ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 355 - 24/11/2009
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PT E O OURO DE HAVANA
Veja obrigada a desmascarar seu informante

Por Alberto Dines em 15/11/2005

O depoimento de Vladimir Poleto na última quinta-feira (10/11) na CPI dos Bingos poderia abalar a República. No máximo abalou mais um pouco a imagem de Veja.

Além de desmoralizar-se, o ex-assessor do ex-prefeito Antonio Palocci, de Ribeirão Preto (SP), escancarou a temeridade de basear uma denúncia que poderia resultar na anulação das eleições de 2002 em depoimentos de figuras tão suspeitas e tão carentes de credibilidade.

Poleto foi à CPI com a missão de avacalhar-se. Conseguiu. E, de quebra, avacalhou quem ingenuamente apostou todas as suas fichas nas suas declarações (e do companheiro Rogério Buratti).

A desfaçatez com que desmentiu na CPI o depoimento que dera ao semanário da Editora Abril consagra-o definitivamente como charlatão e embusteiro. Era exatamente o que queria: primeiro assustou o governo, depois voltou atrás e, agora, aguarda uma retribuição pelos serviços prestados. Entre os quais, o de abalar a reputação de Veja.

Na sua edição 1931 (a terceira da série), o semanário não teve o que dizer. Obrigada a desmascarar com indignação aquele que foi um dos pilares da sua denúncia, Veja estava servindo àqueles que não acreditaram na sua acusação.

Quanto pior a fama da dupla Poleto & Buratti pior será para Veja. Supõe-se que jornalistas devem ter faro e acuidade para aquilatar o caráter e as intenções dos seus informantes. Foram ludibriados e tiveram que admiti-lo em público.

Por isso, numa edição que poderia apresentar uma estrondosa confirmação das suas denúncias, os editores da revista não tiveram outra alternativa senão a de confessar em duas mirradas páginas que confiaram num tipo inconfiável. "Desmascarado ao vivo" foi o título da matéria. No plural, seria mais exato.

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Comentários (16)
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Hércules Leandro , São Paulo-SP - consultor
Enviado em 21/11/2005 às 2:20:03 PM
Concordo com a observação feita por uma leitora: Dines está muito birrento nessa sua obsessão com a Veja. A desqualificação da fonte nada tem a ver com a denúncia. Se fossemos realmente considerar fontes por sua qualificação, Bob Jeff jamais poderia ter sido ouvido como foi pela Folha. E deu no que deu. Outra pergunta que cabe aqui: caso não tivesse ocorrido em flagrante a prisão do assessor petista transportando dólares na cueca, e a denúncia chegasse ao conhecimento do público porque alguém do aeroporto, vendo a cena, informasse a Veja, o que falaria Dines? Que a Veja está delirando? Que está perseguindo o governo Lula? Dines, respeito sua carreira, sua história, mas esta sua obsessão está extrapolando os limites do compreensivel.
Demetiro Leite , Recife-PE - engenheiro mecânico
Enviado em 21/11/2005 às 12:06:38 AM
Que idéia mais absurda é essa de sugerir que a Veja teria sido ludibriada (como se fosse inocente) por alguns informantes sem prestígio? Qual a pessoa de senso normal que leva à frente denúncias sem um mínimo de comprovação? A Veja tinha e tem interesse em dificultar a vida do governo atual mesmo que para isso tenha que pôr em risco a segurança do país. A Veja é a única culpada em toda essa história. Espero que perca o máximo de credibilidade possível.
Paulo Roberto Ferreira , Belém-PA - jornalista
Enviado em 18/11/2005 às 3:03:26 PM
Não é só o Policarpo Júnior que deve ser responsabilizado pelo jornalixo da Veja, mas sim o editor-chefe e os donos da revista. Aliás, os veículos impressos estão sob suspeita há muito tempo. Quem goza do privilégio de não pagar o IPI sobre o papel não pode se proclamar guardião da ética e da moralidade.
Fábio Carvalho , Porto Alegre-SP - jornalista
Enviado em 17/11/2005 às 2:37:18 PM

Vladimir Poleto, a fonte confiável que reivindica para si confusão decorrente de chopes e aquela cachacinha vespertina, conseguiu, sim, colocar a revista Veja em maus lençóis. Dines está correto em sua análise. Poleto afirmou à CPI: "Jamais disse que levei dinheiro, muito menos cubano". Para desmascará-lo, a Veja colocou trechos da gravação em seu site. No áudio divulgado, Poleto diz em um trecho que a "única coisa que eu sei é que eu peguei um avião de Brasília com destino a São Paulo com três caixas de bebida, só isso". A fonte também afirma à revista que Ralf Barquete (o assessor morto) disse haver dinheiro em uma das caixas. Outro trecho do áudio veiculado é o seguinte:

Policarpo Júnior - E o que te disseram?

