ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 339 - 17/11/2009
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OBSERVATÓRIO NA TV
Dalmo Dallari e o espetáculo da CPI

em 27/7/2005

Participação do jurista Dalmo Dallari no programa Observatório da Imprensa na TV (terças-feiras, 22h30, Rede Pública de TV) de 26/7/2005. Transcrição de Camilla Rizzo.

Alberto Dines – Hoje [26/7/05] nós tivemos o depoimento de Renilda de Souza na CPI, mulher de Marcos Valério. Como o senhor vê esse depoimento? Ele era realmente necessário? A CPI não está virando um show inquisitorial? Porque na verdade ela estava lá apenas porque é cônjuge, tem conta-conjunta e comunhão parcial de bens. Ela realmente não tinha nada a ver com o interrogatório, inclusive não sabia, e o pouco que ela disse a respeito do ex-ministro José Dirceu fatalmente já apareceu e vai aparecer. Não está havendo um certo excesso inquisitorial nessa CPI?

Dalmo Dallari – Eu diria que há realmente um excesso inquisitorial. Alguns dos membros da CPI não escondem que são partidários, que são parciais. São verdadeiros inquisidores. Foram lá para agredir e às vezes agredir grosseiramente quem está depondo. Hoje, ainda, ocorreu um fato desse tipo, mas além disso verifica-se também ou um despreparo muito grande ou uma despreocupação com a responsabilidade, porque muitas das perguntas já haviam sido feitas antes. Muitas delas tinham respostas mais do que óbvias. Como você disse, ela participa nominalmente de uma série de empresas, mas não participa da administração e nem freqüenta as empresas, mas isso já tinha sido deixado claro talvez meia hora depois de iniciados os depoimentos, e no entanto ficou-se lá durante muitas horas repetindo perguntas, perguntando coisas que nada tinham a ver com o objetivo da CPI, de maneira que de fato não há nenhuma justificativa para um interrogatório ou uma inquisição desse tipo.

A. D. – Parece que está havendo uma evolução da própria CPI. Ela está ganhando poderes de polícia, quase, de repente ela pode dar voz de prisão, de repente entram advogados em cena quando um inquérito deveria ser uma coisa mais espontânea; o STF dá uma sentença que permite não dizer a verdade ou abster-se; em suma, eu queria que o senhor analisasse essa transformação da CPI sob a ótica de um grande jurista.

D. D. – Em primeiro lugar, eu acho que há uma compreensão incorreta em relação ao que seja uma CPI e seus objetivos. Talvez até a imprensa tenha uma certa responsabilidade nisto quando usa a expressão "a CPI termina em pizza". Quer dizer, a idéia é essa, a CPI tem que terminar com a prisão de alguém – e não é isto. A CPI é uma comissão de inquérito, e como diz a própria Constituição, inquérito sobre fato determinado, sobre um fato isolado ou um conjunto de fatos. Por exemplo, uma CPI sobre a situação dos presídios brasileiros. Isso seria perfeitamente possível, está dentro dos objetivos constitucionais e tem evidente utilidade. Neste caso, essa CPI foi criada para apurar o fato de corrupção nos Correios, então ela deveria concentrar-se em fatos, em como ocorrem os fatos, ou no levantamento dos fatos e suas práticas, para no final oferecer soluções para dizer o que está errado, o que pode ser corrigido, o que é uma distorção decorrente da desonestidade de servidores, funcionários ou dirigentes, ou o que é falha institucional, falha de organização.

Então, a CPI deveria procurar mais objetividade, e o que nós estamos vendo é a CPI como um jogo de acusações e de defesas, de exibicionismo, mas presa sempre a pessoas. Eu acho que essa é uma distorção e daí aquele temor da prisão que levou inclusive a pedidos de hábeas-corpus. De fato aqui também eu vejo um equívoco e uma distorção grave. A Constituição prevê a criação de uma CPI para apuração de fato determinado. Então em uma CPI não há réu, em uma CPI não há acusado, todos os que comparecem lá são testemunhas que vão depor para a apuração dos fatos. Então não haveria razão para que se fizesse, como se fez, essa distinção "eu quero depor como acusado para ficar livre da acusação de crime de falso testemunho".

Na verdade, o Código Penal prevê expressamente o direito de calar e isso já foi feito muitas vezes, decidido pelo Supremo Tribunal, e agora o ministro Jobim [Nelson Jobim, presidente do STF] reafirmou que qualquer pessoa que vá prestar depoimento tem o direito de calar, e no caso da testemunha há uma previsão expressa desse direito de calar no Código de Processo Penal. A testemunha não é obrigada a falar sobre fato que possa lhe causar algum dano. Então, de fato, este problema de risco de prisão é uma distorção. Eu acho que se a CPI fosse objetiva, se ela se concentrasse na apuração de fatos para oferecer soluções, ela seria muito mais produtiva e útil, não haveria tamanho desvio e não haveria evidentemente tanto espetáculo.

