ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 400 - 24/11/2009
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DOSSIÊ VEDOIN
Denúncia só vale contra o governo

Por Carlos Lopes em 26/9/2006

Desde sexta-feira (22/9), e sobretudo após a história de uma suposta e fracassada compra de informações sobre as atividades ilícitas de alguns membros da oposição, uma certa espécie de mídia dedicou-se a encobrir o que realmente de novo apareceu no caso do esquema dos sanguessugas. São litros e litros de tinta e toneladas de papel, horas e horas de televisão, empregados numa única função: como impedir que as novas denúncias dos Vedoin sejam apuradas.

Naturalmente, tal tentativa está condenada a não prosperar. As revelações dos Vedoin na entrevista dada à IstoÉ não vão ser apagadas porque se escrevem litros de tinta para escondê-las, ou porque se tenta confundi-las com um suposto dossiê que nem apareceu. O que está na IstoÉ já é material suficiente que demanda apuração urgente.

Por outro lado, tal tentativa de abafamento parece mais própria a manicômios do que a órgãos de imprensa, pois desde que a Polícia Federal, convocada pelos ministros Humberto Costa e Saraiva Felipe, estourou o esquema dos sanguessugas, os seus organizadores, Darci e Luiz Antônio Vedoin, tinham se transformado nos oráculos da mídia e da oposição ao governo. Com base nas declarações e documentos apresentados por eles, foram acusados e estão sob processo de cassação 72 parlamentares e, segundo alguns, podem chegar a mais de 120.

Mas, pelo jeito, a oposição e essa mídia acham que isso somente vale quando o alvo são parlamentares da base governista. Quando é o seu próprio terreiro, aí trata-se de “armação”, de “baixaria”, ou seja lá que tergiversação diversionista se escolha. No entanto, não pode ser assim. Afinal, todos não são iguais perante a lei?

Realmente, a mídia oposicionista foi muito imprudente. Ela açulou o PSDB e o PFL para que formassem a CPI dos Sanguessugas, ela os impulsionou a tomar de assalto essa CPI, ela dirigiu, com suas pautas diárias, os interrogatórios, ela fez com que os parlamentares oposicionistas levassem colegas ao pelourinho – e fez tudo isso promovendo os Vedoin de réus a acusadores.

Era uma imprudência porque, desde o início, era claro que o esquema existia desde 1998, ou seja, por coincidência, desde que o José Serra assumiu o Ministério da Saúde. Sem dúvida que as revelações não ficariam nos parlamentares da atual base governista. No entanto, essa foi a ilusão, desde o início. Bastava os Vedoin falarem alguma coisa, que era tido por verdade inabalável. Qualquer menção deles a alguém, transformava-se imediatamente numa sentença à pena capital. O prêmio pela delação não era apenas escapar da cadeia: era a notoriedade ofuscante sob os refletores da mídia.

Muito a investigar

Pois bastou os Vedoin chegarem aonde a mídia e a oposição não queriam para ser um Deus nos acuda e tudo virar ao contrário. E isso, literalmente, de um dia para o outro. Aliás, algumas horas depois que a IstoÉ saiu às bancas com uma entrevista dos Vedoin, lá estavam os mesmos escribas, os mesmos locutores e os mesmos tucano-pefelistas que antes os incensavam como a fonte do “desmascaramento do maior esquema de corrupção da História da República” (sic) deblaterando contra a falta de credibilidade daqueles que eram os seus heróis na manhã daquele mesmo dia.

Mas o que não se quer investigar? O que disseram os Vedoin na IstoÉ? Vejamos alguns trechos:

Luiz Antônio – No melhor período, quando o Serra e depois o Barjas eram os ministros, a bancada do PSDB é que conseguia agir com maior rapidez. Com eles era muito mais fácil e muito rápido. Quando as emendas eram da bancada era coisa de um dia para o outro.

Darci – A confiança de pagamento naquela época era tão grande que nós chegamos a entregar cento e tantos carros somente com o empenho do Ministério da Saúde, antes de o dinheiro ser liberado. Isso acontecia no País inteiro. Sempre quando se tratava de parlamentares das bancadas ligadas ao governo.

IstoÉOs srs. estiveram reunidos pessoalmente com o ex-ministro José Serra alguma vez?

Darci – No ano de 2001 estivemos com ele em dois eventos no Mato Grosso. Um na capital e outro em Sinop.

IstoÉO ministro sabia que nos bastidores daqueles eventos havia um esquema de propinas?

Luiz Antônio – Era nítido a todos.

