ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 402 - 24/11/2009
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ELEIÇÕES 2006
Imprensa, meias verdades e mentiras inteiras

Por Eduardo Guimarães em 10/10/2006

Em razão de troca de impressões que mantive com o editorialista do jornal Folha de S. Paulo Hélio Schwartsman e de opiniões que vêm sendo manifestadas pelo “observador da imprensa” Alberto Dines no site Observatório da Imprensa, vejo-me na obrigação moral de manifestar de público, a quem possa interessar, meu inconformismo não só com o comportamento da imprensa no que tange à cobertura do processo eleitoral deste ano como também com a “observação” que tem feito o expoente mais importante do dito “observatório”, o próprio Dines.

Dines elogia apaixonadamente a cobertura jornalística da corrida eleitoral e, como tantos outros articulistas do benevolente (com a imprensa) “observatório da imprensa”, nega-se terminantemente a aceitar a teoria de que ela (a imprensa) adotou como meta eleger Geraldo Alckmin presidente da República. Não se pode negar, no entanto, que o Observatório não impõe uma censura a quem pense coisa diferente da imprensa que o veículo diz “observar” (também criticamente?) do que esta impõe aos que lhe fazem críticas. Porém, ao não criticar com firmeza o que essa imprensa tem feito em termos de parcialidade e de irresponsabilidade, Dines compactua com ela.

Dines diz que não há o que criticar. A imprensa não estaria sendo parcial. Os “petistas” é que estariam usando a tática do nazista Joseph Goebbels, de repetirem insistentemente a “mentira” de que a imprensa é parcial na esperança de que ela se torne verdade. Discordo. E não sou só eu. O editorialista do jornal Folha de S. Paulo Hélio Schwartsman, nas opiniões que trocou comigo por e-mail recentemente, admitiu-me que “a imprensa deu mal” a “inocentação” do ex-assessor do presidente Lula Freud Godoy, que o jornal para o qual escreve editoriais literalmente trucidou em textos opinativos como o do colunista da Folha Clóvis Rossi, intitulado “O abominável Freud” (19/9), que tenta vincular o presidente Lula à compra do dossiê contra tucanos por conta da então suposta participação do então assessor presidencial no processo de negociação dos documentos incriminatórios.

Notinha escondida

Ou textos como o da colunista (também da Folha) Eliane Cantanhêde, em coluna intitulada “Só Freud não explica” (19/9 ), que foi na mesma linha. Aliás, o que não faltou na Folha, quando surgiu o nome de Freud entre os petistas envolvidos na compra do tal dossiê, foi trocadilho associando o nome do assessor ao do famoso psicanalista Sigmund Freud, configurando, além de irresponsabilidade, atroz falta de imaginação.

Bem, mas ocorre que alguns dias depois do envolvimento do nome de Freud Godoy no escândalo – e, providencialmente, depois do primeiro turno da eleição presidencial – a Polícia Federal divulgou que não encontrou nada que incriminasse o ex-assessor do presidente Lula, que se demitiu do cargo no auge da execração pública de seu nome pela imprensa. E, como se não bastasse isso, o procurador da República Mário Lúcio Avelar, que pedira a prisão de Godoy nas vésperas do primeiro turno da eleição presidencial – o que, sabidamente, influiu no pleito –, concordou que não havia elementos nem sequer para indiciar Freud, quanto mais para prendê-lo.

O editorialista da Folha Hélio Schrwatsman não disse à toa que “a imprensa cobriu mal” a “inocentação” do ex-assessor do presidente Lula. As TVs, por exemplo, ou não deram ou deram muito escondido uma informação que mostraria ao público que foi injustificada a celeuma armada em torno do nome de Freud na véspera do primeiro turno. E a imprensa escrita foi na mesma linha. A própria Folha, que tanto destaque deu ao linchamento do ex-assessor em suas manchetes de primeira página e por seus colunistas, editorialistas e articulistas variados, soltou uma notinha escondida nas páginas internas sobre o que o editorialista Schwartsman chamou de “inocentação de Freud”.

