ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 342 - 24/11/2009
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MÍDIA E CRISE POLÍTICA
A outra entrevista de Costa Neto

Por Luciano Martins Costa em 16/8/2005

A semana passada ameaçou terminar sob forte tensão, aquecida pelas manchetes dando conta de que uma entrevista do presidente do Partido Liberal, ex-deputado Valdemar Costa Neto, à revista Época, e o depoimento do publicitário Duda Mendonça à CPI dos Correios, haviam lançado o presidente da República no olho do furacão. Toda a imprensa destacou a declaração de Costa Neto de que o então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu candidato a vice, José Alencar Gomes da Silva, estavam presentes à reunião na qual se tratou de repasse de verbas para a campanha do Partido Liberal.

Apenas um detalhe perverso: o tom das manchetes e dos comentários na TV, a partir das chamadas de capa da revista Época, induzia a opinião pública a entender que a negociação se referia ao tema central do atual escândalo político – o pagamento de propinas para deputados apoiarem propostas do Executivo levadas a votação no Congresso.

A rigor, porém, a entrevista de Costa Neto se referia, do começo ao fim, apenas ao planejamento de custeio da campanha eleitoral. O ex-deputado não havia confessado um crime, apenas explicava como havia combinado a partilha dos recursos para a campanha, ressalvando que Lula e Alencar se retiraram do ambiente quando a conversa passou a tratar de valores. Da Época para as manchetes de jornais, passando por interpretações indignadas de âncoras da TV e títulos absolutamente afirmativos das edições online, tudo apontava para o envolvimento do presidente em conchavos ilegais. O vice-presidente, citado na entrevista, foi poupado.

O próprio Valdemar Costa Neto veio a público, no sábado (13/8), para desmentir a interpretação forçada de suas palavras. Em vão. A imprensa não lhe deu mais do que um registro nas "últimas notícias" da internet. Nas edições de domingo, nada se viu que se comparasse ao estardalhaço com que a versão distorcida havia ganhado as páginas e as telas desde a sexta-feira. A imprensa errou em peso, o que descarta a hipótese do erro e reforça o que se tem dito aqui – que a mídia se move na direção da confirmação de suas próprias premissas, não necessariamente pela busca da verdade.

Negativa e pessimista

O conjunto de indicadores econômicos, palpites e especulações que a imprensa chama de "mercado" reagiu com nervosismo. A cotação do dólar saltou 3,20%, o índice das ações mais negociadas na Bolsa de Valores (Bovespa) caiu 1,84%, o mercado futuro de juros apontou uma elevação em alguns tipos de contratos.

Toda a imprensa, incluídos os comentaristas dos principais noticiosos da televisão, creditou o solavanco à crise política, associando linearmente a entrevista, o depoimento e especulações de representantes oposicionistas sobre a hipótese do impeachment do presidente. No entanto, os jornais de economia e os cadernos especializados dos grandes diários de São Paulo e do Rio, bem como a maioria dos sites especializados consultados pelo observador, traziam, com menor ou maior destaque, a informação de que a volta do Banco Central ao mercado de câmbio, anunciando leilão de compra de dólar à vista, era a causa principal da oscilação no valor da moeda americana. Além disso, o dólar estava sob influência relevante dos preços internacionais do petróleo. Boletins de bancos de investimento acrescentavam que a Bovespa havia se mantido relativamente estável, dentro do padrão de recuperação que vem apresentando desde julho.

Um consultor de investimentos ouvido pelo observador explicou que, em circunstância de desassossego, alguns investidores mais nervosos deixam o mercado de ações e tentam proteger parte de seu patrimônio em dólar. Acrescentou que, dada a densidade apresentada pelo noticiário para os fatos políticos, tanto se podia dizer que o mercado havia sido abalado pelo noticiário protagonizado por Mendonça e Costa Neto, como também se podia creditar as oscilações à própria natureza dos fatos econômicos, nos quais se incluem fatores internacionais. A escolha, neste caso, é do jornalista, ponderou.

As manchetes ainda vociferavam nas bancas, sexta-feira, quando o presidente apareceu na televisão para apresentar desculpas à nação. Quase imediatamente, o mercado começou a reagir. Ainda antes de serem publicadas as interpretações colhidas pela imprensa para a fala de Lula, a Bolsa havia entrado em recuperação, encerrando os negócios na pontuação mais elevada do dia, consolidando o processo de recuperação com um ganho total de 3,49% em agosto. O dólar desacelerou e retornou praticamente aos patamares da semana anterior, e o juro futuro se estabilizou.

