ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 353 - 17/11/2009
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DIPLOMA DE JORNALISMO
Decisão judicial põe fim ao vale-tudo

Por Rogério Christofoletti em 31/10/2005

A decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que restaura a obrigatoriedade do diploma para a obtenção do registro profissional de jornalista, restabeleceu a ordem jurídica no campo do Jornalismo. Isso porque recolocou os pingos nos is após uma batalha de quatro anos pela validade da regulamentação da categoria. Lembrando: em outubro de 2001, a juíza federal Carla Abrantkoski Rister concedeu liminar a uma ação civil pública, desobrigando qualquer cidadão de portar diploma de nível superior na área para conseguir seu registro profissional de jornalista. Traduzindo: numa canetada, a juíza punha por terra o Decreto-Lei nº 83.284/79, que regulamenta a profissão, e escancarava os portões do mercado de trabalho num descarado vale-tudo.

De 2001 para cá, órgãos classistas e setores expressivos da categoria (bem como dos estudantes e professores da área) tentaram derrubar a liminar contra o diploma, o que só conseguiram no TRF na quarta-feira (26/10). A posição unânime dos juízes surpreendeu os mais otimistas, já que até mesmo o relator, Manoel Álvares – que em outra ocasião já havia reiterado a liminar – foi favorável à obrigatoriedade do diploma. O reposicionamento do desembargador chamou a atenção por ser atitude pouco freqüente no Judiciário, sempre conservador e avesso a mudanças bruscas de lado, mesmo em detrimento da justiça.

Diversos públicos

Mais do que restaurar a validade da lei mais importante para a classe jornalística – aquela que lhe dá contornos visíveis de função e atuação no campo do trabalho na sociedade brasileira –, a decisão do TRF reforça o entendimento de que é necessária uma formação específica para o exercício do jornalismo. E expande essa noção para além dos interesses corporativos: afinal, entre as conseqüências de uma maior profissionalização do jornalismo por conta de uma formação superior de seus trabalhadores está um ambiente com informações com mais qualidade, com mais ética e responsabilidade. Assim, a formação específica não apenas serve como argumento para a reserva de mercado, mas tem no interesse público o seu mais forte sustentáculo.

De quebra, a decisão do TRF ajuda a resgatar parte da auto-estima da categoria: afinal, nos últimos tempos, a profissão vem sofrendo revezes. Dividiu-se diante do projeto do Conselho Federal de Jornalismo e foi "rebaixada" na Tabela de Áreas de Conhecimento (TAC) do CNPq, deixando de ser subárea. Neste segundo episódio, a gritaria de camadas representativas e influentes do meio acadêmico deu resultado e o CNPq se dispôs a dialogar sobre uma nova proposta a ser entregue até o fim do mês que vem.

O que fica dos tremores que chacoalharam o campo do jornalismo nesses tempos? Uma primeira conclusão que se pode tirar é que grandes mudanças não podem ser feitas de maneira apressada. Complexa e heterogênea, a comunidade que vive de e para o jornalismo é formada por diversos públicos, com interesses nem sempre coincidentes, o que significa uma permanente tensão interna.

Muita coisa para fazer

Outro ponto a se considerar é que, tal como em outras camadas da sociedade, é absolutamente necessário buscar uma unidade de propósitos. Não significa dizer da necessidade do pensamento único, praticamente impossível nesta comunidade, dadas as suas pluralidade e dinâmica. Mas ao dizer "unidade de propósitos" refiro-me à formação de pelo menos um núcleo rígido de princípios e valores que norteiem as ações dessa comunidade. Assim, jornalistas, professores, pesquisadores e estudantes da área precisarão – cada vez mais – encontrar pontos de coincidência, afinidades para fortalecer sua luta e a reivindicação de seus pleitos. À medida que se observar o crescimento desses nós comuns entre diferentes pares, observaremos também o enrijecimento e amadurecimento da área e de seu campo de atuação.

Uma terceira lição que se tira desses percalços todos é a urgente necessidade de uma maior discussão interna na comunidade. Ainda debatemos pouco os nossos problemas; ainda reviramos pouco as nossas vísceras. Dispomos de raros ambientes para fazê-lo e de menos disposição ainda para enfrentar os nossos fantasmas. Precisamos conhecer os limites do nosso campo; precisamos conhecer melhor quem compõe a nossa comunidade e o que faz de nós o que julgamos ser. O surgimento e consolidação de algumas entidades vêm ajudando nesse sentido. São exemplares o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), a Sociedade Brasileira dos Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo. Mas há muito mais a fazer.

