ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 292 - 17/11/2009
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ENTREVISTA / LUIZ CESAR PIMENTEL
Revista Zero corre o risco de acabar

Por Rodney Brocanelli em 31/8/2004

Em 12 de agosto de 2003 este Observatório publicava entrevista com Luiz Cesar Pimentel, diretor de redação da revista Zero. Entre vários assuntos ele festejava a consolidação de seu projeto editorial no mundo das revistas de música. "Dentro daquilo que nos propomos a fazer, estamos bem, vendemos bem, temos um público fiel, temos moral, respeitabilidade", disse à época. Passado pouco mais de um ano, a publicação vive hoje seu período mais delicado desde que foi lançada, em 2002.

A editora Escala, parceira que viabilizava a infra-estrutura para que a Zero chegasse às bancas, decidiu adotar "novos critérios comerciais" pouco interessantes, como conta Luiz. O resultado é que, para sobreviver, a revista terá de andar com as próprias pernas, tarefa não muito fácil no panorama atual do mercado editorial. Se uma nova fórmula de sobrevivência não for encontrada, há risco de fechamento. "Pode ser realmente que a revista não circule mais", diz trecho da Carta ao Leitor publicada no site da publicação (www.revistazero.com.br).

Para Luiz Cesar Pimentel, a nova proposta de trabalho da Escala não foi satisfatória. "No momento em que se tem de pagar para trabalhar, o acordo passa a realmente não valer a pena". Além disso, ele reclama daquilo que chama de "miopia" do mercado publicitário: "Ora, no meu mundo, se eu estou com falta de grana, vou maximizar o custo/benefício do dinheiro. É a lógica e é o lógico. Mas nem todo mundo enxerga isso", afirma. Luiz fala também das reações provocadas no leitorado pela exposição pública das atuais dificuldades: "Tem gente no Brasil inteiro se oferecendo para correr atrás. Isso é bem legal, apesar de não ter sido a intenção do comunicado".

Na entrevista anterior, você demonstrava satisfação pelo acordo com a editora Escala. O que fez com que esse casamento se desfizesse?

Luiz Cesar Pimentel – A Zero tem uma produção cara, e o acordo que tínhamos com a Escala permitia que bancássemos o custo da produção. Mas eles adotaram novos critérios comerciais (com implantação de um novo departamento comercial) em que a divisão de publicidade ficou muito desfavorável e nós teríamos que pagar (e bastante) para fazer a Zero. Enquanto conseguíamos sair no zero a zero, levávamos a revista como um "investimento", mas no momento em que se tem de pagar para trabalhar, o acordo passa a realmente não valer a pena.

Quais são os custos?

L.C.P. – Não dá para estabelecer um custo certo, pois cada edição tem uma produção (logo, custo) única. Nesta fase em que montamos a própria editora, apenas de gráfica, para 25 mil exemplares, o custo bate em R$ 35 mil. Daí dá para tirar por base.

Segundo o comunicado publicado no site, o mercado publicitário não teria percebido que anunciar na Zero seria um bom negócio. Você acha que existe preconceito de grandes anunciantes em relação a revistas independentes?

L.C.P. – Preconceito é uma palavra muito forte para ser usada neste caso. Talvez uma miopia. Agências de publicidade funcionam à base de porcentagem – logo, é mais interessante para elas pagar bem pelo anúncio, e na hora de justificar para o cliente, vai usar o nome da publicação, se isentando de eventuais "culpas". O que não entendo é chegar para um cliente menor, direto, e falar: "Olha, para anunciar na Zero você vai pagar X, e vai atingir o mesmo público (em quantidade, qualificação etc.) que atinge se anunciar na revista Y, que te cobra cerca de 8 vezes esse valor", e o cara não realizar isso. Dias depois você vai falar com ele e o cara fica reclamando de dinheiro. Ora, no meu mundo, se eu estou com falta de grana, vou maximizar o custo/benefício do dinheiro. É a lógica e é o lógico. Mas nem todo mundo enxerga isso.

Há alternativas comerciais, como acordo com gravadoras para encarte de CDs, parceria com outra editora etc.?

L.C.P. – Sim, o que acontece é que esses processos são mais morosos, por isso decidimos colocar a carta. Vamos ver.

Caso seja confirmado o fim da revista, o site continuará no ar?

L.C.P. – O site hoje está no Terra, é canal de cultura do portal.

Qual tem sido a reação do leitor?

L.C.P. – Mais favorável, impossível. Tem gente no Brasil inteiro se oferecendo para correr atrás. Isso é bem legal, apesar de não ter sido a intenção do comunicado. Mas o mais importante nessa abertura foi realmente deixar transparente a relação comercial de um produto cultural no país. Eu ouço isso de todo mundo que trabalha com cultura por aqui, desde músicos até jornalistas – sempre que você vai falar de dinheiro, as pessoas te tratam como se você estivesse pedindo um favor, esmolando. E não é bem por aí. Expor a situação ao leitor é prática da revista. E essa relação comercial na Zero não é nova, isso sim é um fato a ser salientado. Existe desde sempre, mas só agora decidimos escancarar, pois chega uma hora que cansa. Mas tem reações engraçadas, como um cara que escreveu: "Eu sabia que vocês estavam mal das pernas e acabariam fracassando". Esses são divertidos. Poxa, mesmo que a Zero acabasse, só daria para aceitar que é um fracasso se você considerar toda a existência humana um grande fracasso, já que está fadada à morte. Mesmo levando uma revista em edição nacional há 3 anos, 16 números, mais de meio milhão de exemplares nas bancas, tendo ganho todos os prêmios de qualidade a que concorreu, inclusive por duas vezes o de melhor revista de música do país (Dynamite), eu ouço isso. Bom, tá legal, então, né? Ter opinião é direito de cada um.

E entre os colegas, há solidariedade, indiferença ou um desejo aberto de que a Zero se dê mal?

L.C.P. – Hum, não sei não... Depois de um certo tempo existe uma aproximação natural com quem tem a mesma natureza, o mesmo espírito que você. E essas pessoas, claro, estão do nosso lado. Não só agora, mas sempre. Há, claro, profissionais que não estão nem aí. E há outros já amargurados, que todos sabem que torcem contra. Mas, também há que se considerar que esses mesmos caras afundaram uns barcos bem seguros, ancorados em editoras maiores, com toda a estrutura. Bom, se eu tivesse afundado uns barcos por aí capaz que eu me tornasse um pouco mais amargo. Hum... se bem que acho que não mesmo...hehehe.

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