Poleto - Que tinha dinheiro numa das caixas.

Só isso. Poleto, portanto, não disse à Veja que havia dólares cubanos sendo transportados dentro das caixas de "uísque", bebida aspada pela revista. Pelo menos, não nos áudios divulgados até agora. Em seguida, a revista diz ter confirmado as informações prestadas por Poleto com Rogério Buratti, cujo áudio da entrevista não foi (ainda) divulgado. É preciso salientar que a afirmação de que a campanha de Lula recebeu dólares de Cuba foi feita pela revista Veja. Em título, aliás. Poleto não disse "dólares cubanos". Mesmo assim, a revista diz ter ido atrás de outra fonte, Buratti, para certificar-se da história e conseguir aspas adicionais.

Vamos agora fazer um comparativo. O ex-deputado Ibsen Pinheiro foi cassado depois que a Veja construiu a capa "Até tu, Ibsen?". Antes de a matéria ser publicada, a publicação teria verificado que os dados não batiam. Mesmo assim, teria determinado ao repórter que aspeasse a matéria para manter a capa. Quem contou essa história é um ex-empregado de Veja. A revista disse que ele mentiu. Penso que o jornalista Policarpo Júnior deve ser convocado à CPI para contar o que sabe, o que ouviu, o que gravou, além do que ele já publicou. Enfim, o repórter deve contar detalhes da dobradinha investigativa que fez com Jairo Martins (aquele do vídeo da propina) e outras "cositas más" que se aspeiam por aí. E se publicam.

Em tempo: o áudio da entrevista de Roberto Jefferson, publicada em forma de pergunta-e- resposta por Renata Lo Prette, da Folha de S. Paulo, é fiel.

