ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 339 - 24/11/2009
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MÍDIA E CRISE POLÍTICA
A inexorável desconstrução de Lula

Por Luciano Martins Costa em 25/7/2005

Vou ousar aqui repetir um destempero que me atrevi a publicar no jornal O Estado de S.Paulo, em 1992, alguns meses antes de começarem os caras-pintadas a exigir nas ruas a saída do então presidente Fernando Collor de Mello: o governo acabou.

Pode parecer aos mais sensíveis – ou aos mais sensatos – que o observador ensandeceu, ou que simplesmente espera chocar os leitores para lhes extrair comentários, o que sempre envaidece os articulistas. Mas faço a afirmação, convencido pela mesma razão que me fez acreditar, há 13 anos, que o governo Collor estava chegando ao fim: eu havia testemunhado – e registrado, na "Coluna do Estadão", de que fora titular, e em artigos na página 2 – a movimentação lenta mas inexorável das grandes forças econômicas do país para fora do círculo de apoio ao então presidente Collor.

A reação extremada da Fiesp após a detenção dos empresários Eliana Maria Piva de Albuquerque Tranchesi e Antonio Carlos Piva de Albuquerque – desproporcional, sob todos os aspectos, à relevância do fato – é a linha d´água sutil, mas muito significativa, que define o afastamento do poderoso capital paulista do governo, até então tolerado, sob a chefia do ex-metalúrgico do ABC.

Não que o partido do presidente não tenha dado contribuição suficiente para o desfecho que o observador percebe no horizonte. Ninguém, em sã consciência, descartaria o efeito devastador das revelações sobre falcatruas cometidas pelos petistas, sobre as chances de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levar seu mandato até o fim, ou de, remotamente, se reeleger em 2006. Mas não é apenas e principalmente o escândalo das verbas clandestinas que motiva as forças econômicas – e, por extensão, a grande imprensa – a determinar que Lula deva deixar o poder antecipadamente ou se contentar em completar o atual mandato.

O que pode estar definindo o fim do namoro do patrão com o operário é que, depois de haver conseguido equilibrar um programa econômico que interrompeu a espiral das crises e recolocou o Brasil com destaque no mapa dos negócios mundiais, o governo Lula resolveu levar a sério esse negócio de responsabilidade fiscal. Primeiro, a Polícia Federal prende o dono de um dos mais vistosos escritórios de advocacia tributária do país, colocando sob a mira da Justiça uma seleta lista de empresas de boa reputação. Depois, os policiais levam sob custódia os donos da butique de luxo que faz vibrar o coração provinciano do povo remediado para cima. Em seguida, consolida o projeto da Super Receita, que está destinada a funcionar como o FBI do fisco.

Caldeirões do inferno

Quem, por dever de ofício, é obrigado a ler os relatórios de bancos de investimento e as análises sobre a economia brasileira distribuídas no mercado, não pode ignorar que, de quatro semanas para esta data, os especialistas têm indicado que os fundamentos econômicos e a segurança dos investidores estariam sob risco bastante relativo, em caso de afastamento do presidente da República. Bastaria, para tranqüilizar o mercado, que se consolidasse a possibilidade de um sucessor confiável, capaz de manter a política econômica no mesmo rumo – e deixasse o resto mais ou menos como está, diria um analista mais malicioso.

Se não há perigo para os investimentos, quem precisa tolerar por mais um mandato um governo que a qualquer momento pode resolver fazer reformas indigestas, ainda mais se pesa sobre ele a suspeita de ter se favorecido de dinheiro do caixa 2 de empresas? Se sobreviver ao escândalo, quem garante que, num eventual segundo mandato, Lula não cairia na tentação de reconstruir uma base de apoio menos confiável do que os partidos de aluguel que agora o arrastam para o mar de lama?

