Era a pauta da hora, pedra cantada com a devida antecedência: o depoimento do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, marcado para 14h30 de terça-feira (14/6), mobilizou toda a mídia na cobertura da primeira aparição pública, ao vivo e em cores, depois de vários dias, do protagonista da maior crise política já vivida pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A crise foi desencadeada pela divulgação, pela revista Veja (edição de 14/5), do conteúdo de um vídeo que mostrava o ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, Maurício Marinho, negociando com dois interlocutores e deles embolsando um pacote de 3 mil reais – que aceitou da forma mais natural do mundo.
Mais lenha na fogueira foi colocada na entrevista de Roberto Jefferson à repórter Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, publicada na segunda-feira (6/6), na qual o parlamentar acusava o PT de distribuir dinheiro como forma de garantir apoio de deputados da base aliada do governo – o chamado "mensalão". As labaredas aumentaram com uma nova entrevista à mesma repórter, publicada pela Folha no domingo (12/6), na qual deputado garantia que o dinheiro do "mensalão" tinha origem nas estatais e empresas do setor privado [veja abaixo a matéria "As confissões do deputado"].
Conselho de Ética reunido, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e blogueiros a postos, acenderam-se as luzes e sobrou lama para todos os lados. Os alvos preferenciais do deputado petebista foram o ministro José Dirceu, da Casa Civil, o Partido dos Trabalhadores (em especial seu presidente, José Genoíno e o tesoureiro nacional, Delúbio Soares) e o deputado Valdemar da Costa Neto, presidente do PL.
Sobrou também para a mídia, que não foi poupada pelo deputado. Aliás, há muito não se via a mídia brasileira ser atacada com tanta virulência em rede nacional.
"Não arredo pé em nada do que disse à Folha de S.Paulo nas duas entrevistas que dei", começou dizendo Jefferson, na sua defesa oral, para em seguida afirmar que a matéria da Veja em que Maurício Marinho é mostrado recebendo propina não passou de um flagrante montado e gravado por agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência).
"O governo acertou com a Veja e eles esconderam o que estava nesta fita que eu divulguei depois", disse. "Eles deram os fatos virtuais e esconderam os reais."
A seguir, uma coleção de estocadas na imprensa contidas em seu depoimento:
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"A Globo é uma extensão do Diário Oficial do governo. Colocaram a foto da minha esposa de baby-doll na capa da Época. Não é possível."
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Segundo o deputado, O Globo e a revista Época publicaram reportagens "covardes", que atingiram a sua honra e de sua família. Disse que reuniu a cúpula do PTB e comentou: "O governo vai botar o cadáver no colo do PTB. Olha a imprensa oficial como está saindo".
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Disse que à época de depoimento de Maurício Marinho à Polícia Federal recorreu ao ministro José Dirceu, pedindo que este intercedesse em seu favor na revista Veja. "Não, a Veja é tucana", o ministro teria respondido. Jefferson contou que, na seqüência, perguntou a Dirceu a respeito do jornal O Globo: "Esse eu tenho por cima, esse eu seguro", teria respondido o ministro.
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"A imprensa investiga, acusa, julga e executa em uma semana. Não se importa, não tem responsabilidade. A imprensa tem todos os poderes. Não tenho mais preocupação com mais nada, desarmei, não temo. A verdade é dita para enfrentar."
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"Ô, revistinha essa Veja...ô, revistinha."
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"O Estadão me linchou", disse sobre O Estado de S.Paulo, ironizando as críticas do repórter – seu "amigo" – Expedito Filho, de quem recebera a qualificação de "metrossexual".
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Citou o blog do jornalista Ricardo Noblat, que às 13h45 da terça-feira postou uma nota intitulada "Bomba!!!!!! Apareceu a primeira secretária", com a informação de que a revista IstoÉ Dinheiro, que circula às sextas-feiras, "antecipou sua próxima edição, está sendo impressa neste momento e deverá estar nas bancas ainda hoje". O motivo? "Trará entrevista com a secretária do publicitário mineiro Marcos Valério, acusado pelo deputado Roberto Jefferson de ser um dos operadores do esquema do mensalão ao lado do tesoureiro Delúbio Soares. A secretária confirma o que disse Jefferson."
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No encerramento de sua defesa oral, o presidente do PTB Roberto Jerfferson nominou seis parlamentares como beneficiários ativos do esquema do "mensalão": seriam eles os deputados Valdemar da Costa Neto (PL-SP), o líder do PP na Câmara, José Janene (PR), o presidente do PP, Pedro Corrêa (PE), além de Sandro Mabel (PL-GO), Pedro Henry (PP-MT) e Bispo Rodrigues (PL-RJ).
