ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 396 - 24/11/2009
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INTERNET AMEAÇADA
A liberdade da rede corre perigo

Por Gustavo Gindre em 31/8/2006

A internet como nós conhecemos corre risco de morte. Em um futuro não muito distante é possível que nossos filhos chamem de "internet" algo bem diferente daquilo que hoje conhecemos por este nome. E não se trata de uma afirmação alarmista, mas da simples análise de uma série de fatos que, quando somados, ajudam a constituir uma perspectiva sombria de futuro para a internet.

Mas, antes de falarmos destas ameaças, é preciso deixar claro algumas premissas.

Em primeiro lugar, não é verdade que a internet seja uma rede não regulada ou anárquica, como gostariam alguns. Os trabalhos do professor Lawrence Lessig, por exemplo, demonstram que a arquitetura da internet (a interação de diferentes hardwares e softwares) determina o limite de possibilidades da Rede, definindo o que pode e (principalmente) o que não pode ser feito em seu interior. Como tais definições são de ordem "técnica", elas passam ao largo do debate democrático, sendo definidas em fóruns igualmente "técnicos". Na prática, funcionam como leis, que definem o comportamento no interior da Rede. [Justamente por isso, as pesquisas da chamada teoria ator-rede, especialmente de seu nome mais importante (Bruno Latour), defendem a necessidade da superação dos limites entre "política" e "ciência".]

O corolário do parágrafo anterior é que não cabe discutir se a internet deve ou não ser regulada. Ela já é regulada! Cabe, isso sim, discutir qual a melhor forma de regulação, que garanta a democracia no interior da Rede.

Em segundo lugar, vale lembrar que a internet funciona em camadas e que para cada camada existe um regime diferente de regulação. Assim, temos a infra-estrutura das redes de transmissão de dados (físicas ou wireless), os protocolos de comunicação (como o TCP/IP), o endereçamento dos usuários (organizado a partir de 13 servidores-raiz, dos quais 10 estão nos Estados Unidos) e, por fim, o conteúdo que circula no interior da internet.

Pelo menos três mudanças estão ocorrendo neste momento, em diferentes camadas da internet, que podem ter como conseqüência a drástica diminuição do grau de liberdade no interior da Rede.

Pedágio na internet

A internet surgiu sem despertar muita atenção (e simpatia) das empresas de telecomunicações, usando justamente as redes destas para fazer trafegar seus conteúdos. Agora, contudo, quando a internet se torna o novo paradigma das comunicações e outras mídias já começam a incorporar a sua "linguagem" (o Internet Protocol – IP), as donas das redes (operadoras de telefonia fixa e de TV a cabo) perceberam que elas podem auferir enormes vantagens com o controle da infra-estrutura da internet.

Foi assim que essas empresas exerceram um poderoso lobby e conseguiram que a Federal Communication Comission (FCC), o órgão regulador norte-americano, revisse o princípio histórico da neutralidade das redes. Agora, o Congresso dos Estados Unidos se vê diante da necessidade de manter, ou não, a decisão da FCC.

Com o fim da neutralidade, os donos da infra-estrutura poderão estabelecer diferenças no tratamento dado aos conteúdos que circulam na Rede. Assim, se uma empresa pagou mais, seus conteúdos terão um tratamento diferenciado, circulando em vias expressas de maior velocidade. Aqueles que não puderem pagar terão que se contentar em ter websites que demoram uma enormidade para abrir ou em emitir e-mails que demorarão mais do que outros para chegar aos seus destinatários.

Sem ferir a liberdade de expressão, esta medida pode ser um duríssimo golpe na diversidade cultural e política da internet. Serviços públicos e conteúdos que tenham origem na sociedade civil serão discriminados em detrimento das grandes corporações que puderem pagar pela circulação privilegiada.

Eu sei quem você é e o que faz

Muito de nossas vidas está espalhado pela internet. Os sites que visitamos, as compras que fazemos, nossas buscas no Google, nossas comunidades e amigos no Orkut, os e-mails que enviamos e recebemos, os arquivos que baixamos etc.

Agora, imagine que isso tudo possa ser reunido e analisado. Não apenas por governos totalitários, mas também por empresas ávidas por conhecer o padrão de consumo de cada indivíduo a fim de lhe suprir com uma produção por demanda.

