ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 366 - 17/11/2009
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REVISTAS FEMININAS
Mulheres que só pensam em sexo

Por Ligia Martins de Almeida em 30/1/2006

É o que se conclui ao folhear as revistas femininas com suas promessas de mais prazer, mais sucesso e mais beleza: a mulher moderna resolveu todos os problemas com relação à educação dos filhos, já pode pensar em si mesma sem culpa, pode dar prioridade à carreira e pensar em se manter jovem e bonita para sempre. Problemas, se tem, segundo as revistas, é na área do prazer. Cada vez mais a mulher luta pelo seu sagrado direito ao orgasmo.

Embora a mulher continue a grande encarregada da educação dos filhos, a leitura das revistas femininas, hoje em dia, nos leva a uma conclusão: essa preocupação deixou de ser prioridade para a mãe moderna. A grande, única e prioritária preocupação das leitoras – além da forma física e de estar na moda – é sexo. Até mesmo quando se trata dos filhos. Nas revistas disponíveis nas bancas em janeiro, a única matéria sobre filhos que se destaca é a que mostra como lidar com um filho adolescente gay. Claro que o assunto é espinhoso e merece destaque, mas não é, certamente, o único.

Um peso maior

Quem trabalhou em revistas femininas sabe que filhos – e por extensão relações familiares – eram tema obrigatório de toda edição. E que as revistas se orgulhavam de ajudar a dona-de-casa e mãe a criar melhor os filhos. Mulheres que viviam em dúvida sobre as creches, a formação dada pelas escolas, a melhor forma de conciliar o trabalho e a educação dos filhos. As entrevistadas tinham dúvidas, pediam ajuda, queriam diminuir a culpa por pensar numa carreira e em como conciliar sua evolução pessoal com a felicidade dos filhos.

Ou as mulheres resolveram de vez o problema – o que é pouco provável – ou as revistas femininas decretaram que a mulher mudou e não quer mais saber desse tipo de assunto. Uma hipótese ainda mais triste é a de que as jornalistas de revistas femininas acreditem que não há mais espaço para reflexão e discussão de temas nas suas páginas coloridas e caras, perfeitas para destacar roupas, maquiagem e produtos de consumo. Talvez se acredite que o espaço para temas pesados, com cara de tese de mestrado, esteja preenchido pela internet.

A verdade é que, para quem tem dúvidas, tempo e paciência, material não falta na internet. Ao digitar a expressão "educação de filhos", em três ferramentas de busca, o resultado é, no mínimo, assustador: no UOL Busca aparecem 94.941 páginas sobre o tema; 2.310.000 no Google e 1.400.000, no Yahoo.

Esses números servem para provar que tem muita gente pensando no assunto e, o melhor, querendo passar as informações adiante. Mostram que só o fato de a rede aceitar tudo e abrir espaço para o debate não significa que a mídia impressa tenha que retroceder. Mesmo porque a parcela de pessoas conectadas, com tempo para pesquisar, ainda é bem pequena. E prova também que os internautas têm acesso ilimitado à informação, desde que tenham tempo para pesquisar.

Mas, ao contrário de jornais e revistas que têm credibilidade e por isso dão segurança ao leitor, na rede tudo é permitido. Para a leitora fiel de Claudia, Nova, Criativa ou Elle, só para citar algumas, o fato de um assunto aparecer na revista tem um peso maior, como se o problema – ou a solução – tivesse mais relevância porque mereceu espaço na revista.

Uma parcela da luta

Talvez por isso as dietas, a moda e os tratamentos de beleza tenham o peso monumental que têm hoje. São temas com os quais as revistas bombardeiam as leitoras, como num lento e gradual processo de lavagem cerebral. De tanto ouvir falar em botox, cirurgia redutora de peso e outros modismos transformados em "tendências" pelas revistas femininas, as leitoras vão acabar acreditando que isso e o sexo são as únicas coisas realmente importantes na vida. Mas é conversar com duas ou três mães modernas – que trabalham fora, querem fazer carreira, mas não abrem mão da criação dos filhos – para perceber que elas continuam tendo as mesmas dúvidas de sempre.