Temos, então uma equação a resolver: o mercado realmente sofreu turbulências por conta do noticiário político, e a imprensa tem forte influência sobre o comportamento dos investidores, ou o que houve foram movimentos mais ou menos naturais e nem tão graves, como relatam os boletins especializados? Por outro lado, a rápida recuperação dos mercados, iniciada e consolidada ainda antes que a mídia, mesmo a televisão e o rádio, pudesse dar uma interpretação – que acabou sendo, majoritariamente, negativa e pessimista – para os efeitos da fala do presidente, indica que os agentes financeiros pensam por si mesmos, independentemente do que diz a imprensa?

Nenhuma retificação

Já se disse aqui, com base em depoimentos de analistas financeiros, que as dificuldades políticas do presidente Lula – desde a crise de fevereiro de 2005, quando as disputas internas no PT acabaram por eleger presidente da Câmara o deputado Severino Cavalcanti, do PP – não representam mais do que 5% dos fatores que influenciam o mercado. O que falta resolver é: qual o peso real da versão oferecida pela imprensa sobre a visão de realidade da população em geral?

O pensador francês Pierre Bourdieu, ao tratar diretamente do papel da imprensa ou, transversalmente, ao lidar com seu tema predileto, as formas simbólicas de dominação desenvolvidas no ambiente social, já lançou luz suficiente para nos fazer entender que a influência da mídia sempre necessita de um contexto psicológico no qual a notícia se encaixe como integradora de desejos ou temores. Ou seja, a imprensa se vale dos medos, desejos, frustrações e esperanças da sociedade para incrustar sobre a opinião geral suas próprias opiniões ou premissas. Para o bem ou para o mal.

Essa influência é tão menos poderosa quanto mais racional for o receptor da notícia. Talvez seja esse o motivo pelo qual o chamado mercado não se abala na proporção dos tremores produzidos pela gravidade extrema da crise política. O mercado é infinitamente menos sutil e complexo do que a sociedade, do qual é apenas uma parte. Essa influência pode ser muito mais poderosa sobre a população em geral, especialmente sobre os mais vulneráveis, como os jovens ansiosos por um emprego e um lugar no mundo, ou por aqueles menos providos, para os quais a esperança de dias melhores é praticamente a única razão de viver.

O depoimento do publicitário Duda Mendonça, no qual o marqueteiro predileto da mídia – que sempre soube, como ninguém, usar o deslumbramento da imprensa com os indivíduos tidos como bem-sucedidos para ganhar ainda mais dinheiro – confessou ter se valido de conta bancária no exterior para receber o que lhe era devido pelo PT, foi o ponto mais quente da atual safra de revelações sobre práticas escandalosas do partido do presidente. Mas o que levou as suspeitas para perto de Lula foi a interpretação dada à entrevista de Valdemar Costa Neto.

Uma vez que o próprio autor das declarações veio a público, no sábado, para retificar a leitura que a imprensa havia feito de suas palavras, esperava-se que o teor do noticiário fosse retificado no domingo. Isso não aconteceu. Pelo contrário, o noticiário seguiu "repercutindo" uma revelação que, afinal, nunca havia acontecido.

Sonhos de mudança

Como, segundo Bourdieu, é preciso pavimentar o sentimento coletivo para que a mensagem seja efetiva, pode-se afirmar que o que estamos assistindo é um processo deliberado e inexorável de quebrantamento dos espíritos. Como se os fatos em si não fossem, de sua própria natureza, suficientes para conduzir a sociedade da indignação ao desalento, e do desalento à descrença, tem o cidadão comum que lidar com a manipulação e o rolo compressor que não admite revisões – porque não veremos nem naquela coluna chamada "erramos" a admissão de que o ex-deputado Costa Neto não disse efetivamente o que disseram que havia dito.

Nessa direção, estamos claramente ampliando o fosso entre os que têm acesso a informação de qualidade, e podem tirar vantagens tanto da estabilidade quanto da turbulência, e aqueles que sempre perdem. Quanto a estes, ganhariam se o noticiário lhes desse a verdadeira dimensão dos nossos problemas políticos. Aprenderiam a escolher, pelo voto, seus representantes e seus dirigentes. Como vai a coisa, a imprensa não contribui para melhorar o senso crítico e segue, a grande maioria da população, decidindo com o fígado.

