ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 384 - 24/11/2009
  Interesse Público
Início > Índice Geral > Interesse Público + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

LEGISLAÇÃO CAPENGA
O que foi feito da Lei Geral de Comunicação Eletrônica de Massa?

Por Venício A. de Lima em 8/6/2006

As recentes decisões do Conselho Administrativo do Direito Econômico (Cade) do Ministério da Justiça, tanto sobre as condições da fusão entre a Sky e a DirecTV, como sobre a exclusividade da Globo na transmissão dos principais campeonatos do futebol brasileiro, e a escolha do modelo a ser seguido na implantação da TV digital, tornam gritante o absurdo da inexistência de uma regulação geral na área da comunicação eletrônica.

Na verdade, os acertos legais que agora se fazem e a provável adoção do modelo japonês para a TV digital não resolvem as questões fundamentais do setor – e nem aquelas que se manifestam aqui e acolá entre os concessionários dos serviços públicos de radiodifusão.

Duas dessas questões afloraram nas decisões que estão agora sendo tomadas.

Primeiro, a propriedade cruzada. Enquanto um mesmo grupo de mídia puder ser concessionário de televisão aberta e de televisão paga (DTH, cabo ou MMDS) – além de concessionário de emissoras de rádio, proprietário de jornais, revistas e provedores de internet – haverá concentração e menos pluralidade. E, obviamente, haverá conflitos de interesse com outros concessionários que disputam o mercado em cada uma das atividades concorrentes.

Segundo, a ausência de restrições e limites para produção e a distribuição de conteúdo. Um mesmo grupo de mídia produz a maior parte do conteúdo que distribui através de suas diferentes mídias. Isso, além de sufocar a produção independente, possibilita maior controle sobre o conteúdo de toda a mídia e, portanto, menos diversidade. Um único grupo de mídia pode vir a controlar tanto a produção como a distribuição de conteúdo, inviabilizando a competição no mercado.

Acerto entre grupos

A inexistência de um marco regulatório geral em que estejam contempladas todas as mídias – e suas potencialidades de convergência – torna os eventuais acertos parciais sobre fusões e/ou distribuição de conteúdo apenas remendos malfeitos.

Como se faz no resto do mundo, o que urge fazer no Brasil é regular de forma abrangente o setor da comunicação eletrônica de massa.

Cabe, então, perguntar: o que foi feito da Comissão Interministerial criada em janeiro deste ano, em substituição ao Grupo de Trabalho Interministerial criado em abril do ano passado [por sua vez resultado da interrupção do processo de transformação da Ancine em Ancinav em janeiro de 2005], que, aliás, nunca chegou a se reunir, e que deveria preparar uma proposta (limitada aos artigos 221 e 222 da Constituição) de Lei Geral de Comunicação Eletrônica de Massa?

Estavam certos aqueles que anteciparam que a criação da tal comissão de ministros era apenas mais uma forma de "empurrar o assunto com a barriga" e postergar indefinidamente a urgente regulação do setor?

Será que os grupos que dominam a mídia no Brasil já alcançaram – de fato – poder suficiente para inibir inclusive as ações do poder Executivo no sentido da regulação do setor?

Cobrar do governo federal uma resposta a essas questões é tarefa prioritária da sociedade civil organizada, diretamente e/ou através de seus representantes no Congresso Nacional.

O que não se pode mais é acreditar que decisões parciais e acertos entre os mesmos grupos que historicamente se beneficiam da ausência de regulação sejam solução para as questões do setor de comunicações e, muito menos, servidores do interesse público.

E não é exatamente isso o que está acontecendo?

Comentários (1)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Evite vulgaridades e simplificações grosseiras. Não escreva em maiúsculas: isso dificulta a leitura do texto e, na linguagem da internet, é interpretado como gritos. Mensagens que não atendam a estas normas serão deletadas, e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Fabio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 6/6/2006 às 2:02:13 PM
Texto excelente, mas... o autor pressupõe que temos ESTADISTAS, ou seja, administradores capazes de definir metas de longo prazo e impor o interesse público aos mesquinhos interesses particulares ou setoriais. No Brasil vivemos sob presidentes cerzidores, cada qual remendando aqui e ali a legislação, quase empre em troca de alguns trocados para disputar a próxima eleição. O autor também pressupõe que temos legisladores e não vagabundos que usam seus cargos parlamentates para se apropriar indevidamente de recursos públicos.
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Venício A. de Lima

Outros artigos desta Seção
LEGISLAÇÃO CAPENGA
O que foi feito da Lei
Geral de Comunicação
Eletrônica de Massa?

Venício A. de Lima
8/6/2006
ELEIÇÕES 2002 E 2004
O mapa do financiamento
político do setor
de comunicação

Israel Fernando de Carvalho Bayma
8/6/2006
OI NA TV CULTURA
Nova grade, velha má vontade
A. D.
8/6/2006
TV DIGITAL
Do Japão se quer o
exemplo, não o padrão

Regina Mota
8/6/2006
RELAÇÕES PERIGOSAS
A escolha do
padrão de TV digital

Gustavo Gindre
8/6/2006
DIVERSIDADE EM RISCO
Brasil precisa dizer
não à invasão cultural

Fórum Nacional pela
Democratização da Comunicação
8/6/2006
MACAPÁ, AP
Empresário de TV é
preso e mídia silencia

Chico Bruno
8/6/2006
PRODUÇÃO AUDIOVISUAL
Entender o futuro ou se refugiar no passado
Nelson Hoineff
8/6/2006

Últimos 5 artigos de
Venício A. de Lima
CONSELHO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
Três anos de ilegalidade
24/11/2009
DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
A grande mídia e a desigualdade racial
17/11/2009
ACÓRDÃO DO STF
A imprensa entre a norma e o fato
17/11/2009
CONCESSÕES DE RTV
Onde está a informação oficial?
10/11/2009
CANAIS COMUNITÁRIOS
Fundo para a radiodifusão pública
3/11/2009
Mais artigos de
Venício A. de Lima >>