Querem, por exemplo, saber como limitar o uso do computador pelos filhos, como socializar as crianças que se escondem atrás da máquina para evitar os confrontos inevitáveis da adolescência; perguntam-se se o fato de a menina não ligar para a aparência é normal e, principalmente, questionam-se se estão fazendo o melhor pelos filhos. E aí, quando procuram uma reposta nas boas e confiáveis revistas femininas, não encontram nada. Sobram os programas femininos, os programas de entrevistas e os comportamentos eventualmente discutidos nas novelas ou suplementos de jornais.

Ninguém quer que as revistas femininas tratem a mulher como rainha do lar, a mulher cri-cri de triste memória. Mas seria bom lembrar que, apesar de todo o caminho percorrido, as mulheres ainda têm dupla jornada e dupla carga de culpa, porque acabam carregando os filhos e a casa nas costas. Seria bom lembrar, principalmente, que ao queimar sutiãs em praça pública as feministas não lutavam pelo direito ao orgasmo. A liberdade sexual era apenas uma pequena parcela da luta pela igualdade. Uma luta que, ao que tudo indica, não foi corretamente interpretada pelas revistas que deveriam falar em nome das mulheres e para as mulheres.

Comentários (13)
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Dandara Assunção , Belém-PA - estudante
Enviado em 7/2/2006 às 11:48:33 AM
Ligia, Adorei o seu texto, ele retrata uma realidade a qual já tinha observado nas poucas vezes em que li revistas femininas,é interessante lembrar que as mulheres não se preocupam somente com o sexo ou beleza, mas ainda há maiores preocupações em relação as suas vidas pessoais, como por exemplo saber conciliar profissão, filhos e marido; as revistas, as vezes, tratam as mulheres como seres que não se questionam pelos problemas que cercam o mundo como crises políticas e guerra, e tão pouco fazem qalquer comentário a respeito disso, talvez tenhamos que fazer outra revolução do tipo "nossa identidade não é bem essa",temos outros questionamentos, dúvidas e criticas, estamos muito além das capas coloridas das revistas femininas. 
CELIO LEVYMAN , SÃO PAULO-SP - MÉDICO
Enviado em 6/2/2006 às 8:42:09 AM

Considerações precisas,sem dúvida alguma.Essa mudança ocorre não apenas nas revistas femininas,mas em vários outros meios de comunicação.Fica então a mesma questão: foi a sociedade e/ou as mulheres que mudaram? Evidentemente que não,considerando o fato evidente dos avanços sociais e antidiscriminatórios.A questão da dupla jornada ainda é claramente atual.

Lanço,pois,outra visão para o assunto,que também beira outras editorias:eventuais jabaculês,para dar força às mercadológicas questões ligadas à beleza,físico e sexo,que certamente geram dividendos para empresas,ao contrário da educação de filhos,por exemplo.E das matérias pretensamente isentas,também há o enorme peso da publicidade de produtos ligados a esses assuntos. Não creio apenas em jornalistas novinhas e internet como causas.O velho e conhecido vil metal acredito cada vez pautar mais os assuntos.

monica santucci , rio de janeiro-RJ - arquiteta
Enviado em 2/2/2006 às 8:20:28 PM
Parabéns pela matéria. Finalmente levanta uma voz sensata sobre o assunto. Traduziu perfeitamente o que venho refletindo ultimamente, já não me sinto tão "anormal". Não gosto deste tipo de revista - moda(caríssima - ou sou muito pobre mas não acho normal bolsas de 800,00 e creminhos de 350,00); beleza, o que convencionaram ser um padrão, o olimpo a ser conquistado com muita ginástica, plástica e afins, e o sexo que parece ter se transformado no objetivo maior, a razão da existência. Em meio a muitas páginas de publicidade (acho que 70% da revista) vem as matérias sobre sexo, verdadeiros manuais. Acho divertido imaginar que alguem possa realmente levar a sério... Às vezes anunciam alguma matéria que até poderia ser interessante, mas o tratamento dado é sempre tão superficial. Enfim muita bobagem. Por isso tudo não leio e até mesmo cancelei a que recebia gratuitamente junto com a assinatura do jornal.
Maria Emília Leal Gerez Davini , Campo Limpo Paulista-SP - Assessora de Comunicação
Enviado em 2/2/2006 às 4:07:27 PM
Olá Ligia! Tenho 24 anos sou casada há um ano, me formei em jornalismo também há um ano. E sempre me preocupei em não ter filhos agora, pois desejo dar a eles uma condição melhor que a que tivemos – eu e meu marido - mas a minha maior preocupação é referente ao que você escreveu. Sou uma novata na área – tanto profissional quando efetiva –, mas concordo plenamente com a sua matéria e análise. Nunca me interessei por estas revistas, porque sempre acreditei que a vida tem uma essência com algo mais. Escrevo lhe dando os parabéns pelo modo que analisou os outros meios e espero que a partir desta matéria as revistas reflitam um pouquinho.
Edmundo Fernandes , São Paulo-SP - Engenheiro
Enviado em 2/2/2006 às 1:44:27 PM

