ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 366 - 24/11/2009
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OPUS DEI NA MÍDIA
A suíte que faltou

Por Fábio Carvalho em 30/1/2006

Em vez da necessária seqüência jornalística ao que foi publicado pela revista Época, imprimiu-se a espiral de silêncio. A repercussão sobre a suposta influência do Opus Dei na imprensa brasileira, se entrou em alguma reunião de pauta, não foi publicada. Os jornais mostraram até agora desprezo pelo tema. Devem imaginar que o encadeamento feito pela revista ou não existe ou, pior ainda, não é do interesse de leitores.

É razoável supor que o internauta comum esteja interessado em ler mais histórias de jornais censurados, filmes proibidos, cilícios e outras esquisitices. Por isso, parece ter aumentado o acesso ao sítio dos dissidentes da obra, o Opus Livre. Na semana passada, chegou a 1.000 visitantes por dia. Os relatos de ex-numerários, no entanto, não têm espaço aqui. A suposta influência da prelazia na mídia é o foco do presente artigo.

Talvez a versão digital do Homer Simpson que navegou no Opus Livre não tenha dado muita atenção aos comentários críticos à entrevista de Carlos Alberto Di Franco – o "intocável" na tipologia descrita por ex-numerários, muitos deles anônimos. Tentei, via e-mail, contato para saber se pelo menos um dos responsáveis pelas críticas poderia fornecer nome completo e autorizar a publicação. Não obtive resposta.

Não há como comparar, técnica ou hierarquicamente, críticas que surgiram no Opus Livre com as que faltaram na imprensa. As primeiras foram feitas por quem diz ter sobrevivido por anos às práticas do Opus Dei: tem vivência e razões muito particulares, que não são pequenas ou desprezíveis, mas não bastam para que o leitor construa seu próprio repertório sobre a mídia e a obra.

Imprensa impedida

Já a imprensa poderia ter publicado repercussão em reportagens mais aprofundadas. Com limitados recursos, notadamente os intelectuais, tentei contribuir com o leitor deste Observatório. Fiz contato eletrônico com a sala de imprensa do Opus Dei e com três jornalistas que participaram do curso Master em Jornalismo, dirigido por Di Franco. As respostas que obtive estão editadas mais abaixo.

Outra alternativa para imprensa, subindo os degraus da intelligentsia na mídia, seria o assunto freqüentar os espaços de editoriais e as páginas de opinião de grandes jornais. Páginas, aliás, que costumam publicar artigos inteligentes como os do jornalista Di Franco e os do advogado Ives Gandra Martins. Nos últimos dias, esses espaços não trouxeram, via de regra, nada que remetesse ao Opus Dei.

Ao não repercutir o assunto, que poderia revelar alguma coisa de seus misteriosos bastidores, ou mesmo negar a influência questionada pela revista Época, a imprensa brasileira acusou o próprio impedimento. No futebol, o que marca essa falta é bandeira. Ou ainda o apito, piiiiiii...

Vínculo omitido

Época jogou luz, trouxe ligação que "todo mundo na mídia sabe", mas é intrigante que o esforço de reportagem da revista tenha sido seguido de quietude respeitosa na imprensa sapiente. Talvez seja porque manter o assunto à sombra é uma forma de condená-lo ao ostracismo. Essa praxe, a solene ignorância, também foi observada em outros espaços.

No sítio oficial do Opus Dei no Brasil, não há menção à matéria da revista. Nada se vê nos ícones reportagem, notícias e na imprensa. Não há nota, sequer comentário. A semelhança com a omissão que se viu nos principais veículos de imprensa do país (cerca de 50 deles são "empresas participantes" do Master em Jornalismo) é mera coincidência? É uma pergunta, não uma ironia.