Diante da versão de que os políticos são todos iguais, que nos passam todos os dias, cresce o desânimo. Quando, enfim, estiver a massa dos eleitores envergonhada de sua própria esperança, quando a sociedade manifestar sua plena decepção no processo democrático, estaremos reduzidos da condição de povo à circunstância de mercado. Teremos deixado de ser cidadãos e seremos consumidores, investidores, vendedores e compradores. Então, quem sabe a mídia nos apresente o novo salvador da pátria – aquele candidato sisudo, resolvedor de problemas, aquele que não acena com um projeto de nação, aquele que não ousa sonhar alto. Apenas um bom gerente de um projeto político preexistente, o único projeto em vigor neste país espoliado desde a primeira pegada do primeiro europeu em nossas praias. Um candidato do qual ninguém haverá de temer que acorde um dia com idéias visionárias ou com sonhos de mudança nos eixos da sociedade.

Comentários (13)
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Rogério Ferraz Alencar , Fortaleza-CE - técnico da Receita Federal
Enviado em 23/8/2005 às 11:29:06 AM
"Quem está por trás disso e é capaz de reger vários jornais, revistas, sites, emissoras de TV e de rádio ao mesmo tempo?", pergunta o Sr. Romeu di Sessa, em "Decepção, a palavra de ordem (final)". Creio que isso não é tão difícil, pois a propriedade dos veículos de comunicação é absurdamente concentrada, no Brasil. Assim, se o sistema Globo, por exemplo, quiser dar determinada feição a um caso, basta acionar suas inúmeras emissoras de TV, seus diversos jornais, suas diversas emissoras de rádio, seus portais e blogueiros na internet. Em suma: se cinco ou seis empresários de comunicação quiserem, a quase totalidade da mídia adotará a mesma postura em relação a algo, pois a quase totalidade da mídia pertence a eles.
Isabel Alonso Alonso , Rio de Janeiro-RJ - administradora
Enviado em 22/8/2005 às 8:27:49 PM
É de impressionar o jornalismo da TV Globo... para tirar o brilho e a verdade do depoimento do Palocci, está passando o Alckmin falando o tempo todo: "A função do MP estadual, como algumas pessoas não conhecem (referindo-se ao Palocci) é de não ter segredos para a população sobre os depoimentos que ocorrem. Que nojo desse Sistema Globo e desses políticos tipo Serra, Alckmin e FHC. Quebraram o Brasil mil vezes e ninguém fala nada. O Arminio Fraga foi secretário do Soros, aquele que adora derrubar economias por aí afora. Venderam o solo brasileiro (CVRD) por 3 bi e agora ela vale por baixo uns 45 bi de dólares, e ninguém cobra isso. Sabem o que eu acho? O maluco do Zé Dirceu tá é certo mesmo. Esse Congresso que se vende merece é isso mesmo!
Claudio Marcos Silveira , Porto Alegre-RS - funcionário público aposentado
Enviado em 22/8/2005 às 3:22:11 PM
Prezado Sr. Luciano, ótima matéria, que aproveito para voltar a chamar a atenção do ilustre mestre jornalista, Sr. Dines: a imprensa cria notícia, sim. Este é um exemplo.
Regina Aradhan C. Ferreira , Petrópolis-RJ -
Enviado em 22/8/2005 às 10:54:57 AM

Antes a esperança, depois a angústia com os erros sucessivos, a depressão e agora, o medo. Estão me assustando alguns fatos indigestos: a demora da punição exemplar; a empafia dos criminosos com disfarce de políticos; a possibilidade do "Bob X9 Jefferson" ser condecorado por sua filha na Câmara de Vereadores do Rio; o enterro cataléptico da CPI do Banestado; a reforma política permissiva e aprovada às pressas por esse Congresso desacreditado; a perda da decência da oposição e o abuso do Ministério Público paulista que se envolve em política ao ser porta-voz "ontime" de bandido - é assim que se interroga e se dá credibilidade a criminoso?

A crise está ficando grotesca, e isso é o atalho pra pizzaria. O denuncismo gera a banalização das denúncias... Tem que ser feita devassa nos caixas de todos os partidos e, pelo menos, uma radiografia do governo anterior. A corrupção é institucional e a compra de votos não foi inventada pelo PT!

