ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 396 - 24/11/2009
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CONCENTRAÇÃO E DIVERSIDADE
Apetite da RBS expande-se para o norte

Por Luciano Martins Costa em 29/8/2006

A Rede Brasil Sul, dona do diário Zero Hora, prepara seu desembarque em São Paulo para o fim desta década. Depois de adquirir parte da Rede Anhanguera de Comunicação, sediada em Campinas, em operação ainda não confirmada nem desmentida pelas duas partes, a empresa anunciou a compra do diário A Notícia, de Joinville, numa seqüência de outros investimentos que a posicionam como a empresa de comunicação mais dinâmica e profissionalizada do país.

Com a compra do jornal catarinense, a RBS coleciona oito diários. No Rio Grande do Sul, edita Zero Hora e o popular Diário Gaúcho, em Porto Alegre; o Diário de Santa Maria; e o Pioneiro, em Caxias do Sul; em Santa Catarina, tem o Diário Catarinense, em Florianópolis; o Jornal de Santa Catarina, em Blumenau; e agora A Notícia. Além disso, possui 26 emissoras de televisão aberta, duas estações locais de TV, 26 emissoras de rádio, dois portais de internet, editora, gráficas, gravadora, empresa de logística e empresa de marketing. O grupo emprega cerca de cinco mil pessoas e faturou no ano passado 825 milhões de reais, com lucro líquido de 78 milhões de reais.

Programa de expansão

Quando confirmada a negociação com a Rede Anhanguera de Comunicação, os gaúchos poderão exibir em seu patrimônio a posse ou controle do Correio Popular, que tem 72% do mercado de jornais de Campinas, e, com 295 mil leitores, é o mais lido do interior paulista, segundo pesquisa Ipsos-Marplan feita em 2003. Leva também O Diário do Povo, segundo jornal mais lido de Campinas e líder de vendas em bancas da região – que, segundo a mesma fonte, possui 106 mil leitores – e a Gazeta de Piracicaba, além da Agência Anhanguera de Noticias e de um semanário.

O Grupo RBS foi envolvido em polêmicas em 2002, quando o ex-ministro da Casa Civil do governo FHC, Pedro Parente, assumiu a vice-presidência da empresa logo após ter sido apontado como autor de mudanças na Medida Provisória 70, que favoreceriam o RBS. Na ocasião, o Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação denunciou o caso. Além disso, o grupo foi acusado naquele mesmo ano de haver interpretado incorretamente pesquisas eleitorais sobre a disputa no Rio Grande do Sul, favorecendo o PSDB. Na ocasião, a direção da empresa se desculpou pelo comportamento considerado inapropriado de formadores de opinião ligados ao grupo.

Considerada a mais agressiva e profissional empresa brasileira do setor, o grupo RBS iniciou há cerca de quinze anos um ambicioso programa de expansão, que começou com a reforma gráfica do seu carro-chefe, o jornal Zero Hora. Sob o comando do designer Luis Adolfo, o projeto trouxe ao Brasil o consultor Mario Garcia, que em seguida se tornou o predileto de nove entre dez jornais brasileiros. Até mesmo o poderoso O Estado de S.Paulo, no início dos anos 1990, usou a reforma do Zero Hora como modelo para as mudanças que realizou em seus cadernos.

Posteriormente, o grupo RBS, ainda sob o comando de Jayme Sirotsky, começou uma série de aquisições em Santa Catarina, fazendo tentativas de ingresso no Paraná e no interior paulista. Ao mesmo tempo, Sirotsky tratava de levar a organização a ocupar espaços de representação institucional compatíveis com sua condição de "maior grupo de comunicação multirregional do Brasil", chegando à presidência da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Mundial de Jornais (WAN).

Planejamento quase obsessivo

Os gaúchos não brincam em serviço. O atual presidente do grupo RBS, Nelson Sirotsky, preside a ANJ. O sistema de gestão e profissionalização da empresa, que nenhum dos grandes grupos até aqui listados entre os grandes da imprensa brasileira teve ousadia de implementar, é considerado modelo e referência em congressos internacionais. Um exemplo: nenhum integrante da família proprietária é admitido em qualquer empresa do grupo se não demonstrar que é destacadamente melhor do que os demais candidatos.

