ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 396 - 24/11/2009
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THE ECONOMIST
Quem matou o jornal?

em 1/9/2006

Copyright The Economist, edição de 24/8/06. Tradução: Jeovane Cazer (http://www.traducao.blogspot.com); entretítulos da Redação do OI.

A parte mais profícua da mídia está desaparecendo, motivo para preocupação, mas não para pânico. Em 1961, Arthur Miller cunhou para a história do jornalismo universal: "Um bom jornal, penso eu, é uma nação falando consigo mesma". Uma década mais tarde, dois repórteres do Washington Post escreveram uma série de reportagens que levou à derrocada do presidente Nixon, e o jornalismo impresso ganhava maior prestígio. Na melhor das hipóteses, os jornais – que geralmente definem a pauta de notícias para as outras mídias – deveriam obrigar governos e empresas a prestar contas; mas em países ricos os jornais são agora uma espécie ameaçada de extinção. O negócio de vender a palavra aos leitores e estes aos anunciantes – papel pelo qual o jornal se sustenta na sociedade – está se deteriorando.

De todas as "antigas" mídias, o jornal é o que mais tem a perder com a internet. Há décadas a circulação de jornais impressos tem tido queda nos Estados Unidos, na Europa Ocidental, na América Latina, Austrália e Nova Zelândia (em outros lugares, as vendas têm aumentado). Porém, nos últimos anos, a web tem acelerado esta baixa. Philip Meyer, autor do livro The Vanishing Newspaper (O desaparecimento do jornal), calcula que o primeiro trimestre de 2043 será o momento em que o texto impresso em papel desaparecerá nos Estados Unidos, assim que o último leitor esgotado jogar fora a última edição gasta e amassada.

Este tipo de inferência teria incomodado Beaverbrook ou Hearst, mas até o mais poderoso e cínico homem de notícias não poderia negar o fato de que cada vez mais os jovens estão buscando notícias pela internet. Jovens britânicos entre 15 e 24 anos dizem que passam quase 30% a menos de tempo lendo os jornais nacionais depois que começaram a usar a internet.

A propaganda está seguindo os leitores para fora de casa. A velocidade é quase incômoda, em grande parte, porque a internet é uma mídia atraente que supostamente aproxima compradores de vendedores e prova aos anunciantes que o dinheiro deles está sendo bem aplicado.

Papel degradado

Os anúncios de classificados, em particular, estão migrando rapidamente para a internet. Rupert Murdoch, o Beaverbrook de nossa época, descreveu-os uma vez como o rio de ouro da indústria – mas, segundo ele mesmo: "Às vezes, o rio seca". Na Suíça e na Holanda, os jornais perderam metade dos seus anúncios de classificados para a internet. Ainda não há um grande número de jornais fechando as portas, mas isso é só uma questão de tempo. Ao longo das próximas décadas, metade dos jornais correntes dos países ricos vai encerrar suas atividades.

Os empregos já estão desaparecendo. Segundo o Newspaper Association of America, o número de pessoas empregadas na indústria caiu em 18% entre 1990 e 2004. As ações em baixa das empresas de jornais listadas na bolsa de valores têm despertado a exaltação dos investidores. Em 2005, um grupo de acionistas da Knight Ridder, proprietária de uma cadeia de jornais dos Estados Unidos, fez a firma vender seus jornais, acabando assim com uma história de 114 anos. Este ano, a Morgan Stanley, um banco de investimentos, atacou a New York Times Company – a instituição jornalística mais respeitável de todas – porque o preço de suas ações caiu quase à metade em quatro anos.

Enfim os jornais estão acordando, depois de anos ignorando a realidade. Muitos também estão tentando atrair jovens leitores direcionando o conteúdo de suas histórias para o entretenimento, estilos de vida e assuntos que pareçam mais relevantes à vida diária das pessoas do que as notícias internacionais e de política. Eles estão tentando criar novos negócios dentro e fora da internet, além de investir em jornais diários gratuitos, que não esgote nenhum de seus limitados recursos editoriais voltados para revelar a corrupção política ou a fraude empresarial. Até agora, esta explosão de atividades não parece ser a salvação de muitos deles. Mesmo se o for, ela anuncia a degradação do papel público da imprensa.

O perigo no meio

No futuro, quando os jornais desaparecerem e se transformarem, poderão os políticos violar e roubar o escritório de seus inimigos sem ser punidos? E os bandidos corporativos rirão enquanto pisam em suas vítimas? As escolas de jornalismo e think-tanks (grupos de estudo independentes), principalmente nos Estados Unidos, estão preocupadas com o efeito de uma desagregação do "quarto poder". As organizações de notícias de hoje "estarão à altura para manter os cidadãos informados, sobre a qual a democracia se sustenta?", perguntou recente reportagem sobre os jornais da Carnegie Corporation de Nova York, uma fundação de pesquisas beneficente.

