ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 366 - 24/11/2009
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RECESSOS DESENCONTRADOS
Jornais na horizontal deixaram cair a verticalização

Por Alberto Dines em 30/1/2006

Redações preguiçosas e bocejantes, em clima de férias, não perceberam que os deputados voltaram aguerridos do descanso, dispostos a liberar as coligações para as próximas eleições. O baixo e o alto clero, grandes partidos e legendas nanicas de aluguel, oposição e situação – a começar pelo presidente da República e demais candidatos – todos estavam interessados em derrubar a verticalização.

Mas a quem compete defender os reais interesses da sociedade contra a matreirice dos políticos? Onde deve se abrigar a consciência crítica da nação senão nos veículos jornalísticos? Evidenciou-se mais uma vez que a imprensa, apesar da estridência dos últimos meses, ainda não percebeu sua verdadeira vocação e capitula diante das jogadas da classe política. Tem medo de contraditá-la: precisa dela, está a seu serviço.

Compreende-se que jornalistas, individualmente, esforcem-se para não perder suas fontes, mas à imprensa, como instituição moral e política, cabia resistir à avassaladora pressão para aprovar o Projeto de Emenda Constitucional que acaba com a unificação vertical das coligações eleitorais, oficializa o vale-tudo e incentiva a promiscuidade.

Indolência tropical

A prova do descaso jornalístico está nas edições de quarta e quinta-feira (25 e 26/1). No dia da votação, nenhum dos grandes jornais, exceto a Folha de S.Paulo, deu-se ao trabalho de chamar a atenção na primeira página para a importância do que seria votado naquele dia na Câmara Federal. O mesmo aconteceu nas páginas de opinião: a Folha foi novamente exceção, mas o teor do seu editorial, rigorosamente apático e indiferente à gravidade da matéria, só reforça a impressão de que os representantes do povo e a voz do povo aliavam-se contra os interesses do povo.

Despertados por uma votação que dificilmente será revertida no segundo turno, jornais e jornalistas então caíram em si. E no dia seguinte saíram a berrar em manchete contra aquilo que o silêncio do dia anterior ajudou decisivamente a materializar.

Naquele momento saíram da sombra as Cassandras com seus arrazoados pretensamente racionais e realistas para justificar ou resignar-se a um retrocesso que só poderá ser reparado através de crises políticas mais dramáticas e mais intensas do que esta.

Horizontalizada nesta siesta interminável, a imprensa não teve condições de enxergar a necessidade de manter a verticalização. No momento em que só ela poderia acionar os alarmes, desistiu e entregou-se à indolência do mormaço. Talvez tenha feito uma opção estratégica: melhor uma legislação eleitoral que multiplicará os escândalos do que um sistema capaz de evitá-los. Há gosto para tudo.

***



Democracia em cena

A.D.

Copyright Último Segundo, 27/1/2006

O Hamas palestino só acreditava na violência e conquistou o poder pelo voto. Evo Morales, socialista, antiimperialista, anticapitalista e, mesmo sem gravata, recebeu a frondosa faixa presidencial boliviana graças à arma elementar da decadente democracia burguesa – eleições livres.

Empurrado pela força do debate franco e aberto, o Fórum Social Mundial em Caracas volta-se contra seu mecenas, o presidente Hugo Chávez e o populismo das esquerdas latino-americanas. Na Montanha Mágica, em Davos, quem desbanca o totalitário tigre chinês é a Índia, herdeira de Ghandi, a maior democracia do mundo.

Qual a nossa parte neste inesperado festival democrático armado pelos caprichos da história? Pífio, vexatório. O voto da Câmara dos Deputados pelo fim da verticalização das alianças partidárias e a favor do vale-tudo eleitoral foi um desastre. E, como os piores desastres, insidioso, quase invisível. Porém metastático.

