ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 303 - 24/11/2009
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INDENIZAÇÕES MILIONÁRIAS
Toque nos anistiados intocáveis

Por Luciano Martins Costa em 16/11/2004

A imprensa brasileira tem demonstrado excessiva timidez na questão das indenizações milionárias concedidas a vítimas do regime militar. Embora eventualmente toque no assunto, como ocorreu na semana passada, deixa ainda o leitor muito longe de entender como a família de uma jovem morta sob tortura recebe 100 mil reais enquanto um escritor de sucesso, bem remunerado como colaborador de jornais e emissoras de rádio, ganha um prêmio de loteria pago com dinheiro público.

A reportagem assinada por Carlos Marchi no Estado de S.Paulo de domingo (14/11), por exemplo, embora alentada, fica longe de esgotar o assunto e perde uma grande oportunidade de revelar a festa em que se transformou o processo de regulamentação das reparações. Mas é uma boa pauta para quem queira ouvir o que mais têm a contar a ex-secretária-executiva da Comissão dos Mortos e Desaparecidos, Elizabeth Vargas, ou o presidente do PT, José Genoíno. Elizabeth considera uma imoralidade certas concessões. Genoíno evita julgamentos, mas não esconde sua contrariedade.

Genoíno, que diz ter solicitado o engavetamento de seu pedido de indenização, tem mais a contar sobre a atuação de grupos de interesse na mudança da lei. Ex-assessores do Ministério da Justiça no governo anterior também podem ser consultados para dar uma idéia dos lobbies que se sucediam nos gabinetes – entre os quais se destacava um renomado advogado conhecido por defender perseguidos políticos – buscando forçar uma regulamentação que beneficiasse especificamente a determinados requerentes.

O caso expõe certas personalidades da mídia, e de alguma forma nos oferece como símbolos a professora universitária Anita Leocádia Prestes e o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, colocados em lados opostos numa espécie de balança moral de cuja essência a imprensa tem evitado tratar. Como pano de fundo, temos um custo que deve chegar aos 4 bilhões de reais em indenizações e algumas centenas de vidas colocadas em suspenso durante duas a três décadas ou drasticamente eliminadas pela insanidade do regime militar.

Matérias ufanistas

Anita Leocádia, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário, nascida numa prisão da Alemanha nazista e impedida por muito tempo de trabalhar no Brasil da ditadura, também solicitou o benefício previsto na lei, foi contemplada com 100 mil reais e a contagem do tempo de serviço. Abriu mão do dinheiro por não julgar moralmente defensável a indenização como foi definida em lei. Ficou apenas com a contagem de tempo de serviço para poder requerer sua aposentadoria como professora de História do Brasil na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Cony solicitou e obteve uma indenização superior a 1,4 milhão de reais, pelo acumulado das perdas que supostamente sofreu ao ser perseguido pelos militares, além de uma pensão mensal de 23.187,90 reais reduzida para 19.115 reais, o teto máximo de remuneração do funcionalismo público. Para chegar a esse valor, o colega apresentou cálculos que afirmou terem sido baseados na tabela de remunerações do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro. A direção do sindicato o desmentiu.

A imprensa poderia nos fazer o favor de publicar o texto comentado da lei 10.559, de 13 de novembro de 2002, para esclarecer como nasceram as distorções que dão a Cony o direito a um valor muitas vezes superior ao concedido, por exemplo, ao ex-militar Apolônio de Carvalho, cujas perdas decorrentes de toda uma vida dedicada à luta contra as ditaduras foram com certeza muito mais relevantes.

Não se deve esquecer que o espírito da lei de anistia recomendava ressarcir as perdas causadas a cidadãos perseguidos por defender a democracia, pela interrupção em atividade produtiva imposta arbitrariamente pelo regime autoritário. Isso precisa estar no contexto do noticiário, para que possam os leitores fazer seu juízo, sem que muitos sejam induzidos a renegar a anistia e a própria redemocratização do país.

