ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 291 - 24/11/2009
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OLIMPÍADAS & MÍDIA
Bia Abramo

em 24/8/2004

"Esporte na TV faz aflorar nacionalismo", copyright Folha de S. Paulo, 22/08/08

"É só começar algum megaevento esportivo, como a Copa do Mundo ou as Olimpíadas, que o nacionalismo esportivo aflora com uma facilidade incrível -e instantânea.

De uma hora para outra, nos pegamos diante da TV torcendo irracionalmente a favor dos ‘brasileirinhos’, a maioria dos quais completos desconhecidos até anteontem, nada, até um segundo antes de começar a transmissão da prova de judô, de hipismo, de remo etc. Cada rosto, cada gesto dos ‘nossos’ carrega-se de significação, torna-se o embate de nós contra eles, quaisquer que sejam esses eles.

É, entretanto, um nacionalismo meio de araque, esse que se ancora nas esperanças do esporte. É eterno, forte e belo enquanto dura uma partida ou uma prova. Oscila tanto quanto o placar de um jogo de vôlei ou de basquete. Funda-se nas imagens e numa enviesada identificação que temos com as caras, os nomes, os sotaques de ‘nossos’ representantes nas quadras, piscinas, tatames, campos e pistas.

Não tem a ver com orgulho do presente e a glória do passado no sentido, por exemplo, mais militar que o nacionalismo norte-americano assume -e que, na abertura destes Jogos Olímpicos, foi diplomaticamente contido. Ou com uma afirmação celebratória dos valores de um povo em contraste com o patriotismo oficial e pesado do Estado que não o representa, como já foi à época da ditadura.

Não, aqui e agora, o nacionalismo é mote publicitário, um ‘frissson’ provocado pela exposição maciça do verde-amarelo que toma conta do espaço televisual nesse período.

Trata-se de uma impostura, claro, que tem no telejornalismo esportivo um de seus principais pilares. Parece que a missão do telejornalismo é botar o telespectador para torcer irracional e histericamente.

Os narradores de jogos falam aos berros, forçam o olhar do espectador aos acertos ou à suposta superioridade dos brasileiros e inventam expressões pouco generosas para desqualificar o adversário sem a menor preocupação de manter algum tipo de imparcialidade -e isso tanto em jogos mais populares de fato quanto em provas mais obscuras, como tênis de mesa.

Certo, esporte na TV é entretenimento e entretenimento supõe uma dose de emoção previsível e calculada, mas esse esforço em extrair toda a vibração nacionalista do espectador a qualquer custo parece estar um passo além disso.

É como se o jornalismo esportivo se sentisse na obrigação de encenar, toda vez, uma farsa bem barulhenta e colorida para encobrir o vazio em que se transformou a idéia de país e de comunidade nacional.

Temos que desejar com intensidade febril que aqueles brasileiros que são, parafraseando o slogan oficial, o melhor do Brasil vençam, triunfem para que o Brasil não desapareça."



Marcelo Russio

"Camarão é a mãe!", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 16/08/08

"Olá, amigos. A cobertura do primeiro fim de semana de Olimpíada teve algumas pérolas dos atletas-comentaristas contratados pelas emissoras de TV abertas e pagas para discorrerem sobre os nossos atletas em Atenas, e também sobre seus respectivos esportes em disputa.

De cara, a comentarista de judô da Band, Christiane Parmegiano, comentando uma luta entre um camaronês e um iraniano, referiu-se ao lutador africano, obviamente natural da República de Camarões, como ‘camarão’. Era um tal de ‘o camarão fez isso, o camarão fez aquilo...’ Constrangedor. Ou, como diria o seu Bertoldo Brecha, da Escolinha do Profesor Raimundo, ‘Camarão é a mãe!!’.

Em seguida, na luta entre o brasileiro Alexandre Lee e o armênio Armen Nazarian, tanto Christiane Parmegiano como Luís Roberto, da Globo, insistiram em referir-se ao adversário do brasileiro como o ‘armeno’, quando o gentílico de quem nasce na Armênia é ‘armênio’.