Processo hediondo

Pode-se dizer até que Freud sofreu exatamente o mesmo que os donos da Escola Base, que tiveram suas vidas destruídas por um noticiário apressado e virulento, o que deverá dar a ele possibilidade de propor dezenas de processos contra meios de comunicação no futuro, mas que gerou efeitos eleitorais que jamais serão revertidos, como a ocorrência de uma eleição presidencial em dois turnos.

Schwartsman argumentou comigo, no entanto, que Freud era “apenas um detalhe”, porque é inegável que petistas se envolveram na compra do dossiê contra tucanos. Meia verdade. Primeiro que Freud não é “apenas um detalhe”. Seres humanos não podem ser tratados como “meros detalhes” sob pena de que quem os trata assim possa ser chamado de tirano, para dizer o mínimo. Além disso, Freud foi um “detalhe” muito “útil” para a imprensa por sua proximidade com o presidente Lula, o que foi usado para incriminá-lo perante a parcela do eleitorado que desistiu de votar nele no primeiro turno, provocando o segundo.

Como brasileiro, como cidadão e, sobretudo, por não ter nem nunca ter tido vinculação político-partidária de qualquer espécie, manifesto aqui meu protesto veemente, indignado, enojado contra a conduta da imprensa brasileira. Peço a quem possa interessar e que tenha voz que espalhe à comunidade das nações o que está acontecendo no Brasil. Este país está sendo submetido à ação antidemocrática, injusta, covarde e até criminosa de pessoas que se dizem “jornalistas” mas que agem como golpistas por buscarem interferir num processo eleitoral democrático por meio de meias verdades e, sobretudo, de mentiras inteiras, omissões, distorções e, pior do que tudo, de censura a todos os que se mostram indignados com esse processo hediondo, atentatório à democracia que tão duramente se procura construir neste país.

