ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 344 - 24/11/2009
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MÍDIA E A BOLA DA VEZ
Silêncio dos intelectuais e o barulho dos tolos

Por Deonísio da Silva em 29/8/2005

O silêncio é o que se diz naquilo que se cala. (Eduardo Portella)

A mídia acabou de inventar uma daquelas suas verdades inapeláveis: a de que os intelectuais estão em silêncio. Não se sabe como procedeu para tirar tal conclusão, mas os indícios são os de sempre: alguém diz e outros repetem ad nauseam. Isto posto, já não se questiona se há silêncio, não se define o conceito de intelectual, nem o de silêncio. É deflagrado sem mais delongas o círculo vicioso da insensatez. O mais desconcertante é que os intelectuais entrevistados tenham caído na armadilha da pergunta e enchido o balaio dos interrogadores com carradas de tolices.

Quem está em silêncio, senhores e senhoras? Por que a pergunta foi feita apenas àquela meia dúzia barulhenta de sempre, agora calada por um breve período? Antes como agora tinha pouco o que dizer, a não ser submeter-se com saltitante desenvoltura à orquestra de aprovação, sem crítica nenhuma. E antes deles foram outros a parar nos cárceres, a perder empregos, a sofrer muito na vida enquanto sindicalismos de todos os tipos ensejavam o bem-bom para muitos que o que mais fazem é vangloriar-se de um passado que não tiveram. Quem ousasse sequer ponderar, nem se tratava de discordar, era excluído do convívio dos happy few, que eles, sim, sabiam de tudo.

Por acaso intelectuais como Francisco de Oliveira, Emir Sader, Frei Betto, Marco Antonio Villa, Denis Rosenfeld e Olavo de Carvalho, entre outros (cito autores de idéias discrepantes, mas a nenhum deles pode ser negada a condição de intelectual), estiveram calados? Estão calados? E aqueles outros intelectuais, a maioria, que JAMAIS são cobertos pela mídia, estiveram calados? Estão calados?

Verdades essenciais

Dá até pena verificar a relação entre imprensa e universidade, por exemplo. Surge um tema sobre o qual é necessário entrevistar um intelectual. Um jornalista é destacado para a tarefa. É norma que seja novo no ofício, venha exercendo a profissão há pouco tempo. O que faz esse profissional? Digamos que o tema seja a falta de água no mundo – aliás, iminente, anunciada para ocorrer ainda neste decênio. Pois, pauta na mão, o primeiro procurado é o reitor, o diretor, o chefe do departamento, essas instâncias. Ora, no meio universitário, principalmente nas universidades públicas, o pesquisador não é chefe de nada, não tem cargo nenhum. Aliás, é condição para seu trabalho afastar-se de cargos.

O PT, hegemônico nas universidades públicas, tampouco permitiria que um estranho no ninho chegasse a instâncias decisivas. Por norma – certamente há as exceções de praxe – há mútua repelência ou descaso entre uns e outros, isto é, entre quem pesquisa, ensina e trabalha e aqueles que fazem carreira militante nos campi. Nem a ditadura militar teria ousado nomear reitores certas toupeiras que, eleitas pelo que se convencionou denominar "comunidade universitária", foram alçados a instâncias universitárias como reitorias, pró-reitorias, direções, chefias etc.

Listas sêxtuplas e tríplices disfarçam o engodo, mas a norma é que haja cumplicidade de propósitos, que não podem ser explicitados, entre eleitores e eleitos. Ora, um Estado que tem um projeto educacional, um projeto de pesquisa, terá também quadros para designar autoridades nos campi. Sobre esta questão, sim, há um longo silêncio que já dura décadas, enquanto a universidade patina nas ditas eleições subsidiadas por "consultas à comunidade".

Enquanto os expoentes do silêncio, cujos contornos foram agora delimitados erroneamente, recolhiam palavras e textos, outros, que JAMAIS estiveram em silêncio, continuaram fazendo da palavra a sua principal ferramenta de trabalho, falada ou escrita, na sala de aula ou fora dela, na imprensa ou em revistas especializadas, em artigos e em livros.

