ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 399 - 24/11/2009
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ORIANA FALLACI (1929–2006)
Morre a polêmica jornalista e escritora italiana

em 19/9/2006

Morreu na sexta-feira (15/9), em Florença, a jornalista italiana Oriana Fallaci. Oriana tinha 77 anos e lutava contra um câncer de pulmão desde o início da década de 1990 – adquirido, acreditava ela, por ter aspirado fumaça da queima de poços de petróleo quando cobria a primeira Guerra do Golfo.

Oriana trabalhou como correspondente em conflitos no Vietnã, Ásia Central e América Latina. No México, em 1968, foi baleada e espancada por soldados durante confrontos que deixaram milhares de manifestantes mortos. Mas foi por sua habilidade de entrevistadora dura e polêmica que a jornalista entrou para a história. Certa vez, o Los Angeles Times a descreveu como “a jornalista para quem, virtualmente, ninguém diria não”.

Sem papas na língua

Não importava quem era o entrevistado, Oriana não se deixava intimidar. Pelo contrário, perguntava e falava o que queria, para quem queria. Em 1979, ao entrevistar o líder iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini, questionou: “Como é possível nadar com um chador [traje feminino que cobre todo o corpo, deixando apenas os olhos de fora]?”. A resposta do líder, Oriana escreveu depois no New York Times, foi que ela não era obrigada a usar um, já que se tratava de uma peça de roupa para mulheres islâmicas respeitáveis. A jornalista, então, rasgou seu chador na frente de Khomeini.

Henry Kissinger, então secretário de Estado do presidente Richard Nixon, definiu sua entrevista com Oriana em 1972 como “a mais desastrosa conversa que já tive com um profissional da imprensa”. A jornalista provocou Kissinger ao compará-lo a um cowboy e não descansou até fazê-lo admitir que a guerra do Vietnã havia sido “inútil”.

Oriana nunca se casou, mas se apaixonou por um de seus entrevistados, o poeta e ativista grego Alekos Panagoulis, condenado por tentar assassinar o líder militar George Papadopoulos, em 1967. Panagoulis morreu em 1976 num acidente de carro – que Oriana alegava se tratar de assassinato. Um de seus 16 livros publicados, Um Homem, foi baseado no poeta grego.

Campanha contra o Islã

Recolhida em seu apartamento em Manhattan na última década, Oriana resolveu romper anos de silêncio após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Nos livros A raiva e o orgulho e A força da razão, e em muitas entrevistas, a jornalista passou a criticar duramente não apenas os extremistas islâmicos, mas o Islã como um todo. Ela acusava o Ocidente de ter se tornado complacente e tolerante demais para compreender a ameaça que, alegava, o Islã representa – ao “cultivar o ódio no lugar do amor e a escravidão no lugar da liberdade”.

Oriana condenava a crescente imigração de muçulmanos no continente europeu. “A Europa não é mais a Europa”, afirmou em 2005, ao Wall Street Journal. “Virou a ‘Eurábia’, uma colônia do Islã, onde a invasão islâmica não ocorre apenas fisicamente, mas também em um senso mental e cultural. A servidão aos invasores envenenou a democracia, com conseqüências óbvias à liberdade de pensamento e ao próprio conceito de liberdade.”

Controvérsias e acusações

Ateísta, Oriana chegou a se encontrar com o papa Bento 16, em 2005, por conta de seus apaixonados protestos. Mas ela também foi acusada de racismo e processada na Itália e Suíça por violar leis contra “difamação de religião”. Em 2003, o jornal italiano La Repubblica a chamou de uma “exibicionista posando de Joana d’Arc do Ocidente”.

Apesar de ter conquistado muitos fãs ao longo dos anos, Oriana era acusada por críticos de calúnia e de tirar citações de contexto para “esquentar” uma matéria. Ainda assim, a importância da controversa italiana não pode ser negada. “Com Oriana Fallaci, perdemos uma jornalista de fama global, uma escritora de grande sucesso, uma apaixonada protagonista de intensas batalhas culturais”, resumiu o presidente da Itália, Giorgio Napolitano. Com informações de Sophie Hardach [Reuters, 15/9/06] e Ian Fisher [The New York Times, 16/9/06]. (Tradução e edição, Leticia Nunes)