Carlos Heitor Cony trabalhava no Correio da Manhã, no Rio, em 1965, e foi forçado a se demitir, por pressão dos militares, segundo argumenta, por haver escrito um artigo com crítica ao Ato Institucional nº 2. Detido pela primeira vez naquele ano e outras vezes em 1972, durante passeatas de protesto, afirma que também perdeu o emprego na TV Rio por perseguição do regime militar.

É certo que trabalhou durante muitos anos como editorialista da revista Manchete, escrevendo textos ufanistas sobre o regime militar, que eram assinados pelo dono da revista, Adolpho Bloch, o que levou alguns colegas do antigo O Pasquim a lhe darem o apelido de Carlos Heitor "Conyvente".

Estofo moral

Não é papel dos observadores deste sítio julgar as motivações de quem se considera vítima da ditadura, mas estimular a imprensa a nos revelar como a luta contra aquele trecho tão tenebroso de nossa História, que tanta dor causou a toda uma geração de brasileiros, pode acabar em circunstâncias que o vulgo chamaria de "avacalhação".

A rigor, pouco se pode apresentar além de tecnicismos legais para respaldar a distribuição de reparações tão desiguais. Mesmo que pudéssemos medir de alguma forma o sofrimento de cada brasileiro atingido diretamente pela ação da repressão, tampouco estamos aqui habilitados a calcular a intensidade dos danos morais que pode ter causado ao escritor famoso o fato de ter sido obrigado a trabalhar sob pseudônimo, a ponto de fazê-lo merecedor de uma reparação milionária saída dos cofres públicos.

Talvez a porção jornalista de Carlos Heitor Cony pudesse nos esclarecer, em sua coluna na Folha de S.Paulo, ou numa de suas conversas na Rádio CBN, no programa que protagoniza diariamente, intitulado Liberdade de expressão. Na semana passada, ele confessou, durante o programa, ter inventado para a Manchete uma série de "reportagens" insinuando que John Kennedy e Marilyn Monroe não estariam mortos, mas vivendo clandestinamente numa cidade do interior dos Estados Unidos. Com o mesmo desprendimento poderia nos iluminar com suas razões, já que não é unanimidade a justeza de sua reclamação.

Cony pediu o que julga merecer. E levou. Viúvas de mais de uma centena de desaparecidos ainda aguardam uma resposta, após uma vida inteira de sofrimento. Precisamos saber quem atuou nos bastidores do Ministério da Justiça para aprovar, a toque de caixa, no final do governo Fernando Henrique, o texto da lei que permite tais distorções. A imprensa pode nos esclarecer como e quem se beneficiou com os polpudos honorários advocatícios que acompanham algumas indenizações milionárias.

Afinal, ninguém está imune ao julgamento de seus contemporâneos e com certeza nem todos têm o mesmo estofo de Anita Leocádia Prestes.

"Não tem cabimento eu receber dinheiro do governo. Sou uma pessoa que trabalha, e há outros anistiados que precisam mais do que eu ser contemplados. Quando assumi determinadas posições políticas, sabia das conseqüências. Isso não se paga com dinheiro, pelo menos no meu caso. Mas não quero julgar ninguém", foi o que declarou Anita Leocádia ao ser informada de que fora beneficiada.

***

Em tempo: até o fechamento deste texto (15h49 de 15/11), a Folha de S.Paulo seguia ignorando o tema. Nenhum de seus colunistas, entre eles Carlos Heitor Cony, se referiu à questão das indenizações milionárias. O Estado de S.Paulo voltou ao tema na segunda-feira (15/11), com declarações do jurista Miguel Reale e do professor Leôncio Martins Rodrigues, da USP, além de artigo do sociólogo José Martins, relatando o caso do ex-vaqueiro Aparecido Galdino Jacinto, que passou nove anos internado no Manicômio Judiciário do Juqueri por determinação da Justiça Militar e não foi lembrado entre os indenizados.

