ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 331 - 24/11/2009
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ANA PAULA PADRÃO
O canto de sereia da celebridade

Por Ricardo A. Setti em 31/5/2005

A ruidosa transferência da jornalista Ana Paula Padrão da Rede Globo para o SBT mobilizou a atenção dos jornais e revistas de grande circulação, mas obteve destaque maior no chamado jornalismo de celebridades e na chamada imprensa de fofocas propriamente dita: certas colunas de jornais, determinadas revistas, seções "especializadas" em portais de informação, programas de TV. Especulou-se sobre o salário, em vários casos com cifras risíveis de tão inverossímeis, comentou-se uma suposta briga com a Globo, falou-se de detalhes – reais ou imaginários – de sua vida pessoal.

A chamada imprensa de fofocas mais rasteira em todas as situações seguiu o costumeiro padrão de qualidade: não ouviu uma só palavra da principal interessada, não apresentou uma única fonte de informação minimamente qualificada.

Nos casos em que os fatos foram apresentados de forma correta ou não, concedeu-se à jornalista tratamento de celebridade – como o conferido a atrizes, jogadores de futebol, cantores, modelos, socialites.

O jornalista como celebridade

Isso parece consolidar, na história recente do jornalismo brasileiro, algo que já se esboçara anteriormente em mudanças de emprego semelhantes e que parece o resultado de uma pirueta lógica: um jornalismo de celebridades no qual a celebridade objeto de atenção do jornalismo é, ela própria, uma jornalista.

Ninguém contesta os méritos de Ana Paula Padrão. Realizou um bom trabalho como repórter política em Brasília, desincumbiu-se das tarefas de correspondente da Globo em Nova York e em Londres, adquiriu experiência e maturidade e não teve maiores problemas em ocupar com desenvoltura o lugar de Lilian Witte Fibe quando a direção de jornalismo global, num gesto criativo, resolveu pinçá-la como âncora do Jornal da Globo. Não se limitando a pilotar o telejornal da bancada em São Paulo, Ana Paula Padrão conseguiu espaço para, voltando a ser repórter, realizar boas reportagens, como a série feita no Afeganistão após a derrocada do regime lunático do Talebã pelas forças armadas dos Estados Unidos, em 2001.

Ocorre, porém, que nada garante que Silvio Santos tenha contratado a ex-âncora do Jornal da Globo por seus méritos jornalísticos. O dono do SBT nunca foi muito próximo dessa questão: não entende de jornalismo, tem grande dificuldade em relacionar-se com a mídia como empresário, não faz segredo do quanto desconfia de jornalistas e produziu consideráveis estragos sempre que tentou intervir, ou efetivamente interveio, nos rumos da emissora nesse terreno.

Silvio Santos, critérios insondáveis e Boris Casoy

Os critérios de SS são inteiramente insondáveis. Quando finalmente resolveu criar um jornalismo vigoroso em sua rede de TV, em 1987-88 – quase uma década depois de ter ganho a concessão do governo do general João Figueiredo – Silvio, que não conhecia ninguém no meio, resolveu encarregar da missão o jornalista Marcos Wilson, bom profissional da mídia impressa que, entre outras funções, fora correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires.

Mas o currículo do jornalista contou menos do que a mútua empatia surgida, meses antes, durante a longa, franca e por isto mesmo raríssima entrevista que Marcos Wilson fez com Silvio Santos para o Estado. Publicada a matéria, o empresário e apresentador declarou-se maravilhado com o fato de o repórter ter registrado com precisão e rigor as declarações que fizera, como se isso fosse alguma exceção milagrosa no trabalho dos jornalistas.

O corajoso segundo passo que foi, por iniciativa de Marcos Wilson, Silvio levar para o SBT, em 1988, outro profissional de peso e ainda maior visibilidade da mídia impressa, Boris Casoy – então na Folha de S.Paulo, de que tinha sido editor-chefe – tornou excelentes resultados que já vinham sendo bons. Com o editor-chefe-adjunto Dácio Nitrini, que até hoje o acompanha na Record, Boris tornou o telejornal TJ Brasil respeitado e trouxe para o popularesco SBT audiência, prestígio e retorno de anunciantes. Tal trajetória não se desenvolveu, porém, num permanente mar de rosas.

Houve dificuldades de conciliar a autonomia contratual assegurada a Boris com a estrutura única da área de jornalismo comandada por Marcos Wilson. Com o tempo, separaram-se as equipes e as redações: Boris com o TJ Brasil, Marcos Wilson responsável por todas as demais iniciativas da rede em jornalismo. E Boris só viria a se aborrecer muito depois, com as constantes mudanças na grade de programação decididas por Silvio Santos consultando somente a si mesmo, que tornavam muitas vezes incerto o horário de ir ao ar até da edição do telejornal do próprio dia. Essa situação fez o âncora ceder ao assédio da Record, em 1998.

