ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 356 - 24/11/2009
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RAZÃO E DIREITO
A mão-de-gato dos blogs

Por Luciano Martins Costa em 22/11/2005

O artigo publicado na edição 355 deste Observatório, sob o título "Quando faltam a razão e o direito", produziu um grande número de comentários no Blog do Noblat, panfleto político de responsabilidade do jornalista que, sob a autoridade de Paulo Cabral, dirigiu o processo de inserção do Correio Braziliense no rol dos jornais mais considerados do país nos anos 1990. Essencialmente, muitos leitores-correligionários se escandalizaram pelo fato de o blog ter sido qualificado como "panfleto".

Na verdade, se fosse possível aos manifestantes observar por cima do muro do seu engajamento, eles teriam entendido que, em seu formato mais comum, os blogs são de fato, e geralmente, panfletos, o que não os diminui. No meio da balbúrdia e destemperos postados por leitores, o jornalista acreano Altino Machado observou lucidamente que "muita gente reagiu de modo precipitado por causa da palavra panfleto no artigo. Bobagem, puríssima bobagem. O que significa panfleto? O Aurélio define como "pequeno escrito polêmico ou satírico, em estilo veemente". Os blogs em geral são isso mesmo: coleções de artigos veementes, opiniões, notas selecionadas conforme o gosto do autor, com seus comentários pessoais. Ou são apenas coleções de informes de segunda mão, como clippings eletrônicos, também selecionados conforme as preferências do dono.

A imprensa moderna deve muito a esse gênero de comunicação. Em 1900, durante a Feira de Paris, circularam centenas de panfletos e muitos deles anteciparam questões importantes para o estudo da tecnologia e da sociedade moderna, que se inaugurava ali. Um deles, em especial, intitulado O automóvel é a guerra, é um primor de análise sobre o impacto das novas tecnologias sobre a sociedade e foi citado numa das obras do ensaísta Walter Benjamin. Alguns daqueles panfletos até viraram jornais ou revistas.

Ricardo Noblat não foi o primeiro, mas aparentemente é o mais bem-sucedido jornalista blogueiro no Brasil. Tem todo o direito e méritos para tocar seu negócio. Afinal, trata-se apenas de escolher o tamanho do contêiner adequado ao seu ego. Responde positiva ou negativamente a suas mensagens quem quiser. Como panfletista, o grau de comedimento ou agressividade de suas opiniões é questão de foro íntimo do autor. Também há blogs de petistas, sites de aluguel, redes de adoradores de abóboras, blogs de corintianos e de anticorintianos

Instrumento transformador

O que diferencia um blog do verdadeiro jornalismo, aparentemente, é uma série de características técnicas, como a organização, o escopo geral, a diversidade de fontes, a periodicidade efetiva e a confiabilidade. No mais, é um formato ainda em transição, que tende a se consolidar como parte do novo jornalismo participativo, tema do qual já nos ocupamos aqui em outras ocasiões [ver remissão abaixo].

Mas isso apenas aparentemente, pois não é o aspecto técnico que transforma o blog em instrumento essencialmente diferente do que chamamos imprensa. Como tem por núcleo o viés de seu autor, sempre único e personalizado, o blog é uma manifestação pessoal que acaba atraindo outras manifestações semelhantes, o que gera um círculo de opiniões predominantes, quase homogêneas. Com a consolidação dessas opiniões no universo do blog, esse círculo inicialmente restrito começa a se transformar numa espiral dinâmica, a qual, por não encontrar o contraditório, conduz geralmente à irracionalidade. Melhor dizendo: sem reparos, contenções ou diversidade, o conjunto do discurso se torna irracional.

Quando o panfleto de papel ou eletrônico tem natureza humanista ou está a serviço de interesses mais amplos, contemplando a diversidade da sociedade, ele se revela instrumento transformador. Temos muitos casos de grandes contribuições para o desenvolvimento da consciência de cidadania, produzidas por ambientalistas e humanistas que se anteciparam à imprensa para alertar a sociedade sobre riscos e oportunidades que conseguiam ver com clareza antes da massa da opinião pública. Não é o caso, muito ao contrário, dos blogs políticos, que, em vez de propor reflexões, buscam apenas arregimentar correligionários.