Para se ter uma idéia do grau quase obsessivo de planejamento a que chega a empresa, basta que se diga que, na aquisição de A Notícia, a RBS preparou um projeto de implantação com prazo de 11 anos. A redação de A Notícia tem 120 jornalistas e deverá ser reduzida em 30% a 40%, segundo um de seus editores. O prazo de transição mal dá tempo para procurar outro emprego: em dois a três meses, o jornal já deverá ter a cara e o estilo de gestão do grupo RBS, para aproveitar as oportunidades de anúncios que serão criadas no fim do ano pelos bons resultados das grandes indústrias da região, que costumam distribuir bônus por desempenho a seus funcionários.

Fragilidades e relacionamentos

O antigo proprietário do diário de Joinville, Moacir Thomás, foi convencido de que, se não cedesse ao rolo compressor da cavalaria gaúcha, veria seu jornal sitiado, de um lado, pelo Diário Catarinense, a partir de Florianópolis, e do outro pelo Jornal de Santa Catarina, que cobre a Região dos Vales e o litoral norte do estado, de Blumenau a Camboriú. Conhecedor das táticas extremamente agressivas aplicadas pelo concorrente, Thomás percebeu que em dois ou três anos teria que aceitar a venda em piores condições de negociação.

Desde o início dos anos 1990, quando executivos do Zero Hora participavam do Projeto Beta, pelo qual os grandes jornais do país partilhavam as melhores práticas de gestão, sabe-se que, como O Globo no Rio, seu futuro estava na estrada, mais precisamente na BR-116, em direção a São Paulo. No Paraná, o próximo alvo é a Rede Paranaense de Comunicação, que edita a Gazeta do Povo e o Jornal de Londrina, e controla a Rádio 89 e a TV Paranaense, afiliada à Rede Globo. Essa, aliás, é uma característica que vale a pena observar na trajetória do grupo RBS: em seu rastro poderão ser autopsiadas algumas antigas parceiras do grupo da família Marinho.

Desde o Projeto Beta, os gaúchos acompanham os números dos grandes jornais de São Paulo. Conhecem suas fragilidades, souberam esperar e fazer relacionamentos. Entrar pela porteira do interior paulista, justamente pela segunda maior cidade do estado, é um passo que não permite dúvidas quanto ao estágio de sua estratégia. Autodefinida, há cerca de seis anos, como uma empresa de comunicação multimídia, ela age como tal.

Mesmo dedicados a um modelo conservador de imprensa, se comparados aos gestores dos grandes jornais do maior mercado do país os executivos do grupo RBS são o único sinal de modernidade no setor.