Em resumo, ficaram em silêncio aqueles que, abdicando da capacidade crítica, aderiram e se submeteram à nova nomenclatura do poder, em muitos casos numa sabujice de dar dó! Houve até quem questionasse a norma culta da língua portuguesa para que fosse adequada aos plurais sem o "s" final, marcado apenas no artigo, tendo chegado até a dar gênero a advérbio como "menos", que bem poderia ser "menas", sim, à luz do código triunfante de quem declarou que não lia porque era cansativo, preferindo por isso a esteira de ginástica.

Pois é, mas algumas verdades essenciais de nossa existência estão apenas nos livros e somente ali poderão ser encontradas. A Humanidade batalhou muito para obtê-las. Em muitos casos, seus autores padeceram a perda da liberdade e da vida para chegar aonde chegamos.

Bem precioso

Há silêncios e silêncios. Houve entre nós, recentemente, um longo silêncio, deflagrado nos anos pós-1964 e retomado com violência ainda maior nos anos pós-1968. Mas depois houve novos silêncios impostos. Novos suseranos e novos sátrapas, estabelecidos nas universidades, nas agências financiadoras de projetos de pesquisa e também na imprensa, enfim no sistema que preside à expressão dos intelectuais, sem o qual o pensamento deles não é conhecido (editoras, por exemplo), lançaram mão de procedimentos que diziam condenar e os utilizaram para perseguir colegas, anular-lhes a expressão, impedir a discordância, vetar a saudável controvérsia que deve vigorar em ambientes intelectuais sadios.

Se imprensa e universidades sofressem contínuas devassas como as impostas ao Congresso, nessa sucessão atordoante de CPIs, outros silêncios viriam à luz, outros calados se manifestariam e as revelações seriam tão ou mais estonteantes do aquelas que a imprensa não cessa de estampar com tanto destaque dia sim, dia também.

A etimologia oferece pistas curiosas para o papel dos intelectuais numa sociedade de classes, excludente e violenta como a brasileira, em que a cordialidade é privilégio dos mandantes, em grandes acordões, em alimentos que não podem dispensar o aroma inevitável do orégano. Ambas as palavras, silêncio e intelectual, dão entrada na língua no século 14. Cheirando ainda ao ambiente rural do paganismo romano, a língua portuguesa vincula as origens de intelectual a atividades agrícolas (a raiz comum "leg", presente em colher, entender, reunir, inteligência, diligência, intelectual etc) – o que, aliás, faz também com cultura (cultuam-se o trigo e o pensamento, o verbo é o mesmo), erudito (ex-rude) etc.

E está em silêncio quem precisa calar-se, como o depoente num interrogatório, em atividade cujo domínio conexo com "tacere" (guardar silêncio) leva-nos a entender melhor o que vem a ser um sujeito taciturno: é aquele que está triste por não poder dizer o que sabe, o que precisa calar.

Mas um dia virá a alegria de poder dizer o que agora cala, pois, como ensina o Eclesiastes, para tudo há um tempo. E por mais que tenham sido ditas muitas coisas, e caladas tantas outras, há muitas mais que haverão de ser proferidas, assim como outras que serão caladas, com a probabilidade de algumas delas serem caladas para sempre. Por isso, os poetas podem dizer dos mortos que são silentes! São, de fato, mas também eles podem ter procuradores autorizados a revelar o que os homicidas e suicidas quiseram calar com a fabricação de cadáveres. Pois não estão aí as biografias?

Vladimir Herzog – como esquecer?, faz trinta anos! – falou muito depois de morto pela pena de um juiz corajoso que ousou enfrentar o status quo e condenar o Estado, que não soube garantir a integridade do cidadão que prendeu para averiguações. Não satisfeito de roubar-lhe o mais precioso dos bens, depois da vida, que é a liberdade, impôs a um jornalista, portanto um intelectual, a morte sob tortura. Perto de sofrimentos como o de Vladimir Herzog (já morto) e Fernando Gabeira (ainda vivo), certo silêncios ditos de intelectuais mudam nossas decepções, alterando sua importância, feitio e tamanho.

Como diz Cecília Meireles no Romanceiro da Inconfidência:

"E recompunha as coisas incompletas:/ figuras inocentes, vis, atrozes,/ vigários, coronéis, ministros, poetas".