Cidadania exige Operação Faxina nos Três Poderes que, de tão podres, já mancharam meu título de eleitora. Vou usá-lo em 2006?

Alexandre Barbetta , Poá-SP - consultor de empresas
Enviado em 20/8/2005 às 9:42:31 PM

Leio a Veja toda semana e noto que primeiro não respondem a críticas por e-mail. Sinto uma má intenção da revista, só não se sabe se em busca de audiência ou por outros interesses. As perguntas que têm que ser respondidas, na reportagem do caso Palocci: 1) Como a revista conseguiu em 2 dias fazer uma reportagem tão grande com acesso a grampos telefônicos, depoimentos, entrevistas? O estranho é que até quinta-feira, antes de Buratti se pronuniciar à promotoria, ninguém sabia do assunto, como foram tão rápidos com as matérias e as gravações? 2) Cadê as provas, cadê as transcrições das tais gravações? 3) No bom jornalismo tem que se ouvir a versão do "outro lado" da história, pois se foram tão rápidos para fazer essa edição, deveriam ter colocado na matéria que a promotoria não encontrou provas ligando diretamente o fato a Palocci. 4) E por fim, cadê a ênfase à parte do depoimento onde se ligam prefeitos do PSDB ao suposto esquema? Se não se provar nada contra Palocci ficará evidenciado que a revista utilizou a forma mais suja e desonesta de atingir o único membro do governo que estava distante da crise e afetar a maior conquista do governo Lula.

Se isso foi feito por causa de uma suposta briga por "ibope", é lamentavel, pois vê-se a falta de escrúpulos da imprensa brasileira, mesmo que esteja em jogo a estabilidade do Brasil. Se foi por outros motivos alheios ao jornalismo, sem comentários...

Roberto R. da Silva , Recife-PE - eletricista
Enviado em 20/8/2005 às 5:56:04 PM
Por que só a Rede Globo teve acesso à sala do Ministerio Público onde Buratti estava fazendo acusação sem mostrar nenhuma prova legal contra Palocci? Para mim existe um grande esquema na imprensa, só que estamos muito atentos.
Edson Rasquel , Belo Horizonte-MG - advogado
Enviado em 20/8/2005 às 3:27:45 PM
Será que a Fiesp, a Miriam Leitão, o ACM e outros que choraram pela Dona Daslu vão se indignar com a conduta do Ministério Público paulista e o modo como tratou o advogado Rogério Buratti, colocando-o com roupa de presidiário e todo o estadalhaço que o promotor fez na imprensa? Será que a hipocrisia veio pra ficar?
Clérinson Dias , Curitiba-PR - estudante de TI
Enviado em 20/8/2005 às 2:58:26 PM

Veja o que li nos jornais, dia 20 de agosto de 2005: vendas de eletroeletrônicos crescem 16,28% no 1º semestre; Brasil tem a dívida externa mais baixa desde 1997; superávit histórico no mês passado - o maior saldo obtido num único mês desde que o BC começou a série histórica deste indicador econômico, em 1947; exportação recorde de frangos do Paraná.

Se alguém ainda questiona o sucesso do atual governo, mais uma boa notícia: os gastos de turistas estrangeiros no país aumentaram 34,23% em julho. O crescimento, comparado ao mesmo período do ano passado, que já havia sido o melhor da história, foi de 17,20%. De acordo com o diretor da Embratur, José Francisco de Salles Lopes, "isso significa que estamos colhendo o resultado de um trabalho coletivo do Brasil, com uma ação maciça de promoção no exterior, tanto do Ministério do Turismo, por meio da Embratur, quanto dos órgãos públicos e privados de turismo".

Agora entenda por que essas pessoas do PSDB e do PFL estão tão preocupadas querendo acabar com o governo Lula. É lógico, as eleições de 2006 estão aí.