Credibilidade por osmose

A citação de Miguel de Unamuno, que também produziu controvérsias, tem o sentido de contrapor à irracionalidade desse panfletarismo a inteligência da imprensa. Unamuno foi, como ele mesmo disse, criador de paradoxos. Ele próprio foi um paradoxo vivo, ao apoiar inicialmente o franquismo. Paradoxos nos fazem pensar melhor. Para quem não entendeu – e, dado o evidente esforço que muitos manifestantes demonstram para explicitar seu raciocínio, a irracionalidade parece mesmo uma epidemia – a citação de Unamuno teve o objetivo de marcar a imprensa como suposto território da inteligência. Os jornalistas, estejam ou não na ativa, deveriam se colocar contra a onda irracional e bradar, como o pensador espanhol: "A imprensa é o templo da inteligência e nós somos seus sacerdotes!"

O fato de um dos maiores jornais do país abrigar e dar status de imprensa séria a um panfleto político só ocorreu, evidentemente, porque o viés predominante do blog coincide com o do jornal. O que talvez os dirigentes do diário não saibam, ou estejam relevando, é que, ao usar a "mão-de-gato" do blog para a editorialização de suas páginas de política, estão trazendo para debaixo de seu guarda-chuva parceiros potencialmente perigosos. Isso porque os blogs de natureza política raramente funcionam isoladamente. Eles fazem parte de redes de influência muito utilizadas por marqueteiros e profissionais de comunicação que se intitulam jornalistas, mas são na verdade lobistas.

Este observador não é propriamente um leitor e muito menos admirador da publicação Caros Amigos, mas é de justiça citar que ela nos ofereceu um perfil esclarecedor e estarrecedor de um desses lobistas, na edição sobre corrupção publicada em outubro. Por ali se pode calcular o mal que faz à sociedade a vulnerabilidade, para não dizer cumplicidade, da chamada grande imprensa à manipulação. Muitos blogs políticos – entre eles o Blog do Noblat – fazem parte dessa rede, propositadamente ou inadvertidamente. De qualquer maneira, quando faz barulho, o blog sempre se beneficia do crescimento no número de acessos. Abrigado no jornal O Estado de S.Paulo, esse panfleto ganha por osmose a credibilidade do jornal e a estende aos oportunistas e irresponsáveis que fazem dessa rede um balcão de negócios nem sempre éticos.

Expressão deturpada

Os lobistas que utilizam essa rede são muito procurados por colunistas de jornais, revistas e até personalidades da televisão. Fornecem notas, informações selecionadas, com exclusividade para cada um, fofocas, anedotas. Cultivam relacionamentos e se tornam formadores de opinião. Vendem tudo isso a empresas em dificuldades ou com problemas de imagem pública, sob a etiqueta de "gestão de crise". Prometem – e cumprem – coisas que nem as melhores assessorias de imprensa podem se permitir. Porque, aberta a tudo que combina com suas premissas, a imprensa se torna vulnerável a jogadas espertas.

Executivos da fábrica de cervejas Schincariol foram há alguns meses procurados por um desses lobistas, logo após o episódio da prisão de todos os seus diretores. A estratégia que lhes foi vendida era "plantar" na opinião pública a idéia de que a empresa era perseguida pelo governo, com financiamento da cervejaria líder do setor, como forma de distrair a atenção dos escândalos políticos.

Apostando na irracionalidade, o lobista sabe que o discurso da "empresa nacional perseguida pela multinacional com apoio de governo corrupto" parece verossímil. Mesmo que a Schincariol não tenha contratado o lobista, uma olhada rápida em alguns sites e blogs da rede revela que foram postadas algumas manifestações com esse teor, e muitos acreditaram. O mesmo aconteceu no caso da loja Daslu. Os lobistas chamam isso de "inteligência de informação", deturpando a expressão usada por profissionais sérios dedicados à gestão de crises.

Na zona da barbárie

Esse sistema mafioso só funciona no ambiente da irracionalidade. Por isso, a rede cultiva núcleos de opinião homogêneos, geralmente freqüentados por jovens de tendência conservadora e raciocínio curto, onde é mais fácil fermentar a estupidez. Trata-se de material muito valioso em tempos eleitorais, pela capacidade de dar ares de verdade às mais tresloucadas invenções. O lobby das armas usou essa mesma rede à qual nos referimos, durante o bimestre final da campanha do referendo. E virou o jogo.

Quando a soma das irracionalidades individuais começa a formar espirais dinâmicas e ativas, surgem as hordas. A juventude dessas hordas, que lhes garante tempo, energia e irresponsabilidade para vociferar suas crenças e preconceitos, faz multiplicar como fogo na pólvora o efeito deletério da manipulação. Enquanto as hordas se mantêm no ambiente virtual, o que temos como danos maiores são os atentados à reputação alheia. Mas elas tendem a vazar para o mundo real, sob a forma do voto ou da ação violenta. Então, o que parecia uma brincadeira se transforma em risco para a sociedade.