Tudo isso é possível, em primeiro lugar, pela inexistência de regras internacionais. Fica valendo a regra nacional do país onde a empresa está estabelecida e os servidores podem ser mudados de acordo com o interesse comercial em jogo. Por exemplo, a Google se recusa a prestar contas ao Ministério Público Federal sobre páginas de pedofilia no Orkut, alegando que os servidores estão nos Estados Unidos e somente lá o assunto poderia ser levado à justiça [ver "Google acoberta crimes no Orkut", de Luiz Weis]. Mas a mesma empresa instalou servidores na China a fim de permitir que o governo daquele país tenha acesso às informações dos usuários dos diversos serviços prestados pela Google. No caso brasileiro a pedofilia não pode ser identificada, mas na China os dissidentes que usam a internet correm risco.

Ao mesmo tempo, o governo norte-americano possui duas importantes ferramentas para ter acesso ao conteúdo que circula pela internet: o sistema de espionagem Echelon (operado pela National Security Agency – NSA) e o software Carnivore (de propriedade do FBI).

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, e com a aprovação do "Patriot Act", as obrigações legais para o uso destas ferramentas ficaram muito mais tênues e podem, inclusive, ser usadas sem que o sujeito espionado jamais tome conhecimento.

No Brasil, o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) está preparando um substitutivo (ao PLS 76/2000, PLS 137/2000 e PLC 89/2003) que considera como "identificação do usuário" não apenas sua senha, login e endereço IP, mas também "nome completo, data de nascimento, endereço completo e todos os demais dados que sejam requeridos". O projeto determina que todo aquele que facultar o acesso à internet terá que arquivar por cinco anos "dados de conexões e comunicações realizadas por seus equipamentos, aptas a identificação do usuário, endereço eletrônico de origem e destino no transporte do registro de dados e informações, data e horário de início e término da conexão, incluindo protocolo de internet ou mecanismo de identificação equivalente". Para quem descumprir, o substitutivo prevê pena de dois a seis meses e multa.

Ou seja, cibercafés, telecentros comunitários e universidades, por exemplo, terão que manter por cinco anos o endereço, data de nascimento, nome completo, número de CPF e os sites visitados por cada usuário.

Internet apenas para ler

Diversos teóricos têm chamado a atenção para o fato de que a internet pode estar ajudando a estabelecer uma nova economia, não baseada na lógica da mercadoria. É a chamada "economia do presente", onde vale o escambo e a troca, de acordo com a necessidade de cada um, e sem envolver compra e venda.

Esta idéia apavora os diretores dos estúdios de Hollywood e as grandes gravadoras acostumadas a viver da principal fatia do copyright (em detrimento do criador da obra). Por isso, já em 1998, os Estados Unidos aprovaram o "Digital Millenium Copyright Act" e fizeram a Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) aprovar o TRIPS (Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights). Graças a essas duas legislações, hoje vivemos em um mundo onde o grito do Tarzan, a canção Happy Birthday ("Parabéns pra você...") e o tom amarelo do post-it são propriedade intelectual e seu uso necessita de autorização e pagamento.

Mas, não satisfeitos, os Estados Unidos pressionam a OMPI para incluir no interior do Broadcasting Treaty – um acordo que, por si só, já demandaria toda a nossa atenção, pois, se aprovado, permitirá que as emissoras de TV proíbam a gravação de seus programas, inclusive para uso privado e doméstico – a criminalização internacional do webcasting, tornando crime a troca privada e sem fins lucrativos de arquivos protegidos pelo direito autoral.

Com isso, estaremos criando aquilo que Lawrence Lessig chama de uma internet "apenas para ler". Onde todo o conhecimento produzido possua um dono interessado em cobrar pelo seu uso. O que tornará o produtor de novos conteúdos pecuniariamente devedor do conhecimento que lhe precedeu, já que é impossível criar algo a partir do nada.

Ainda dá tempo

Este cenário sombrio está em construção. Os atores interessados em vê-lo funcionando plenamente são governos de grandes potências e principais transnacionais do setor. Eles sabem que, com os processos de digitalização e convergência, não está em jogo apenas o futuro da internet, mas o do conjunto das mídias.