Sérgio Baker , Fortaleza-CE - funcionário público
Enviado em 20/8/2005 às 9:23:33 AM
Esta semana a CPMI dos Correios rejeitou o requerimento de convocação de Toninho da Barcelona, uma união entre a base governista e os tucanos - estes usando a manobra parlamentar de ausentar-se da sessão. A imprensa foi unânime em apresentar o fato como manobra governista, deixando de lado a participação dos tucanos. A pergunta que não quer calar é: por que os tucanos têm tanto medo de Toninho da Barcelona? Dependendo da resposta, a situação do pais pode ser muito pior do que já está. Não sei por que a imprensa não deu a devida importância a esse fato. Leva-me a pensar que há manipulação na divulgação dos fatos para atender a interesses -ão republicanos.
Haroldo Mourão Cunha , São Gonçalo-RJ - agente social
Enviado em 20/8/2005 às 12:58:51 AM

Começo com dois plágios, um antigo e surrado da direita brasileira contra as esquerdas e lembrado por Marinilda Carvalho em sua entrevista com o professor Gisálio Cerqueira Filho ("Não podem ganhar; se ganharem, não podem tomar posse; se tomarem posse, não podem governar; se governarem, devem ser retirados do governo.") e outro do escritor Robert Benchley: "Levei 15 anos para descobrir que não sabia escrever, mas aí não podia mais parar. Tinha ficado famoso demais."

Alguma relação com a atual crise brasileira ou será mera conincidência? Com o beneplácito e a conivência da imprensa (leia-se: empresários da mídia), estamos vendo a morte de uma coisa que o jornalismo deveria sempre buscar: A VERDADE. O que estou vendo com esse linchamento é que o pré-julgamento abrirá precedente jurídico para a presunção de inocência de muitos gatunos, pois sem o direito de defesa ou mesmo acusações sem provas, como a Justiça prosseguirá na apuração dos fatos verdadeiros?

Por favor, senhores juristas, sejam eleitores do Lula ou não, escrevam sobre essas aberrações jurídicas que acontecem na TV a toda hora, na maior cara de pau e sem retificações.

Wagner Abreu Andrade , Paraopeba-MG - atendente
Enviado em 20/8/2005 às 12:00:24 AM
Total falta de respeito do Sr. jornalista Boris Casoy com o presidente da Republica. Comentários tendeciosos, exagerados a respeito do presidente. No episódio das malas quase não falou do caso (também, falar mal do chefe...). No seu telejornal, é como se o presidente fosse o grande arquiteto de tudo o que aí está. Isso e uma vergonha!!!
Gabriel Araújo dos Santos , Campinas-SP - aposentado
Enviado em 19/8/2005 às 7:09:19 PM

Estou, como a grande maioria do povo brasileiro, deprimido com o que está acontecendo. Existe, entretanto, alguém que queira tirar proveito e não fala coisa com coisa, e a imprensa infelizmente vai na onda e ajuda a disseminar a confusão. Por exemplo: no depoimento do Buratti, disse ele que um tal secretário, que já faleceu, disse que ouviu dizer que... Mas a imprensa, pelo menos as redes de televisão, não entraram neste pormenor, estão mandando ver.

Por outro lado, por que as redes de televisão ainda não deram a entrevista que o advogado do Buratti deu, falando de conversa que teve com o cliente, que estava num estado emocional deplorável, algemado e vestido com traje de presidiário? Por tudo isso me decepciono também com a imprensa, em especial com as redes de TV.

Romeu di Sessa [com resposta de Luciano Martins Costa] , São Paulo-SP - roteirista
Enviado em 17/8/2005 às 5:04:20 PM

Decepção parece ser a palavra de ordem do momento. Infelizmente estou usando essa palavra também pra me referir a coisas, pessoas ou entidades contra as quais nunca achei que usaria. Uma delas é o Observatório da Imprensa, pelo qual sempre nutri um enorme respeito, e sempre tive como referência, mas que surpreendentemente nessa crise vem adotando uma postura que me está sendo difícil de aceitar e que classifico de decepcionante.

É e sempre foi função dele prioritariamente observar os erros que acontecem na imprensa em geral, e na maioria das vezes fez isso com perfeição e isenção. Não sinto isso agora. Várias matérias sugerem aquela velha idéia janista de que forças ocultas estão manipulando os fatos, fazendo com que um leitor desatento tenha a sensação de que tudo está em ordem no governo Lula, o único problema se dá pelas coisas que a imprensa inventa ou manipula.