Se entendermos que os gestores da grande imprensa ignoram esse fenômeno, temos que concluir que lhes falta uma qualificação essencial: a de conhecer profundamente o negócio em que estão metidos. Se, mesmo sabendo de tudo isso, a grande imprensa entra nesse jogo perigoso, precisamos colocar em debate na sociedade se essa imprensa ainda cumpre um papel social relevante e construtivo e, portanto, se ainda merece o respeito que lhe garante vantagens fiscais e outros benefícios. A imprensa deve estar na vanguarda do processo civilizatório, sua mensagem tem que ser dirigida para o "neocórtex" do cérebro social, deve estimular a reflexão, se ainda se pode fazer metáforas neurológicas sobre o tema. Ao apostar na irracionalidade, a imprensa estimula as zonas sombrias do cérebro, aposta no limbo, de onde não haverá de brotar cidadania, mas a barbárie.

Leia também
Uma imprensa mais democrática na rede – Luciano Martins Costa

O parajornalismo e o escândalo – L. M. C.

Comentários (12)
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Bruno Alves , Brasília-DF - estudante
Enviado em 28/11/2005 às 11:20:18 PM
De fato, o artigo é ótimo. Mas não são apenas os blogs que me espantam. Me assusta a importância que a mídia dá a eles. Tudo bem que a afinidade ideológica é flagrante. Mas haja cara de pau. Quem faz o trabalho mais sério na cobertura política – destaco principalmente o site Congresso em Foco – é normalmente pouco lembrado. Os que ousam desafiar o pensamento único dominante (Caros Amigos, Carta Maior...) são claramente marginalizados. E viva Palloci!
Maria Regina Alvim Braga , Rio de Janeiro-RJ - secretária
Enviado em 26/11/2005 às 12:25:59 PM
Concordo com o jornalista, pois pela leitura dos blogs políticos observo que há posts apenas com críticas a políticos do governo, mostrando-se tendenciosos, apesar de propalarem isenção enquanto jornalistas. Análise perfeita. Parabéns.
José Ronaldo Gonçalves , Rio de Janeiro-RJ - marceneiro
Enviado em 24/11/2005 às 10:43:41 PM
Sr. Luciano: tá de parabéns! Pegou na veia. A leitura do seu escrito me preencheu umas lacunas de raciocínio em cima do assunto blog! Gostei muito! Agora, com certeza deve haver milhares de outros muntcho putchos... Mas é por aí. O lance do panfleto eletrônico me soa meio como um paradoxo profissional e parece um excelente meio para uns malandros mal-intencionados plantarem versões e manipularem fatos. Realmente creio que haja especialistas neste tipo de coisa, lobistas ou não. A gente vê cada uma que às vezes fica em dúvida sobre a inteligencia e/ou intenções do escriba... Continua firme, irmão, é bom saber tua opinião. Saudações.
Paulo Franquini , São Paulo-SP - publicitário
Enviado em 24/11/2005 às 7:09:29 PM
Caríssimo Luciano, a essência do blog é ser um diário, portanto, tudo que é escrito é e deve ser entendido pelo leitor como um pensamento pessoal do autor, caso contrário, não pode ser considerado um blog. Quando um blogueiro, independentemente da profissão, passa a vender a opinião de quem quer que seja, com objetivo financeiro ou ideológico, perde a essência, como sempre digo, transformando propaganda em notícia você destroi quando deveria ser o inverso. Meu blog é pessoal e não comercial, meus leitores sabem de minhas preferências, de quem e do que amo ou odeio, retirei a possibilidade de efetuarem comentários no blog, o que me rendeu contato direto com muitos leitores e, surpreendentemente, na sua grande maioria, discordantes das notícias e opiniões que escrevo. Essa é à maneira mais fácil que encontrei para esclarecer que era a minha verdade, indico sempre matérias com a verdade dos outros para que meu leitor encontre a sua própria verdade. Não utilizo o blog para arregimentar correligionários, como cita o artigo, generalizando; busco sim arregimentar idéias contrárias a fim de garantir o pensamento.
Regina Ramão , São Leopoldo-RS - advogada
Enviado em 24/11/2005 às 2:34:51 PM
Excelente texto, que nos leva a uma reflexão obrigatória sobre este modismo dos blogs. Parabéns, Luciano, por nos fazer pensar com mais seriedade sobre o tema.
José Carlos Cerqueira Mota , Catu de Abrantes-BA - engenheiro civil aposentado
Enviado em 24/11/2005 às 12:20:47 PM