Repito a pergunta que lancei há pouco: o que fica dos tremores que chacoalharam o campo do jornalismo nesses tempos? Ensaio uma resposta pouco mais convicta: resta muito, sobra muita coisa para fazer. Guardadas as devidas proporções, os desafios que se apresentam são semelhantes aos de um recém-formado na área: a conquista do canudo é só o começo. Importante, mas só o começo. Com o diploma assegurado, temos mais em que pensar.

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Diploma para jornalista volta a vigorar – Marinilda Carvalho

O jornalismo perdeu sua cidadania – Nilson Lage

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Um bom susto e alguma consolidação – V. G.

Entre o canudo e a carteirinha – Luiz Martins

O jornalismo é uma profissão, sim! – Rogério Christofoletti

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A obrigatoriedade autocondenou-se – Alberto Dines

Luz no fim do canudo – Luiz Weis

Comentários (9)
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Julio Cezar da Silva , Maceió-AL - estudante de Jornalismo
Enviado em 7/11/2005 às 12:49:13 PM
Existe um ditado muito popular no Brasil, e aqui no Nordeste principalmente, que nós temos direito a um minuto de "besteira" por dia, sendo assim, acredito que no momento em que a juíza federal Carla Abrantkoski tomou a decisão de acatar a desabrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo no nosso país, estava diante desse minuto. Naturalmente, qualquer profissão exige uma formação técnica ou superior, fazemos melhor quando conhecemos o que somos. Para ser jornalista não poderia ser diferente. Nas universidades brasileiras, o clima de inquietação e ansiedade tomava conta dos estudantes de Jornalismo. Nós exigimos respeito!
Gisele Abolis [com nota do OI] , Presidente Prudente-SP - radialista/jornalista por liminar
Enviado em 5/11/2005 às 8:57:04 AM

Gostaria, se possível, saber como fica a situação daqueles que foram beneficiados pela liminar (ação civil pública) da juíza federal Carla Abrantkoski Rister.

Nota do OI

No site da Fenaj:

Após a decisão do TRF-3ª Região, que revogou por unanimidade a sentença que suspendeu a exigência do diploma universitário para o exercício da profissão de jornalista no Brasil, a luta das entidades sindicais da categoria concentra-se agora em combater o exercício irregular da profissão. A FENAJ está distribuindo aos Sindicatos de Jornalistas o certificado do julgamento e já fez contato com o Ministério do Trabalho e Emprego para a suspensão de novos registros e cancelamento dos registros de precários existentes. Leia mais

Geraldo Moura da Silveira , Alfenas-MG - advogado
Enviado em 4/11/2005 às 9:38:53 PM
Pergunta-se: se Rui Barbosa fosse nosso contemporâneo, seria justo impedi-lo de exercer o jornalismo pelo simples detalhe de não ter um diploma?
Marcelo Zapelini , Florianópolis-SC - professor
Enviado em 4/11/2005 às 4:17:46 PM
Não entendo que relação existe entre diploma de nível superior e ética e responsabilidade. Sabemos que no Brasil há mais de 20 anos somente jornalistas formados tendem a ocupar as redações. Mas o que vemos é uma série de abusos e manipulações da imprensa de maneira geral. Além disso, sabemos que o que mantém a imprensa é a publicidade, que por sua natureza é mercenária, logo, que jornalista poderá investigar irregularidades daqueles que os sustentam? Talvez uma graduação reduza os erros de português, mas por certo não garante nenhuma etica e responsabilidade.
Rodrigo Mathias , Rio de Janeiro-RJ - estudante
Enviado em 3/11/2005 às 10:39:53 AM
Será que alguém reparou que nenhum jornal da grande mídia deu essa notícia? Será que eles pensam que isso não é um fato relevante para o público leitor dos jornais?
Hermínio Naddeo , Rio de Janeiro-RJ - publicitário
Enviado em 2/11/2005 às 8:10:34 PM

Fui jornalista, oficialmente, de abril de 1968 a fevereiro de 1972. Comecei na Folha da Tarde, em São Paulo, e meu último emprego foi no Jornal dos Sports, no Rio. Trabalhei primeiro estagiando sem ganhar nada, de outubro de 67 a abril de 68, até conseguir minha vaga, porque e editor de Esportes, Celso Eduardo Brandão, entendeu que tinha demonstrado talento para merecer o lugar.

