ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 423 - 17/11/2009
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CASO JOÃO HÉLIO
"Razão e sensibilidade" e culto à hipocrisia

Por Flávio Paranhos em 6/3/2007

Publicado originalmente no diário O Popular, Goiânia, 02/03

Não tenho procuração do professor Renato Janine Ribeiro para defendê-lo e imagino até que ele nem queira esticar mais o assunto. Entretanto, não posso deixar passar a oportunidade de me valer da polêmica em torno de seu artigo "Razão e sensibilidade" (publicado na Folha de S. Paulo, 18/02) para discutir um pouco acerca da hipocrisia que, assim como a violência, vem ocupando cada vez mais espaço nos noticiários.

Sendo toda leitura uma co-autoria, quem dá a cara a tapa, tornando público o que pensa nos jornais, deve se acostumar a interpretações diversas da pretendida. Ainda assim, não pude deixar de me surpreender com a leitura completamente enviesada que o inteligente e erudito jornalista Elio Gaspari fez do artigo do prof. Janine ("O professor acha que pena de morte é pouco", Folha de S. Paulo e O Popular, 18/02). Admitindo que não haja nada por trás de sua interpretação e que se trate apenas de leitura apressada mesmo, Gaspari perdeu a oportunidade de saborear uma peça de rara beleza filosófica.

Precocidade no crime

"Razão e sensibilidade" não é uma defesa da pena de morte. Ou de torturas, ou de endurecimento das estratégias públicas para a segurança, ou de seja lá o que for. É, sim, a confissão angustiada de um intelectual chamado a opinar num caso inacreditavelmente monstruoso. Intelectuais, como lembra Janine, devem tomar posições. Espera-se deles que sejam sempre muito racionais. Mas como ser racional quando arrastam uma criança por quilômetros (e fazem manobras para soltá-la do carro, demonstrando que sabiam o que acontecia)? Nem é preciso ter filho da mesma idade (embora quem tenha, faça a transferência inevitável) para querer aplicar a lei de talião. Arrastaram o menino? Arrastem cada um dos desgraçados por vários quilômetros até que morram.

Tal é o que passa pela cabeça de todos nós, sem exceção e hipocrisia. Entretanto, entre confessar essa vontade e defendê-la há uma enorme distância. Como diz Janine: "Quer isso dizer que defenderei a pena de morte, a prisão perpétua, a redução da maioridade penal? Não sei. Não consigo, do horror que sinto, deduzir políticas públicas, embora isso fosse desejável." Até porque é preciso ser muito ingênuo pra acreditar que uma das mais famosas medidas de "endurecimento", a diminuição da maioridade penal, resolverá o problema. Se hoje colocamos apenas maiores de 18 em escolas de tempo integral de bandidagem, amanhã colocamos os maiores de 16, depois 14, depois 10 e só conseguiremos é precocidade no aprendizado de malfeitorias profissionais.

Razão e emoção

O problema é tão maior do que isso, tão mais profundo, que dá desânimo pensar nele. Não me refiro ao argumento fácil das desigualdades sociais do país. Não que não seja válido, mas é fácil demais invocá-lo. Tão fácil que virou lugar-comum de político malandro (quase uma redundância, o ‘quase’ por conta de algumas honrosas exceções). Por outro lado, de tão difícil resolução que sua aparente inatingibilidade serve de eterna desculpa. Desculpa essa que encobre outra hipocrisia, já que os maiores bandidos do país, os mais nocivos, são ricos e acreditam piamente na Lei de Karamazov (adaptada aos seus interesses): se não existe punição, tudo é permitido.

Voltando a Janine. O equilíbrio entre razão e emoção, no momento, é impossível. Ele poderia ter se calado, esperar a poeira baixar, ruminar racionalmente à exaustão o problema, que seria, então, reduzido a uma fria questão filosófica. Fez bem em ter aberto o bico.