Darci – Posso te afirmar que as emendas quando eram destinadas para esses eventos saíam ainda mais rápido.

IstoÉQuem é Abel Pereira?

Luiz Antônio – É um empresário de Piracicaba que operava dentro do Ministério da Saúde para nós. Era ele quem conduzia todo o processo e fazia sair todos os empenhos... Era um operador, uma pessoa indicada e muito ligada ao Barjas Negri, secretário executivo do Ministério quando José Serra era o ministro e seu sucessor.

Darci – O Barjas Negri é o braço direito do José Serra. Nosso esquema já funcionava no Ministério. Quando o Serra saiu, o Barjas assumiu o Ministério e foi indicado o Abel para continuar a operar.

IstoÉO Abel, então, deu continuidade a um esquema que já existia?

Darci – Quando nós iniciamos a montagem, em 1998, já existia esquema dentro do Ministério da Saúde, com os parlamentares. Nós acertávamos com os parlamentares e o dinheiro saía. Naquela época era muito mais rápido para sair os empenhos e os pagamentos.

IstoÉA que época o sr. se refere exatamente?

Darci – Entre 2000 e 2002. Quando o Serra era ministro foi o melhor período para nós. As coisas saíam muito rápido.

Tudo isso é essencialmente corroborado pela documentação e pelos dados do próprio Ministério da Saúde. Por exemplo, das 891 ambulâncias que a empresa dos Vedoin entregou entre 2000 e 2004, 70% delas (681) foram até o fim de 2002, ou seja, durante a gestão de Serra e de Barjas Negri.

Sobre os documentos referidos na reportagem da IstoÉ encontram-se “cópias de pelo menos 15 cheques emitidos pela Klass [outra empresa dos Vedoin]”, que foram entregues ao mencionado Abel Pereira, somando R$ 601,2 mil. “Um deles, o de número 850182, datado de 30 de dezembro de 2002, tem o valor de R$ 87,2 mil. No mesmo dia, há outros sete cheques, seis deles são de R$ 30 mil e recebem os números de 850183 a 850188. O cheque 850181, também de 30 de dezembro de 2002, tem o valor de R$ 45 mil”. Segundo Darci Vedoin, “depois que eles perderam a eleição, o Abel me procurou e passamos a fazer muitas liberações”. E, realmente, como observa a revista, em 2002 a empresa dos Vedoin vendeu mais ambulâncias, pagas com a verba do Ministério da Saúde, do que em qualquer outro ano: 317.

Barulho inútil

Há também vários depósitos em conta de empresas, indicadas por Abel Pereira. Por exemplo, uma denominada Kanguru Factoring Sociedade de Fomento Comercial, com o CGC 003824340/0001-25, que fechou após a posse do presidente Lula. Outros foram feitos na conta de empresas como a Datamicro Informática, de Governador Valadares (MG) e a Império Representações Turísticas, de Ipatinga.

Já se sabe que Abel Pereira é hoje um emérito vencedor de licitações na Prefeitura de Piracicaba, cujo prefeito chama-se Barjas Negri.

Portanto, o que investigar, naquilo que os Vedoin já disseram, é o que não falta. Quanto mais não seja para descobrir como a gestão ministerial daquela época não conseguiu perceber, em meio a tal enxurrada de ambulâncias, que elas eram superfaturadas. Diante de questões tão evidentes, não há barulho que possa impedir as investigações de continuarem.

Comentários (7)
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Alanéa Priscila Coutinho , Florianópolis-SC - Jornalista - Func. Pública
Enviado em 28/9/2006 às 3:42:02 PM
Parabéns Carlos Lopes. Espero que o observatório volte a ser o espaço que era antes e só voltará a ser com articulistas como você. Sabe? Às vezes tenho até vergonha de dizer que sou jornalista, porque a nossa imprensa hoje me envergonha. Fora a denúncia da Isto é, não vi nenhum veículo falar do conteúdo das denúncias, somente da compra do famoso dossiê. Queremos ouvir as explicações dos tucanos. Está na hora deles se explicarem.
cid elias , fort-CE - empresario
Enviado em 27/9/2006 às 11:10:28 PM

O pessoal do oab-go... acredita na globo... fala seério... Ainda manda perguntar... pra quê? Parece que não leu a entrevista do delegado Bruno. Queres ver o que disse "de verdade"? eu lhe mando, então poderás perceber a inverdade que postastes. Outra coisa, mande para nós o artigo que define como crime a compra de informações, se é que existe. Conheces o Avelar? Gente muito boa... está sendo investigado numa sindicância interna da Justiça, por uma série de decisões arbitrárias e inconstitucionais.