A sedução dos holofotes

Ana Paula Padrão não deve se iludir. Embora protegida contratualmente, como apregoou, esse tipo de problema certamente vai aparecer em seu caminho, cedo ou tarde. E há fortes indícios de que, embora o dono do SBT esteja ciente das credenciais da jornalista, saiba ou não avaliá-las a contento, a contratação se deu em grande medida por se tratar de uma celebridade global a ser arrebatada à líder do mercado. Aí reside boa parte dos riscos que a jornalista, até aqui com uma carreira ascensional digna de nota, poderá enfrentar.

A sedução dos holofotes da celebridade já afastou do melhor caminho do jornalismo vários profissionais. Não cabe aqui, é claro, julgar a escolha pessoal de ninguém. Qualquer pessoa obviamente tem o direito de optar pelo caminho que quiser, inclusive por esse, e de ser respeitada. Mas, se a pessoa em questão considera que ganha, em geral quem perde é o jornalismo.

Marília Gabriela continua sendo um nome forte, uma entrevistadora de méritos. Sua opção por múltiplos caminhos – entre outras atividades, gravou CD como cantora, desfilou em passarela, atuou em telenovela –, contudo, deixou sem resposta a pergunta de até onde poderia ter chegado quem, 16 anos atrás, mediava debates entre candidatos à Presidência da República.

Pedro Bial muito provavelmente pesou prós e contras, e decidiu-se pelos primeiros, ao aceitar cruzar a linha que separa o jornalismo do entretenimento e tornar-se não apenas apresentador do Fantástico (espécie de síntese da indesejável mistura entre essas duas categorias) como, desde há cinco anos, do Big Brother Brasil – senda que o conduziu a atuar, recentemente, no Casseta & Planeta Urgente. Com certeza, porém, prestava maiores serviços ao jornalismo quando gramava arduamente em reportagens a partir da base de correspondente em Londres, inclusive as que produziu na Europa Oriental em transe no pré e no pós-queda do Muro de Berlim.

A "cultura da celebridade": dupla praga

A "cultura da celebridade" constitui, pois, uma dupla praga para o jornalismo: de um lado, ela faz com que se mobilizem enormes recursos da mídia para a cobertura de algo de importância social nula, mas que tem uma legião de leitores-telespectadores-ouvintes-internautas interessados e, portanto, é terreno fértil para o mercado anunciante; de outro, ameaça ela própria afetar – e enfraquecer – o trabalho de jornalistas de evidência que, de uma ou outra forma, acabam sugados pelo seu vórtice.

Mesmo quem continua no trabalho quotidiano no jornalismo, principalmente mas não apenas nessa grande vitrine que é a TV, não está isento da área de influência dessa "cultura". É cada vez mais freqüente a aparição de jornalistas de peso em notas e reportagens de colunas sociais, de revistas de "famosos", em revistas de fofocas propriamente ditas e em programas de TV do gênero, a maioria francamente lamentáveis.

No caso de jornalistas mulheres, estrelam com assiduidade cada vez maior capas de revistas femininas, superproduzidas e transformadas em modelos de beleza, elegância e sensualidade, são ouvidas em programas fúteis, acabam dando conselhos e falando da vida privada – atitudes a anos-luz de sua missão profissional. Jornalistas homens e mulheres com visibilidade pública tornam-se um chamariz e são disputados como apresentadores de eventos e mestres-de-cerimônias em festas de empresas.

Ser celebridade desvia o jornalista da rota

Tudo isso prejudica enormemente a figura e o trabalho do jornalista. A teia de relações sociais trazida pela condição de celebridade – quando a ela adere o jornalista – vai progressivamente dificultando sua atuação. Fica mais difícil tocar em determinados assuntos, contrariar certos anseios, melindrar determinadas personalidades. Os conflitos de interesse espreitam a cada momento. A imagem de austeridade e independência do jornalista, ferramentas essenciais de seu trabalho, é arranhada. O objetivo profissional e ético do jornalista, sua razão de ser – informar o mais corretamente possível o público – acaba sofrendo inevitáveis desvios de rota.

Perde o jornalista, perde o veículo para o qual ele trabalha, perde a sociedade, a serviço da qual, em última instância, devemos estar todos nós, jornalistas.

Resista ao canto de sereia, Ana Paula.

Comentários (5)
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Thais  Ferreira Rodrigues , Ervalia-MG - estudante (ensino médio)
Enviado em 5/6/2005 às 3:55:31 PM

Este ano vou prestar vestibular, mais do que isto, começar a busca pelo meu maior sonho, que é ser jornalista. Porém, ao assistir a uma palestra sobre o curso feita por uma jornalista e após ler essa matéria, tenho me preocupado muito com a transformação da profissão em espetáculo e trampolim para o sucesso (neste, ascensão na midia). Sendo o jornalismo muito maior do que isto, é de se lamentar que muitas universidades-porcaria formem profissionais que aceitam qualquer tipo de trabalho e acabam saturando o mercado. Ana Paula Padrão só pode ter ouvido, sim, o canto da sereia para ter aceitado trabalhar naquele jornalismo mongolíide do SBT que traz, por sinal, celebridades instantâneas de reality shows para apresentarem seus jornais.