Caro Luciano, excelente, como sempre, esse seu artigo. A razão e o direito não condizem com mãos-de-gato! Parabéns pela pertinente análise. O citado Blog é apenas mais um detalhe da matéria: na zona da barbarie e o jogo perigoso de parte da imprensa. Realmente, esse tipo de imprensa não merece mais respeito! Está ficando difícil observar a imprensa. Coitado do Dines.
Teresa de Jesus Matos , Sao Paulo-SP - advogada
Enviado em 24/11/2005 às 11:28:09 AM
A mídia nao tem equílibrio, imparcialidade, lisura ou apartidarismo desde que essa crise começou. Parei de assinar jornais e revistas há muito tempo. A Veja eu nunca assinei, pois sempre a considerei a pior revista do país. As únicas que ainda compro em banca sao Carta Capital e Caros Amigos. Quanto a jornal, fui assinante da Folha por quase 20 anos, mas quando mudou a linha editorial do jornal cancelei a minha assinatura e desde então so compro em banca, mas nunca mais comprei a Folha. A mídia do Brasil está se tornando igual à da Venezuela. Não gosto dos blogs políticos, principalmente do blog do Noblat. Os comentários sao quase sempre muito pobres e canhestros. As pessoas não raciocinam, não medem as palavras, parece que agem por impulso e é por isso que gosto de ler o Observatorio e os comentários do mesmo.
Gilson Caroni Filho , Rio de Janeiro-RJ - professor universitário.
Enviado em 23/11/2005 às 6:50:44 PM
Na qualidade de colaborador do Observatório da Imprensa, engrosso o coro dos leitores que enaltecem os textos de Luciano Martins Costa. O panfleto tucano-pefelista do blogueiro Noblat não deve ser confundido com jornalismo independente. Presta um duplo desserviço: político e ético. O que o Estadão abriga é panfleto, sim. E na pior acepção possível. Triste para quem um dia, como destaquei em artigo neste site ["Na cobertura das linhas cruzadas", 8/5/2002], esteve à frente de um Correio Brazilienze que se notabilizava pela postura crítica ao governo FHC. Os desvios biográficos dos detratores do atual governo são, involuntariamente, peças de absolviçao. Parabéns.
Rafael Motta , Santos-SP - jornalista
Enviado em 23/11/2005 às 6:48:53 PM
O termo "aparentemente", no artigo, foi bem colocado. Afinal, parte da grande imprensa vem se assemelhando a blogs malfeitos: não tem "diversidade de fontes" nem "confiabilidade" em alguns temas. É daí que surgem os "dólares de Cuba" e o balança-mas-não-cai de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda - como se o país não tivesse motivos de preocupação reais e mais relevantes.
Paulo Campos , Natal-RN - engenheiro
Enviado em 23/11/2005 às 11:23:15 AM
A filósofa Marilena Chaui afirmou em recente entrevista que a atual crise política é produto da mídia. Excitatite, informatite, insinuite, incompetentite, pirotecnite, achincalhite... As boas matérias do OI lançam luz sobre o assunto. A questão de fundo, porém, permanece intocada: afinal, o que quer a imprensa brasileira? Qual a sua motivação de fundo? Ou, em outra palavras, o que querem os donos da mídia no Brasil, todos eles tão parecidos? Gostaria de ver o OI corajosamente pondo o dedo nesta ferida.
Vivian Stipp , São Paulo-SP -
Enviado em 23/11/2005 às 2:54:10 AM
Mais uma vez Luciano nos brinda com um artigo brilhante, com reflexões sérias e profundas. Parabéns!
Evandro Ferreira , Rio Branco-AC - pesquisador
Enviado em 23/11/2005 às 1:14:36 AM

O debate sobre blogs é interessante, mas acima de tudo os leitores têm o direito de acreditar no que querem acreditar. Blogs, flogs, podcasts e outras formas de mídia "independente" abrem efetivamente a possibilidade para que "indivíduos" se livrem da velha mídia, quase toda corrompida e interesseira, que só vê o que interessa a ela. A web oferece esta liberdade a baixo custo. Hoje muitas pessoas não lêem jornais impressos, nem edições online: resumem-se a visitar páginas de amigos em que confiam (alguns blogs), grupos de discussão fechados etc. É a liberdade que os indivíduos vão ter de só ler o que se quer ler.

Primeiro irão pelo ralo a imprensa escrita, depois a online que não inovou em nada. Vai ser dificil destruir a televisão, mas em breve a tecnologia vai oferecer a opção a ela. Vários planfetos em rede vão, em breve, ser mais influentes do que um único portal/jornal. A união fará valer a força.

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