ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 353 - 17/11/2009
  Jornal de Debates
Início > Índice Geral > Jornal de Debates + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

COMUNICAÇÃO E LUSOFONIA
As diferenças e os pontos em comum

Por Sergio Denicoli, de Braga (Portugal) em 31/10/2005

A notícia do diário português Correio da Manhã, às vésperas da classificação da seleção de Angola para a Copa do Mundo, anunciava: "Três vezes Portugal no Mundial da Alemanha". Referia-se à possibilidade de haver, pela primeira vez na história do mundial de futebol, três países de língua portuguesa na competição.

Os angolanos conseguiram a vaga, junto com o Brasil e Portugal. Já a imprensa portuguesa deu mostras de como é construída nos jornais do país a imagem da lusofonia – o universo de nações que têm a língua portuguesa como idioma oficial.

Para debater as diferenças e pontos em comum do espaço lusófono, a Universidade do Minho realizou em 7 de outubro, em Braga, o I Congresso Internacional sobre Comunicação e Lusofonia. O evento foi organizado pelo "Projeto Lusocom: estudo das políticas de comunicação e discursos no espaço lusófono", coordenado pela jornalista e professora Helena Sousa.

Os trabalhos foram abertos pela polêmica apresentação da pesquisadora portuguesa Maria Manuela Batista. Para ela, uma notícia como a do Correio da Manhã seria fruto de uma visão estereotipada por parte da mídia de Portugal que, segundo afirmou, posiciona o país como o centro da lusofonia e como potencial influenciador de suas ex-colônias, retratando os demais países lusófonos como um "jardim colonial" – uma extensão emocional de um passado de conquistas. Seria herança de um pensamento muito estimulado na era do ditador Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970).

Moisés Martins, diretor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, destacou em sua apresentação que a lusofonia não se prende a estereótipos e pode ajudar na formação de uma comunidade transnacional, com propósitos político-culturais.

União nacional

É certo afirmar que ainda há um sentimento forte em Portugal em relação ao seu passado histórico, mas é exagero dizer que há uma mídia com visão ainda imperialista. Os portugueses se orgulham das conquistas que tiveram no mundo e do fato de terem levado a língua de sua pátria a vários continentes. Isso tem uma certa influência nos jornais, mas são simbologias mais voltadas para o sentimento de nação de passado glorioso do que uma tentativa de subordinar as ex-colônias. Mesmo porque Portugal é muito aberto às inovações linguísticas por que tem passado a língua portuguesa no mundo.

As telenovelas brasileiras são um exemplo da aceitação da influência vinda de um país que já pertenceu aos portugueses. Desde a década de 1970 elas são exibidas em terras lusitanas sem dublagem ou legendas, e agregam novos vocábulos ao cotidiano de Portugal.

É o contrário do que acontece no Brasil, segundo disseram representantes brasileiros no Congresso. Para eles, a imprensa no país não está atenta à existência de um mundo lusófono, tendo desenvolvido uma linguagem com características próprias e independentes.

Já nos países africanos onde a língua portuguesa é oficial – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe – o português ainda enfrenta obstáculos para se firmar como língua de união nacional. Nesses locais predominam as línguas nativas que coexistem e reforçam valores tribais. O mesmo ocorre no asiático Timor Leste.

Papel primordial

Em Angola, por exemplo, existem 49 dialetos e 19 línguas. As rádios, que compõem a maior força midiática do país, fazem as transmissões em línguas nativas. Em Moçambique, o português é a língua materna de apenas 10% da população – ou outros 90% dos habitantes têm um dos 23 idiomas nativos como língua principal. Em Timor, a escolha pelo português como língua oficial foi uma decisão política, pois era um idioma trazido por estrangeiros e não causaria conflitos como os que ocorreriam se a língua de alguma região local fosse adotada em detrimento de outras. O idioma mais falado pelos timorenses é o tétum.

Estimativas revelam que em todo mundo 200 milhões de pessoas falam português, a maioria brasileiros. Portanto o Brasil tem um papel primordial na construção de um espaço lusófono. Mas o que se percebe é um distanciamento do país do debate sobre a questão, que é praticamente ausente da mídia.

Em tempo: a Academia Brasileira de Letras editou um Vocabulário Ortográfico com novas palavras, que inclui adaptações de vários termos em inglês. É o novo português do backup, byte e do delete.

Comentários (0)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Evite vulgaridades e simplificações grosseiras. Não escreva em maiúsculas: isso dificulta a leitura do texto e, na linguagem da internet, é interpretado como gritos. Mensagens que não atendam a estas normas serão deletadas, e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Sergio Denicoli, de Braga (Portugal)

Outros artigos desta Seção
A MÍDIA E O CRIME
Ações para enxugar
o gelo da violência

Muniz Sodré
31/10/2005
COMUNICAÇÃO
E LUSOFONIA
As diferenças e os
pontos em comum

Sergio Denicoli,
de Braga (Portugal)
31/10/2005
QUESTÃO
PARA A JUSTIÇA
No banco dos réus
M.A.J.
31/10/2005
PATOLOGIAS
DA DEMOCRACIA
O jornalismo pode
ser um antídoto?

Adelina Lapa
31/10/2005
JORNALISTAS vs. ASSESSORES
Professora de RP retira
seu nome da lista

Delmar Marques
31/10/2005
Esclarecer ou confundir?
Eis a questão!

Boanerges Lopes
31/10/2005
Leituras que fazem a
cabeça de um assessor

B.L.
31/10/2005
PUBLICITÁRIOS
EM XEQUE
Em defesa
dos profissionais

Alexandre Accioly
31/10/2005
ECOS DO REFERENDO
O que dizem os
jornais italianos

Giulio Sanmartini,
de Belluno (Itália)
31/10/2005

Últimos 5 artigos de
Sergio Denicoli, de Braga (Portugal)
GLOBO vs. RECORD
A guerra se expande até Portugal
4/4/2006
Mais artigos de
Sergio Denicoli, de Braga (Portugal) >>