ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 341 - 24/11/2009
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MÍDIA E CRISE ENERGÉTICA
Biodiesel é notícia séria

Por Bruno Blecher em 8/8/2005

Jornalista só gosta de notícia ruim, bem que dizia a mãe de Lula. Tinha lá a sua razão. Em plena temporada de caça às bruxas, tudo o que o presidente diz vira bazófia. Mesmo que o assunto seja sério, como ocorreu na semana passada, quando Lula inaugurou uma usina de biodiesel no Piauí e alardeou as vantagens da energia renovável.

É verdade que o presidente exagerou quando citou as vantagens do biodiesel feito a partir da mamona. As pesquisas já comprovaram que entre as alternativas de matérias-primas (algodão, amendoim, canola, milho, nabo forrageiro, palma e soja), a mamona é a menos eficiente e competitiva. Diante disso, o próprio governo decidiu restringir a produção de biodiesel de mamona ao Nordeste.

Seja como for, o programa do biodiesel, assim como o renascimento do álcool – conseqüência do sucesso dos carros flex e do crescimento das exportações brasileiras de etanol –, é estratégico para o Brasil. E merecia um espaço bem maior da imprensa, ainda que concorrendo com a temporada lírica de Roberto Jefferson e José Dirceu.

À frente dos EUA

Dois dias depois da inauguração da usina de biodiesel no Piauí, a Folha de S.Paulo destacou em alto de página (B-15) do caderno "Dinheiro" (6/8/2005): "Petrolíferas alertam para o fim do combustível".

A notícia, do Financial Times, citava uma mensagem publicitária da Chevron, segunda maior empresa de energia dos EUA. "Uma coisa é clara: a era do petróleo fácil é coisa do passado. Conclamamos os cientistas e educadores, políticos e autoridades, ambientalistas, líderes setoriais e cada um de vocês a tomar parte da formulação da nova era da energia. Não podemos ficar inativos."

Nessa área, o Brasil não está inativo. Pelo contrário, estamos à frente dos EUA, como mostrou a própria Folha, na mesma página, citando artigo de autoria de Thomas L. Friedman, publicado no jornal The New York Times.

Independência energética

Friedman criticou a lei de energia dos EUA que, segundo ele, não é séria. "Ela não afeta realmente as companhias de automóveis, que usaram a maioria dos avanços tecnológicos das últimas duas décadas para fazer carros maiores e mais rápidos, em vez de mais eficientes em consumo", disse o colunista do The New York Times.

E também nessa área o Brasil é mais eficiente. Desenvolveu o carro bicombustível, que funciona com álcool ou gasolina. Também chamado de "flex-fuel", esse veículo ressuscitou o mercado de álcool combustível. A participação dos veículos bicombustíveis nas vendas totais de automóveis passou de 52,2%, em junho, para 58,9% em julho. No ano, as vendas de veículos bicombustível representaram 42,4% do total, ante 51% dos automóveis a gasolina. Segundo a Anfavea, foram vendidos até julho 381.168 unidades flex-fuel, número que supera o total vendido em todo o ano passado na modalidade (328.379 mil unidades).

Em seu artigo, Friedman, ao mesmo tempo em que critica a política energética de George W. Bush, elogia o programa brasileiro. "A metade dos novos carros vendidos este ano no Brasil é bicombustível. Fazer hidrocarbonetos e carboidratos viverem felizes no mesmo tanque deixou o Brasil próximo da independência energética, como também protegeu a economia do impacto da atual alta dos preços do petróleo".

Mercado promissor

Assim como o álcool, com o biodiesel podemos cultivar no Brasil o nosso próprio combustível. O biodiesel tem potencial de expansão e capacidade de gerar empregos. Ele pode ser feito a partir da mamona, do dendê, do girassol e da soja.

O investimento na produção de biodiesel deve chegar a 515 milhões de dólares em 2008, quando deverão estar em produção cerca de 800 milhões de litros do combustível. Em 2013, a cifra deve aumentar para 1,5 bilhão de dólares, com 2 bilhões de litros no mercado nacional. A produção de biodiesel permitirá a redução da importação de diesel. O Brasil consome por ano 37 bilhões de litros de diesel, dos quais 6 bilhões de litros são importados, ao custo anual de 1,2 bilhão de dólares.

O biodiesel também vai possibilitar a criação de empregos no campo. A mistura de 2% de óleo vegetal ao diesel deve gerar um mercado anual de 800 milhões de litros de biodiesel. É coisa séria.

Comentários (2)
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Haroldo Mota , Natal-RN - administrador de empresas
Enviado em 6/10/2005 às 8:25:06 AM
Muito boa a reportagem de Bruno Blecher - Mídia e crise energética. Uma resposta à crise energética são os carros movidos a ar comprimido, cadê a produção brasileira da indústria MDI? Será que sua produção afetaria a indústria petrolífera, ou seria uma indústria que promoveria uma nova economia limpa, global, deslocando investimento para turismo, alimentação, saúde, transporte, agricultura?
Mario Teixeira , Rio de Janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 12/8/2005 às 1:05:13 PM
Gostaria de lembrar que o Estado do Rio lançou, ainda no governo Garotinho, um programa que era gerenciado pela Faperj, dirigida por Fernando Peregrino. Há diferença do programa desenvolvido no Rio e o do Piauí. A mamona (usada na usina de Floriano, no Piauí) é uma das matérias-primas mais problemáticas na técnica do biodiesel.
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