Pois bem. O sucessor que está sendo preparado chama-se Ciro Gomes. Discretamente, a oposição conduz o ministro para fora do escândalo, apesar de o deputado Roberto Jefferson, autor das denúncias que destamparam os caldeirões do inferno petista, já tê-lo envolvido em irregularidades no projeto de transposição das águas do rio São Francisco.

Ciro já foi o querido da mídia, em certa altura das eleições de 2002. Tem carisma, pode herdar alguma popularidade do governo Lula e fica bem na TV. Com a economia segura, ele é o nome que tranqüiliza o mercado, dizem alguns analistas.

Processo de desmanche

A pauta que a grande imprensa já comprou diz que o presidente Lula pode não ser cúmplice das falcatruas que vicejaram sob suas barbas, mas – por isso mesmo, e por outras razões – não tem o perfil necessário para ser presidente da República. Se chegou ao cargo, foi um acidente histórico, possibilitado por manobras marqueteiras financiadas com dinheiro sujo. Se seu governo é até aqui bem-sucedido em termos gerais, o mérito não seria dele, mas de sua equipe econômica. Dar-lhe um segundo mandato seria, por essa lógica, premiar a incompetência ou a desonestidade.

Há uma versão mais radical da mesma pauta, patrocinada por aquela parte do empresariado e da política que não quer ver em operação uma força policial treinada para reprimir o crime econômico. Essa versão mais radical, operacionalizada – para usar o jargão de seus patrocinadores – pela turma do gatilho, traz um interesse adicional: a indústria de armas e seus defensores gostariam de levar a crise a um impasse institucional que lhes desse a oportunidade de reverter o referendo sobre o desarmamento civil.

Um texto muito bem elaborado começou a circular nesta semana, sob a forma de abaixo-assinado, alcançando inicialmente endereços eletrônicos de brasileiros com residência em Londres, Boston e Nova York, espalhando-se rapidamente pela internet. Defende explicitamente o impeachment imediato do presidente da República, alinhando fatos reais, denúncias, boatos, interpretações livres e afirmações tresloucadas sobre o envolvimento de Lula em uma conspiração mundial que inclui as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o Movimento dos Sem-Terra, a Líbia, a Síria, o governo Chávez da Venezuela, Fidel Castro e o narcotráfico internacional.

O arco desse processo de desmanche do governo Lula começa em artigos nos quais se insiste em que, pelo fato de não possuir diploma universitário, o presidente está despreparado para o cargo, mesmo que, objetivamente, seu governo possa ser considerado um sucesso, dadas as circunstâncias em que tomou posse. Termina em e-mails e blogs mais ou menos coerentes, mais ou menos bem elaborados, mas sempre eficientes em minar a confiança geral no atual governo. No centro desse processo está a ação política combinada às operações de mídia.

Lição de História

É exercício didático a leitura dos sites de partidos políticos. Ali se percebe como se exercita a espiral de formação da opinião pública. O político faz uma declaração, que a imprensa divulga, o articulista comenta, o editorial chancela e o site partidário realimenta, dizendo que, segundo a imprensa, tal e tal. O político comenta a especulação que virou afirmação da mídia e um palpite vira fato.

Quando o observador afirma que, para a grande imprensa, o governo Lula acabou, não está fazendo eco ao coro dos petistas flagrados com a mão na mala preta, segundo a qual "a direita conspira para derrubar o governo popular". O observador precisa vasculhar as fontes mais variadas e olhar os fatos com o máximo de objetividade. Não há, na história do Brasil, personagem que tenha resistido à combinação das forças políticas conservadoras com as premissas da grande imprensa.

Não é preciso muito mais para que se consolide na opinião pública que, de fato, Lula foi conivente com a corrupção ou é incompetente. Também não será necessário muito esforço para que a margem de erro da próxima pesquisa de opinião, no limite das incertezas, seja vertida para a coluna negativa, induzindo às manchetes definidoras de uma completa derrocada da popularidade do presidente. Sua aprovação entre os considerados mais educados já está em declínio acelerado.