Marcia Caetano , Rio de Janeiro-RJ - assessora de imprensa
Enviado em 2/6/2005 às 9:15:27 PM

Concordo em quase todos os pontos do artigo de Ricardo Setti, exceto alguns.

Assim que eu soube da notícia de que uma jornalista do quilate da Ana Paula Padrão estava trocando de emissora, ainda que com todas as justificativas criadas ou apuradas sobre vantagens financeiras, pessoais etc., pensei: "A Ana Paula está abandonando o jornalismo". E mais: com uma estratégia digna de Sarah Bernardt.

Acho que só a própria jornalista para explicar suas razões.  Mas não acredito que  ela tenha sido seduzida pelo "canto da sereia". Acho muito provável que ela tenha tentado - de todas as formas - ficar no "topo" do jornalismo (para manter a analogia com o mundo das celebridades). Afinal, se ela estivesse interessada em permanecer a celebridade que já é era lá que deveria ficar. Não é difícil imaginar a trajetória descendente que ela obrigatoriamente vai seguir daqui por diante nesse campo (embora eu não torça para isso de modo algum).

Contraditoriamente, acredito que a Ana Paula Padrão mudou de emissora para se manter no jornalismo. Ela certamente tem planos de começar uma nova vida na esfera pessoal e profissional, na qual finalmente vai poder ser uma pessoa comum, que luta contra as dificuldades do dia-a-dia, procurando fazer jornalismo-padrão mesmo sem profissionais, equipamentos, infra-estrutura e verbas que contribuam para isso.

Se o jornalismo vai perder com isso, talvez sim, ou talvez não. Talvez essa nova opção possa significar uma mudança, ainda que pequena. Afinal, já assistimos a tantas mudanças inimagináveis. Talvez até o jornalismo ganhe um pouquinho, quem sabe? É saudável podermos mudar de canal.

Em todo caso, foi muito interessante ler o artigo do Ricardo, só quis fazer essa ressalva.

Valter Fernandes Busto , Joinville-SC -
Enviado em 2/6/2005 às 8:24:21 PM

Ao completar meus 50 anos, não tenho a menor dúvida de que o Brasil é o oásis mundial da desigualdade social. Segundo diversas matérias publicadas na imprensa, o país só perde para Serra Leoa, na África. No entanto, nossas cifras arrecadadas com a exportação aumentam mês a mês, acompanhando a curva ascendente da carga tributária que arromba o bolso de cada estúpido trabalhador, e no qual me incluo. Outro dia, andando pelas ruas de Joinville, entrei numa loga de usados e atropelei um "mimo" da história das eleições deste país. Trata-se de um cinzeiro de alumínio dourado, com as bordas recartilhadas e que mais parece um objeto sacro, tendo ao fundo, em alto-relevo, o rosto do Sr. Jânio Quadros, sobre o mapa do Brasil, e contendo a seguinte frase: "Está na hora de salvar o Brasil. Vote Jânio". Este senhor e todos os que o sucederam tripudiaram em cima do povo brasileiro, e assim continuam fazendo. Por outro lado, uma quadrilha está enraizada no poder, até os porões de Brasília, cuja tubulação do canal "corruptivo" emana do centro, para a periferia dos estados e municípios. Como dizia Cazuza: "Transformam o país inteiro num puteiro, porque assim se ganha mais dinheiro...".

Quanto à senhora Ana Paula Padrão, ela esta aproveitando o momento, afora toda a sua competência profissional, pois ela vive no Brasil. Um país com deploráveis índices sociais e que envergonha qualquer pessoa de bom senso, e que na outra ponta paga salários irreais a políticos, colunáveis, manecas, vidiotas, ex-fulana, ex-beltrano. Agora, quanto ao povo... Viva o rei, morra o povo!

André Leonardo da Costa , São Paulo-SP - garçom
Enviado em 1/6/2005 às 12:19:09 AM

Parabéns, Ricardo, pelo seu texto. Muito bom, porém, sabemos (no caso do Silvio Santos) que é, sim, coisa rara a fidelidade numa reportagem ao que o entrevistado falou. Infelizmente temos inúmeros exemplos pela mídia afora.

Jessé Gomes Ribeiro , Salvador-BA - farmacêutico-bioquímico
Enviado em 31/5/2005 às 7:08:15 PM

Num momento político delicado que atravessamos, em que de todos os rincões deste imenso mar de lama que é nosso país surgem denúncias e escândalos, a perda do trabalho jornalistico essencialmente profissional, honesto e, principalmente, investigativo destes profissionais combativos só faz aumentar o  grande vazio existente na grande imprensa (no que concerne ao trabalho investigativo).

O estrelato surgido na transferncia da jornalista fica apenas por conta da própria mídia, que por qualquer motivo faz um grande alarde. E vende !

 

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