Comentários (17)
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licurgo urquiza , porto alegre-RS - jornalista
Enviado em 8/9/2006 às 11:09:48 PM
crescer pode. o que não pode é passar por cima da constituição brasileira e ficar por isso mesmo. isso não pode. em porto alegre eles disputam até os bairros, com os jornais menores. quem diz que faz um bom trabalho ou é telespectador ou é gente da área superdesinformada sobre os veículos do grupo. os principais porta-vozes da empresa, no rádio, no jornal e na tv, sequer são jornalistas. palha esse governo federal se no impassível segundo mandato não botar uma rédea forte neste processo. ou regulariza ou é incorporado. sim, porque vários fatores dão conta da empresa comportar-se como um partido político. manipular pesquisa é só a ponta...
João Vanderlei Eberhart , Santa Helena-PR - Locutor/Estudante jornalismo
Enviado em 5/9/2006 às 10:51:25 AM
Apenas devemos ficar atentos para o poder e influência que um meio de comunicação monopolista pode ter em um Estado ou região. O caso da RBS deve ser observado. Qual candidato apoiam nestas eleições? Qual a ideologia seguida pela empresa? Como jornalistas, sabemos das diversas maneiras ou artimanhas que temos para dominar e dirigir as notícias. Pensemos nisso. Para o público em geral as notícias podem parecer as mais verdadeiras, mesmo que sejam falsas. Não querendo dizer com isso, que a RBS produza mentiras, apenas alertando para a possibilidade, assim como pode fazer qualquer outro grupo que domine os meios de comunicação.
Fernanda Teodoro , Balneário Camboriu-SC - estudante de jornalismo
Enviado em 1/9/2006 às 4:54:38 PM
Não estou escrevendo nenhuma novidade. Mas sou estudante do curso de jornalismo, e toda a classe está revoltada com o monopólio que agora se instaurou por completo aqui em Santa Catarina. Antes o grupo RBS detinha quase todos os jornais impressos sem contar com a emissora de TV RBS afiliada da Rede Globo e rádio. O único jornal que não era da família Sirotsky foi comprado semana passada pelo grupo. Então qual é a escolha que teremos agora em diante aqui no Estado? O negócio foi fechado em dinheiro vivo por 55 milhões de reais, "A notícia" considerado por nós o melhor jornal de Santa Catarina, agora vai se tornar mais um tablóide com um jornalismo raso e padrão. O que poderemos fazer diante de tal situação?? Fernanda
Ricardo Boff , Blumenau-SC - Estudante
Enviado em 31/8/2006 às 8:32:04 PM
eu adoraria ver a rede globo perder força, pois o seu jornalismo chapa branca, que só transmite o que interessa aos seus cofres, que não se cansa de propagandear o rio de janeiro em tudo o que puder (do cristo redentor ao flamengo, é uma overdose de marketing) e a apenas dar uma puxadinha de saco no resto do país. mas ser dominado pela rbs seria melhor? bom, pelo menos são aqui do sul...
José de Souza Castro , Belo Horizonte-MG - Jornalista
Enviado em 31/8/2006 às 3:58:00 PM
Complementando comentário feito abaixo, com informações divulgadas hoje pelo jornal "O Tempo": parece que só o grupo jornalístico do deputado federal Vittorio Medioli (PV) tem condições de barrar a investida gaúcha no Estado (que começou no setor siderúrgico, com a compra pelo Gerdau da Açominas e outras siderúrgicas mineiras). O jornal Super Notícia, editado pelo grupo de Medioli, juntamente com o diário "O Tempo" e o semanário "Pampulha", continua crescendo. Segundo o IVC, em julho cresceu 0,6%, consolidando sua liderança. Vendeu em média 126.752 exemplares por dia (a 25 centavos cada) no mês. Em seguida vem o "Estado de Minas", até recentemente o de maior circulação do Estado, com 76.072 exemplares por dia. Outro jornal dos Diários Associados, "Aqui", lançado para concorrer com o "Super", vendeu em média 27.744 exemplares por dia. Por enquanto, só fez canibalizar outro jornal dos Associados, o "Diário da Tarde", historicamente o mais vendido (foi fundado há 75 anos) em Minas, que caiu para 14.364 exemplares em média por dia. Entre os jornais do país com maior venda avulsa, "Super" só perde para "Extra" (RJ) e "Diário Gaúcho" (RS). No ranking geral, que inclui assinaturas, o jornal de Medioli está em oitavo lugar. Nenhum outro jornal mineiro aparece na lista dos dez mais vendidos do país, o que mostra a fragilidade da imprensa mineira, considerando-se que Minas é o segundo estado mais populoso e o segundo ou terceiro maior PIB brasileiro. Daí, continua valendo o adjetivo modorra...
Rômulo Mafra , Itajaí-SC - editor de jornal
Enviado em 31/8/2006 às 12:25:22 PM
Bem, e a questão do monopólio, levantada aqui nos comentários, fica como???? É permitido a um grupo dominar todos os grandes jornais de um estado (e, no caso da RBS, de dois estados)???? E, como também foi lembrado aqui, o segundo maior jornal (fora do "eixo" RBS) é o jornal Diário do Litoral (Diarinho), que simplesmente é inacessível ao grupo RBS em Itajaí e região - e, já invadindo Floripa - com sucesso - há algum tempo.