******

Sílvio Luiz, da Band e da Bandsports, segue sendo o destaque entre os narradores do futebol. Com seu tradicional bom-humor e estilo inconfundíveis, ele diverte quem acompanha suas transmissões. Mais do que informar, o locutor retém a audiência, prática que vale ouro na disputa entre as emissoras de TV que transmitem os Jogos para o Brasil.

Não importa que Sílvio torça, grite, se esbalde em seus bordões. Ele faz a diferença em uma cobertura de futebol. A torcida, podem escrever, adora.

******

Excelente as transmissões da abertura da Olimpíada por todas as emissoras. Tirando alguns excessos de Glória Maria, da Globo, que a todo momento dava tiradas que pouco tinham a ver com a cerimônia, como despedir-se dizendo uma expressão em grego sem explicar o que era, ou salientando a presença das mulheres à frente da delegação brasileira, sem saber que esta era a formação tradicional, os locutores e comentaristas fizeram um belo trabalho, deixando o brilho para as imagens e para as surpresas preparadas pelo comitê organizador da Olimpíada.

Destaque positivo para a estrutura da Globo que, com uma câmera exclusiva, conseguiu acompanhar por mais tempo a entrada dos atletas brasileiros. E, de quebra, fez contato com vários deles por celular, ao vivo, direto do estádio olímpico. Foi um diferencial interessante.

Por falar no contato com atletas, a Globo também trouxe imagens de seus comentaristas direto do estádio olímpico de Atenas. Róbson Caetano e Leila eram a dupla mais afetada. Agradecimentos, gritos de deslumbramento com a festa e comentários do tipo ‘Cara, é muita emoção. Não dá para descrever. O mundo podia acabar agora’ foram, no mínimo, digamos, descabidos e fora de contexto. Já Tande e Ricardo Prado foram mais contidos, como convém.

******

Enquanto Tande comentou com desenvoltura a partida entre Cuba e Alemanha pelo vôlei feminino, Leila deu um show de insegurança, gaguejando muito nos comentários e parecendo assustada por estar ao lado de Galvão Bueno na transmissão. Não se espera de nenhum deles o desempenho de um jornalista acostumado a transmissões ao vivo de grandes eventos, mas Leila foi bem abaixo do que se esperava. Comentários como ‘Walewska é 1,90m de mulher’ foram totalmente dispensáveis.

******

Álvaro José, da Band e Bandsports, tem boa memória, tem experiência, conhecimento de esportes e é um competente e preparado jornalista esportivo. Mas anda exagerando na tentativa de mostrar que tem memória e conhecimento esportivo. Durante a natação, ele citou pelo menos três vezes o húngaro Damas Darnyi como marco de uma era na natação (em tempo: Darnyi foi um excepcional nadador, mas não chegou a marcar época no esporte). Menos, Alvinho, menos...

******

Galvão Bueno cometeu algumas gafes. Diversas vezes chamou a judoca Vânia Ishii de Sandra Ishii, perdeu-se na contagem de países que desfilavam na cerimônia de abertura dos Jogos e, mantendo a tendência de dizer que está ‘nesse negócio há mais de 30 anos’, comentou que ‘em mais de 35 anos de profissão, essa é a coisa mais bonita que eu já vi’, referindo-se à beleza da cerimônia grega.

Semana que vem, com certeza, Galvão verá novamente a coisa mais bonita que já lhe apareceu à frente. De novo.

******

Por fim, destaque absoluto para Marcos Uchôa, que mostrou, pela enésima vez, que é o melhor repórter da TV Globo atualmente. Preparado, bem informado e culto, ele abrilhantou a cobertura da cerimônia de abertura, como vem fazendo desde a abertura dos trabalhos globais em Atenas. Dando informações políticas e culturais sobre os países que desfilavam, traduzindo os discursos do presidente do COB e da presidente do comitê organizador em várias línguas, e explicando detalhes da cerimônia, Uchôa foi nota 1000."