A aprovação em primeiro turno da emenda constitucional que libera e consagra a promiscuidade partidária não aconteceu por acaso, não foi um cochilo da Mesa ou das lideranças políticas. Foi uma conspiração maturada em silêncio, engendrada pelo que de pior existe na política brasileira – caciques nacionais, coronéis regionais, a fauna das legendas de aluguel e o oportunismo dos grandes partidos. Não escapa ninguém – do presidente da República aos deputados petistas que novamente traíram suas convicções, dos emplumados tucanos que se agarraram à verticalização em 2002 e agora a abandonam sem qualquer escrúpulo, dos peemedebistas "autênticos" aos de araque.

Sã consciência

O fim da verticalização contradiz tudo o que aprendemos nos últimos 50 anos a respeito da dinâmica ou, se preferirem, da imanência do aperfeiçoamento democrático. A melhoria da democracia através da própria democracia era um elemento fundamental de uma equação que vem sendo intensamente discutida desde o fim do século 18.

Na quarta-feira (25/1), desassombrados, mostramos ao mundo que uma democracia pode se autodestruir. Degenerar por livre e espontânea vontade. Atear fogo às vestes. Suicidar-se. Cheios de orgulho, mostramos ao mundo que o vergonhoso segundo semestre de 2005 não foi entendido nem digerido. Na verdade ele não aconteceu, foi uma miragem.

Nossos deputados mostraram que precisamos de novos valeriodutos, mais Caixa Dois, outros trambiques, cuecas dolarizadas e malas com dinheiro vivo.

Quando candidato, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que havia 300 picaretas na Câmara, mas na quarta-feira este número pareceu estranhamente inflado para 343. Pragmático, o futuro presidente do TSE, ministro Marco Aurélio de Mello, antecipa o seu voto e declara válido o fim da verticalização porque esta foi a posição adotada em 1998. Confessa em sã consciência que, ao invés de avançar, regredimos.

Centelha, fagulha

A emenda constitucional aprovada em primeiro turno (com chances mínimas de ser derrotada no segundo turno) é um grosseiro remendo, indelével, desses que a mais hábil cerzideira jamais conseguirá disfarçar. Bono Vox, de óculos cor de rosa, disse em Davos que "o Brasil é a extremidade sexy do catolicismo". Não poderia oferecer um diagnóstico mais arrasador.

A surpreendente vitória eleitoral do Hamas nos territórios palestinos pode, paradoxalmente, representar o fim do terrorismo como arma política – o voto foi mais eficaz do que o assassinato em massa. O triunfo de Evo Morales pode mostrar que não adianta convocar uma ex-empregada doméstica para o ministério da Justiça se não houver uma virada efetiva na mentalidade de uma nação condenada injustamente ao isolamento.

A democracia é, antes de tudo, um encontro com a verdade. Impulso, centelha, fagulha. Ou estalo de espelho partido.

Comentários (10)
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Luiz Carlos Santos Lopes , Salvador-BA - Jornalista
Enviado em 6/2/2006 às 4:21:27 PM
O eleitorado brasileiro precisa tirar de cena esses espertalhões, que só legislam em causa própria e deixam a sociedade brasileira indignada com tanta desfaçatez. Uma sugestão é mudar o atual modelo obsoleto de democracia representativa por um progressivo sistema de democracia direta, como propõe o advogado Fábio Konder Comparato. Esta, se não é a melhor solução, pode ser a que se apresenta no momento com maior possibilidade de mudar o viciado modelo político que aí está.
Ribamar Santarosa , Campinas-SP - Pesquisador
Enviado em 3/2/2006 às 12:39:13 AM

O artigo apresenta uma observação importante sobre um papel da imprensa dentro do contexto político, de denunciadora. Parece-me que havia dois pontos a serem defendidos no artigo: 1) A verticalização deveria ser mantida pela sua importância; 2) A imprensa deveria ter sido mais atenta com este evento. Talvez sendo o Observatório da Imprensa um veículo para a Imprensa se autocriticar, não era de se esperar um artigo cujo conteúdo se limitasse a apenas 1).