Às 17h06, enquanto o deputado ainda era interrogado pelos seus pares do Conselho de Ética, Ricardo Noblat postou o seguinte comentário em seu blog, sob o título "De braçada":
"Jefferson está até aqui na posição de distribuir culpas e absolvições. Disse que só deputados do PP e do PL receberam o mensalão. Com a experiência de criminalista que já defendeu ou acusou 200 réus, está nadando de braçada no interrogatório a que está sendo submetido por membros do Conselho de Ética.
"Conta episódios com detalhes – porque sabe que são os detalhes conferem credibilidade a qualquer história que se conte.
"A maioria dos deputados que o escuta o faz com interesse, temor e raiva. Muita raiva no caso de alguns.
"Será diferente quando ele tiver que depor na CPI dos Correios. Ali há políticos mais experientes e que saberão apertá-lo."
O espetáculo não termina neste primeiro ato. O imbróglio ainda tem pela frente uma Comissão Parlamentar de Inquérito (que, como dizia Ulysses Guimarães, sabe-se como começa mas nunca se sabe como termina) e, pelos flancos, uma opinião pública atenta e atônita. Convém prestar atenção como será o comportamento da mídia diante desse prato cheio. E observar o que ainda poderá respingar sobre ela.
Aguardem as cenas dos próximos capítulos.
[Texto fechado às 18h15 de 14/6/05]
As confissões do deputado
Luiz Antonio Magalhães
O deputado federal Roberto Jefferson, presidente do PTB (ao menos até o fechamento deste texto), é um homem dramático. Advogado criminalista e político formado na tradição do pragmatismo absoluto, Jefferson é também um profissional frio, calculista e consciente do peso das palavras que profere.
Na segunda entrevista concedida à Folha de S. Paulo, publicada na edição de domingo (12/6), mais uma vez com o objetivo de denunciar o suposto esquema do pagamento de um "mensalão" a deputados do PL e PP – de acordo com a denúncia, uma propina paga pelo tesoureiro do PT com o objetivo de garantir o apoio dos aliados em votações de interesse do governo –, Jefferson atirou em várias frentes. Envolveu novos personagens, bateu forte no ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e acusou o líder do PP, José Janene, de participar ativamente da negociata.
Em outras palavras, fez jus à alcunha de "homem-bomba" ou, na versão politicamente incorreta, de "homem-ventilador". Garantiu para si, pela segunda vez em duas semanas, a manchete da Folha de S. Paulo. Mas tratou de alertar que não tem provas do que está denunciando: disse que não possui qualquer tipo de fita gravada ou documento que comprove as pesadas acusações que fez aos colegas da Câmara, aumentando assim a expectativa para o depoimento formal que faria na Comissão de Ética da Casa nesta terça-feira (14).
Imagem comprometida
Jefferson pode ser muita coisa, mas burro certamente não é. Tem informações de sobra para avaliar o tamanho da encrenca em que se meteu e muitas vezes suas afirmações não se destinam ao grande público, mas a poucos entendidos. No meio dos recados cifrados e insinuações, o deputado trabalhista disparou, na sua segunda entrevista concedida à Folha, um petardo na direção da mídia brasileira. Mais especificamente em direção à revista Veja, ao jornal O Globo e à TV Globo. O trecho a seguir merece ser lido com atenção, pois é revelador. Com a palavra, Roberto Jefferson:
"Eu coloquei ao Zé Dirceu tudo o que eu já disse a você na entrevista passada. Nesse ínterim, sobe um boletim da Polícia Federal, trazido pelo advogado do PTB, dizendo que o Mauricio Marinho [funcionário dos Correios flagrado em gravação recebendo propina e citando Jefferson] descredenciara a fita. Eu falei: ‘Se é assim, eu não tenho nenhum problema em retirar a assinatura da CPI. Mas Zé Dirceu, vocês, que esticaram a corda até romper, me expliquem como foi essa coisa de Furnas’.
"Aí ele repetiu a conversa do Chinaglia. Que recebeu pressão do Severino e do Janene, com ameaça de assinar a CPI, e que adiante eles reconduziriam o Pirandel.
"Eu falei: ‘Mas me importa a restauração da minha honra. A ‘Veja’ está fazendo um verdadeiro linchamento’. Ele respondeu: ‘Roberto, na ‘Veja’ não tenho nenhuma ação, porque a ‘Veja’ é tucana’. Eu falei: ‘Mas ‘O Globo’ e a Globo estão repetindo o linchamento’. Ele falou: ‘No ‘Globo’ eu falo por cima. Dá para segurar’.