Debilitado por sua própria incompetência, o Partido dos Trabalhadores tem hoje um poder de mobilização muito reduzido. Não se sabe (porque os últimos anos de comando centralizado nas mãos de José Dirceu o tornaram menos transparente) se ainda persistem em seus quadros líderes capazes de mobilizar a militância para a defesa do governo. O senador amazonense Jefferson Peres (PDT), que na falta de um Ulysses Guimarães tem sido citado pela imprensa como uma espécie de Ruy Barbosa contemporâneo, já alertou que uma tentativa de derrubar Lula pela força – mesmo a força constitucional – poderia gerar sérias instabilidades sociais e políticas.

Mas a grande imprensa brasileira aprendeu muito nos últimos anos. Move-se em consonância plena com suas alianças econômicas e políticas. Suas premissas não são propriamente o que existe de mais avançado em termos de consciência do interesse público, mas sabe se alimentar em boas fontes de conhecimento. A crise a tornou mais conservadora, o desaparecimento daquela geração de patriarcas que enfrentou as turbulências do século 20 a deixou menos educada. Mesmo assim, ela evolui. Não apoiará uma versão desarmada do golpe de 1964, mesmo que respaldado numa interpretação conveniente do texto constitucional.

A imprensa trabalha para desconstruir Lula, para deixá-lo só, sem uma base partidária e sem condições de consolidar uma aliança que lhe desse a possibilidade de lutar pela reeleição. Quer lhe ensinar uma lição de História: lugar de operário é ao pé da máquina. Quer fazê-lo ver que a eleição de 2006, mesmo que ele chegue lá com a popularidade preservada, será um massacre, porque a massa vai votar naquele que ficar bem na TV.

E ninguém fica bonito tendo ao fundo um mar de lama.

Comentários (20)
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Ibanez Fernandes , Umuarama-PR - Programador de Sistemas
Enviado em 11/4/2006 às 10:31:00 PM
Luciano seu texto está otimo e os comentários estão excelentes. Isso prova que nem todo mundo está naquela de "Tanto faz como tanto fez" comum em outras epocas. O governo errou, mas esse tipo de erro já vem acontecendo ha muuuuito tempo, bom para o Brasil que tudo isso veio a tona, assim o grande povo brasileiro pode ver cruamente como são os "politicos profissionais". Eu não me refiro somente a turma do PT, mas principalmente àqueles que se travestem de "limpos", "eticos" e por ai vai, aqueles pseudodireita (PFL, PSDB, PP, PTB e outros enfim) que devem ter começado esse esquema desde os primordios da democracia. E agora como estão fora do poder dão o famoso "tiro no pé" para tentar voltar ao poder. E nesse meio a imprensa acaba "ajudando" de certa forma os pseudodireita. Seu texto vem de encontro a essa situação. Parabéns.
Francisco Nabuco , Natal-RN - professor universitário
Enviado em 23/8/2005 às 10:55:54 AM
Ótima visão da conjuntura política. O tiro dado em Palocci também foi nesse sentido. É a desconstrução da obra econômica do governo. Aí temos uma questão que ajuda no processo de desconstrução, qual seja, o fato de que toda a chamada ala esquerda do PT simplesmente não reconhece como grande feito a política econômica (é um pessoal que acredita piamente numa metafísica saída revolucionária). Dessa forma Lula não tem mais defesa interna. A imprensa sabe disso. Tanto sabe que vem dando grande espaço a declarações de indivíduos da esquerda petista que há bem pouco tempo ninguém sabia da existência...
Luiz Paulo Santana , Belo Horizonte-MG -
Enviado em 1/8/2005 às 11:23:41 PM

Algumas observações desinteressadas:

1) "Massa" é uma coisa informe. Talvez o eleitorado brasileiro já seja um pouco mais do que isso;