Apesar disso, existe um forte movimento internacional de resistência, que procura preservar (e até mesmo ampliar) a liberdade de expressão nas novas tecnologias de comunicação.

No entanto, é fundamental que este debate seja feito também no Brasil, onde parece que a sociedade civil ainda não acordou para os riscos que corremos.

O importante é que ainda dá tempo e que a luta não acabou.

Comentários (18)
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carlos cruz , taguatinga-DF - programador
Enviado em 14/8/2007 às 2:14:37 PM
eu acho possível haver esse controle. Não há como escapar que uma infra-estrutura mundial seja fiscalizada mas enquanto houver sigilo nos dados, estas informações serão capazes de gerar sub-redes, com as mesmas capacidades das atuais, não importando o nível de segurança aplicado na identificação dos usuários. E isso não diz respeito a sofware maliciosos.
Patrícia Valiño , Rio de Janeiro-RJ - Webmaster
Enviado em 3/9/2006 às 1:12:56 PM
Pode descansar tranquilo sabendo que se um dia esse futuro chegar, ele chegará com suporte da tecnologia Microsoft. E assim sendo, chegará com uma montanha de falhas. E lá estarão os hackers para detonar as grandes corporações através destas falhas!...
Altivo Moreno , São Paulo-SP - Advogado Aposentado
Enviado em 2/9/2006 às 2:52:12 PM

Estou muito velho para ficar preocupado com tecnologias, mas vamos lá, pois o tema é assustador! Esse artigo é por demais interessante, porque, de alguma forma, a liberdade que a sociedade desfruta hoje pode ser obstada amanhã. O problema é que a gente (nós, aqui abaixo - falor por mim) não sabemos por onde começar. Outra coisa que ninguém está discutindo e também não sei como fazê-lo é a tal do sinal de televisão digital. Fico de orelha em pé, por uma simples razão: por que tanta propaganda da transmissão por televisão aberta? Ora, já não pagamos as propagandas que vão enriquecer os "donos" dos canais através dos produtos que compramos em qualquer lugar? Essa discussão eu gostaria de ver no OI. Parabéns ao autor pela matéria e que volte a nos dar notícias do andamento dessas coisas.

Apesar de minha idade o que me impede de analisar tecnicamente alguns assuntos (e até mesmo saber se alcançarei algumas modificações tecnológicas), entendi perfeitamente o domínio do autor do texto sobre o assunto, deixando-nos preocupados com o que, até agora, vínhamos bem em termos de liberdade. Um assunto que gostaria de ver debatido com esta mesma verve do autor, seja por ele ou por outro, é o caso da tevê digital, pois não sei por quê tanta propaganda fazem da tevê aberta dizendo-se grátis, mas não falam que o custo de tudo isso (transmissão) está no pagamento das propagandas dos produtos que consumimos. Parabéns! Obrigado.

Alexandre Lemke , Joinville-SC - Estudante
Enviado em 2/9/2006 às 2:11:13 AM
Patentes e copyrights viraram discussão na suécia, onde uma página de torrents virou símbolo nacional. http://www.wired.com/news/technology/0,71543-0.html?tw=rss.technology http://en.wikipedia.org/wiki/The_Pirate_Bay
Ricardo Gomes , Rio-RJ - Comunicador
Enviado em 1/9/2006 às 11:43:24 PM
Acredito sim na evolução das novas taxas de transferências de 2, 4, 6 e 8MB de velocidade, e isso pode aumentar sim! Quanto à restrição de conteúdo, acredito que há muita coisa em jogo e o governo Lula, que deve ser reeleito e se diz popular, não vai querer que o seu país, o nosso Brasil, deixe o ranking de primeiro lugar em horas de conexão!!!
ubirajara sousa , slz-MA - psicólogo
Enviado em 1/9/2006 às 9:10:02 PM
É precisa estar alerta. Pode parecer absurdo, mas, e se resolverem proibir que emprestemos um livro que compramos, uma revista, um jornal? Essa ganância desenfreada do mundo capitalista, liderada pelos EUA, é capaz de tudo. Concordo com o autor: é preciso discutir-se o assunto no Brasil. Contem comigo.
Altivo Moreno , São Paulo-SP - Advogado aposentado
Enviado em 1/9/2006 às 3:20:42 PM
Não é só a internet que está em perigo. A gramática também. É só começar a leitura desta matéria, que troca as formas que os grámaticos clássicos sempre nos ensinaram, que são risco de vida ou risco de morrer, por "risco de morte", que a gente chega a essa conclusão. Assim como a maldição do gerúndio que campeia no atendimento dos SACs espalhados por este país, esse tal de risco de morte (morte não corre risco, porque já morreu; quem corre risco é a vida...) também já está a nos aborrecer (evita-se aqui o maldito gerúndio, se bem que caberia...).
Nicolau Werneck , Campinas-SP - Engenheiro e pesquisador
Enviado em 1/9/2006 às 1:05:28 PM

