ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 424 - 24/11/2009
  Caderno da Cidadania
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ASSASSINATO DE MULHERES
Crimes e a desimportância das notícias

Por Ligia Martins de Almeida em 13/3/2007

"Homem mata a ex-namorada e a câmera filma" (O Estado de S.Paulo, 10/3/2007)

"Queimada por marido, mulher morre em São Paulo" (Folha de S.Paulo, 11/3/2007)

Estes foram dois destaques femininos da imprensa na semana em que os jornais veiculavam anúncios de página inteira comemorando o Dia Internacional da Mulher, louvando as conquistas femininas nos últimos tempos.

A protagonista da primeira notícia tinha 23 anos, três filhos e estava em horário de almoço, frente ao local de trabalho. O agressor, de 56 anos, chegou, sacou o revólver e disparou quatro tiros. Dois foram suficientes para matar Suzane. O assassino, preso imediatamente, "não demonstrou arrependimento", segundo depoimento de uma policial. O que causou sensação não foi o fato de mais uma mulher ter sido morta porque rejeitou um homem. O impacto foi porque a morte foi filmada pela câmera de segurança do prédio e divulgada na TV.

A segunda notícia, que se refere ao assassinato cometido dentro de casa – diante das duas filhas do casal – acabou virando apenas um registro policial, já que não há imagens a divulgar. As testemunhas provavelmente não tiveram condições de dar entrevista explicando por que seu pai – internado com queimaduras porque tentou apagar o fogo que ele mesmo provocou – fez o que fez.

E a imprensa, que parece só se interessar por fatos que a TV divulga, mais uma vez perde a chance de informar seus leitores, extraindo boas histórias de suas reduzidas notícias.

Sem muito trabalho nem extensas reuniões com a equipe, os pauteiros poderiam explorar essas notícias sob três enfoques.

Estatísticas preocupantes

O primeiro – e mais óbvio – seria o Dia Internacional da Mulher, discutindo se, afinal de contas, é verdade que as mulheres têm mesmo uma situação de maior igualdade com os homens. E, se é verdade, por que homens continuam matando mulheres quando são rejeitados, sentem ciúmes ou seja lá qual for o motivo alegado.

O segundo enfoque – mais trabalhoso – seria do ponto de vista da estatística, mostrando que a violência doméstica é a maior preocupação das brasileiras, como comprovou uma pesquisa do Ibope de 2006:

** De 2004 a 2006 aumentou o nível de preocupação com a violência doméstica em todas as regiões do país, menos no Norte/Centro-Oeste, que já tem o patamar mais alto (62%). Nas regiões Sudeste e Sul o nível de preocupação cresceu, respectivamente, 7 e 6 pontos percentuais. Na periferia das grandes cidades esta taxa passou de 43%, em 2004, para 56%, em 2006.

** 33% apontam a violência contra as mulheres dentro e fora de casa como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade.

** 51% dos entrevistados declaram conhecer ao menos uma mulher que é ou foi agredida por seu companheiro.

Jovem, bonita, de "boa família"

Mas se o Dia Internacional da Mulher não dá leitura e estatísticas acabam resultando em matérias chatas, os pauteiros teriam a terceira via, que deixaria qualquer bom repórter feliz com a tarefa: explorar os dramas contidos nessas histórias.

Na história de Suzane, repete-se o drama do homem mais velho que, rejeitado, mata a namorada. Mas, como os envolvidos não têm o apelo dos jornalistas Sandra Gomide e Pimenta Neves, os jornais não dão importância. O problema das meninas que se tornam mães ainda adolescentes e criam os filhos sozinhas não sensibiliza a imprensa. Nem mesmo quando acabam mortas bem na hora em que estavam tentando reconstruir a vida.

Se falta identificação dos leitores com a história de Suzane, não se pode dizer o mesmo do assassinato de Maria Cristina Pires. Moradora de um bairro de classe média de São Paulo, casada com um advogado, Maria Cristina tinha 40 anos e era designer de bijuterias. Mas, se depender da mídia, dificilmente saberemos por que o marido jogou álcool e queimou a mulher na frente das filhas.