GV E A IMPRENSA
Xico Vargas

"Vulgares e desonestos", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 23/08/04

"Entre os eventos que marcam o cinqüentenário da morte de Getúlio Vargas um modesto livrinho presta valioso serviço num momento em que governo e imprensa, jornalistas e políticos terçam frases em busca de definições e limites sobre os papéis de cada um no Brasil. Getúlio Vargas e a imprensa, 10º. Volume da Série Memória dos Cadernos da Comunicação, é preciosa janela para a observação do quanto, em seu período de maior riqueza de títulos, a maioria dos principais jornais brasileiros desenvolveu com a política uma relação vulgar e desonesta.

‘Considero a imprensa o maior elemento de colaboração para um bom governo. Estou convencido de que a minha administração será sempre auxiliada pela imprensa com a máxima lealdade’, disse Vargas ao assumir o governo provisório, em novembro de 1930. O que quer que entendesse por ‘máxima lealdade’ perdeu-se no curso dos anos em que, ditador ou presidente, governou o país. ‘O Vargas ditador pressentiu a força da imprensa e a calou’, informa o historiador Ivan Alves Filho na abertura do livro.

O reflexo de uma relação viciada surge logo adiante, quando Alves Filho relata que, no segundo governo Vargas, a liberdade de imprensa ‘era quase total, chegando às vezes a ser mesmo desrespeitosa’. O adjetivo é cândido para definir as mentiras e o jogo de pressões que misturava troca de favores com dinheiro vivo e créditos em bancos oficiais. É disso que tratam as 116 páginas do livro. Ali se percebe o peso do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, criado no Estado Novo e dirigido pelo jornalista Lourival Fontes. Numa ponta, o DIP ceifava notícias e distribuía ordens de censura aos jornais. Na outra, disputava com o ministério da Educação o controle sobre a produção cultural no país. Mais ou menos as mesmas turras que vivem hoje a secretaria de Comunicação do governo Lula e o ministério da Cultura de Gilberto Gil. Sem a censura, claro.

Nomes hoje reverenciados como intelectuais da mais alta linhagem perfilaram-se nas páginas de A Manhã, o jornal criado para abanar as brasas do Estado Novo. Não há registro de que se tenha algum ilustre queixado da ausência do estado de direito. Faltava democracia? Dane-se. Às favas os escrúpulos, como diria três décadas depois Jarbas Passarinho, na reunião que chancelou o AI-5 da ditadura militar. Na imprensa, a rebeldia mais evidente em relação ao métodos do DIP foi do jornal O Estado de S. Paulo. Pagou com a circulação. Em março de 1940 a redação foi invadida, os donos afastados do comando e o jornal saiu de cena. Voltou pouco depois, sob intervenção que durou até o final do Estado Novo.

Não há em Getúlio Vargas e a imprensa textos inéditos, à exceção de alguns artigos produzidos especialmente. Mas suas páginas reúnem pesquisa tão rica e organizada que facilita a tarefa de identificar em que pontos convergem os interesses políticos e econômicos de governantes e empresários da época. A figura de Assis Chateaubriand emerge do livro como retratada nas obras de Fernando Morais e Glauco Carneiro. A ânsia de incorporar o Diário de Notícias, de Porto Alegre, aproximou Chateaubriand do ditador iniciando um relacionamento que oscilava entre o amor e o ódio, o elogio rasgado seguido da acusação mais sórdida. O amor era geralmente regado a generosos créditos em bancos oficiais.