Veio a regulamentação da profissão, ganhei o registro provisório (assinado numa carteira profissional que se extraviou), fui sócio do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e mudei para o Rio em julho de 1971. E quem ficou cuidando do meu registro foi Marino Maradei Júnior. Até aí, tudo bem. Ocorreu que, para o registro definitivo, exigiram folha Corrida. Em pleno regime militar, eu tendo trabalhado num jornal então dito de esquerda e com um acidente de automóvel em junho de 1971, que me valeu uma pena por homicídio culposo. Quer dizer, o registro não saiu. Em 1972, no Rio, comecei a trabalhar em agências de propaganda, como redator. E, em 1979, acabei sendo contemplado com o registro de publicitário, porque a profissão também estava sendo reconhecida e eu já atuava nela por mais de sete anos.

Na nova carreira, fiz inúmeros jornais de empresa e, seguramente, nunca deixei de ser jornalista. Entendo que o jornalismo está dentro da gente, é a forma com que vemos o mundo. Ser jornalista, para mim, é como ser escritor, como ser pintor, é uma arte que não se aprende na escola. Aprende-se no dia-a-dia de uma redação, nas noites mal dormidas atrás da notícia ou preparando a matéria para o dia seguinte. No meu tempo na Folha, fui encarregado pelo Celso Brandão e pelo Miguel Arcanjo Terra a orientar os estagiários. E o mesmo ocorreu no meu tempo de Thompson e McCann. Nas duas profissões, acontecia exatamente a mesma coisa: no geral, os estagiários mais talentosos não eram os que tinham uma graduação (muitas vezes feita sem convicção alguma), mas os realmente interessados na profissão, que tinham o talento nato de escrever, de desenhar, de criar, enfim.

Lembro o caso de um estagiário da Folha da Tarde, o Fernando (não recordo o sobrenome). Era negro, atarracado, e quando me disse que era despachante, não levei fé nenhuma nele. No entanto, um mês depois, era contratado pelo Mundo Esportivo, do saudoso Geraldo Bretas, porque era um repórter nato, audacioso, que escrevia maravilhosamente. O Albino Castro Freazza Filho é outro exemplo. Chegou menino, 17 anos, vindo da Bahia em busca da realização como Jornalista. Ganhou a vaga no talento, na vontade, no amor. E isso não tem escola que ensine.

Enfim, uma pergunta: eu posso dizer que sou jornalista, com a mesma boca cheia que digo que sou publicitário?

Moacir Asunção , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 2/11/2005 às 6:00:27 PM
Parabéns a todos nós, inclusive aos colegas que não cursaram Jornalismo, mas aprenderam na prática a profissão, pela decisão do Tribunal Regional Federal. Com isso, voltamos a ser uma categoria, não um amontoado de boas (e más) intenções, como vimos nos últimos tempos, sem o diploma. Conheço bons e maus jornalistas com e sem diploma, mas é forçoso reconhecer que a quantidade de maus sem diploma é muito maior. Vi casos de picaretas disfarçados de jornalistas por conta da esquisita decisão da juíza, brandindo orgulhosamente suas credenciais. Voltamos a ter dignidade. Um grande abraço à equipe do OI e a todos que lutam por um jornalismo de qualidade.
José Geraldo Nunes , Moema-MG - jornalista
Enviado em 2/11/2005 às 10:34:19 AM
Ótima a matéria sobre a decisão do TRF. Ainda temos que organizar com mais eficácia esta profissão de grande responsabilidade para a cidadania do povo brasileiro. Infelizmente, grande parte das mídias dominantes que têm ótimos jornalistas está a desejar, fazendo-nos de verdadeiros otários, soltando reportagens que no dia seguinte outros veículos de comunicação afirmam que são mentiras. É necessário e fundamental que todos que desejam exercer a profissão de jornalista têm que passar pela universidade, para obter conhecimento técnico e humanístico, como filosofia, sociologia, ética etc. Creio que unidos venceremos essa luta.
Guilherme Augusto Zacharias , Colatina-Mt - jornalista
Enviado em 1/11/2005 às 1:39:49 PM

Agarrados aos mesmos atos institucionais que tentavam legitimar o sumiço de vários opositores da ditadura militar, incluindo aí o jornalista Vladimir Herzog, os cooperativistas favoráveis ao diploma de Jornalismo conseguiram o que queriam - pelo menos até o julgamento final no STJ. Parabéns!

[De jornalismo + -ista.] S. 2 g. Jorn. 1. Pessoa que exerce atividade jornalística como redator, repórter, fotógrafo, editor etc.

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