Comentários (7)
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Sérgio  Sorriso , S. Paulo Brasil-SP - diarista
Enviado em 27/11/2004 às 5:50:28 PM
Cony desmentiu os valores e que tenha posto a mão na grana. Agora o artigo revelou fatos que desconhecia. Acabo de assistir ao filme Olga – quando li que a professora Ana Leocádia abriu mão da indenização fiquei perplexo! Nas ações feitas por advogados o que vale é o que está no processo, e se houve valores distorcidos o correto seria criar-se uma tabela. O que contém o livro Brasil nunca mais não há dinheiro que pague. Os militares e certa parte do empresariado brasileiro extrapolaram no direito. Voltando ao Carlos Heitor Cony, do qual sou leitor regular, digo: estou de olho.
José Antonio de Andrade e Silva Andrade Silva , Barra-BA - Tecn. AGRÍCOLA
Enviado em 22/11/2004 às 2:58:09 AM
Venho mais uma vez defender a abertura dos arquivos sobre o regime militar, mas ao mesmo tempo me envergonho de saber que pessoas estão em busca apenas da reparação financeira, deixando a história de luta pela democracia em último plano.
Roberto Carioca Porto , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 20/11/2004 às 8:59:00 PM
Nota 10 para a matéria. Análise perfeita. Como ghost-writer assíduo e eficiente de Adolpho Bloch (ninguém me contou, eu estava lá), Cony, que já era economicamente independente, agora é milionário. O que é isso, companheiro?
Luiz Paulo Santana , Belo Horizonte-MG -
Enviado em 19/11/2004 às 1:13:53 AM

O texto de Luciano Martins Costa fala por mim e por tantos quantos tomaram conhecimento da vultosa indenização concedida ao escritor Carlos Heitor Cony. "Avacalhação" é, segundo Luciano, o modo como o vulgo estaria encarando mais esse esdrúxulo, mas não descabido, episódio da vida brasileira. Pois aqui está o vulgo, e avacalhação é pouco para qualificar esse jogo.

Continuamos ainda sob o dito segundo o qual há leis e leis, há advogados e advogados, e sobretudo, há interpretações e interpretações e tudo parece muito maleável, inseguro, obscuro, cretino, insuportável de se ler. Isso tudo, principalmente, quando a imprensa hesita, não destrincha a questão, não vai ao fundo, não esclarece, mantém-se na manchete, faz um pingue-pongue de superfície, ignorando que há um leitor, ou pelo menos um bom número de leitores que se interessam pela clareza, pelo esclarecimento, pela denúncia correta, pela crítica bem feita.

Essa questão é mais uma. De uma vez por todas, quem sabe não dava para esclarecer?

Cláudia Rodrigues , Florianopolis-SC - jornalista
Enviado em 18/11/2004 às 4:17:11 PM

É impossível não ser tocado pelo texto do Fábio, impossível não entrar em empatia com a atitude dele e de sua família. Mas a mídia e o governo continuam devedores dessa história para a sociedade. Embora tenha havido algum esforço por parte do Estado de São Paulo, por exemplo, que tem trazido a público, finalmente, as histórias menos famosas.

Os que não foram atrás do prejuízo causado pelo Estado foram muitos, a maioria. Entre eles os que já logo de cara não conseguiram fugir para um exílio bacana, como a França, Inglaterra ou um Uruguai que fosse. Muitos ficaram exilados aqui mesmo, com medo da própria sombra, sem trabalho, sem dinheiro, sem reconhecimento, internados em hospícios, escondidos sob falsas identidades, tendo a auto-estima esmigalhada a cada dia.

Não se tornaram famosos, não os vimos chegando do exílio em grande estilo. Os que puderam, foram devagarinho, discretamente, se reerguendo, arrumando os dentes para encarar um emprego. Os maus-tratos sofridos foram variados. Das bolachas na cara a requintes de perversidade nem sempre visíveis que mutilaram órgãos importantes. Foram também vastos os prejuízos morais ou físicos. São impagáveis, não resta dúvida, mas não incalculáveis e é isso o que a mídia, junto ao governo, nos deve: calculá-los.