No entanto, para que a cobertura do evento pela imprensa fosse relevante, enxergo apenas três possibilidades para que o artigo defendesse 2): a) A queda ou manutenção da verticalização deveria ter sido mais debatida e a queda foi aprovada prematuramente; b) A verticalização deveria ser mantida pela sua importância e então fossem apresentadas evidências de sua importância; c) A verticalização deveria ser mantida pela sua importância e as evidências da importância são óbvias para o conjunto de leitores esperado a ler o artigo. Completa perda de tempo admitir a possibilidade de encontrar a possibilidade a) no texto. Também não há qualquer indício da possibilidade b) no texto; e em um certo momento parece explicitar-se de que realmente não é a possibilidade correta ("pífio, vexatório"). Para não me enlouquecer por não encontrar uma possibilidade factível, finjo que não li a frase "a imprensa não teve condições de enxergar a necessidade de manter a verticalização", e assim consigo enxergar c) como mais provável.

O artigo, comparando o quadro nacional com situações internacionais, parece uma bronca à imprensa, baseado numa obviedade compartilhada pelos leitores do artigo. O que me chama a atenção não é simplesmente a obviedade compartilhada neste caso --- a manutenção da verticalização é importante --- mas sim o tratamento da imprensa em si de trabalhar com obviedades compartilhadas entre os leitores quando estas obviedades não são fatos concretizados, ou estão dispostos numa declaração de princípios à qual o veículo siga ou que possam ser dedutíveis a partir de tal declaração, ou ao menos uma referência anterior.

Claro que pode existir alguma possibilidade 3) ou d) que não vi, ou --- talvez pelo fato de elas não serem tão recorrentes aqui no OI -- eu devesse esperar aparecer uma obviedade compartilhada menos óbvia para comentar. Da mesma forma que para nunca mais ler jornal do mesmo jeito, conto com o OI para não o ler da mesma forma que eu lia jornal antes. Sincera e respeitavelmente, Ribamar Santarosa.

jair de andrade pimentel filho , sao paulo-SP - analista de sistemas
Enviado em 2/2/2006 às 5:29:59 PM

Sr Dines sou seu admirador de longo tempo! Continue o guerreiro que es!!! Assinava a folha por mais de vinte anos e apos a insidiosa campanha contra o PT e a Marta cancelei minha assinatura; atualmente so assino a CARTA CAPITAL (pois temos la Mino Carta, pessoa do mesmo quilate de V.Sa!!). Ja mandei como sugestao a Folha que os artigos de colaboradores ou mesmo de jornalistas com vinculo empregaticio deveriam declarar nos dados ao pe do artigo sua simpatia politica; essa medida visa que o leitor possa fazer uma pre-critica ao que e escrito (quem tem o habito da leitura diaria dos jornais sabe qual o matiz do autor do artigo, mas, atualmente, temos os mais diversos niveis de leitores e assim seria de bom alvitre a transparencia do matiz politico do autor! Agradeco muito seus programas e sempre quando posso estou com olhos e ouvidos de prontidao!!!