Aliás, seus investigadores agora terão mais uma prova concreta, e esta beira ao ridículo de tão partidarizada que foi. Este suspeito procurador pediu a prisão preventiva dos petistas comprados pelos chapas, e o fez mesmo sabendo: 1- não se enquadravam nas exigências da lei (end. fixo, coação, risco de fuga, primários, etc, tudo isto dito pelo próprio delegado que preside o inquérito, que ficou impressionado com tamanha estultice). 2- Até leigos como eu sabem da impossibilidade de cumprir mandatos de prisão dentro do tempo exigido pela lei eleitoral, ainda com o agravante do juiz titular ter dois dias antes negado o mesmo pedido indeferindo as preventivas. Não conformado de falhar, e no afã de ajudar a um grande amigo do partido dono da ética, um certo candidato sem palavra, sem honra, este avelar teve a petulância e a falta de caráter de pedir a uma juíza "substituta", e foi atendido prontamente pela amiga... o grande jurista de BH é contra ou a favor destas atitudes?

Leandro Vilas , Belo Horizonte-MG - advogado
Enviado em 27/9/2006 às 6:33:11 PM
A Carlos Lopes, Essa é para o sr. e Freud explicarem - foi irresistível - como é possivel que uma conduta seja ao mesmo tempo "suposta e fracassada", já que o segundo adjetivo exige a sua existência da conduta - o que o primeiro adjetivo nega - para concluir que não foi bem-sucedida? Deu pane ou é duplipensar mesmo? A propósito, acho que o conteúdo dos documentos (e a grana) não vieram à luz pelo mesmo motivo. Qual? A imprensa que pergunte ao senador Mercadante em vista do que já adiantou o delegado da PF, Edmilson Bruno, no Globo de 19/9/2006.
Paulo Mora , Rio de Janeiro-RJ - Médico
Enviado em 27/9/2006 às 11:38:49 AM
Assim você vai infartar os tucanos-observadores, uma espécie de articulista muito freqüente nesse habitat...
Joana Belarmino , João Pessoa-PB - Professora Universitária jornalismo
Enviado em 26/9/2006 às 4:58:16 PM
Li o seu argumento de peito lavado. Grande abraço, e denunciemos essa espécie de mídia que se caracteriza como toda a imprensa, e que, treme e ladra quando o governo pensa em disciplinar suas investidas insanas.
cid elais , fort-CE - emp
Enviado em 26/9/2006 às 1:29:52 PM
Este artigo é um exemplo de como se deve observar os fatos publicados na imprensa(Istoé) com critério e com argúcia, simplesmente nota 10! Dines, Weis e Malin poderiam ler este artigo para compararem com os que eles estão postando repetidas vezes. Se avaliarmos a credibilidade deles pelos comentários, suas verdades não são tão verdadeiras como crêem. abçs cid
Célio Mendes , Vitória-ES - Bancario
Enviado em 26/9/2006 às 1:22:37 PM

Pois é Carlos Lopes, nossa imprensa esta diante do dilema de Wendy, como repercutir ao máximo a trapalhada petista sem chamar a atenção para a roubalheira tucana? Elementar meu caro Watson, faça de conta que o dossiê não existe, que o leitor/eleitor é um tonto e só de destaque para apuração da negociação do dossiê, como diria o Garrincha “só falta combinar com os russos”, ou seja, com nós os tontos, pois onde quer que eu passe todos estão se perguntando o óbvio, o que tinha no tal dossiê? Alguns “jornalistas” mais afoitos já encamparam a justificativa tucana e dizem que se trata de documentos falsos, ou seja, seria uma armação, alguns inclusive deste observatório dizem que o dinheiro não foi para comprar o dossiê mas sim pagar pela declaração dos Vendoins, isso até poderia ser factível se não fossem os fatos para os quais você chama a atenção neste artigo.

Certa vez em mensagem que publiquei neste observatório questionando a imparcialidade da imprensa, o jornalista Malin me respondeu que a mídia não é imparcial mas sim factual, eu não sei o que ele entende por factual, mas para mim neste caso ela não esta em nenhum momento se atendo aos fatos, existe uma máxima no latim que traduzindo fica “Duvidando se chega a verdade” nossos jornalistas a tem empregado muito nos últimos 4 anos quando os fatos se referem ao governo, agora quando aparece a ponta de um longo bico amarelo em algum fato comprometedor passa a valer o axioma de Ricupero “O que é bom a gente fatura o que é ruim a gente esconde”.

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