ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 336 - 24/11/2009
  Marcha do Tempo
Início > Índice Geral > Marcha do Tempo + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

DEPOIMENTO
"Eles formaram uma dupla que fez história"

Por Alberto Dines em 4/7/2005

A Folha de S.Paulo era uma grande empresa jornalística, muito bem administrada – esse era o forte de Octávio Frias de Oliveira – mas não tinha um grande jornal. Um de seus segredos era a distribuição no interior. A enorme frota de caminhões amarelos da Folha cobria o interior e voltava com mercadorias. O custo da distribuição era mínimo.

Naquela época, o jornal era muito compacto, apenas noticioso, e não tinha a tradicional página de opinião. Mesmo que alguns jornais fossem censurados ou autocensurados, a página de opinião tinha um sentido simbólico. Frias não era jornalista mas sempre gostou de rodear-se de grandes jornalistas. Cláudio Abramo foi o primeiro deles. Em seguida, houve momentos em que o jornal tinha entre seus colaboradores meia dúzia de ex-diretores de grandes jornais.

Lembro que quando Cláudio Abramo me convidou para trabalhar, eu não dava muita importância para a Folha. Dois anos antes, quando dirigia o Jornal do Brasil, lia obrigatoriamente o Estado de S.Paulo, não a Folha.

Cláudio Abramo havia saído do Estadão, Frias gostou dele, formaram uma dupla que fez história. Cláudio o convenceu de que o jornal precisava de conteúdo, opinião. Frias havia percebido que, naquele momento, o Estadão estava começando a ter problemas empresariais – havia investido uma fábula naquele prédio enorme (seguia o infeliz paradigma do JB) e ainda por cima meteu-se na aventura de tornar-se fabricante de papel. Frias entendeu que aquela era a sua oportunidade, havia uma brecha para fazer-se ouvir.

Na fase de Nabantino Ramos, o jornal colocava na rua três edições (Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite) e fazia um jornalismo de alto nível. Cláudio persuadiu o Frias a retomar o seu lugar como jornal de referência. Naquele momento o jornal só tinha um articulista – o chefe da sucursal de Brasília, Ruy Lopes – cujos textos eram publicados de forma aleatória, em qualquer página;

No início de 1975, Abramo viajou aos EUA para falar com jornalistas: o Antonio Marcos Pimenta Neves, que estava em Washington, não pôde aceitar o convite. Eu estava em Nova York no fim do meu contrato com a Universidade de Columbia e o Cláudio sabia disso. Pediu-me que, quando eu voltasse ao Brasil, procurasse a Folha e contou o que queria fazer: pretendia um jornal de peso, denso, inteligente, no estilo inglês (era fascinado pela imprensa britânica.).

Quando voltei ao Brasil, meses depois, evidentemente liguei para ele. Convidou-me para a chefia da sucursal do Rio de Janeiro e para escrever um artigo político diário. Ponderei que para escrever um artigo diário era necessária uma página de opinião. "É isso que precisamos fazer" – e contou que Frias não queria imitar a página do Estadão, que publicava textos de opinião na página 3.

Quando Frias formalizou o convite em São Paulo, disse-lhe que para escrever um artigo político diário seria indispensável uma página determinada para abrigá-lo. O Cláudio deu uma piscadinha e o Frias disse: "Então, façam uma página de opinião".

Descemos para a pequena sala do Cláudio e ele, que era um craque em matéria de desenho gráfico, começou a rabiscar – convém lembrar que além de grande jornalista ele era um artista plástico premiado). Dei alguns palpites (eu havia mexido anos antes na página de editoriais do JB) e a página ficou armada. Para diferenciar-se do Estadão, os editoriais ficariam na página 2. Com o Ruy Lopes, a minha coluna e a do Samuel Wainer.

A primeira pagina dois saiu no dia 26 de junho de 1975. Os textos eram sempre identificados pelas iniciais do autor, seguindo o modelo do Estadão. Antiqualha que serviu para situações muito engraçadas: quando alguém não gostava de um texto meu, eu dizia que fora escrito pelo querido Audálio Dantas...

Página 6

Importante registrar que o Cláudio não era diretor, nem editor-chefe. O cargo máximo da redação era ocupado pelo Boris Casoy (cuja origem profissional era o rádio), que teve o bom-senso de deixar que as coisas corressem à sua revelia.