O Master em Jornalismo também tem um sítio na internet, onde não há menção à matéria da Época. Não há nessa página sequer referência à capelania confiada ao Opus Dei, ou outro destaque de vínculo com a prelazia. Os jornalistas interessados no curso com cinco semanas de aula, que este ano custará 18 mil reais, tecnicamente falando devem ter interesse em ler algo além do que saiu na revista. Talvez seja este um bom questionamento para a vigilância ética e para a busca de excelência dos responsáveis por aquele espaço virtual – ou para a próxima turma.

Contatos via e-mail

No dia 24 de janeiro, encaminhei via e-mail pedidos de informação e de entrevista à sala de imprensa do Opus Dei e aos jornalistas Luciano, Ramon e Rosane, que freqüentaram as aulas do Master em Jornalismo em anos distintos. Entrevistas por e-mail são muito ruins, piores que as feitas por telefone. Essa é outra grande limitação para minha contribuição.

Duas respostas positivas vieram no mesmo dia do meu pedido. A primeira foi de Rosane Oliveira, editora de política do jornal Zero Hora e responsável pela "Página 10", uma das mais influentes colunas de opinião da imprensa gaúcha. Ela participou do curso em 1999. Antecipou-me que sua experiência no curso foi "maravilhosa". Disse ainda que havia sido selecionada pela RBS e que a empresa custeou suas despesas para o curso.

Rosane me perguntou se eu preferiria fazer a entrevista pessoalmente, por telefone ou por e-mail. Residimos na mesma Porto Alegre. Respondi que minha opção era por contato pessoal – o único que eu teria, aliás. Não houve retorno. Encaminhei nova mensagem, explicitando mais uma vez meu interesse. Novamente, não houve retorno. Fiquei sem saber o que a demoveu de sua pronta decisão em conceder a entrevista.

A outra resposta recebida no dia 24 foi de Luciano Martins Costa, participante da segunda edição do curso, em 1998. Ele teve as despesas do Master, estimadas em 5 mil dólares, custeadas pelo Estado de S.Paulo. Graduado pela Fundação Armando Álvares Penteado, começou na profissão como rádio-escuta e trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, Veja e Estadão, inclusive ocupando chefias importantes. Já foi diretor de empresa que oferece educação para executivos e respondeu pela comunicação da Tupi Fundições. Hoje, é publisher da revista Adiante, da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, e escreve regularmente neste Observatório.

Constante omissão

Já Ramon Monteagudo, masteriano em 2003, graduou-se na PUC de São Paulo. Ele mesmo custeou o Master, em "suaves prestações" que totalizaram 11 mil reais. Ramon foi diretor da Rádio CBN em Mato Grosso. Nós nos conhecemos na redação na Folha do Estado, em Cuiabá, nos idos de 1996, onde ele era editor de política. Mais tarde, transferiu-se para a Secretaria de Imprensa da Assembléia Legislativa de Mato Grosso e hoje é diretor da Oficina do Texto, com serviços de marketing e assessoria de imprensa.

O último retorno aconteceu no dia 28, uma sexta-feira, data-limite para artigos de colaboradores eventuais deste Observatório, mas ainda foi possível acolher a resposta. Foi assinado por João Gustavo Racca, do Escritório de Imprensa do Opus Dei no Brasil. Há um professor do Master em Jornalismo, supernumerário da prelazia, que tem o mesmo sobrenome, Racca, mas não sei se ambos guardam parentesco. João Gustavo também é um tipo descrito pelos ex-numerários do Opus Livre. Foi muito cordial em suas considerações.

Em bloco, encaminhei aos ex-alunos do Master questionário com cerca de 20 perguntas, muitas delas iguais. Todas foram respondidas e não houve réplicas de minha parte. As mais importantes dizem respeito às suas experiências, ao conteúdo das aulas, às eventuais influências da prelazia no curso e à constante omissão do nome do Opus Dei, por mim registrada, em obras corporativas – ou em textos assinados, como registrou a revista Época.

Ramon tomou conhecimento do curso por um amigo e seguiu a recomendação recebida. Já Luciano chegou ao Master por convite. Desde 1992, ele estudava a gestão de empresas de comunicação e decidiu fazer o curso porque julga que "editores devem saber como funcionam as empresas jornalísticas. Além disso, sempre me interessei por estratégias".