2) Todo aquele que aparecer na telinha, na próxima campanha eleitoral, terá ao fundo um mar de lama. Nem que seja como advertência — ao candidato e a cada um de nós, eleitores; 

3) Por isso mesmo, não deixa de ser contraditória a afirmação, no texto de Luciano Martins, da popularidade do atual presidente vis à vis a possibilidade de que ele seja derrotado nas eleições vindouras — situação complicada para a grande mídia e associados, ainda mais — e isso é importantíssimo — considerando-se o relativo sucesso governamental na área macroeconômica;

4) As pesquisas estão longe de informar um efeito-manada, aliás, digno da palavra "massa": a opinião pública tem refletido uma certa calma, sem comoções, revelando certa maturidade (tomara que não me engane) na apreciação da crise, talvez um tanto calejada com os arroubos (e roubos) resultantes do exercício político no Brasil, a concomitante repercussão sensacionalista na mídia e, sai ano, entra ano, pouco avanço no final das contas;

5) Ou seja, o povo brasileiro parece mais maduro e mais preparado para um novo ciclo de institucionalidade do que seus representantes. Quiçá!

Angela Wolff , Porto Alegre-RS -
Enviado em 31/7/2005 às 2:36:23 PM

Caro Luciano Martins, não existissem pessoas como você, juro, eu ja teria desistido de viver neste pais. Por que vivemos uma ditadura após a outra. Agora, passamos pela mais humilhante de todas. A ditadura de imprensa mercantilista e vendida, ou comprada. É aterrorizante ver como certos tipos que se dizem jornalistas se colocam na mesma linha, de isentos, corajosos e perspicazes. Tais como os jornalistas que levaram à renuncia Nixon, chega a ser patética a arrogãncia. A grande maioria dos jornalistas se presta à fofoca, ao maniqueismo.

Mas o pior, revendo minhas revistas da epoca, foi ver como a imprensa se colocava na posse. A festa foi relatada quase como o retorno do messias. Que a esquerda do mundo se espelhava em Lula, uma nova era disso, daquilo. E, claro, Lula embarcando nesta fabulazinha, não desmentindo ou rejeitando estas coisas. No dia da festa, tamanha comoção popular me fez correr um frio na espinha. Nunca vi até agora no mundo um líder popular que sobrevivesse. Eu pensei, não há como dar certo, o Brasil é fundado, principalmente Brasília, em lama, um dia desses é capaz de afundar. Não tenho ilusões de que este governo vá sofrer algum ataque devastador.

A minha esperança era que durasse o suficiente para despertar nas pessoas quem elas eram de fato no jogo politico. E agora é o que se vê com muita clareza ao menos para quem quer enxergar é que a imprensa, usando tipos insuspeitos, trabalha para não deixar o governo Lula chegar ao fim, e se chegar, chegue sem chances de reeleição. Mas não bastava derrubar Lula de um jeito ou de outro, era necessário destruir o que o sustenta: a confiança do povo.

Quando olho os caciques da Republica, ACM, um tal Mão Santa, os tucanos se colocando como os novos arautos da ética... eu fico besta como a imprensa não se encarrega de lembrar ao povo que outros até podem dizer isso, mas não estes. Logo fica fácil entender quando a imprensa acata a tal tática diversionista alegada. Não quer lembrar ao povo que a miséria neste país não começou em dois anos de governo Lula. E que a corrupção e caixa 2 etc. estão na fundação deste país. Como é possivel que os jornalistas, que viveram a ditadura, não se levantem contra estes jornalistas vendidos?

Adhemir Martins da Fonseca , Rio de Janeiro-RJ - aposentado
Enviado em 29/7/2005 às 11:48:27 PM

Muita bobagem. A Daslu ou seus proprietários cometeram crimes e terão que pagar. No caso do escritório de advocacia, seu dono e vários funcionários foram indiciados pelo MPF no Rio de Janeiro em vários tipos de crime: sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, crime tributário, formação de quadrilha etc. Este esquema já vem de vários anos. Apesar de que não aprovo o que o PT fez.