Ninguém gostaria de morrer com títulos importantes no passado. Entretanto, o declínio do jornal não será tão prejudicial à sociedade quanto alguns pensam. A democracia, lembre-se, já sobrevivera ao enorme declínio gerado pela televisão, em circulação desde os anos 50; sobrevivera quando os leitores desprezaram os jornais e estes desprezaram o que em tempos mais difíceis era tido como notícia séria, e certamente sobreviverá ao declínio que está por vir. Isto se deve, em parte, aos poucos títulos que investem no tipo de estórias investigativas muitas vezes benéficas à sociedade – a maioria tem boas chances de sobreviver, contanto que seus proprietários façam um bom serviço na hora de se ajustarem aos tempos de mudança.

Publicações como o New York Times e o Wall Street Journal poderiam elevar o preço de seus jornais para compensar a perda de ganhos publicitários para a internet – especialmente quando direcionados a um leitor mais global. Como em muitas indústrias, são aquelas que estão no meio – nem muito marrom, nem muito populista – as mais prováveis de morrerem no caminho. A função da imprensa vai muito além de investigar abusos ou mesmo divulgar notícias gerais; trata-se de responsabilizar governos e submetê-los ao julgamento da opinião pública. A internet expandiu este julgamento. Qualquer pessoa interessada em informação nunca esteve tão bem-equipada. Elas não precisam mais acreditar num punhado de jornais nacionais ou, pior, no jornal local de sua cidade.

Vários sinais

Sites de agrupamento de notícias, como o Google News, reúne fontes do mundo todo. O website do jornal britânico Guardian tem agora quase a metade dos muitos leitores nos Estados Unidos quanto em seu próprio país. Além disso, uma nova força de jornalistas "cidadãos" e bloggers está ávida por obrigar os políticos a prestarem contas. A web abriu o mundo fechado dos editores e repórteres profissionais a qualquer um com teclado e uma conexão à internet. Várias companhias são repreendidas por postings amadores – de chamas saindo de laptops da Dell ou de um funcionário da empresa de TV a cabo dormindo no sofá. Cada blogger pode influenciar e espalhar notícias falsas, porém, ao todo, os bloggers oferecem ao pesquisador – atrás da notícia – material ilimitado para se pensar a respeito. Claro, a internet explora a curiosidade de mentes fechadas; mas assim tem feito a maior parte da imprensa.

Para a reportagem de notícias e coberturas mais densas – como oposição à opinião – os resultados do jornalismo na internet foram, de fato, limitados. A maioria dos bloggers opera de suas poltronas, não na linha de frente, e jornalistas cidadãos tendem a não fugir das questões locais. Mas ainda é muito cedo. Novos modelos online aparecerão enquanto os jornais podem desaparecer. Um grupo sem fins lucrativos, o NewAssignment.Net, planeja combinar o trabalho de amadores e profissionais com o intuito de produzir histórias investigativas na internet. Em boa hora, 10 mil dólares em espécie para o projeto vieram da Craig Newmark, da Craiglist, um grupo de websites de anúncios classificados grátis, que provavelmente fez de tudo para acabar com o ganho dos jornais. No futuro, afirma Carnegie, qualquer jornalismo de alta qualidade será endossado por organizações sem fins lucrativos. Já existem algumas organizações de notícias que se sustentam desta maneira – incluindo The Guardian, The Christian Science Monitor e a National Public Radio.

Um grupo de elite com sérios jornais disponíveis online em qualquer lugar, jornalismo independente apoiado por instituições beneficentes, milhares de bloggers entusiasmados e jornalistas cidadãos bem-informados: existem vários sinais mostrando que o diálogo nacional de Arthur Miller será mais ouvido do que nunca.

Comentários (1)
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Danisley S. Nascimento , Curitiba-PR - administradora
Enviado em 30/6/2007 às 12:50:14 PM
Desculpem-me, mas não acredito que o jornal em si, esteja em um momento final. É claro que as "coisas" se transformam se modificam, principalmente com tecnologia, mas sempre existiram pessoas que pensam o contrário, hoje ainda existem países muito atrasados que poderiam ser explorados. Também nos próprios Estados Unidos, ainda existiram pessoas que gostam de apreciar fatos e notícias através de papel impresso. Pois até que não inventem uma tela de computador melhor, a visão é pessíma e não podemos relaxar direito num sofá, temos que ficar "duros" na posição correta para a coluna. E até que a violência não seja controlada não podemos levar o micro em praça púbica por exemplo. Além do mais, podemos inclusive ter problemas nas mãos por tanta digitação. Enquanto que, com o jornal não temos problemas destes tipos. E, ao contrário do que dizem neste texto, os jornais regionais são os mais próximos da comunidade, precisavam serem mais admirados, por são criados através de pessoas da própria comunidade, e geralmente sem tantos retornos, prestando em muitas vezes apoios a associações e entidades que os jornais de grande porte não o fazem. Este caso do fim do jornal impresso se parece muito com a época que surgiram os grandes mercados, disputando o bolo mercadológico com as pequenas mercearias, nem por isso elas sumiram, porque são próximas e podem dar um simples aperto de mão.
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