Se depender da mídia, o mais provável é que as histórias em que mulheres são vítimas da violência doméstica continuarão merecendo apenas pequenos registros, por mais ricas que sejam.

A mídia prefere – por sensacionalismo ou falta de sensibilidade – histórias como a da adolescente de Campinas que usava o carro do pai para ajudar o namorado a praticar assaltos. Com o mesmo perfil de Suzane Richthofen, a adolescente de Campinas tem tudo para se tornar a nova sensação das páginas policiais da imprensa. Afinal, ela é jovem, bonita, "bem-vestida", segundo o depoimento de uma de suas vítimas. E vem de "boa família". Ao contrário das outras mulheres do noticiário policial, não exige – para que a mídia continue faturando com sua história – que se discuta por que as mulheres continuam sendo vítimas dos homens.

Comentários (4)
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Calypso  Escobar , Rio de Janeiro-RJ - analista literária
Enviado em 16/3/2007 às 2:46:57 PM
Um problema de omissão? Quiça. Agora a reflexão;sou mulher e posso delinear o perfil. A mulher precisa rebelar-se,mesmo dentro de sua casa,homem nenhum é mais forte ou sabido para tocar seu corpo sem sua vontade,guerra é guerra. Existem às que se exibem com sensualidade,é o modelo para meninas,enfim o dinheiro cobre o sustento,mas provoca desejos abolidos pelo bom senso. No mais a mulher que se valorize mais,é importante;há quatro paredes para não denegrir sua imagem.Quem vai poder controlar,revistas,filmes,novelas e tudo mais aonde ela é o produto lucrativo do homem? Auto valorize-se,seria uma pergunta e uma ´proposta,afinal não será seu corpo seu pagamento atravéz da violência.Grata
Thiago  Velde , Feira de Santana-BA - professor
Enviado em 15/3/2007 às 1:38:23 PM
Não penso que elencar algumas vitórias femininas seja hipocrisia. Houve um distanciamento da relação Patrão-empregada" - isso é notório. Se se faz uma retrospectiva mais aguçada, perceber-se-á que hoje as mulheres respiram mais, assumem, decidem. Mas isso não é o ideal - a material já elucida isso. Só não vamos fechar os olhos e crivar as polarizações.
Carlos Eduardo Zuma , Rio de Janeiro-RJ - Terapeuta de casal e família
Enviado em 15/3/2007 às 10:38:40 AM
Outro enfoque possível para abordar este tema seria o que tem sido feito pela sociedade civil e governos para prevenir esta problemática que é complexa e não tem solução simples. Existem diversas iniciativas, principalmente nos grande centros, com trabalhos voltados para as vítimas e também para os homens que cometem ou cometeram esse tipo de violência. Os profissionais que trabalham com a temática apontam que uma das principais causas da violência contra a mulher é a cultura patriarcal e machista. O que tem sido feito para que se mude esta cultura, mesmo que a longo prazo? Como as famílias podem ser convidadas a reflexão sobre a forma como criam seus filhos, meninos e meninas? Como cada um de nós, cidadãos, podemos contribuir no dia a dia?
Marco Costa Costa , São Caetano do Sul-SP - T.P.A.
Enviado em 13/3/2007 às 12:39:33 PM
A comemoração do dia Internacional da Mulher não passa de hipocrisia. O Brasil é campeão mundial em assassinatos de mulheres, porém o sistema e a imprensa não se importam com a violência contra a mulher. Infelizmente, a burguesia usa a mulher somente para vender produtos de forma sensual e maliciosa. Este comportamento de tratar a mulher como objeto tem muito haver com a educação machista que os "homens" recebem durante sua existência. Enquanto isso, às mulheres continuam morrendo na mão de homens estúpidos e ignorantes. Em suma, temos que respeitar aquilo que a mulher entende o que é melhor para si.
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