"Retirar a assinatura foi o meu maior erro. Depois que fiz isso, recrudesceu o noticiário contra o PTB. Eu entendi que foi uma armadilha do Zé Dirceu para mim. Recrudesceu o noticiário, e eu vi claramente a mão do governo." (destaque meu)
Do que é possível entender do diálogo entre o ministro José Dirceu e o deputado Jefferson, segundo a versão do presidente do PTB, o comportamento atual da imprensa brasileira não difere tanto assim daquele observado nas já longínquas décadas de 1950 e 60, quando havia os veículos francamente de oposição ao governo, que manipulavam o noticiário a fim de solapar a governabilidade, e os chamados "chapa-branca", que também manipulavam as notícias, mas para defender o poderoso de plantão.
Desde o final da ditadura militar, praticamente todos os jornais, rádios e emissoras de televisão do país se esforçam para vender a imagem de veículos independentes, isentos e altivos no compromisso com a busca da verdade – a própria Folha já usou por bom tempo o inusitado slogan "Folha, de rabo preso com o leitor". Tal imagem de independência cai por terra no depoimento de Jefferson. Em poucas linhas, ele desconstrói, para usar uma palavra da moda na política, o papel de dois grandes veículos como intermediários isentos entre os fatos e os leitores. Nas palavras do deputado do PTB, pelo menos a revista Veja, o jornal O Globo e a TV Globo são qualquer outra coisa, mas isentos é que não são.
No momento certo
Evidentemente, não é fácil dar crédito total a um bufão do quilate de Roberto Jefferson, mas é forçoso reconhecer que, no tocante ao diálogo acima reproduzido sobre o comportamento a imprensa brasileira, "se non è vero, è bene trovato", como diriam os italianos.
No tocante à Veja, supostamente qualificada de tucana pelo ministro Dirceu, sempre segundo o relato de Jefferson, o qualificativo é até singelo. Na verdade, a revista sempre foi agressivamente antipetista. Durante a campanha de 2002, conta uma ex-profissional que deixou a casa horrorizada, um dos altos editores do semanário costumava passear na redação perguntando aos repórteres "o que é que nós temos para f... o operário nesta semana".
Nem é preciso avançar muito na análise do panfletão anti-PT editado pela Abril, basta bater os olhos na deplorável "reportagem" sobre outro suposto "esquema" petista, desta vez envolvendo a ex-prefeita Marta Suplicy, intitulada "O mensalão da perua", que está na edição corrente (nº 1909, de 15/6/2005) da Veja. Além de não conter nenhuma novidade – a matéria repete uma denúncia também sem provas e até o momento negada inclusive por gente graúda da administração tucana de José Serra –, Veja faz questão de agredir gratuita e pessoalmente a ex-prefeita.
No que diz respeito ao jornal O Globo e à TV Globo, a carapuça também pode acabar servindo. Apesar das desavenças do passado, que teve no episódio da edição do debate entre Collor e Lula, em 1989, o momento de maior estremecimento, a cúpula da empresa e o governo petista parecem ter se entendido desde a campanha de 2002, quando principalmente a emissora concedeu ao então candidato Lula um tratamento nada hostil. Após a vitória, o presidente-eleito retribuiu com a primeira entrevista exclusiva, durante a qual chorou ao assistir à edição de sua própria trajetória de vida.
Já no governo, Lula manteve a divisão do bolo publicitário do governo federal e das estatais praticamente como ela se dava nas gestões anteriores, garantindo assim vultosos recursos para os veículos da Rede Globo. Enfrentando uma grave crise financeira e preparando uma profunda reestruturação, a cúpula global certamente respirou aliviada com as permanências do candidato da mudança.
Passar a limpo
Veja e Globo à parte, o discurso de Jefferson, se bem analisado, contém praticamente uma confissão de culpa. No trecho assinalado em vermelho, o deputado pede a Dirceu que intervenha nos veículos para mudar o tom da cobertura do escândalo dos Correios. Pode parecer banal para quem administra as grandes redações, mas soa incompreensível ao bom jornalismo: então, um deputado acusado de corrupção pode pedir ao ministro da Casa Civil que "opere" para manipular o noticiário, e este ministro, a se acreditar nas palavras de Jefferson, admite fazer tal gestão junto ao maior conglomerado de mídia do país? Ambos agindo com a maior naturalidade do mundo, quase como se estivessem na reunião de pauta do Globo ou montando a escalada do Jornal Nacional...
Ao fim e ao cabo, é quase uma pena que o escândalo do mensalão e a corrupção nos Correios dominem o debate político de forma a ofuscar os tantos outros absurdos revelados por Roberto Jefferson. Porque não fossem esses temas tão mais importantes, seria o caso de pedir a CPI da Imprensa, para passar a limpo a maneira pela qual certas revistas e jornais decidem o que a opinião pública deve saber a respeito do que se passa no Brasil.
[Texto fechado às 01h21 de 14/6/05]