O exército, independentemente de seu arrependimento assumido, nos deve isso, nos deve os nomes, os comandos, as formas, as diretrizes, as organizações, os números, os requintes de crueldade e os locais das covas. Queremos saber até que ponto já fomos nesse país para entender melhor nosso presente e administrar melhor nosso futuro. É um direito do cidadão e é o mínimo que o governo Lula nos deve: a transparência sobre o regime militar.

O fato de umas cem, duzentas pessoas (pouco menos ou mais) terem ascendido social, profissional e financeiramente de lá para cá, por um tempo tapou o sol com a peneira. O fato de algumas dessas pessoas mais notáveis, digamos assim, terem recebido indenização em dinheiro ou em algum tipo de prosperidade, não tapará para sempre o que ficou engasgado num ralo da história que pertence a todos nós.

A história da ditadura militar no Brasil não se encerra nos nomes famosos de alguns artistas, de alguns jornalistas, dos donos de algumas empresas respeitáveis ou nos guetos protegidos pelo partidão ou por esta ou aquela organização. Ela talvez comece aí, mas tem muito pano para manga até chegarmos aos porões que continuam lacrados por interesses diversos e não somente do exército e do governo. É uma boa pauta para o jornalismo interessado em divulgar informação e conhecimento. Alguém aí?

Eduardo Guimarães , São Paulo-SP - comerciante
Enviado em 17/11/2004 às 2:19:23 PM
Admiro o altruísmo do leitor Fabio de Oliveira Ribeiro de, mesmo estando entre as vítimas do regime militar, não advogar para si reparação em dinheiro pelos abusos sofridos. Porém acho que o dinheiro pode, sim, ajudar de alguma maneira quem teve suas vidas destruídas por aquele regime. E não é justo que essas pessoas não recebam nenhuma ajuda do mesmo Estado que as prejudicou.
Fabio de Oliveira Ribeiro , -SP - advogado
Enviado em 17/11/2004 às 9:01:01 AM

Nasci em 1964 filho de pai comunista fichado na polícia por ter participado de várias pancadarias no década de 50 e início da de 60. Além de camarada, ele era amigo de Mariguella e de outros importantes lideres do partido. A partir do golpe, em razão de ser constantemente procurado em casa pelos "gorilas" do regime, que certamente pretendiam usá-lo para pegar peixes maiores, meu pai começou a passar temporadas em hotéis no centro de São Paulo. Estas separaçõs temporárias afetaram seu casamento e, em 1967, sua esposa abandonou-o levando consigo os filhos. Após 9 anos se escondendo como um rato para não ser pego (o que causou-lhe uma depressão aguda permanente) meu pai retornou para casa. Com a anistia, enterrou o passado. Seus amigos haviam sido enterrados pela ditadura, sua saúde mental e sua família haviam sido destruídas pela história. Mas ele nunca sequer cogitou receber algum tipo de indenização. Tem orgulho de ter sido comunista e de ter participado de uma guerra para melhorar o país. Perdeu, paciência... A história se encarregaria de julgar os dois lados, e parece que os historiadores não tem sido muito generosos com os militares. Não há dinheiro no mundo que mude o que ocorreu.

Apesar de também ser uma vítima do regime, não pretendo receber um centavo sequer da União. Tenho vergonha na cara... Penso que o dinheiro público pode ajudar a resolver parte dos problemas que levaram meu pai a guerra e minha família à desgraça. Existem muitas outras famílias mais necessitadas que a minha e o contexto histórico já é outro. Não precisamos de outros golpes e de novas guerras civis. Além disto, a vítima que faz de sua desgraça passada uma profissão rentável no presente não merece a consideração de seus iguais ou o dinheiro que recebe. O dinheiro de lágrimas de um adulto ou de um velho pode evitar as lágrimas de milhares de crianças.

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