ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 373 - 24/11/2009
  Saídas para a Mídia
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NA ERA DO INFOTAINMENT
Oportunidades para a mídia, encruzilhada para o jornalismo

Por Luciano Martins Costa em 20/3/2006

O "novo paradoxo do jornalismo" reportado no relatório anual The State of the News Media 2006, do Project for Excellence in Journalism, ligado à Escola de Jornalismo da Universidade de Colúmbia – segundo o qual cresceu em 2005 o número de títulos, que no entanto estão cobrindo menos assuntos e com menor profundidade – coloca diante de nós, fazedores e observadores da imprensa, uma questão crucial: estamos, afinal, caminhando para o fim do jornalismo que conhecemos, e que ajudou a construir as modernas democracias do Ocidente?

Os elementos dessa equação estão postos. As antigas famílias proprietárias dos meios estão deixando a gestão de suas empresas, quando não as estão entregando para os credores. Os grandes conglomerados de mídia, que nos últimos dez anos se revelaram autênticos predadores, engolindo redes inteiras de jornais, cadeias de rádio e TV, portais e tudo que parecia apetecível ao capital, estão se defrontando com a dura realidade. (Leia a manifestação do anticristo do jornalismo, Rudolph Murdoch, neste Observatório, sobre o jornalismo fast-food).

Os lucros continuam caindo, o público migra para o ambiente digital, onde não há receita suficiente para saciar o apetite do capital, os leitores mais fiéis, concordes com a natureza humana, envelhecem e morrem.

Quem vai fazer?

Nesse rumo, o capital se desinteressa daquilo que costumamos chamar de jornalismo. Já é muito claro que os grandes conglomerados praticam com mais gosto aquilo que em inglês se chama infotainment – a mistura de informação e entretenimento que usa jargões do jornalismo para se revestir de certa seriedade. Em escalas variáveis, encaixam-se nesse padrão o Programa do Jô, o Programa do Ratinho, a revista Veja, os programas de "debates" sobre futebol, as publicações voltadas para o consumo de luxo. Sem a presença das tradicionais famílias, que aos poucos perdem espaço nesse ambiente, e com as gigantes do setor se desinteressando do jornalismo de qualidade, onde ele irá acontecer?

Os blogs, salvo algumas exceções, ainda são território para autolustração de egos mais ou menos bem equipados de conteúdo. Os jornais gratuitos ainda se prendem a funções de serviços e não aceitam o desafio do jornalismo de maior risco, aquele que também implica maior responsabilidade social. As emissoras comunitárias de rádio e TV resistem a buscar um padrão profissional aceitável; as emissoras universitárias não têm recursos nem mentalidade, nem mesmo estão vocacionadas para esse papel.

Estamos vendo crescer e se consolidar uma mídia cada vez com menos jornalismo. Com tantos demônios para exorcizar, a sociedade humana talvez nunca tenha necessitado tanto de uma imprensa séria, independente, socialmente engajada e intelectualmente ambiciosa como a sociedade contemporânea. Quem vai fazer esse jornalismo essencial? Quem ensinará os futuros profissionais de imprensa? Haverá ainda uma imprensa que possamos qualificar como tal?

Comentários (3)
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Felipe Leema , São Paulo-SP - Jornalista e Filósofo
Enviado em 9/4/2008 às 12:50:09 AM
Acredito que o senhor Luciano Martins não consegue esconder seu viés esquerdista ao, de modo [ ], citar a Revista VEJA dentre programas de baixo calão tais como programa do Ratinho e essas mesas de debate sobre futebol. Não pode haver outra explicação, a não ser o típico esquerdismo patológico, para que se acuse uma revista do porte e da seriedade de VEJA de fazer um jornalismo menor, de baixa seriedade, de Infotenimento, que aliás, o senhor Luciano define de modo errado em seu texto. É, no mínimo, lamentável que tais linhas sejam publicadas em site de tão amplo acesso.
marcos assunção , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 12/12/2007 às 9:10:53 AM
Caro Luciano Costa, Registro 3 considerações a respeito do seu artigo: 1. Existe também o conceito de infotenimento em português. O conceito foi defendido em tese de doutorado junto à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA – SP), em 2003, por Fabia Dejavite. O trabalho intitula-se A prática do infotenimento no jornal diário impresso: o caso da Gazeta Mercantil. 2. O infotenimento, conforme defende a Doutora Dejavite, não se opõe ou distingue da atividade jornalística, como sugere sua afirmação “infotainment – a mistura de informação e entretenimento que usa jargões do jornalismo para se revestir de certa seriedade”. Dejavite demonstrou que até mesmo o jornal Gazeta Mercantil pratica o infotenimento. 3. Você sugere oposição entre um mau jornalismo, da Veja, que utiliza o infotainment e um jornalismo “de qualidade”. Segundo a tese de doutorado acima citada, esta oposição não mais se sustenta. Não que a Veja não pratique um mau jornalismo; isto é fato. Mas porque nem sempre infotenimento implica em jornalismo sem qualidade. Afirma Dejavite, em livro baseado em sua própria tese de doutorado: “Não podemos esquecer que o INFOtenimento é sinônimo de jornalismo ético, de qualidade e que, por isso, não deve ser tomado como um jornalismo menor por explorar o entretenimento” (INFOtenimento: informação + entretenimento no jornalismo, p 89)
Fernando Milliet Roque , São Paulo-SP - Arquiteto
Enviado em 23/3/2006 às 10:00:27 AM
Caro Luciano: a realidade é triste mesmo, mas "e pur si move", em algum lugar temos que buscar informações (ou seriam dados?) para que possamos processá-los. Infelizmente estas informações estão cada vez mais ralas. Abraço carioca. PS: Gostei da expressão "os leitores mais fiéis, concordes com a natureza humana, envelhecem e morrem". Vou usar (citando a fonte).
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