É muito interessante a observação, e eu gostaria de complementá-la. Na verdade se pode perceber que de um tempo para cá, todas as publicações estão entraram numa espécie de corrida pela pasteurização. Isso mesmo, pasteurização, no sentido de imunização contra as bactérias do livre pensar, da saudável diferença das opniões e custoso peso da responsabilidade individual e interpessoal, todas estas consideradas coisas medonhas, do século passado mesmo.

Sem querer nomear as publicações, mesmo porque se o leitor entender a que me refiro fará de imediato suas próprias análises, vimos a transformação de periódicos desportivos em brincadeiras com modelos mais à vontade, periódicos de análise pessoal em livros de receita para sucesso rápido (algo como "Como fazer seu primeiro milhão até os 30 anos"), e por aí vai; se costuma alegar que é isso que vende, que é isso que o povo quer. Falácia. Isso vende fácil (todos nós temos um certo gosto pelo vulgar), então se meu concorrente vende, por que não venderei eu?

Logo, logo vamos ver um projeto no Congresso Nacional (ainda com iniciais maiúsculas) para que a transmissão do Big Broter seja obrigatória em todos os canais. Algo assim como a "Imagem do Brasil". Coletivizamos a mediocridade individual, que sempre existiu, mas era particular, e banimos o pensar, que apesar de individual, era valor coletivo.