moises a. goncalves , peloats-RS - taxista
Enviado em 31/8/2006 às 10:49:03 AM
é fundamental para qualquer empresa buscar novos mercados e consolidar sua marca e não vejo nada de anormal no que a rbs esta fazendo e sinto que a reportagem coloca o assunto de uma forma assustadora ou esta sendo tendenciosa, pois se um grande magazine vem para o sul ou se um grande supermercadista vem do nordeste para o eixo rio são paulo para buscar novos mercados e muitas vezes a saida para a empresa se manter no mercado e continhuar competitiva, então compre no pão de açucar quem quer e leia ou assista a rbs quem tiver interesse em sua programação. o mercado para mim é assim consome quem quer e se tem duvida não fique parado, busque a verdade.
José de Souza Castro , Belo Horizonte-MG - Jornalista
Enviado em 30/8/2006 às 6:34:35 PM
A crer no artigo – e não tenho conhecimento suficiente para descrer – fico a imaginar o que acontecerá com a imprensa mineira, se os gaúchos chegarem aqui. Ou acaba a modorra dos mineiros ou eles tomam conta de tudo...
Cesar Valente , Florianópolis-SC - Jornalista
Enviado em 30/8/2006 às 3:21:19 PM
Luciano: o nome do ex-proprietário de A Notícia é Moacir Thomazi.
Simone Luft , Não-Me-Toque - RS-RS - do lar
Enviado em 30/8/2006 às 12:53:14 PM
É sem dúvida um grupo poderoso, comandado por gente honrada e que faz um belo jornal e tv no Sul. Porém, como todo grande grupo, luta por seus interesses usando métodos nem sempre corretos. Se pretendem partir Brasil afora, que pelo menos sejam imparciais na política e no futebol. Que façam do centro do país o lugar para construir uma nova mídia, onde o povo do resto do Brasil, já cansado de ouvir só os interesses do eixo Rio-São Paulo, possa também se fazer ouvir em pé de igualdade.
Aline Souza , Porto Alegre-RS - Estudante
Enviado em 30/8/2006 às 10:55:40 AM
Grandes ambiciosos... aqui no sul são potência. Não há super-evento, superdivulgação, supermídia, super-rádio, superjornal, superfestas que não os envolva. Eles deveriam parar de crescer? mas por que, se podem? Claro que uma nova mentalidade de imprensa seria um benefício para nós, a sociedade, mas nunca para um filhote Globo monopolista, imperialista, tendencionista...
frederico mayer , santa maria-RS - médico, graduado em história
Enviado em 30/8/2006 às 10:39:25 AM
Quem desejar conhecer mais sobre as práticas do grupo RBS, que na prática é o maior partido político gaúcho, visite o link http://www.zerofora.hpg.ig.com.br/. Sem falar que os principais cabeças do grupo aprimoram sua formação nos cursos ligados à Universidade de Navarra, da famigerada Opus Dei. Não existe um único grande jornal com credibilidade no RS.
jucca sassafrás , Florianópolis-SC -
Enviado em 30/8/2006 às 10:03:48 AM
O poderio da RBS no sul do Brasil, se adotado em outros países, poderia ser considerado crime de "dumping"; o monopólio da opinião pública constituído por esta empresa é o supra-sumo da ditadura dos meios de comunicação em nosso país. A Globo que se cuide...
Romeu Martins , São José-SC - jornalista
Enviado em 30/8/2006 às 1:27:27 AM
Corrigindo uma informação sobre o número de jornais do grupo: nesta segunda-feira, dia 28, eles lançaram o popular Hora de Santa Catarina para concorrer diretamente com o Notícias do Dia.
Sophia Esperança , Bal. Camboriu-SC - Jornalista
Enviado em 30/8/2006 às 12:19:49 AM
É, só esqueceu de citar que na região do vale do Itajaí, entre Camboríu e Barra Velha, está um mercado em que a RBS nunca conseguiu entrar, que é dominado pelo Diarinho, um jornal no estilo do Notícias Populares, e que dia desses teve seu pedido de filiação à ANJ negado. Foi esquecido no texto também que a RBS lançou na 2ª feira na região da Grande Florianópolis mais um jornal, que se diz popular e beira ao ridículo. Cheio de colunistas e que, de longe, se parece com algo praticado no jornalismo. O motivo do novo jornal é simples: querem matar um jornal lançado pelo grupo SBT do estado.
Jorge Friedman , Porto Alegre-RS - Físico
Enviado em 29/8/2006 às 10:51:18 PM
Parabéns à RBS. Gosto muito da linha editorial deles. Fazem um jornalismo de qualidade e responsabilidade. Quem ganha é a sociedade com uma empresa assim. Um abraço.
Líbero Badaró , Porto Alegre-RS - Do lar
Enviado em 29/8/2006 às 5:12:29 PM
"Modelo conservador de imprensa"??? Ora, faça-me o favor, caro Luciano! Até aceito o seu visível encantamento com o suposto sucesso empresarial do potentado gaúcho. Os caras, de fato, sabem fazer negócios. Mas esse eufemismo aí, me perdoe, soou quase como um insulto à minha pouca inteligência. Desde quando o conservantismo e o canalhismo sinonimizam-se?
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