Comentários (5)
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Maria Cristina Rossini , São Paulo-SP - professora
Enviado em 9/6/2006 às 7:50:36 AM
os "intelectuais" brasileiros - pelo menos os que estiveram na moda nas últimas décadas, devem estar envergonhadíssimos.... Afinal, ajudaram a induzir nosso povo ao erro monstruoso, por confiarem nos tais intelectos. Pois é........inteligência é um bem relativo. Honra lhe supera!!!!
Haroldo Arruda , São Paulo-SP - estudante
Enviado em 4/9/2005 às 7:53:22 PM

Deonísio da Silva, causou-me alegria ler seu texto. Quanta clareza e combatividade! Penso que você acertou no alvo: a mídia, especialmente a Folha, criou esta celeuma em torno do "silêncio dos intelectuais". No entanto, gostaria de acrescentar um nome: Marilena de Souza Chauí. Todos os textos batem na tecla de que ela é a responsável por este silêncio.

Cabeça a prêmio, tentam de todas as formas incurtir que a filósofa, por ser declaradamente petista, deveria vir a público para alvejar o tiro de misericórdia no partido já agonizante. Ao diagnosticar esse embuste midiático ao qual chamam de "silêncio dos intelectuais", os jornalões cobram de Chauí uma posição e uma exposição pública, obrigando-a a tomar um lado, ou seja, a posicionar-se. Querem que ela seja intelectualmente destruída, seja qual for sua escolha: declarando-se pró-PT, seria omissa e demagoga; caso contrário, viria dela, expoente maior da intelectualidade petista, o escarro do desprezo sobre a bandeira vermelha.

Por que não falam em silêncio de Antonio Candido de Mello e Souza? Por que não falam em silêncio de Olgária Matos? Maria Vitória Benevides? Alfredo Bosi? Gabriel Cohn? Marilena Chauí é tudo que a mídia burguesa e falsária quer para selar os casos de corrupção no Partido dos Trabalhadores. Seria uma forma de aniquilamento público da maior intelectual engajada da esquerda.

Fábio Henrique Carvalho , Petrolina-PE - professor universitário
Enviado em 4/9/2005 às 11:36:23 AM

Obrigado, Deonísio. Muito importante para mim foi a leitura deste texto. Tanto por conta do atual momento que estamos atravessando, quanto pelo que estou (sobre)vivendo na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), recém-criada, e para a qual prestei concurso público, sendo aprovado e nomeado.

Não bastassem as decisões (quase todas por unanimidade) questionáveis e, no mínimo, estranhíssimas, que vão sendo tomadas por nosso Conselho Universitário, todo ele formado por indicação do reitor - fechado aos anseios dos demais professores e estudantes (chegando inclusive a expulsar um colega que apenas queria assistir a uma de suas reuniões como ouvinte, o que não ocorre em nenhuma universidade pública), ainda temos que nos privar do direito expresso na Constituição, o de livre manifestação do pensamento.

Estou aguardando a comunicação oficial de um possível Processo Administrativo Disciplinar aberto contra mim pelo reitor. Motivo: mensagem que enviei a todos os professores da universidade, inclusive ao reitor e a seus tentáculos, em que critico e listo algumas decisões equivocadas tomadas pelo nosso Conselho Universitário e o comparo a um chá das cinco num clube fechado. Pretendo inclusive enviar este texto a este Observatório, dentro em breve.

Vera Candido , Rio de Janeiro-RJ - professora
Enviado em 3/9/2005 às 4:39:48 PM
Como me parece que o senhor não entendeu absolutamente nada sobre a discussão filosófica acerca do "silêncio dos intelectuais", que pouco tem a ver com a crise política brasileira atual, recomendo-lhe ler o artigo de Flávio Aguiar, O furacão e o silêncio", na Agência Carta Maior, no qual está tudo muito bem explicado.
Fábio Carvalho , Porto Alegre-RS - Jornalista
Enviado em 30/8/2005 às 10:51:25 PM
Adorei o artigo, quando eu crescer quero escrever igual ao autor... Quanto à pergunta feita, uma sugestão: toda a mídia manchetou alguma coisa do tipo "Marilena Chauí, a intelectual petista, quebra o silêncio". Só faltou um chargista colocar a borboleta na boca da Chauí. Daí, no jargão, a pauta traz "suítes" sobre o (suposto) silêncio dos intelectuais. E assim caminham as editorias, forjando a realidade. Diariamente.
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