Rafael Motta , Santos-SP - Jornalista
Enviado em 1/2/2006 às 7:36:28 PM
E se editores(as) de revistas femininas aceitassem a seguinte sugestão de pauta: "Como convencer seu homem a ajudá-la na dupla jornada"? Difícil, não? Talvez as mulheres que formam seu público-alvo conseguissem mais tempo para alcançar uma parte de tudo que lhes é oferecido — mas, quase inatingível sem apoio do companheiro que, acham as revistas, elas pretendem "agarrar".
Regina Célia Almeida , Sorocaba-SP - Professora
Enviado em 1/2/2006 às 5:12:24 PM
Concordo plenamente com a autora e lhe dou meus parabéns pela ótima matéria, essa sim dá gosto de sentar e ler. Tinha assinatura de muitas revistas, mas com o tempo diminuí mais da metade, por falta de interesse nas matérias, nada interessante e aproveitável. Concordo que o tema sexo deve ser abordado, mas não como vem sendo feito, sem nenhum conteúdo apreciável e útil,mais parecem uma receita para um bom sexo. Quanto á mulher, realmente temos muito ainda que lutar, pois não entenderam ainda que queremos direitos iguais fora da cama e não nela somente, somos mais que uma companhia na cama!!!!!!!!!!!!!
Ana Lucia Amaral , São Paulo-SP - procuradora da República
Enviado em 1/2/2006 às 3:40:08 PM
Se as editorias das revistas ditas femininas só veiculam matérias sobre forma física e sexo, bem possivelmente fizeram alguma pesquisa a respeito. Penso que não se pode desprezar a influência da TV. Hoje, mulheres dignas de respeito são as em boa forma física, e que se dispõem a exibir-se quase que desnudas. Quem são as celebridades? Mulheres cientístas? Mulheres que ocupam cargos antes exclusivos dos homens? NÃO!!! As editorias das revistas e cadernos de variedades de jornais reproduzem os modismos da Venus Platinada. E por fim: mulheres com algum grau real de preocupação sabem onde procurar conselho. Obviamente não será nas revistas. A maior parte das publicações ditas femininas são para as mulheres que aceitam ser assim reduzidas. Recuso-me a ler as tais revistas femininas.
Ligia Florencio , SBCampo-SP - Superv. Adm.Financ.
Enviado em 31/1/2006 às 5:36:24 PM
Concordo com a autora. Ha cerca de dois anos interrompi uma assinatura com uma revista conhecida e bem conceituada por perceber que o foco principal das matérias era o sexo e seus variados tópicos. Concordo que é necessário esclarecimento sobre os assuntos que são tabus na sociedade, mas trazer em cada exemplar guias lacrados de sexo e matérias repetitivas com o intuito de satisfazer o parceiro na cama me cansou e me fez compreender que não faço mais parte do público-alvo da revista! Acredito também que a banalização do assunto em revistas femininas só serve pra prejudicar a imagem da mulher perante a sociedade, e não fazer com que os direitos delas pareçam estar sendo respeitados como alguns acreditam. Ótima matéria, tópico bem abordado! Parabéns! Lígia
Marcos Giorjiani , S.B. do Campo-SP - Engenheiro
Enviado em 31/1/2006 às 5:28:59 PM
Olá, Você tem toda a razão em acreditar que as mulheres não resolveram todas as questões referentes à conciliação de suas carreiras com a educação dos filhos e tudo o mais que se refere ao relacionamento familiar. Não que isso seja uma falha ou incapacidade, e sim porque o assunto é muito complexo e não existe, infelizmente, uma receita a ser seguida para que tudo dê certo no final. Eu acredito que estas revistas, ao tratarem o assunto "sexo" como o mais importante, estão tentando abocanhar um outro publico consumidor: nós, os homens. Olhando por este ângulo - o do marketing - as revistas estão conseguindo mais "leitores" e, com isso, conseguindo o que na realidade querem: ganhar muito dinheiro. Abraços
Edilson Ferreira , Pato Branco-PR - Quimico
Enviado em 31/1/2006 às 4:40:18 PM
Em primeiro lugar, é notório que o tema sexo sempre teve otimos indices de venda. Agora, nao há dados concretos, estatisticamente falando, de que a maioria das mulheres penssam somente em ter orgasmos pensar que todas. Neste ponto acho que as revistas erraram. Mas em ponto estas revistas tem um pouco de razao, as mulheres atuais estao procurando a realizao em todos os campos (social, profissional e pessoal) e a busca pela realizacao sexual é verdadeira sim, mas que nao pensem que elas somente estao pensando em sexo somente, a familia esta incluinda nisso fortemente, haja vista o mercado de trabalho que esta mais competitivo, em parte, pela entrada das mulheres em diversos setores
Julio Junior , Santos-SP - Comerciante
Enviado em 31/1/2006 às 4:34:19 PM
Oi, Tenho 26 anos e venho percebendo que as mulheres (hoje em dia) tem duas finalidades: ser bonita e ter profissão, mas o que acontece e que, quando chegam aos 30 anos se veem perdidas, não são completas, ai talvez se torne tarde para pensar em outras coisas, não sei se estou certo mas mulher tem que ser mulher, bonita, cheirosa, gostosa, profissional e tudo mais, e quando pego umas dessas revistas pra ler realmente como todas outras fazem uma certa lavagem cerebral e ajuda com as vendas de produtos idiotas.
Tarcizio Zanfolin , Sao Jose do Rio Preto-SP - estudante de jornalismo
Enviado em 31/1/2006 às 3:05:08 PM
Gostaria de parabenizar a autora do texto Ligia Martins de Almeida. Ligia descreve perfeitamente a forma como a mulher vem sendo tratada pela midia, e consequentemente pela sociedade, ou seja, como objeto sexual produtor de orgasmos e desprovida de sentimentos, personalidades e amor familiar. Talvez por isso as meninas estao menstruando mais cedo, o casamento esta falindo, e as pessoas(que tem dinheiro) ja nao se sentem satisfeitas com om proprio corpo. Um abraco
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