ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 389 - 24/11/2009
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JORNAL DA COPA
Jornalistas-torcedores ou torcedores jornalistas?

Por Marta Ferreira em 11/7/2006

Tenho 33 anos e vivo em um estado em que futebol é coisa do passado, do tempo em que o Operário Futebol Clube conseguiu ser o terceiro na "taça de ouro", quando eu não havia completado ainda os 7 anos. Não acompanhei, portanto. Mas sou brasileira e por isso não desisto do futebol. Em Copa do Mundo, sou do tipo que, podendo, assisto a todas as partidas, leio as análises e, como jornalista, tento ainda acompanhar, com a facilidade da internet, o que dizem os nossos jornais e os jornais lá de fora.

Na Argentina, na Itália, na França, em Portugal. O tom ufanista se repetiu nesta Copa. Cobertura futebolística, decididamente, é uma categoria sui generis de jornalismo em âmbito global. Nela, um pouco de tudo que se aprende na faculdade, ou na escola da vida das redações, vai para o fundo das redes, é ignorado. Em vez de matéria, têm-se libelos de jornalistas-torcedores, ou vive-versa.

Pois bem, no Brasil, a derrota acachapante para os mesmos franceses que "nos" haviam humilhado em 98 danou tudo de vez. O tom ufanista e volúvel da cobertura, que ao mesmo tempo batia e agradava aos canarinhos milionários da seleção, descambou para a falta de respeito. Uma perigosa falta de respeito em forma de material pretensamente jornalístico, mas carregado de opinião e cobrança tal qual um chefe irritado com um funcionário incompetente.

Tias no velório

O exemplo saltou aos olhos ao ler, na terça-feira (4 de julho), reportagem da Folha de S.Paulo sobre o domingo pós-derrota de Ronaldinho Gaúcho. O jornal mandou um repórter à Espanha, onde vive e trabalha o jogador alçado à condição de deus do esporte e do qual se esperava tirar o título dos adversários na Alemanha com a mesma facilidade das peraltices feitas com a bola. Ronaldinho não decolou. O Brasil perdeu, o país chorou e, na segunda-feira, voltou à rotina, sem Fátima Bernardes no Jornal Nacional, nem Galvão Bueno tagarelando sobre a soberania do futebol brasileiro, direto da Alemanha.

Ronaldinho, como mostrou a matéria, ao voltar para Barcelona reuniu amigos, tocou o inseparável pagode e depois foi para uma casa noturna de onde, conforme o texto, saiu no dia seguinte às 5h, acompanhado de Adriano, outro jogador bastante contestado.

Se fosse um relato objetivo do que fez na volta para casa o atleta, após 40 dias de concentração e de um insucesso, poderia ser cabível. Mas não, o texto mais parecia mais a conversa entre tias fofoqueiras durante um velório em que a viúva adota a discrição, e acaba sendo criticada por não chorar o tanto que esperavam. Transpareceu a ironia pelo fato de o craque não ter vestido o luto e se guardado em casa, após a eliminação do Brasil. É feio não ficar solenemente triste?

Viés irresponsável

Ronaldinho, que é pago pela iniciativa privada, teve a vida pessoal bisbilhotada tal qual um criminoso do colarinho branco. A matéria da Folha é só um recorte em um painel de exageros, movido a ressaca do título perdido, que todos temos, e a frustração de investimentos grandiosos das empresas de comunicação que apostaram na chegada do Brasil até o fim do evento esportivo. As mesas-redondas na televisão, algumas bem irritantes, beiraram a calúnia em relação ao técnico Carlos Alberto Parreira, um profissional, assim como Ronaldinho, pago pela iniciativa privada. Ou já estatizaram a CBF?

O futebol é sim um assunto de interesse público no Brasil. Seus comandantes e atores devem mesmo ser alvo de cobertura jornalística intensa, dada a responsabilidade que carregam num país que pára para vê-los atuar e onde a seleção campeã cinco vezes é um dos poucos combustíveis para a auto-estima nacional.

Mas da forma como os torcedores-jornalistas tratam seus protagonistas, parece mais que isso. É uma cobertura mais ácida do que a que normalmente é dada a corruptos gastadores de dinheiro público. E é um viés irresponsável. Apelar à caça às bruxas e ao revanchismo, em tom e espaço destinado à matéria jornalística, só incita ações como a dos torcedores que incendiaram uma estátua de Ronaldinho Gaúcho Em Santa Catarina. É só um esporte, não uma guerra.

Comentários (2)
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Alexandra Mello , Rio de Janeiro-RJ - historiadora
Enviado em 17/7/2006 às 11:33:55 PM
É verdade que a CBF é uma entidade privada, bem como os seus patrocinadores. Mas a marca que todos eles exploram, e que movimenta rios de dinheiro, chama-se "seleção nacional" e é, sim, pública (o que, veja bem, não é sinônimo de "estatal"). A "seleção" é um bem público, simbólico e material, que inclusive incorpora uma "mística" (associada à sua própria história, que tampouco é "privada") que é infinitamente maior do que a mera reunião de um punhado de supercraques financiados por patrocinadores privados. Aliás, a própria derrota na Alemanha mostrou que não basta ter um punhado de supercraques para ter-se, efetivamente, uma equipe com espírito de seleção. Nesse caso, a soma das partes não é e jamais será igual ao produto final, Lamentável é que a mídia esportiva, e mesmo a não-esportiva, concentre-se muito mais nas idiossincrasias pessoais do que nas questões institucionais. Critica-se o técnico, os jogadores, até a comissão técnica, mas a direção da CBF segue impávida, perdendo ou ganhando. Como se uma entidade privada que explora um bem e uma marca pública não devesse estar sujeita a nenhum tipo de regulação e prestação de contas igualmente públicas.
Arlindo Oliveira Filho , Barra Mansa-RJ - Sup. Administrativo
Enviado em 12/7/2006 às 2:18:40 PM
Só um comentário sobre o caso da "balada do Ronaldinho e Adriano" (foi assim que alguns jornais traziam as manchetes). O fato dele ser um dos jogadores mais conhecidos no Mundo, além da derrota para a França, mesmo se ele resolver ouvir rádio num volume acima do 10 seria sinal de que ele não estava "nem ai" para o resultado negativo. Pessoalmente eu aproveitei minha noite de sábado, tomando umas cervejas com amigos e voltando os comentários pra Copa do Brasil e o Mengão. Até a proxima decepção (espero que não) assim é a vida e ela tem que seguir. Acredito que outros jogadores também sairam pra arejar a cabeça depois de dias fora de casa, mas não foram flagrados. Infelizmente a imprensa (dis) torceu muito mais que os torcedores oficiais.
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