Marcelo Oliva , Montes Claros-MG - professor
Enviado em 29/7/2005 às 10:50:29 PM
O que o artigo nos informa é que existem grupos que tentam, a todo custo, desmoralizar o presidente Lula, alegando a sua incompetência no governo e no cenário politico atual. Gostaria que estes mesmos grupos respondessem por que em governos passados ocorreram graves fatos ligados à corrupção e os dirigentes, intelectuais altamente gabaritados, não foram competentes para coibi-los. E nem por isso foram tão atacados por essa imprensa e esses empresários que querem continuar tendo imunidade para praticar abusos contra o povo brasileiro. Defendo a completa penalização dos corruptos, mas devo lembrar que tal prática jamais esteve restrita ao governo do Sr. Luiz Inácio Lula da Silva.
Francisco Chagas , Recife-PE - arquiteto
Enviado em 29/7/2005 às 4:29:45 PM

A predominância do problema do Brasil é de ordem estrutural ou conjuntural? Tenho para mim que é de ordem estrutural, pois as elites (políticas e econômicas) usarão todos os meios para continuar se beneficiando.

 

 

Sonia Freitas , Recife-PE - educadora
Enviado em 28/7/2005 às 5:33:03 PM
Estou apreensiva. Há muitos anos sofro, como cidadã, a vergonha da corrupção política no nosso Brasil. Não creio nesta "onda" de acusações e de impropérios contra o presidente Lula: a corrupção agora exposta é muito, muito velha....Eu já vi este filme, há muitos anos... em 64. Sinto angústia: o povo chegou ao Planalto, mas está prestes a ser deposto, destruído... Filme feio, sujo, cheirando a fezes de tucanos... mal poderemos respirar, com tanta fedentina. Certamente o Roberto Jefferson vai ser ministro da Cultura: alèm de representar ele canta... com quem será a contra-dança e o contra-canto?
Anelise Araújo , Barueri-SP - professora
Enviado em 28/7/2005 às 11:21:53 AM

Faltou considerar o papel do próprio Lula nesta descontrução. O presidente faz isso quando vocifera que ninguém é mais ético do que ele. Trabalha por isso quando fala enigmaticamente, como ontem, em "inocentes injustiçados pela imprensa" - deixando-nos cogitar se está a defender Delúbio, Dirceu, Silvinho, Genoino ou o próprio Marcos Valério. Desconstrói-se aos poucos, o nosso Lula, sempre que, diante dos microfones e câmeras, nos nega a simplicidade de um "eu não sabia". Por conta dessa postura é que Lula está perdendo os ecléticos apoios conquistados durante sua escalada rumo ao Planalto. Que os ratos sejam os primeiros a abandonar um barco a perigo, não é novidade para ninguém. Mas que fique muito claro: os ratos não comandam barcos. Não se pode atribuir a eles o naufrágio.

Edinéa Moreira da Silva , Vitória-SP -
Enviado em 28/7/2005 às 3:58:28 AM

Não é preciso ser intelectual nem analista político para chegar a esta conclusão! Desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito à presidência, eu pensava quanto tempo ele, o presidente operário, conseguiria ficar no poder. Pois infelizmente abaixo da "linha do Equador", no país mais cristão e solidário do mundo, somos coniventes com todos os pecados, menos o de um operário ser presidente! Mais saibam que não estão nos engando dizendo que o problema é a corrupção! Há um ditado que diz: quem não sabe cozer come cru. Espero que na próxima vez o tratamento não dure apenas 20 anos e que seja "super size" para que os filhos de teus filhos jamais esqueçam! Não sou conivente com a corrupção, muito pelo contrário! Mas o que houve desde o início da gestão do presidente foi um massacre com o aval da imprensa corrompida pelo poder econômico! A mesma imprensa que reclamava tanto da falta de democracia!

