povo a defender a legalidade. Em seguida, as demais emissoras gaúchas uniram-se à Guaíba formando um movimento que ficou conhecido com Cadeia – ou Rede – da Legalidade, funcionando 24 horas a partir do palácio.

Cavalo inglês

Vinte e um anos após a Rede da Legalidade, em 1982, Brizola foi ele mesmo vítima de um quase-golpe, desta vez contra a sua candidatura ao governo do Rio, em um caso rumoroso que acabou conhecido como o "escândalo da Proconsult" – empresa encarregada de apurar os votos e que teria tentado manipular a totalização de maneira a dar a vitória ao candidato Moreira Franco, então no PDS. Informado sobre a tramóia, Brizola logo acusou a Rede Globo de ser cúmplice da tentativa de golpe e chegou a paralisar os boletins noticiosos da emissora em que eram apresentados os números parciais da apuração.

Depois que voltou do exílio, por sinal, a relação de Brizola com a Globo sempre foi conturbada. Em 1994, concorrendo à presidência da República, ele obteve um inédito direito de resposta após uma longa batalha judicial. Um texto de sua lavra foi lido no dia 16 de março, em pleno Jornal Nacional, pelo apresentador Cid Moreira, símbolo da credibilidade da emissora. Foi quase surreal ouvir o âncora do JN interpretar, com a mesma impostação que emprestava ao noticiário, o texto de Brizola. "Tudo na Globo é tendencioso e manipulado", teve que engolir Cid Moreira, logo após lembrar que a emissora para o qual trabalhava tinha uma "longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de vinte anos que dominou nosso país".

O relacionamento de Brizola com os demais órgãos de informação do país também nunca foi muito melhor do que o que ele tinha com a Globo. A revista Veja, da editora Abril, por exemplo, insinuou, em uma matéria destituída de qualquer evidência ou provas, o enriquecimento ilícito de Brizola. Ele, porém, sempre reagia à altura dos ataques que sofria e comprava brigas homéricas com os proprietários dos grandes grupos que dominam o setor de comunicação.

Nos últimos anos, quase todos os grandes jornais decretaram o fim da carreira política de Leonel Brizola. O ex-governador, porém, era um obstinado. Aos 76 anos, após perder a eleição como vice de Lula já no primeiro turno, respondeu aos jornalistas que lhe perguntavam sobre o seu futuro político. "Tem muita gente desejando que eu passe de uma vez, que assuma a minha aposentadoria, mas isso não vai acontecer porque serei como um cavalo inglês: só vou morrer na cancha".

Dia 21 de junho, às 21h29, Leonel de Moura Brizola morreu na cancha, articulando uma aliança entre o seu PDT e o PMDB para a eleição presidencial de 2006. Os jornais estavam errados.

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