Comentários (5)
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Lúcia Nunes , Florianópolis-SC - Jornalista
Enviado em 21/9/2006 às 4:39:30 PM
O mundo virtual é danado mesmo! Fiz uma retificação ontem, mas deve ter se perdido por aí. No post sobre a perda da jornalista Oriana Fallaci me confundi: ao invés de "há quem pergunte somente o óbvio, pelo medo da resposta do entrevistador", leia-se "pelo medo da resposta do entrevistado". Sim, afinal há entrevistados autoritários, arrogantes, desrespeitosos, etc. Além disso, há até reações físicas da parte do entrevistado, que incluem agressão física ao jornalista. Outras são mais sutis: matam-no, como é o caso do jornalista libanês, Samir Kassir, que propunha entendimentos de paz com Israel. Não foi compreendido. Talvez tenha desagradado tanto às autoridades de seu país, que agia em conjunto com a Síria, quanto a Israel.
Lúcia Nunes , Florianópolis-SC - Jornalista
Enviado em 20/9/2006 às 7:13:13 PM
Oriana Fallaci, extraordinária entrevistadora, jornalista por excelência. Sempre foi "demasiadamente" humana. Contraditória: anarquista, agressiva e sensível. Quem a leu em "Um Homem" (está ali, em minha estante) e leu uma entrevista concedida por ela e publicada na Revista Realidade (creio que em 76), à época da guerra do Vietnã, não levaria em conta sua xenofobia dos últimos anos. Meu avô assinava e colecionava a revista, e eu, quando a li, estava com 19 anos. Larguei dois anos do curso de arquitetura e fui para o jornalismo. Sua convicção pelo ideal de justiça e absoluto repúdio à hipocrisia diante dos poderosos desconcertava a todos. Fiquei fascinada por este ser humano inesquecível. Rara. Aquele tipo de pessoa que, mesmo tendo uma personalidade difícil, sempre lamentaremos o silêncio que a morte lhe impôs. Há gente que somente pergunta o óbvio, não provoca, pelo medo da resposta do entrevistador. Ela mesma dizia que fazia isto de propósito... Sempre acompanhei e admirei esta polêmica mulher, jornalista, em seus 77 anos. Uma bela mulher, mesmo aos 40 e tantos (na entrevista que referi), que media pouco mais de 1,50m, e a quem não faltava coragem. Era atéia (ateus convictos tantas vezes são mais amorosos que os que se dizem cristãos!). Por isto, olho para o céu que nos envolve... Sinto que seu amor à Humanidade e recusa ao ódio (pelo artigo acima, temia este componente da cultura árabe...) a torna maior que alguns exageros proferidos em seu período de doença. E, na minha crença, desejo que o "todo" de seu espírito, de sua alma, se deixe envolver pelo mesmo Amor que a inspirou. Adeus, Oriana...
zaidem Silva , Campinas-SP - Aposentado
Enviado em 20/9/2006 às 12:18:33 PM
Desta senhora me lembro de uma reportagem sobre a guerra do Vietnam na revista Realidade. Ela entrevistou um texano que ganhava U$500,00 por dia para guerrear. Disse a ela que todo o dinheiro que ganhava remetia para o Texas para seus familiares comprarem terras. Já tinham comprado 3 ranchos. E que se a guerra terminasse naquele país, ele faria guerra em outro, pois nunca ganhara tanto dinheiro assim em sua vida. A proposito, na 1ª guerra do Golfo, já se pagava apenas U$350,00 por dia. Isto demonstra duas coisas: os soldados americanos são mercenários e suas vidas tiveram uma redução de valor de 30%.
Marcelo Ghignatti , Porto Alegre-RS - jornalista
Enviado em 20/9/2006 às 10:13:06 AM
Já no seu livro Inshallah, ambientado no Líbano destruído pela guerra civil e pela invasão israelense, quando tropas italianas estavam no Líbano e os americanos e franceses haviam sido expolodidos em suas bases, Oriana destila seu ódio contra os a população árabe e palestina, em misto de incompreensão cultural e um posicionamento fortemente imperialista. Buena sera, Oriana
Luiz Weis , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 19/9/2006 às 3:26:57 PM
A originalidade da Fallaci consistia em adulterar não as respostas dos entrevistados, mas as suas próprias perguntas. Ou seja, na hora de reduzir a termo a entrevista, ele carregava nas tintas do que havia perguntado, para parecer o supra-sumo do desassombro e da contundência. Esta senhora, no fim da vida, pregou o ódio aos islâmicos. Não deixará saudade.
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