Luiz Antonio Ferreira , Guarulhos-SP - empresário
Enviado em 17/11/2005 às 9:19:34 AM
A imprensa tem dono e esses donos a usam em causa própria, manipulando as massas que agem como "maria vai com as outras"; pintam e bordam e nunca respondem a nada, constroem "verdades" sem responsabilidades e quem os faz responder pelos crimes?
Edson Pessoa , Belo Horizonte-MG - administrador
Enviado em 16/11/2005 às 6:32:53 PM
Meu Deus, onde nós estamos? Agora começa a ficar nítida a intenção político-tendenciosa por trás da maioria das denúncias veiculadas na imprensa nesses últimos meses. Claro que muita coisa podre está aparecendo, não só no governo como também nas instituições de uma maneira geral. Vícios antigos com que aprendemos a conviver resignadamente durante todo esse tempo. Esse é o lado bom da história. Contudo ficamos estremecidos ao constatar o quanto e como grupos e facções políticas diversas estão dispostos a investir para manipular as opiniões da sociedade em prol de suas convicções políticas. Mais triste ainda é constatar que alguns veículos de comunicação deixam de ter a confiabilidade desejada, pois fazem justo esse papel indecente.
Regina Alves Pereira , Cascavel-SP - engenheira
Enviado em 16/11/2005 às 6:11:24 PM
Já tá ficando chato... antes o assunto era fantasioso. Agora o informante é de má qualidade. Como confiar no Observatório se ele não se observa? Questionar a matéria da Veja é direito de todo cidadão. Ficar procurando furinhos para provar que ela não presta é coisa de gente birrenta. Segundo o raciocínio de Dines, pela qualidade do informante (por acaso, do PT), o testemunho não vale. Então a reportagem de Renata LoPrete (Folha) também não vale pela qualidade do informante (Roberto Jefferson)? Ela deveria arquivar a denúcia? Procurar provas antes (já que na República atual prova testemunhal não vale, mas valia na era FHC)? Francamente, isso já está virando uma briguinha muito particular do Observatório em relação à Veja. E o tempo dirá (conforme o comportamento de ambos os veículos) quem perderá mais em credibilidade. Curiosamente, Dines não cita o motorista (informante fugitivo), Buratti e o piloto (ou também é informante de má qualidade?).
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - médico
Enviado em 16/11/2005 às 4:55:33 PM
Ouvindo a fonte confirmar a viagem a Brasília para buscar, inacreditavelmente, três caixas de uísque num avião Sêneca saindo de São Paulo (contrabando confesso), deveria a revista ocultar ou desconsiderar o fato com pré-julgamento? Acho que fez o que deveria fazer. Antes de desmascarar Vladimir Poleto, na CPI, verificou-se que a história tem mais rato na tuba do que uma bobagem sem sentido! Junte-se a isto o meio bilhão de empréstimo “dado” ao presidente Fidel como um dos primeiros atos de Lula no primeiro ano, e as coisas fazem sentido para uma atitude de um país pobre como o nosso!
José Carlos Cerqueira Mota , Catu de Abrantes-BA - engenheiro civil aposentado
Enviado em 16/11/2005 às 4:49:37 PM
Caro Dines, nesses nossos tempos de aparentes paroxismos, é sempre necessário elogiar-se o bom jornalismo: belo artigo! Dines, eu pergunto: e se esse ouro veio mesmo de Havana, se isso ocorreu, qual a importância? Francamente: uma gota num oceano. A mídia vetusta está nua: Veja, Estadão etc. Mas  graças a vocês do OI e muitos outros jornalistas: "Você nunca mais vai ler (ou escrever em) jornal do mesmo jeito".
Guilherme Augusto Zacharias , Colatina-ES - jornalista
Enviado em 16/11/2005 às 4:19:17 PM
É um verdadeiro alento observar que este Observatório não deixa passar nada em branco em relação ao jornalixo da Veja.Tomara que mais e mais pessoas estejam acessando o sítio do OI. Um dia, a Veja vai admitir também o quanto tem sido subserviente à República de São Paulo.
Xikito Affonso Ferreira , Salvador-BA - dirigente de ONG
Enviado em 16/11/2005 às 2:03:07 PM
Dines, parabéns por sua coragem e técnica apurada para lidar com essas denúncias alarmistas. Sua postura me infunde segurança desde seu brado "...apostar no desatino" à ediçao 353.
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - biólogo
Enviado em 16/11/2005 às 12:54:04 PM
Crise de credibilidade! É isso o que está acontecendo nesse país. Parece-nos que ninguém mais é confiável e a imprensa brasileira, que poderia desempenhar o papel de "limpa-tapete", acaba colocando mais sujeira para baixo do grande pano da sala Brasil. A cada momento, basta ligar em uma rádio de notícias, ou ouvir uma chamada na TV, ou ainda ler em sites na internet, somos acachapados com alguma notícia bombástica, de arrasa-quarteirão, capaz de destroçar a República. Momentos depois, era tudo mentira: ou alguém mentiu, ou ninguém sabe, ou ninguém viu. As revistas semanais capitaneadas pela Veja, os jornalões comandados pela Folha e os jornalistas de araque estão dando um show de parcialidade, maledicência e até de incompetência na função primária em divulgar uma notícia. Até quando vamos ficar com essa sensação de Alice no país das mentiras?
Francisco José Galvão Bruno , São Paulo-SP - bacharel em Direito
Enviado em 16/11/2005 às 12:11:49 PM
Como admirador do OI e de Alberto Dines, estou curioso: qual teria sido a atitude correta da Veja, ante a entrevista que obteve sobre os dólares de Cuba? Longe de mim defender essa revista, que parei de assinar (e ler) há bastante tempo; todavia, os senhores acham mesmo que ela devia simplesmente fingir que nada lhe tinha sido dito? E será que a credibilidade desses senhores é tão maior que a de Roberto Jefferson? Nesse caso, a Folha de S. Paulo também deveria ter ignorado o "mensalão" (mensalão que, segundo se afirma - acredite quem quiser - nunca existiu)? Ademais, não lhes parece que, tendo em vista os detalhes já confirmados sobre a viagem de avião citada na entrevista, e já que dificilmente se explicaria tanto cuidado e tanta despesa para transportar rum, o transporte de dólares é, até mesmo, a explicação menos prejudicial ao PT?
Eduardo Veríssimo , São Bernardo do Campo-SP - analista
Enviado em 15/11/2005 às 9:48:15 PM
Me parece que houve um erro de interpretação de toda a situação ocorrida no depoimento. Afinal de contas, eles foram desmascarados ao tentar desmentir o que haviam dito à Veja. Por que vocês ignoraram esse fato?
Luiz Serenini , Goiânia-GO - publicitário
Enviado em 15/11/2005 às 9:17:36 PM
Quando vi a capa da Veja desta semana, de um cara que explica tudo, juro que pensei que viesse para explicar as intenções da revista neste episódio todo do ouro de Havana. Pena que ainda não foi desta vez.
Walter Novaes Filho , São Paulo-SP - corretor imobiliário
Enviado em 15/11/2005 às 4:49:07 PM
Gostaria de ser esclarecido sobre um ponto: o jornalista Alberto Dines condena a Veja ou lamenta por ela? Fica a impressão de que ele está desapontado com a fonte, e não com a revista que tantos desserviços tem prestado.
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