Comentários (8)
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Valter José Querino , Salvador-BA - aposentado
Enviado em 30/7/2005 às 8:59:20 PM
As CPIs, realmente, não passam de uma arena de circo, e no seu picadeiro estão os artistas das mais variadas categorias alegóricas, com raras exceções. A encenação que se vê imaginam eles transmitirem uma imagem (falsa) de salvadores da pátria. A imprensa é formadora de opinião, que leva o cidadão a absorver informações e formar seu próprio conceito político. A falta de educação política do brasileiro é de certa forma responsável pelo mar de lama em que está submerso o país. Por isso, considero que a imprensa está no seu papel correto, pois sem ela não estariamos conhecendo este quadro negro da nossa história, que um dia terá a sua página virada.
Odair Martini , Porto Velho-RO - advogado
Enviado em 29/7/2005 às 6:04:35 PM

Parabéns ao professor Dallari pela entrevista neste deserto de idéias em que se tornou o país, onde a mídia em geral e os congressistas, que deveriam contribuir com idéias para solução dos problemas, só fazem demagogia e exercitam a hipocrisia. 

Denis Dias Ferreira , São paulo-SP -
Enviado em 28/7/2005 às 4:25:40 PM

Há, parece-me, 52 pedidos de instalação de CPIs na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Todas barradas pela ação do Executivo paulista. Tenho a impressão de que a imprensa paulista está sempre poupando a figura do Sr. governador, como no caso dos levantes que sempre ocorrem na Febem. Por que poupam tanto o PSDB paulista?

Lilian Chateau , São Paulo-SP - dona de casa
Enviado em 26/7/2005 às 11:48:50 PM

Entre outras coisas, a CPMI nos dá a verdadeira estatura da democracia. Para o homem comum democracia é direito a voto e mais nada, pois ante todas as denúncias e comprovações vemos como juristas, advogados e afins se preocupam com os direitos daqueles que estão num patamar acima de nós, simples mortais. Os neguinhos da favela suspeitos de furtarem uma carteira são perseguidos a bala. Nem vou falar do caso Daslu. Estou pensando seriamente se vou continuar pagando impostos.

Marcelo José Siqueira Almeida , João Pessoa-PB - professor
Enviado em 26/7/2005 às 11:47:24 PM
Tenho lido os comentários da Sra. Lucia Hipollito no site do UOL, na coluna da Lillian Wite Fibe e, rotineiramente, percebe-se uma tendência clara de associar as denúncias de corrupção ao presidente Lula. Nesse momento, por exemplo, a manchete no site é a "A crise já subiu a rampa do Planalto". Sem querer tomar partido, pergunto: por que, exceto em momentos muito marginais e de pouca expressão, não se evidencia a associação do esquema de corrupção do Marcos Valério ao governo anterior? A imprensa tem sido neutra? Por fim, por que a manchete não foi "A crise já atingiu a oposição" (uma alusão clara às denuncias feitas hoje da associação do Marcos Valério com o PSDB)?
Hercules Mattos , Vitória-ES - jornalista
Enviado em 26/7/2005 às 11:43:53 PM
Todos sabem que até 2002 Artur da Távola foi senador pelo PSDB, filiado ao partido. Então, é inconcebível sua presença no programa, apenas para ficar criticando o PT. Ele nao tem moral para participar, uma vez que há suspeitas de que FHC também pagou mensalão em troca da reeleição e da venda de estatais. Lanço aqui meu protesto.
Célida Braga , Balsas-MA - professora de arte
Enviado em 26/7/2005 às 11:25:11 PM

Enquanto cidadã, tenho acompanhado cada capítulo desta novela. Por meio de revistas mais comerciais, caso da IstoÉ, outras nem tanto, caso da Caros Amigos; por meio do noticiário da TV Globo, da TV Senado e Observatório da Imprensa. Durante o depoimento da Sra. Renilda de Sousa, mulher do Sr. Marcos Valério, fiquei observando como uma mulher se utiliza do clichê "sexo frágil" tão tupiniquim para falar apenas o que interessa a ela e a seu marido. Como citar, por exemplo, o nome do Sr. José Dirceu - tão reforçado hoje pela Globo. Às vezes tenho a impressão de que é uma briga entre imprensa e governo federal. Vale a força maior da mídia: "Eu tenho o poder de induzir o povo brasileiro pelas tão maravilhosas manchetes". 

Nunca me filei a partido algum e fico pensando, indignada, por que a imprensa engana o povo brasileiro, omitindo os personagens desta novela. Quem são os protagonistas? O Partido dos Trabalhadores como um todo? E os outros partidos citados, por que não são investigados? Outros partidos que não são da base do governo também não precisam justificar por que utilizaram dinheiros dos cofres do Sr. Marcos Valério?

Queremos saber a verdade, enquantos cidadãos e cidadãs.

Adiel Pereira , Londrina-PR - bancário
Enviado em 26/7/2005 às 11:22:23 PM
É válida a colocação do ex-presidente FHC de que o que aconteceu em seu governo "é coisa da história"? Somente quem está no poder poderá ser penalizado, e não quem já passou por ele e cometeu a mesma transgressão? 
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