No acerto com o Frias – embora mais velho, sempre tratei-o assim, pelo sobrenome, acho que seguindo o tratamento usado pelo Cláudio – sugeri que me permitisse cumprir com uma outra tarefa pela qual eu não cobraria um tostão a mais. Queria escrever uma coluna sobre imprensa às segundas-feiras, em alguma página perdida do último caderno. Lembro da sua reação: "Não se meta nisso, você só vai ganhar inimigos." (Parênteses: ele acertou na mosca. E como! Fecha parênteses.)

Lembrei que no meio do caso Watergate a imprensa americana começou a discutir abertamente a sua cobertura do escândalo, e que começada a distensão proposta pelo presidente Ernesto Geisel seria uma oportunidade para estimular a imprensa.

Aceitou. Mas na semana seguinte (dia 6 de julho de 1975) o "Jornal do Jornais" não saiu na edição da segunda-feira, espremido no segundo caderno, como eu havia proposto: saiu gloriosamente no domingo, primeiro caderno, ocupando o meio da página 6 (onde hoje é publicada a coluna do Ombudsman). Decisão do Cláudio, decisão do Frias, decisão de uma dupla que fez história.

A força do coice

O jornalismo de opinião e combate foi invenção da imprensa alternativa, mas esta estava sob rigorosa censura (a Tribuna da Imprensa de Hélio Fernandes também). A Folha de certa forma colocou paletó e gravata no jornalismo alternativo. A presença do Tarso de Castro no "Folhetim" fez a ponte entre a imprensa "udigrudi" (underground) com a grande imprensa.

Octávio Frias percebeu que poderia capitalizar o respeito que tinha junto aos dirigentes do país para operar uma revolução. Como a maioria esmagadora dos jornais, a Folha apoiou o golpe militar de 1964. Agora, 11 anos depois, com Geisel e Golbery (e o amigo Severo Gomes no ministério), Frias percebeu que aquele era o momento para materializar a distensão. Cláudio, sempre politizado, falava em "condições históricas". Estava certo, certíssimo. A partir de 26 de Junho de 1975, a Folha começou a falar, começou a ser ouvida. E fez muita diferença.

Muita coisa aconteceu naquele mesmo 1975. No ano seguinte veio a criação da página de artigos (a op-ed page dos jornais americanos), logo imitada por toda a imprensa. Depois veio o coice, o retrocesso de 1977, a greve dos jornalistas de 1979 e, no início dos anos 1980, o Projeto Folha.

Cada dia é uma efeméride, convém juntá-las. Para não esquecê-las. (Depoimento a Leticia Nunes)

Comentários (0)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Evite vulgaridades e simplificações grosseiras. Não escreva em maiúsculas: isso dificulta a leitura do texto e, na linguagem da internet, é interpretado como gritos. Mensagens que não atendam a estas normas serão deletadas, e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Outros artigos desta Seção
CLÁUDIO ABRAMO
E A FSP
Quando a Folha
se tornou a Folha

Leticia Nunes
4/7/2005
ENTREVISTA / OCTÁVIO
FRIAS DE OLIVEIRA
A palavra do
mentor da Folha

L.N.
4/7/2005
DEPOIMENTO
"Eles formaram uma
dupla que fez história"

A.D.
4/7/2005
Receita simples
e eficiente

João Batista Natali
4/7/2005
Cláudio Abramo,
o revolucionário

Washington Novaes
4/7/2005
Os barões e os príncipes
Mino Carta
4/7/2005
Uma experiência
frustrante

Cláudio Weber Abramo
4/7/2005
O tigre siberiano
Jefferson Del Rios
4/7/2005
Mestre de jornalismo
Caio Túlio Costa
4/7/2005

Últimos 5 artigos de
Alberto Dines
SERROTE AFIADO
A qualidade como vantagem competitiva
24/11/2009
PERGUNTA QUE NINGUÉM FEZ
Por que Ahmadinejad não vai à Argentina?
24/11/2009
VENEZUELA NA MÍDIA
Jornalismo, para que serve
17/11/2009
IMPRENSA E JUDICIÁRIO
O poder poupado
17/11/2009
DEPOIS DO APAGÃO
As responsabilidades da mídia
10/11/2009
Mais artigos de
Alberto Dines >>