Para o povo, a ditatura foi bem melhor do que esta pseudo-democracia! Visto que nós, o povo, não  somos ninguém! Palavra nenhuma é capaz de sintetizar minha indignação pelo acinte de políticos de carreira que governam este país há mais de 500 anos e nunca fizeram absolutamente nada, a não ser saqueá-lo sem a menor cerimônia! E ainda querem falar que nunca houve tamanha corrupção! Estão querendo depor o presidente o mais rápido possível antes que ele levante o tapete e mostre toda sujeira!

Só espero que as forças armadas não deixem que entreguem o pouco que nos resta: um pedaço de chão, sem pão, para cairmos mortos. E que tenham longa vida para que assim como o Sr. Maluf descubram que o dinheiro não compra tudo e que os "Fernandinhos" adotem os filhos de todos aqueles que aviltam esta nação! Porque os nossos filhos já são assassinados impunementemente todos os dias e mostrados como show televisivo -- e morremos na contramão atrapalhando o trânsito! Não temos mais nada a perder, mesmo!

Raphael Paiva , Brasília-DF - antropólogo
Enviado em 27/7/2005 às 10:43:50 PM

Muito bem observado, tudo! Eu acrescentaria apenas que o governo não se dará por vencido, ainda que pelejando com a imprensa. Ninguém, com o apoio tão bem administrado entre os movimentos sociais, se daria por vencido tão precocemente, como alguns jornalistas e políticos vem tentando nos fazer crer...

Fábio Carvalho , Porto Alegre-RS - jornalista
Enviado em 27/7/2005 às 9:59:23 PM

Caro Nilson [o leitor da carta "Graças (também) a Deus..."]: Não é fundamental restar comprovada a conivência com o crime - ou incompetência - para uma condenação política e um resultado devastador nas urnas. O julgamento político tem outra medida. Exemplos não faltam. O ex-presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro (PMDB), foi tratado como a reencarnação de Brutus pela Veja, responsável pelo abre-alas do enredo de sua cassação. Ele viveu nada menos que 11 anos de ostracismo e derrotas eleitorais. 

Responsável pela condução do processo que culminou com o impeachment de Collor, Ibsen Pinheiro era um político em ascensão. José Dirceu e um assessor chamado Waldomiro Diniz cruzaram os dados que culminaram com a cassação da estrela do PMDB.  O candidato FHC saiu vitorioso no xadrez eleitoral de 1994, como se sabe.

Em 2004, Luís Costa Pinto, ex-repórter de Veja, revelou os bastidores daquele caso, em matéria publicada pela Isto É. Segundo Costa Pinto, Veja constatou o erro, mas preferiu esquentar a acusação contra Ibsen com declarações do parlamentar Benito Gama, do PFL. Provas? Não, aspas.

A matéria de Isto É não foi feita para inocentar Ibsen Pinheiro, isso foi apenas seu efeito colateral. A história ficou sob medida para detonar o debate acerca da criação de um conselho profissional de jornalistas, contra o qual todos os veículos se uniram em coro uníssono - e lograram êxito na defesa da liberdade de imprensa (sic). De quebra, Isto É ainda deixou a maior concorrente de saia justa. Perfeito, né?

Depois de "inocentado" pela imprensa, Ibsen Pinheiro tornou-se o vereador mais votado em Porto Alegre, como mais de 20 mil votos em 2004. é porque a opinião pública se identifica muito com as vítimas. Mas os prejuízos de sua carreira política são irreparáveis. Ele era o terceiro homem na linha de sucessão do país e hoje está de volta onde começou a vida pública, em 1976. É um túnel do tempo de quase 30 anos!