"Nem sei o que é isso"

As aulas de gestão editorial incluíram questões como o planejamento de coberturas. Em ética, estudou-se, por exemplo, casos de abuso, como a Escola Base e a responsabilidade social do jornalista. Houve muita leitura, noções de Direito, Filosofia e Estatística.

Ambos destacaram os diversos debates em salas de aula, às vezes com convidados, e as trocas de experiências entre os masterianos. Ramon e Luciano mencionam as presenças de Elio Gaspari, Boris Casoy, Augusto Nunes, Nizan Guanaes, Otavio Frias Filho, entre outros.

Luciano sabia da ligação do curso com o Opus Dei até porque conhecia o diretor antes de chegar ao Master. Segundo ele, desde o primeiro momento, foi informada a ligação com a Universidade de Navarra e o fato de muitos professores serem da prelazia. Ramon não sabia da ligação antecipadamente. Descobriu durante o curso. "Outro masteriano me comentou", assinala. Ambos acreditam que o vínculo não tem qualquer influência no conteúdo das aulas.

Os comentários feitos pelo Opus Livre – de que primeiro a prelazia mostra-se simpática, demonstra profissionalismo, oferece assistência espiritual e, aos poucos, vai promovendo influências em suas crenças – é descartada taxativamente pelos ex-alunos. Ramon e Luciano não leram, tampouco assinaram, obras do Círculo de Leitura, da editora Quadrante. "Nem sei o que é isso", garante Luciano.

Guardiã da pluralidade

Não há carolices no curso. "Não houve tentativa de misturar as bolas", afirma Ramon, que por isso dispensa a necessidade de se explicitar o vínculo entre a prelazia e o curso no sítio do Master. Ramon não leu a crítica de Di Franco ao livro O Código da Vinci. Luciano acha o livro uma "ficção ruim". Embora discorde das opiniões publicadas, Luciano considerou a entrevista de Di Franco à Época "aberta, corajosa e transparente".

Temas onde religião e política costumam se encontrar, como laicismo, jamais foram ouvidos durante as aulas. Ramon e Luciano também nada ouviram sobre Teologia da Libertação, MST ou reforma agrária – assuntos ligados à esquerda católica. Para Ramon, o Master em Jornalismo não é uma estratégia do Opus Dei para influenciar a mídia brasileira. "Absolutamente não", escreve. Nesse aspecto, os masterianos guardam divergência.

"É razoável admitir que uma organização religiosa ou política tente sempre arregimentar jornalistas e outros formadores de opinião", escreve Luciano, que refuta a insinuação de lavagem cerebral. Para ele, todas as atividades do Opus Dei visam o poder. "É legítimo que qualquer grupo político, social, econômico ou religioso tente ampliar e consolidar sua influência na sociedade. A pluralidade deve defender a si mesma e a imprensa deve ser guardiã da pluralidade".

Resposta do Opus Dei

Encaminhei à prelazia questionamento sobre a avaliação da matéria da revista Época e se havia, enfim, algum vínculo entre o Master em Jornalismo e o Opus Dei. José Gustavo Racca respondeu que ao longo dos anos a imprensa tem informado ampla e corretamente sobre o Opus Dei. "Há, infelizmente, uma inequívoca campanha de difamação promovida por reduzido número de ex-integrantes do Opus Dei. Aos veículos que repercutiram essa campanha, faltou, parece-nos, maior acuidade para contrastar a informação."

José Gustavo afirma ainda que o Master em Jornalismo é um programa de capacitação profissional. "Os critérios são, portanto, técnicos e profissionais". Ele frisa haver trabalho de capelania e assistência espiritual "para quem se interessar". Os alunos do Master – e os demais do Centro de Extensão Universitária – praticam as mais diversas religiões. (Nota do autor: Ramon e Luciano não são católicos).

