ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 427 - 24/11/2009
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PÚBLICO & ESTATAL
E por falar em televisão pública...

Por Nelson Hoineff em 3/4/2007

Para alguma coisa há de ter servido a decisão do governo de criar uma rede nacional de televisão pública. Ela trouxe à tona a confusão semântica entre o público e o estatal. Mas acima disso lembrou que está na hora de se discutir o que é – e o que poderia ser – uma televisão pública no Brasil.

Parte da imprensa explorou convenientemente a confusão demonstrada pelo presidente Lula durante a posse dos novos ministros, na quinta-feira (29/3). Para o presidente...

"...o que nós queremos é dar oportunidade para um jovem que queira aprender português possa ter aula de português às 9h da manhã, às 11h. Que as pessoas possam assistir a uma peça de teatro pela televisão a uma hora da tarde, ao meio-dia. Que a gente possa ensinar espanhol, ler inglês, que a gente possa ensinar matemática".

Este insólito samba do crioulo doido não demonstra apenas que o presidente da República não está bem informado sobre o que venha a ser uma televisão pública. Lembra também, e sobretudo, que muitos dos conceitos tentados pelo presidente permeiam o que se entende e se pratica hoje dentro das próprias televisões públicas. O presidente poderia se informar melhor, mas é metalúrgico de formação. A televisão que ele está assistindo é que deveria ser diferente.

Propaganda explícita

A má notícia é que quando se fala em televisão pública não se está pensando nem em público nem em televisão. Tem-se a impressão que televisão pública é mais ou menos isso que passa pela cabeça do presidente: uma instância para substituir professores e para ficar à margem da própria prática da televisão.

E, no entanto, uma televisão pública é tão melhor quanto mais ela possa servir à própria televisão. A boa televisão pública não é a que põe no ar aulas de matemática ou sonolentos discursos sobre o nada. É a que se compromete radicalmente com a própria expressão televisiva. A boa televisão pública não é uma escola e muito menos o aprendiz amador da televisão privada. É o espaço para o desenvolvimento de formatos e linguagens comprometidos com o futuro da própria televisão e que devem estar anos à frente do que a televisão comercial seja capaz de praticar.

Televisão pública é o espaço da invenção, da experimentação, do diálogo com a diversidade criativa, que se manifesta por meio do diálogo com a produção independente, com as muitas cabeças que estão dispostas a pensar televisão como um meio autônomo, ágil e relevante – não como uma repartição pública eletrônica.

A melhor televisão pública que se pode imaginar é a que lança o seu olhar sobre o novo, o inseguro, o que ainda não foi tentado mas poderia ser. A que tem a coragem e a energia de se lançar como um veículo capaz de começar a aprimorar a sociedade aprimorando a própria maneira de fazer televisão.

Por isso, uma televisão pública não pode existir sem absoluta liberdade de criação e de pensamento. Mais uma vez Lula demonstra não estar informado sobre o assunto quando diz que a televisão pública "não é para pichar". Se estivesse melhor assessorado teria dito o contrário: "Quero uma televisão que seja capaz de pichar". A televisão, se é pública, é a que mais deve ter a liberdade para o que o presidente chama de "pichar". Se essa restrição lhe for imposta, ela deixa de ser pública. Mesmo sem fazer propaganda explícita de atos do governo, é aí que ela começa a se transformar em estatal.

Modelo piorado

O governo tem algumas televisões diretamente estatais (duas só na Radiobras), outras que são ditas públicas, mas estão sob seu controle absoluto. Ninguém pode impedir que crie outras estatais, mesmo que se tornem redundantes e gastem à-toa o dinheiro do contribuinte. O peculiar é que essa polêmica surge na esteira do anúncio, primeiro pelo ministro Hélio Costa, da Comunicações, depois pelo próprio presidente da República, da decisão do governo de criar uma rede de televisão pública que tem toda a cara de estatal. Na tentativa de sustentar que o que pretende criar é uma televisão pública, o governo esbarra na explicitação de uma visão no mínimo antiquada do que seja tal coisa.

Confusões de conceito como as demonstradas por Lula – e por praticamente todos os outros integrantes do primeiro escalão do governo que tem falado sobre a matéria, como os ministros Hélio Costa e Luiz Dulci – ressaltam a oportunidade de se tentar aprimorar as redes de televisão pública no país.