Comentários (13)
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iulima iulima , rio de janeiro-RJ - militar
Enviado em 16/10/2006 às 1:11:12 PM
parabens pois acendeu-se a esperança, pois a imprensa brasileira e terrorista e mecenaria, faz de tudo pra destrui o brasil e atrasar o seu desenvolvimento, e lamentavel que o povo nao enchega isso e ainda teima em acreditar nesses maus profissionais; afinal o que eles fazem com o juramento de so dizer a verdade e somente a verdade?
Juciano Lacerda , Joinville-SC - Jornalista e Professor
Enviado em 13/10/2006 às 11:02:05 AM
Meu caro Eduardo, eu adoraria ver um posicionamento em texto aqui no OI do jornalista Alberto Dines sobre seu texto. Mas infelizmente, creio que isso não vai acontecer, pois a interação que a internet possibilita ocorre aqui mais entre os leitores do que entre leitores e articulistas oficiais do OI. O Malin e o Weis ainda respondem algumas coisas, mas nosso Dines, infelizmente, está "blindado" para isso. Eu diria que temos aqui um caso da síndrome midiática diagnosticada pelo pesquisador francês Lucien Sfez: tautismo. Trata-se de uma perigosa mistura entre tautologia e autismo. Uma síndrome midiática para a qual só práticas cidadãs como a sua podem oferecer antídoto.
Glória Rocha , Rj-RJ - médica
Enviado em 12/10/2006 às 12:25:14 PM
Bravo, bravíssimo, perfeito. Eu assino embaixo o seu manifesto.
Maria Izabel L. Silva Silva , Aracaju-SE - professora
Enviado em 11/10/2006 às 6:46:26 PM
Prezado Eduardo Guimarães. Sua indignação é compartilhada por todos nós. Não passarão! Lamentavelmente, a grande imprensa brasileira vai precisar de muitos anos para recuperar a credibilidade. Valeu!
Luiz De Martino , São Paulo-SP - auditor
Enviado em 11/10/2006 às 11:12:03 AM
Voce falou tudo o que sempre quis dizer a respeito do cenário que estamos vivendo, mas não possuia a sua lucidez para explicar. Sem dúvida fico muito feliz em saber que ainda existem seres de bom nível. Só para concluir, o seu texto é tão irretocável, que até agora não apareceu nenhum defensor do indefensável para critíca-lo e olha que tem um montão por aqui!! Abs
paulo martins , rio de janeiro-RJ - aposentado
Enviado em 11/10/2006 às 4:46:03 AM
a imprensa fede...
Maria Clara Santos , São Paulo-SP - prof
Enviado em 10/10/2006 às 10:19:36 PM
Parabéns pelo seu comentário! Concordo inteiramente. Eu, e muitos brasileiros, capazes de resistir às tentativas de manipulação, e buscar informações mais isentas e confiáveis para formar a própria opinião.
Célio Mendes , Vitória-ES - Bancario
Enviado em 10/10/2006 às 9:56:00 PM
O que posso acrescentar ao que falou o Eduardo Guimarães? Nada, foi simplesmente perfeito. A menção a Goebbels do Dines é correta, só esta mal direcionada, pois as práticas goebelianas estão estampadas nas manchetes de muitos jornais e semanários deste país, ai pode vir algum observador e falar, "Não, a imprensa vai atrás do fato, da noticia", porem o que se constata é que esta busca é claramente seletiva, só vai até o ponto em que tropeça em um bico que encontre pelo caminho, ai ela para, recua e só fica vendo estrelas. Poderia listar as pautas esquecidas que corroboram o que digo, mas alem de cansativo, outros em inúmeros comentários postados já falaram delas a exaustão, só me resta como consolo aquele trecho da musica “Caubói Fora da Lei” do imortal Raul Seixas “Não confio nos jornais, mentir sozinho eu sou capaz”.
Paulo Mora , Rio de Janeiro-RJ - Médico
Enviado em 10/10/2006 às 9:01:21 PM
O dinheiro move a grande imprensa. E a grande imprensa move seus candidatos. Perfeito o texto.
Joana Belarmino , João Pessoa-PB - professora de jornalismo
Enviado em 10/10/2006 às 8:06:17 PM
Caro eduardo, fico aqui emocionada e agradecida. Ao mesmo tempo triste por todos os dias em que venho ao OI e vejo a postura [ ] do grande jornalista alberto dimes. "O Papel do Jornal", nos dias que correm, o papel da grande mídia, é dos mais enojantes. Um grande abraço, meu respeito!
PEDRO TARDELLI , Goioerê-PR - médico
Enviado em 10/10/2006 às 7:10:17 PM
BRAVO!!!
cid elias , fort-CE - comerciante
Enviado em 10/10/2006 às 6:24:36 PM
Grande Eduardo! Irretocável. O comemtário abaixo idem. Também entendo que existe muito, mas muito dinheiro sendo derramado por éticos de plantão para éticos do imprensalão. Aliás, o Jibra informa até alguns nomes, bancos onde são depositados e valores, o que, como não sei se procede, não reenviei a informação a outras pessoas. O que reforça o dito é o modo como a maioria dos jornalistas e colunistas acentuou o ataque rasteiro ao governo com suas meias verdades, às vezes um centésimo de verdade, nas últimas semanas. Foi repugnante. Colherão o descrédito como prêmio de honra.
jose carlos alves coelho , acaú-pitimbu-PB - publicitário
Enviado em 10/10/2006 às 2:01:38 PM
Nos tempos da guerra fria ou nos tempos da ditadura poderíamos dizer que havia motivações ideológicas para um jornalista ou algum orgão de imprensa se manifestar, Hoje não. Não está em jogo nada que mude radicalmente se um dos dois candidatos ganhar a eleição. Sendo assim só vejo um motivo para a grande maioria da mídia agir do modo que voçê tão bem definiu: Interesses financeiros. Como eu acredito piamente que isto acontece, pergunto: De onde vem ou virá o dinheiro? Não será uma boa pergunta para se fazer quando for provado este fato? Aos "senhores da mídia: Cuidado com os dossiês!
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