"O Centro de Extensão Universitária, procurando cuidar não apenas da qualidade científica e acadêmica das suas atividades, desenvolve estudos de aprofundamento nos aspectos éticos das diversas disciplinas", acrescenta Racca. Em nenhum momento, na resposta, afirma-se que o curso Master em Jornalismo, do Centro de Extensão Universitária, é obra corporativa do Opus Dei.

Observação: A jornalista Rosane de Oliveira encaminhou correspondência eletrônica ao autor, na noite do dia 29, pedindo desculpas por ter esquecido da entrevista.

Comentários (3)
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Cláudia Rodrigues , Osório-RS - jornalista
Enviado em 1/2/2006 às 6:03:21 PM
Uma suíte boa seria a econômica. Apurar como rolam esses altos investimentos em profissionais renomados num momento em que as empresas jornalísticas estão em crise financeira, seria curioso, quiçá esclarecedor. Aulas de filosofia? Outra boa suíte. Maquiavel como herói? Idéias acientíficas? Que tal pensarmos em um casamento perfeito entre conservadorismo e academicismo? Quanto ao fato de nada ser abordado a respeito do MST, muito compreensível. Ficar longe do tema é muito mais inteligente, para não dizer perverso, pelo menos do ponto de vista subliminar. Não sejamos ingênuos, é lamentável que jornalistas críticos e de opinião, bem eles, participem de cursos organizados pelo Opus Dei. Parece filme de terror, com certeza não é coisa pouca e nem pequena. Merece mais investigação, a começar pela econômica. Não é por aí, pela coisa fajuta do mercado, que encontramos todo tipo de corrupção?
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 1/2/2006 às 8:03:21 AM

Parece-me, olhando assim, de supetão, que os jornalistas sofrem do mesmo mal que se abate sobre nós, evolucionistas e educadores: a influência de instituições dogmáticas e perniciosas, cujo intuito é disseminar seus padrões de crendices e "assombramentos" ao público comum, através de um canal já consolidado e de um discurso dito moderninho. Se o criacionismo é a pedra em nosso sapato, também o é essa prelazia, uma vez que dissimula suas verdadeiras intenções em cursos de aperfeiçoamento profissional, mas que aos poucos pode disseminar idéias e convicções conservadores e acientíficas, levando ao "emburrecimento" do leitor mais tarde.

Mas, o que é mais preocupante, é o depoimento de pessoas ditas críticas, cujo pensamento disseminado é o pouco caso a respeito dessas instituições, alegando tratar-se de uma paranóia de visionários, ou que a influência sobre seus cérebros não é nada além de alguns fundamentos comportamentais da profissão. Acreditam eles que a instituição religiosa os apresentaria a uma cartilha, cujos mandamentos, além dos bíblicos, seriam repetir os "ensinamentos" papais. Não encontrando isso no tal "cursinho", pensam que a suspeita é infundada. Na reportagem de Época, o depoimento da mãe que teve seu filho "sequestrado" pela Opus Dei é sintomático: preparamos nossos filhos contra as drogas e a violência, mas não contra a religião.

Bruno Silveira , Ribeirão Preto-SP - Estudante
Enviado em 31/1/2006 às 4:06:47 PM
Estou fazendo uma força tremenda para acreditar nessa história de influência da Opus Dei na mídia brasileira. Isso beira o absurdo. Devo ser muito alienado mesmo. Mas vamos lá, vai. Como é que os “pensadores” da nossa imprensa se dobram a qualquer corrente, se um de seus deveres é justamente fugir de todas? Ou pelo menos serem críticos? Dá até vontade de rir. Imagina esses tiozinhos da imprensa babando por esse tipo de doutrina. Ah, pelo amor de Deus! Não dá, vai. Será que o grupinho que manda na mídia desse país é tão tosco? Cara, já li esse artigo umas três vezes, e o que o Dines escreveu também. São sérios, o que torna tudo mais bizarro. Hei, nós estamos em 2006!
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Fábio Carvalho

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