ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 317 - 24/11/2009
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O PAPEL DO JORNAL
A agonia dos diários

Por Carlos Castilho em 22/2/2005

Phillip Meyer (http://www.unc.edu/~pmeyer/) é um ícone do jornalismo na academia norte-americana e, talvez por isso, o seu mais recente livro – The Vanishing Newspaper (O desaparecimento dos jornais) –, lançado em novembro, tenha sido tolerado pela grande imprensa dos EUA, embora o professor da Universidade da Carolina do Norte tenha feito um diagnóstico cruel da mídia de seu país.

A tese central do livro (http://www.umsystem.edu/upress/fall2004/meyer.htm) é a de que a crise dos jornais norte-americanos é conseqüência direta da queda de qualidade do jornalismo que praticam, o que gera um número crescente de erros de cobertura, que por sua vez minam a credibilidade e, sem ela, a lucratividade cai, ameaçando a sobrevivência da imprensa escrita.

Dos três livros sobre a crise na imprensa norte-americana lançados nos EUA nos últimos 10 meses, o assinado pelo professor Meyer é considerado o mais devastador na opinião do também professor Jay Rosen, diretor da escola de jornalismo da Universidade de Nova York.

Meyer baseia toda a sua argumentação em dados da realidade jornalística dos Estados Unidos, mas quase todas as suas conclusões e vaticínios podem ser aplicados a outros países, entre eles o Brasil.

O fator erro

No primeiro capítulo do seu livro, Phil Meyer retoma um tema antigo em sua produção analítica sobre o jornalismo, quando afirma que o negócio da imprensa não é informação, mas influência. Segundo ele, há uma relação estreita entre o poder de influir e a rentabilidade de um jornal, e é ai que estaria o ponto crucial da crise atual na mídia.

Para enfrentar a concorrência de outros veículos de comunicação, entre eles a internet, os jornais teriam escolhido cortar custos e aumentar preços ao consumidor em vez de fazer uma revisão radical de seus métodos de trabalho e políticas editoriais. Resultado: redações menores e mal pagas acabaram produzindo jornais cheios de erros. O leitor passou a pagar mais por menos informação.

Até aí o professor Meyer repete alguns argumentos já bastante conhecidos, mas que a grande mídia reluta em aceitar. O chumbo pesado vem nos capítulos seguintes, quando ele mostra, com base em pesquisas, como os erros cometidos pelos jornalistas contribuem para minar a credibilidade das fontes de informação dos repórteres, em geral pessoas muito influentes. "Não é a descrença do leitor comum que mata a credibilidade de um jornal, mas sim a da elite política, econômica e social", diz o autor de The Vanishing Newspaper.

No segundo capítulo, Meyer põe o dedo na ferida financeira da grande imprensa norte-americana ao afirmar que os "jornais foram vítimas da cultura do dinheiro fácil". Na primeira metade do século 20, a propaganda do comércio era responsável por 57% do faturamento da imprensa norte-americana. Depois de 1950, o modelo mudou e os anúncios classificados passaram a formar 40% da receita dos jornais, situação que sofreu nova a radical transformação a partir da virada do século, quando a internet transformou-se no veículo preferido por quem procura empregos, produtos e serviços.

Mas é no quinto capitulo que o livro tornar-se mais contundente. Ali o professor publica os resultados de uma pesquisa feita por ele entre os moradores de 20 cidades médias norte-americanas, com o objetivo de saber a que fatores o público atribuía os erros cometidos pelos jornalistas.

Conclusões em debate

O julgamento dos leitores é muito duro em relação aos repórteres: 29% dos entrevistados afirmaram que os jornalistas desconheciam os temas sobre os quais estavam informando, 23% atribuíram a má informação à pressa em terminar o trabalho, e 16% ao fato de o profissional não ter feito nenhuma pesquisa. Resumindo, 90% das razões mencionadas pelos leitores têm a ver com o despreparo técnico e cultural dos profissionais.

Meyer divide os erros cometidos pelos jornalistas em três categorias:

** Erros objetivos – os mais comuns são erros de grafia ou digitação;

** Erros subjetivos – resultantes de má avaliação ou contextualização equivocada;

** Erros de cálculo – somas ou percentagens erradas.

Depois de examinar 5.100 reportagens e textos jornalísticos, o autor constatou que os erros mais comuns são os subjetivos, com 53% dos casos, seguidos pelos objetivos (21%) e os de cálculo (18%). Os restantes 8% têm causas múltiplas. A mesma pesquisa, iniciada em 1999, mostrou que os leitores fazem uma relação direta entre a precisão das informações e a credibilidade do veiculo. Quando mais exatas e detalhadas as notícias, maior a sua confiabilidade para o público.

O livro também afirma que os donos de jornais foram demasiado lentos na constatação de que o modelo tradicional de fluxo das idéias mudou radicalmente já antes da virada do século. O fluxo unidirecional e verticalizado está sendo substituído pelo bidirecional, por meio do qual as idéias do público passaram a ser tão ou mais importantes do que as do dono do jornal e da elite política do país.

No sexto e último capítulo, Phil Meyer usa uma sofisticada metodologia de avaliação da facilidade de leitura para mostrar que apenas 25% das notícias e reportagens publicadas pela imprensa norte-americana conseguem ser facilmente entendidas pela média dos leitores. Segundo a metodologia Flesch-Kincaid (http://csep.psyc.memphis.edu/cohmetrix/readabilityresearch.htm) o jornal The New York Times tem um índice de legibilidade de 48,2, enquanto os blogs mais acessados dos EUA têm índices superiores a 50%. Para Meyer, a linguagem personalizada e informal dos blogs fez com que o seu índice de leitura aumentasse 54%, em 2004.

The Vanishing Newspaper está sendo objeto de um acalorado debate acadêmico. No dia 9 de março o livro será discutido no Media Center (http://www.mediacenter.org/mediacenter/) do American Press Institute, com a presença do professor Meyer e cinco outros jornalistas e executivos da mídia norte-americana. Quem tiver conexão de banda larga poderá ouvir os debates e participar através do link (http://www.mediacenter.org/WEBCAST/MARCH/2005/).

Os interessados em ler uma crítica (em inglês) do livro podem acompanhar os textos do jornalista Tim Porter, autor do blog First Draft, que está fazendo uma crítica capitulo por capitulo em (http://www.timporter.com/firstdraft/archives/000413.html)

Comentários (1)
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Orlando Tambosi , Florianópolis-SC - professor
Enviado em 27/2/2005 às 3:53:38 PM

Felicitações a Carlos Castilho pelas informações sobre o novo livro de Philip Meyer, que indica o possível "desaparecimento dos jornais". Vale quase tudo, claro, também para o Brasil. Se, na mídia em geral, aparecessem resenhas como a de Castilho (e ele não deve considerar seu texto uma resenha), daria gosto abrir um jornal. Mas coisa desse tipo é absolutamente ausente nas folhas impressas, que consideram "resenha" a cópia de trechos da orelha de um livro - algo genuinamente brasileiro, reconheça-se.

Outro problema: a nossa imprensa se limita a ostentar em manchetes, com falso frescor, o que a TV já mostrou na noite anterior. O que Meyer diz de lá, vale aqui, ainda que ele só tenha escrito, até hoje, livros mais ou menos triviais.

P.S.: É duvidoso que os jornais desapareçam, mas, mantendo-se eles assim, virarão pouco mais que boletins colocados embaixo da porta. Informações, procure na internet.

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Carlos Castilho

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