Só achei um pouco absurda essa agressão à idéia de vender qualidade de serviço (QoS). O negócio das empresas de telecomunicação é vender canais de comunicação com uma certa taxa de transmissão e atraso... Do mesmo jeito que já pagamos diferenciadamente por taxas diferentes aqui "na ponta", faz todo sentido um usuário poder eventualmente pagar para que seus pacotes com destino ao servidor XYZ passe por uma certa rota ao invés de outra. Isso não significa que os outros usuário PRECISAM ter um acesso muito ruim pra outros fins. A qualidade mínima que a empresa vai poder fornecer, vai ser um tanto lá... Se você quiser mais, procure outra empresa. O risco nisso tudo precisa ser explicitado: nós não queremos é que as empresas montem um grande truste/cartel, e "fechem a torneirinha". E tem mais... Convido vocês para um "gedanken experiment", vamos animalizar essa questão. E se sua empresa de acesso à internet resolver que não vai mais te deixar acessar, sei lá, o Slashdot? Ou o site do Louvre? O que podemos fazer??

A gente presta muito pouca atenção nas especificações de nossos contratos de acesso. Você sabiam que tem empresa que proíbe (bia?) o uso de voz por IP por seus usuários?!! Não precisa ir muito longe pra encontrar idéias absurdas por parte das empresas de acesso. Quanto a esse projeto de lei do Azeredo, eu não tenho a menor idéia do que isso quis dizer, teria achado bom um esclareciemnto um pouco maior... Enfim... Eu acredito que a internet está degringolando, essa Internet, com i maiúsculo que aí está. Tudo começou com o surgimento do NAT. Uso de NAT é altamente tirânico... Recomendo o site abaixo a esse respeito. http://www.fourmilab.ch/speakfree/unix/.

Pra finalizar quero deixar registrada uma história que ouvi uma vez... Um certa empresa fornece acesso à internet a prédios, via rádio. Eles possuem essa absurda restrição de proibir os usuários de criar uma rede interna. Dizem que se você quiser ligar mais de uma máquina, precisa ligar todas elas na rede local formada por eles. Acho isso um absurdo completo. A empresa devia fornecer uma conexão, e pronto, regular apenas minha traxa de transmissão! Um funcionário dessa empresa uma vez entrou num escritório, basicamente invadindo o lugar, e fisicamente desligou os fios da rede local "irregular" de um cliente. Que que vocês acham disso? É como se a empresa de correio proibisse você de pegar um envelope, colocar em outro e mandar!

Eduardo Camposd , joao pessoa-PB - funcionario publico
Enviado em 1/9/2006 às 9:41:20 AM
O falar em liberdade num mundo em que a dominaçao capitalista consolida-se, transformando todos em meros repetidores de uma "liberdade" pre-estabelecida, parece um pouco de ingenuidade. A internet e um grande centro comercial mundial! Quem esta na chuva e pra se molhar!!!!
evelyn sa , niteroi-RJ - professora
Enviado em 31/8/2006 às 11:48:00 PM

Gustavo, meu filho trabalha com informatica e mesmo assim eu nunca fui uma grande usuaria da web. Há menos de um mes é que estou no tao falado orkut. Seu artigo fala exatamente sobre fatos que so semana passada é que fiquei sabendo por ele. O que de certa forma me preocupa é o total desconhecimento em grande escala social dessas informaçoes disponibilizadas aqui por vc. Pode-se dizer que esse espaço do OI é restrito a um publico especifico, que busca a noticia, a informaçao com criterio e capacidade critica. Como um colega acima falou, se nem mesmo na academia esses assuntos estao sendo discutidos com conteudo e criterios, imagine num amplo espectro social?