Este artigo talvez seja o melhor exemplo disso. Fala-se aqui de como aquele depoimento foi supostamente pervertido pela mídia, de como essa mídia não anunciou o fato de que aquilo era simplesmente uma negociação normal entre dois partidos, com o maior passando verba de campanha ao menor, mas faz isso oportunamente se esquecendo de alguns fatos extremamente importantes como: esse dinheiro não tem fonte declarada, é muito provavelmente dinheiro advindo de caixa 2, uma modalidade que, é bom lembrar, é criminosa; não há explicação comprovada de para onde foi esse dinheiro, se foi mesmo usado prosaicamente em broches e cartazes de campanha, ou se foi usado para alguns outros fins; não há uma explicação convincente de por que cargas d´água Lula e José Alencar saíram da sala quando começou-se a falar de dinheiro, porque, se a coisa é toda lícita, qual é o problema de tratar desse assunto?; o partido receptor desse dinheiro é o PL, partido que não tem a mais ínfima, remota ou rarefeita relação com o ideário do PT, pelo contrário, são opositores na medula, defenderam durante suas existências coisas absolutamente opostas e excludentes entre si; o presidente do PL, valendo-se da manobra mais manjada da história republicana do país, renunciou ao mandato, atitude sub-reptícia tomada amiúde por todos aqueles congressistas que sabem que estão com o pé na lama, prontos pra serem pegos e usam então desse expediente pra garantir o próximo mandato, quando percebem que o atual já está condenado; e o mais importante de tudo: essa declaração prosaica acontece num momento em que há indícios mais fortes do que cheiro de urina de rato que o PT comprou congressistas para que esses votassem a seu lado nas questões lançadas pelo governo, dentre os acusados está exatamente o PL, podendo portanto essa doação ser uma comprovação da suspeita. (vocês estão esperando que apareça o quê? Um cheque pessoal do Lula nominal a algum deputado no valor de 30 mil reais escrito atrás "para pagamento de mensalão"? Bom para depois da votação da lei tal"?)

Como é possível avaliar-se este suposto erro da imprensa sem levar em conta todas essas questões? Ou: como todas essas questões não dão respaldo ao que foi dito pela imprensa? Por favor, não me tragam mais uma decepção. Acho que infelizmente cabe a pergunta: quem observa o observador?

Luciano Martins Costa responde

Senhor Di Sessa, ao observador não cabe comentar o fato em si, mas a relação do fato com a notícia do fato. No caso específico, se o senhor leu a entrevista, suas versões e repercussões, sabe que houve exatamente isso: que ela se tornou, nas versões noticiadas, um fato completamente diverso do conteúdo exibido na fonte original, a revista Época. O fato descrito, rigorosamente analisado, era a negociação de cotas em fundos de campanha. Qualquer um pode adivinhar que já naquela altura os protagonistas sabiam que parte daquele dinheiro não seria declarada ao fisco. Acontece que jornalistas não podem sair por aí publicando adivinhações. Tudo o mais que segue em seu comentário é posterior.

Portanto, caberia à imprensa fazer a correlação entre as declarações de Costa Neto e o que se conheceu depois, mas as declarações em si não agravam os fatos do escândalo - já por si mesmos extremamente graves. O senhor pode fazer as ilações que quiser, como o faz em seu comentário. O jornalista, não. O jornalista deve buscar os nós da rede de fatos para nos facilitar o entendimento do que acontece. Não é possível, por exemplo, que algum leitor, por mais desatento, ache que "tudo está bem no governo Lula" simplesmente porque alguns observadores insistem em que certas práticas essenciais do bom jornalismo não sejam soterradas pela decisão a priori de desmontar o movimento que levou Lula ao Planalto.

Ao contrário, a imprensa há muito nos deve um texto sobre as origens e conseqüências históricas desse descalabro, sobre o significado dessa ruptura, talvez fazendo uma relação com os escândalos do governo socialista de Mitterrand na França. Ao forçar e distorcer certos fatos, a imprensa constrói uma base frágil para o julgamento que o Sr. Lula da Silva haverá de ter - depois de apurada a verdade. E nesse julgamento a condenação poderá ser muito mais grave e definitiva, se sobrar de sua imagem pública uma lembrança do que ele deveria ter significado na nossa história política. Ou o Sr. acha que ele só chegou ao poder por artes do Sr. Duda Mendonça? Para que Lula preste contas um dia, assumindo não apenas as responsabilidades que lhe cabem nos fatos escandalosos em si, mas principalmente diante da História, é preciso que a crônica do escâdalo seja acurada.

Insisto em que a pressa em comprovar premissas está impedindo que esse trabalho seja bem feito pela imprensa. Precisamos, todos, ser observadores atentos. Quanto aos frequentadores deste Observatório, observe que todas nossas paredes são transparentes. (L. M. C.)

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