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Comentários (7)
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Paulo Mora , Rio de Janeiro-RJ - Médico
Enviado em 8/3/2007 às 6:12:10 PM
Xiii. "Segundo confessou a amigos comuns, o grande arrependimento do filósofo Renato Janine não foi com as críticas recebidas: foi com as demonstrações de apoio. Nunca julgou que ficaria um dia em semelhante companhia." Que coisa, hein ? E ele que tinha ficado tão bem defendido pelos seus amigos catedráticos e acadêmicos... que pena !
Fátima Fernandes , Rio de janeiro-RJ - Recepcionista
Enviado em 8/3/2007 às 1:18:52 PM
O problema é que ninguém sabe como lidar com a violência e a criminalidade.
Paulo Mora , Rio de Janeiro-RJ - Médico
Enviado em 7/3/2007 às 7:20:27 PM
Hoje a mãe do João Hélio não reconheceu o "dimenor" como participante do crime... xiiiii, e agora ???
Samuel Lima , Joinville-SC - Jornalista e professor universitário
Enviado em 7/3/2007 às 1:37:44 PM
Caros Rogério Alencar e Paulo Mora, concordo plenamente com vocês. Violência é um tema que exige reflexão e ação profundas. O filósofo apostou em nadar "a favor" da corrente do senso comum - e foi contraditado elegante e democraticamente por seus pares (textos dos profes. Andrea Lombardi e Wolfgang Maar, publicados na "Folha"). Não vi destrato, "hipocrisia", grosseria. Há visões e visões nos meios acadêmicos, midiáticos e no conjunto da sociedade sobre essa questão. Não entendi até agora, confesso minha ignorância, essa suscetibilidade aludida pelo articulista. Quanto aos pais de João Hélio, Rosa Cristina e Hélcio Vieites, dias após o hediondo crime deram entrevista à jornalista Fátima Bernardes (em trabalho notável) e, ao contrário do filósofo, clamavam por justiça, não por vingança; desejaram que a sociedade tivessse condição de reagir e mudar esse estado de coisas, não individualizaram a tragédia - não obstante a dor indizível que expressaram nos menores gestos. Recorro às palavras do prof. Maar: do intelectual se espera que "não aja apenas regido pelo estabelecido em seus padrões de punição, mas saiba diferenciar entre o que ocorre sob o controle da violência e as possibilidades de uma organização social pautada em reconhecimento mútuo, solidariedade e aspiração de igualdade". Lamentavelmente, Janine Ribeiro se apresentou tão-somente como "porta-voz da bárbarie".
Rogério Ferraz Alencar , Fortaleza-CE - TRF
Enviado em 6/3/2007 às 11:32:50 PM
A lei de Talião passou pela cabeça de todos, sem exceção? Esses raciocínios absolutos são insustentáveis. Por exemplo: os pais dos assassinos pensaram assim? Os próprios assassinos pensaram assim? Outros assassinos pensaram assim? E quem não é assassino nem parente ou amigo de assassinos e não pensou assim, é hipócrita?
Paulo Mora , Rio de Janeiro-RJ - Médico
Enviado em 6/3/2007 às 2:52:09 PM
Concordo, fez bem em abrir o bico. A opinião é livre (e desejável), porém a crítica também. O fato de eu não concordar com o texto do filófoso não deveria impedir minha existência, certo ? Ninguém está acima da lei, nem das críticas. Alguns articulistas e comentaristas estão classificando automaticamente como hipócrita, insensível ou prepotente todo àquele que não gostou do texto do filósofo. Tem um nome para isso, mas é melhor parar por aqui.
Apolonio Silva , São Paulo-SP - Físico
Enviado em 6/3/2007 às 12:39:16 PM
Congratulações pelo artigo. O pobre Janine provavelmente já esperava por alguma reações previsíveis (sobretudo as pseudo-sociológicas) que inundam este OI. Como pai e tio, e mais do que isso, como ser-humano concreto ( e não como a abstração miserável que alguns teimam em rotular nossa espécie) identifiquei-me prontamente quando Janine escreveu seu primeiro artigo. É algo de que dificilmente iremos nos recuperar.
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