Caimos entao na velha historia, que conheço de "priscas"" eras politicas: a falta de informaçao - e seu contraponto, a falta de interesse -, a nao-diponibilidade de informaçoes corretas e confiaveis, desenvolve no publico em geral terror, fobia, medo, alguns com sentido outros nem tanto, e o pior de tudo, pessoas faceis de serem ""manipuladas" ao bel prazer de conglomerados tecnologicos e midiaticos. O que de fato se deve fazer? Informar, informar, debater, debater, sempre e cada vez mais. Em todos os segmentos sociais. Esclarecimento nunca é demais. Parabens pelo artigo. Muito bem-vindo!

Daniel Campos , Curitiba-PR - Cientista
Enviado em 31/8/2006 às 9:37:50 PM
Podemos simplesmente ignorar a estupidez americana. Como exemplo posso citar o site "thepiratebay" que faz algum tempo só se diverte com as ameaças do pessoal da RIAA. Pessoal, eles pensam que mandam mas não mandam em nada, é puro terrorismo psicológico... :)
Giovanni Moscato Júnior , Praga-IN - Comerciante
Enviado em 31/8/2006 às 4:49:46 PM
Se a internet cair nas mãos dos americanos, vai tornar-se mais um espaço completamente dominado pelos dois pilares daquela sociedade: mercantilismo puro e paranóia. Que somos vigiados aqui o tempo todo não é novidade, e esse negócio de privilegiar quem pode pagar mais... Bem, está escrito aí em cima, sem comentários! Esse Eduardo Azeredo ainda é senador? Esse é o Brasil que eu conheço...
Calypso Escobar , Rio de Janeiro-RJ - artes
Enviado em 31/8/2006 às 4:45:04 PM
A sociedade nem acordou e nem a luta começou sem que aja debates em todos lugares,centros para devidas informações,ninguem precisa ser um PHD para entender o que deve,inteligentemente ser explicado. Grata Calypso Escobar
Fabio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 31/8/2006 às 4:44:24 PM
Há duas caracteristicas da internet que certamente irão perdurar: a) seu carater desterritorial que ameaça o poder geográfico dos governos; b) a possibilidade de criação de multiplas personalidades digitais em multiplos provedores de acesso dentro e fora do território de um país e; c) a impossibilidade de controlar a ação de hackers ou de banir o hactivismo político. As leis da física não se ajustam totalmente ao mundo virtual. Com isto quero dizer que num conflito digital do tipo gato x rato não necessariamente o maior e mais rápido vence. Por mais que ações retritivas sejam adotadas pelas empresas e pelos governos a Internet sempre possibilitará a existência de guetos culturais. Há bem pouco tempo havia uma sala de chat dentro dos computadores da CIA e demorou para que fosse banida. As corporações podem controlar a rede fisicamente, os governos podem tentar limitar o acesso da população, mas não podem obrigar as pessoas a apenas consumir. Nem tampouco abortar todas as ações "não autorizadas" dentro da rede. Mesmo que com alguma dificuldade, com maior criatividade as pessoas continuarão usando a Internet para outros propósitos que os desejados pelos "adoradores de cookies" e "censores de bits". Além disto, para quem não está nem um pouco interessado no tsunami de propaganda que vem por aí, a lentidão de alguns espaços culturais virtuais pode transformá-los em atrativos irresistíveis. Ocorrerá com as novas regras da internet o que ocorreu com todos os códigos militares que foram adotados desde a primeira batalha registrada por escrito (Qadech se não me engano). Quando conhecidos os códigos e controles se tornam irrelevantes.
Juciano de Sousa Lacerda , Joinville-SC - Jornalista e Professor de Jornalismo
Enviado em 31/8/2006 às 12:11:57 PM
Gustavo, é muito interessante o fato de esses temas não estarem concretamente nas discussões e seminários acadêmicos sobre internet. Participei recentemente de um evento na Cásper Líbero e de todos os pesquisadores e temáticas, somente um, Sergio Amadeu, tocou em aspectos da problemática do controle e do copyright, e outro, Imre Simon, da USP, nos aspectos da solidariedade e ações de cidadania em rede. Autores como Armand Mattelart vêm desde os anos 90 apontando essas questões da vigilância e controle da internet por organismos como CIA e FBI (EUA) e as tentativas do mercado, despertado para o poder de bisbilhotar as práticas de consumo do cidadão. O cidadão, nesta era informacional, é transmutado simbolicamente pelo conceito de "consumidor". Você poderia informar que fóruns acadêmicos estão, de fato, discutindo esses aspectos, não separando a técnica da ciência?
Edward Wilson Martins , São José dos Campos-SP - empresário
Enviado em 31/8/2006 às 11:49:53 AM