Haverá dois exemplos para acompanhar de perto nas eleições de 2006. Paulo Delgado (PT) e Custódio Mattos (PSDB), de alguma forma, responsável ou irresponsavelmente, foram envolvidos no atual mar de lama. Ao fim do pleito de 2006, compare o desempenho eleitoral de ambos com o ano de 2002. Verifique não somente o número total de votos obtidos pelo tucano e pelo petista, mas os comparativos entre as urnas de Benfica (bairro periférico) e do Bom Pastor (bairro rico).

Nilson Leão [com resposta de Luciano Martins Costa ] , Juiz de Fora-MG - advogado e professor
Enviado em 27/7/2005 às 7:34:54 PM

No artigo, o autor afirma: "Não é preciso muito mais para que se consolide na opinião pública que, de fato, Lula foi conivente com a corrupção ou é incompetente". Mas falta no texto algo essencial: para que haja a "consolidação" acima referida, é fundamental que seja fato (quer dizer: verdade) que tenha havido a conivência ou a competência, sobre as quais, eu estranho, o jornalista não faz qualquer afirmação!

Logo, cabe indagar a ele (o que faço agora): e não é exatamente este o dilema atual?; por acaso não está absolutamente evidente ou a conivência ou a incompetência?; ou existe uma "terceira" alternativa (que solicito que o jornalista explicite qual seja)? Ora, e se isso é fato (a dicotomia alternativa ou conivência ou incompetência), perde a importância esta idéia de uma "consolidação" supostamente "premeditada" de idéias... Por isso, discordo de uma das conclusões do texto: "A imprensa trabalha para desconstruir Lula, para deixá-lo só, sem uma base partidária e sem condições de consolidar uma aliança que lhe desse a possibilidade de lutar pela reeleição. Quer lhe ensinar uma lição de História: lugar de operário é ao pé da máquina".

Penso que não só a imprensa - mas a grande maioria das instituições brasileiras em geral - jamais estaria "trabalhando" para "desconstruir" a imagem de Lula (e muito menos ainda para dar-lhe qualquer suposta "lição" sobre o "lugar de operário"!) se o governo estivesse sendo eficiente, e coerente, e probo; todavia, os fatos efetivamente mostram exatamente o contrário, e isto é incontestável. Ou não?

Tivesse o governo sendo menos "conivente" e muito mais "competente", não estaria o país todo - a começar pelo próprio governo - vivendo toda esta crise que, ao contrário do que o texto sugere (ao menos em parte), seria "construída" ("artificialmente"?) pelas "elites", não sendo, como de fato é, pura decorrência da realidade ostensiva, aliás trazida ao público conhecimento graças exatamente à... imprensa. E - para quem crê - graças (também) a Deus...

Luciano Martins Costa responde

Caro professor Nilson, a questão é exatamente que não sabemos o que são os fatos, ou qual a importância relativa entre eles. Na enxurrada de dados que a imprensa nos oferece, com denúncias, revelações, suposições e meras especulações misturadas sem critério, não temos ainda como conhecer a natureza e o alcance exatos desse escândalo. Há muitas evidências, provas testemunhais e documentos provando que o dono de uma agência de publicidade – que já chamei de despachante em artigo anterior – atuou como intermediário entre doadores e receptadores de dinheiro não declarado. A maior parte dos destinatários desse dinheiro pertence à bancada do governo. Mas há muito mais especulação transformada em verdade do que fatos reais.

Veja o caso da "bomba" anunciada por toda a imprensa quando a Justiça comunicou que enviaria à CPI os documentos do Banco Rural. Durante quase uma semana se criou o círculo da especulação ao palpite e do palpite à afirmação em editoriais, induzindo-nos a acreditar que ali haveria provas definitivas de que a corrupção estaria dominando o governo de alto a baixo. Nesta quarta-feira, revelou-se que nada havia de novo nos documentos, mas ninguém vai desfazer a opinião que essas especulações avalizadas por editoriais e artigos consolidaram na sociedade.