Não havia segredo, no segundo governo Vargas, sobre a origem dos recursos que deram à luz o jornal Última Hora, de Samuel Wainer. As burras do Tesouro estavam sempre abertas, através do Banco do Brasil, para financiar elogios ou socorrer maus empresários encalacrados e sujeitá-los aos interesses do governo. A reprodução de um comentário de Lourival Fontes, o diretor do DIP, registrado nas Memórias do brigadeiro Nero Moura, então ministro da Aeronáutica, é um exemplo bizarro dessa prática:

‘(...)Quando se iniciou a campanha do Lacerda contra o presidente Vargas, contra a Última Hora, o Lourival Fontes, numa conversa que tivemos, disse: ‘Veja como são as coisas, Nero. Lacerda pediu cinco milhões emprestados ao Banco do Brasil - era uma quantia considerável - porque está enforcado com o jornal, perdendo muito dinheiro. Falei com o presidente, sugerindo que concordasse com o empréstimo, porque assim manteríamos o homem preso ao governo. Se nos atacasse, o Banco do Brasil executaria a dívida. Com o dinheiro no bolso, Lacerda não poderia atacar o presidente.’

Brigas internas no palácio não deixaram o dinheiro chegar ao bolso de Carlos Lacerda e Getúlio continuou apanhando. Mas o episódio é exemplar do que o concubinato entre governo e jornais pode fazer com o dinheiro do contribuinte. O livro se estende aos últimos lances do relacionamento de Vargas com a imprensa, nos momentos dramáticos que envolvem o atentado da rua Tonelero e precedem o suicídio do presidente. São cenas vivas relatadas por repórteres da época, como o extraordinário jornalista Mário de Moraes, que produziu a foto em close do rosto do presidente morto, para ilustrar a reportagem que escreveria em O Cruzeiro. Repórter da revista em 1954, Moraes seria também um dos seus últimos diretores, no início dos anos 1970.

Produzido pela secretaria de Comunicação Social da prefeitura do Rio (www.rio.rj.gov.br/secs), Getúlio Vargas e a imprensa não poderia ser mais oportuno. No meio da discussão sobre formas de controle da imprensa pelo governo, o livrinho mostra que essa mistura além de explosiva pode ser letal para ambos. Da alentada pesquisa que exibe brotam também lições interessantes: sem esforço percebe-se que os personagens centrais da história, governo e imprensa no Brasil, mudaram muito e para melhor. Descobre-se ainda que, 50 anos depois, a imprensa (ou a maior parte dela) entendeu que o poder de verdade não está nas mãos dos governos, mas do leitor."

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Tânia Biguá , São Luís-MA - Jornalista
Enviado em 24/8/2008 às 2:18:13 PM
Lágrimas de alegria O Cubo D’Água de Pequim ficou mais cheio no dia 15 de agosto de 2008. Também, não era pra menos. As lágrimas do nadador brasileiro César Cielo se misturaram à água tratada, clorada e suada, de tantas braçadas vitoriosas. Que gosto tem essa água? -Responde Cielo! Sei que vais descrever esse gosto um dia. Mas nunca vamos saboreá-lo. Esse gosto que experimentaste ao cair na real, ao se ver campeão, desabando em um choro contido, que queria ficar como água represada, mas não ficou, porque emoção tem que transbordar. Como foi bom chorar contigo, quando viste o teu resultado na piscina. Como foi bom continuar chorando na hora em que te emocionaste com o Hino Nacional. Esse gosto eu experimentei junto contigo. Ah vitória, como tu és boa! Ah lágrimas de ouro! Como é bom poder chorar um choro alegre, de felicidade plena, que coroa um esforço grandioso e praticamente solitário. Horas e horas na piscina, pra lá e pra cá, para em tão poucos segundos poder estufar o peito e dizer: tudo valeu a pena! Cielo, hoje o que mais quero, é expressar minha gratidão. As lágrimas de alegria que derramei também tem gosto de vitória, por um Brasil, que se esforça para ser grande aos olhos do mundo. Através de ti demos um salto gigante e dourado. Um caminho iluminado pela energia de um tempo recorde: vinte e um segundos e trinta centésimos, que valem para uma eternidade.
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