A perspectiva de acontecer tudo isso que o notável articulista expõe é perfeitamente possível, porque o Poder Econômico não quer perder o controle sobre as sociedades, - leia-se controle sobre os mercados -, o que se faz no mundo atual através do controle sobre a liberdade de expressão. Nesse momento atual, o que esses senhores, donos do mundo, querem mesmo é auferir lucros e mais lucros; é como canta a Liza Minelli no filme "Cabaré": money, money, money, money ... Daí, por conseqüência, a lógica é a exclusão digital, a elitização, como o excelente e esclarecedor artigo está alertando. A exclusão como hoje já temos no Brasil com o tamanho da banda (maior, menor, mínima, etc. e os preços abusivos de provedores, speedys e que tais). E, obviamente, a exclusão resulta num cerceamento da liberdade.

Um dos grandes problemas no país, com relação à internet e também com relação a outras temáticas, é o debate ser realizado por pessoas leigas, seja no conhecimento técnico, seja no conhecimento sociológico da comunicação via rede. Não há a integração dessas duas coisas: os debatedores e fazedores de leis (o Eduardo Azeredo, por exemplo) ou conhecem só a técnica ou as conseqüências sociológicas, ou, o que é pior, não conhecem nenhuma das duas e ficam querendo fazer leis, regulamentações para cercear direitos e bagunçar mais ainda, ao estilo dos chineses e outras plagas longínquas do planeta.

Pretender que um internauta num cibercafé ou numa sala de chat ou mesmo em seu computador doméstico tenha que se identificar com cic, rg, data de nascimento, nome dos pais, endereço, cep etc., para o exercício da interatividade é o último dos absurdos, é de um retrocesso, de uma tacanhice inominável. É o fim da picada...!!!! Excelente o artigo, estamos guardando para servir como alerta, argumento e incentivo à mobilização, vamos republicá-lo, parabéns, é um grande serviço prestado, de novo nesse incrível Observatório da Imprensa.

André Pires , Taubaté-SP - Jornalista
Enviado em 31/8/2006 às 11:34:16 AM
Acho que a sociedade civil não pode debater um tema que ela desconhece. internet ainda é coisa rara por aqui e a grande mídia não tem o mínimo interesse em colocar em pauta tal assunto. ainda bem que existem pessoas e empresas que lutam para ampliar o conhecimento alternativo. uma salva de palmas aos eventos de empresas como a gravadora Trama. ainda é pouco para que a sociedade civil entre no assunto, mas já é um ponta-pé inicial. e acho que ainda estamos no primeiro tempo, dá pra virar o jogo.
Simone Luft , Não-Me-Toque-RS - do lar
Enviado em 31/8/2006 às 10:25:40 AM
Como pode a sociedade civil acordar se ela nem se deu conta que está dormindo no que diz respeito a esse assunto? Só deve estar por dentro o senhor e mais meia dúzia. Para haver grande debate a respeito é preciso que esses riscos sejam amplamente divulgados por quem os conhece bem. Assim os interessados poderão se mobilizar para que algo possa ser feito. Eu sinceramente, não acredito que isso possa acontecer, se bem que nada é impossivel nesse mundo. Quanto a controlar a internet com finalidade de combater terrorismo e pedofilia sou totalmente favorável. Quem não deve, não teme. Liberdade sem controle é danosa para a sociedade, basta ver o que acontece em nosso país, onde governo e mídia confundiram democracia e liberdade com libertinagem. Daí já é demais. Só podia virar bagunça mesmo.
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