Em nenhum momento afirmo que se deva aliviar o peso das responsabilidades dos envolvidos. O que reafirmo é que, independentemente do que for apurado, já está em curso uma operação para isolar, desmoralizar e matar politicamente o presidente da República, que a imprensa considera desqualificado para o cargo. O observador tem que fazer a análise a partir do que a imprensa publica, usando a experiência para buscar a intenção das escolhas de edição. Ou o senhor acredita que as intenções de edição são sempre isentas de premissas ou preconceitos?

Déa Araujo , Belo Horizonte-MG - administradora
Enviado em 27/7/2005 às 7:14:46 PM

Nada como ler um artigo bem-escrito, com colocações e opiniões claras e consistentes. Muito bom mesmo. Concordo em grande parte, só ainda não consigo ver a imprensa como co-arquiteta da derrocada deste governo. Com alguns exageros, ela vem cumprindo seu papel, clarificando situações que a maioria dos brasileiros não entende e nem quer entender. Vide apoio populista ao Lula.

Osni Ribeiro Mello , Caçador-SC - jornalista
Enviado em 27/7/2005 às 6:37:50 PM

Parabéns pelo artigo, concordo com tudo que você escreveu, principalmente com a parte em que diz que "nós" da imprensa estamos desconstruindo Lula. Na verdade, ele não é melhor e nem pior do que todos que já passaram, dos que estão ou dos que estão por vir.

Marcelo Macagnan , Cruz Alta-RS - comerciante
Enviado em 27/7/2005 às 5:40:16 PM
Me deu vontade de chorar de tanta comoção pelas "maldades" que estão fazendo com Lula, segundo seu artigo. Óbvio que todo militante do Partido dos Trabalhadores tem mais que defender a causa, e o partido. Mas o senhor sabe, tanto quanto eu, que o Sr. Lula não está fazendo um ótimo governo no que toca à economia, mas sim, se é que ele tem algum mérito, está apenas continuando uma politica econômica criada pelo FMI no governo anterior. Absolutamente nada mais. E mais, jamais ouvi falar de um outro país que teve crescimento econômico, pleno emprego e aumento de riqueza porque adotou uma política de juros exorbitantes, de impostos escrachantes e de custo Brasil como temos aqui. O que existe em nossa economia, isso sim, é uma violenta estagnação, e só. O resto é manobra de números e estatísticas.
Carlos Olsen , Caçador-SC - industrial
Enviado em 27/7/2005 às 4:59:53 PM

Realmente, a culpa agora é da imprensa! Não tendo elites (que agora é o próprio PT) para jogar a culpa, o Sr. Lula, e agora, pasmem!, um jornalista acham de pôr a culpa na imprensa. Já tinha lido porcaria a respeito desta crise (que para mim não passa de uma roubalheira do PT com o conhecimento da cúpula palaciana), mas o autor bateu o recorde. Lamentável.

Altino Machado , Rio Branco-AC - jornalista
Enviado em 27/7/2005 às 2:36:37 PM
Luciano Martins Costa faz a análise mais sensata que li nos últimos dias sobre mídia e crise política. No tiroteio da política, escrever sem paixão é um desafio quase inatingível. Luciano é um mestre!
Maria José Almeida , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 27/7/2005 às 10:34:36 AM

Caro Luciano Martins Costa, cumprimento-o pelo excelente artigo "A inexorável desconstrução de Lula".

Anderson Mata , Brasília-DF - professor
Enviado em 26/7/2005 às 8:05:36 PM

Luciano,

Genial seu texto. Poucas vezes li uma análise tão lúcida do que tem ocorrido no país, sem uma paixão declarada, cega e burra pelo PT e, tampouco, sem a mal ou bem disfarçada vontade de que o PSDB retorne ao governo para que traga consigo aquele mar de brigadeiro tão agradável à grande imprensa, e seus financiadores, e seus amigos, e seus grupos coorporativos, e...

Parabéns!

Anderson da Mata

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Luciano Martins Costa

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