Marcos Videira , São Paulo-SP - Bancário
Enviado em 2/2/2006 às 4:02:16 PM
Dines, a verticalização é realmente um princípio que deve existir nos processos eleitorais. Mas, como qualquer princípio, pode não se mostrar válido para toda e qualquer situação. Hoje no Brasil temos 30 partidos (+ ou -). Nessa situação, o princípio não se aplica, pois temos um caos partidário. Penso que a verticalizão se imporá, naturalmente, quando tivermos apenas 7 partidos.
antônio t m de carvalho , Fortaleza-CE - advogado
Enviado em 1/2/2006 às 5:44:45 PM
Permita-me discordar do ilustre A.D. quanto a questão da verticalização, esta sim, uma violência, porque impunha a todo um diversificado país, acordos de gabinetes feitos na calada da noite na surrealista Brasília. O Brasil, como o brilhante jornalista sabe, tem dentro de si, muitos países. As realidades são distintas entre regiões, estados, e mesmo municípios. As necessidades, visões e posicionamentos políticos são decorrentes dessas múltiplas realidades. Se elas são estranhas, esdrúxulas, é porque este país também é assim. Não temos pessoas que tomam champanhe de mil dólares no café da manhã e outras que mal comem uma vez por dia ? Verticalizar alianças políticas a partir do acordo nacional é desconhecer esta realidade e fingir que a mudamos através de canetadas legislativas, como foi essa interpretação do TSE, usurpando função que é do legislativo, isto sim é grave, e sequer foi tocado pela mídia.
VANDER EUSTÁQUIO , CONTAGEM-MG - ENGENHEIRO
Enviado em 1/2/2006 às 2:53:39 PM
Em Belo Horizonte, foram lançados: 1 - Jornal tabloide pertencente ao Jornal o Estado de Minas - faz a politica do governo estadual. 2 - Jornal tabloide pertencente ao jornal o Tempo - de propriedade do deputado Vitorio Medioli, ex-PSDB, atualmente no PV. Preço de venda dos tabloides: R$ 0,25 por unidade. Os tabloides são vendidos em banca e nos sinais de trânsito de Belo Hte. Sugiro que comprem um exemplar de cada, e tentem lê-los. Se conseguirem, solicito que analisem, comentem e façam um programa sobre a influência destes veiculos nas campanhas eleitorais de 2006. Na minha opinião, os tabloides apenas sujam a cidade, gastam tinta e papel ao preço de R$ 0,25 para quê? com qual finalidade?
Luis Neubern , São Paulo-SP - Administrador
Enviado em 1/2/2006 às 12:22:52 AM

Sr. Dines, minha consciência agora encontra-se tranquila após leitura de seu, como sempre, ótimo texto "Recessos Desencontrados". Passei por tolo quando em uma reunião entre amigos demonstrei minha preocupação com o fim da verticalização. Disseram-me que era "apenas" uma emenda constitucional a ser votada e posta em prática. Que a verticalização não respeita as caracteristicas e necessidades regionais dado o tamanho do Brasil. Como prova definitiva da bobagem da minha indignação, acredite, disseram "ninguem nem fala sobre isso". Ninguém entende-se por imprensa. Descontado o desinteresse político de meus colegas, tenho certeza que se os jornais promovessem um debate sobre o fim da verticalização eles compartilhariam de minha preocupação ou talvez, melhor informados, nossa conversa teria sido muito mais inteligente e proveitosa.

Quando digo que minha consciência está tranquila é porquê compartilho com sua análise sobre o fim da verticalização o que demonstra a estes meus colegas que não estou neurótico. Quanto a sua crítica à imprensa sobre este episódio o que posso dizer é que quantas ocasiões sociais igual a que tive deixaram de discutir um assunto de tamanha importância por simples falta de informação. Espero que a imprensa atente a este sempre atento observador, Sr. Dines, e procure debater o tema junto a sociedade, para que se forme uma opinião, e trasmita-a de forma clara a Vossas Excelências Senadores e Deputados. Antes tarde do que nunca.

Maria Izabel Ladeira Silva Silva , Aracaju-SE - professora
Enviado em 31/1/2006 às 6:58:31 PM
Execelente! Adorei o artigo! Na verdade, todo mundo cochilou! Para nós, pessoas comuns, há uma canseira generalizada: estamos exaustos do noticiário político. Mas há que se levantar e ficar de olho no que vem por aí.
Edgar Dias , são paulo-SP - advogado
Enviado em 31/1/2006 às 6:48:37 PM
Como sempre, direto e brilhante! Parabéns! Justiça seja feita, a Globo noticiou e criticou abertamente e ostensivamente a votação da "horizontalização" ou "fim da verticalização", o que é uma boa surpresa.
José Soccorro , Maringá-PR - arquiteto
Enviado em 31/1/2006 às 6:07:45 PM
Parabéns pelo alerta/denúncia. O fim da verticalização é um triste retrocesso na tão difícil caminhada do País rumo ao aperfeiçoamento político. É a institucionalização da farra-do-boi, do vale-tudo, do vamos nos locupletar todos, na política nacional. é revoltante!
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