Sempre que isso acontece, chove explicações sobre os principais modelos de televisão pública existentes no mundo. O da BBC, imbatível, mas financiado por uma alta taxa cobrada ao usuário, o que é impraticável no Brasil. O da PBS, mais factível, fundamentado em contribuições espontâneas do público e das empresas.

O ministro Dulci se referiu ainda à RAI. Não deve ter o hábito de assistir à rede italiana. Se tivesse, compreenderia que está citando um SBT piorado, porque tem o mesmo ideário estético da rede paulista e falta-lhe na tela um gênio como Silvio Santos. Aparecem também citações ao modelo da TV Cultura, que no Brasil é o que melhor reproduz as condições para a prática de uma televisão pública consistente.

Serviço relevante

Não é absurdo pensar na formação de uma rede pública de televisão a partir do que já existe no país. Mas isso passa pela disposição de se uniformizar a absurda teia que se foi formando desde que a primeira televisão universitária apareceu no Brasil, já bem tarde, em 1968, no ano da implantação do AI-5. O governo pode ter um papel importante nessa transformação. Na verdade, só o governo pode bancar essa transformação. Se isso acontecesse, Lula passaria à história como um herói, no capítulo da televisão pública.

Esse capítulo não vai falar bem do presidente a partir da criação de uma mega-TV estatal. Mais uma vez, a coisa se coloca em termos políticos. Se a idéia defendida pelo governo for mesmo a de uma TV estatal (que parece estar sendo camuflada em televisão pública a partir da visão constrangedora apresentada pelo presidente e seus ministros), então o governo terá nos seus último dois anos e meio uma grande rede para divulgar os seus atos, eventualmente ajudar o PT em 2010, mas essencialmente não ser vista por ninguém.

Mas se o governo estiver disposto a fortalecer a televisão pública existente e transformá-la de fato no relevante serviço público que hoje ela não é, então terá que ter a grandeza de ser limitado na sua gestão, acostumar-se à idéia de ser "pichado", trocar aulas de matemática pelo exercício de uma televisão grandiosa.

Não é de todo uma má idéia. Já que o governo decidiu falar em televisão pública, por que não tentar construí-la?

Comentários (17)
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Cláudio Ozires de Oliveira , São Paulo-SP - Analista de sistemas/Programador
Enviado em 9/4/2007 às 2:56:47 PM
Uma televisão pública deve ser estruturada e formatada de maneira independente de interesses diretos de políticos ou de seguimentos poderosos politica ou financeiramente. Porém, deve ser uma atividade que não nos veja como meros "compradores" de bugigangas. Qualquer "coisa" será melhor que a atual programação das emissoras "abertas", que está muito difícil de "engolir". Talvez, a médio ou longo prazo, poderemos ter algo semelhante a BBC... quem sabe.
Marco Costa Costa , São Caetano do Sul-SP - T.P.A.
Enviado em 8/4/2007 às 5:58:02 PM
Correção: ACOSATUMADOS.
Marco Costa Costa , São Caetano do Sul-SP - T.P.A.
Enviado em 8/4/2007 às 5:19:39 PM
Na TV privada estamos acostuma a ver celebridades com um nível intelectual de fazer inveja a muitos escritores, cientistas etc,. Celebridades com lindas pernas e glúteos de formas perfeitas. Quanto, a TV Estatal/Pública vamos ter o imenso prazer de ver celebridades que fizeram diversas faculdades, só não fizeram mais porque acabou o cimento e o tijolo. Para quem gosta daquilo vai ser um prato cheio, pois teremos artistas claudicando na língua portuguesa, prometendo mirabolantes obras para enfeitar algumas cidades do sertão Nordestino. Teremos a oportunidade de aprender algumas receitas de como abrir um cofre sem fazer um mínimo de esforço físico entre outras maravilhas que a política oferece.
ORNILO NUNES VILAR , RIO DE JANEIRO-RJ - TEC EM TRANS IMOBILIARIAS
Enviado em 7/4/2007 às 12:15:13 PM
O OBSERVATORIO DA IMPRENSA É REALMENTE UM DOS POUCOS BONS PROGRAMAS - PARABENS. MEU COMENTARIO SOBRE A CRIAÇÃO DA TV PUBLICA - A OBJEÇÃO MAIOR NÃO É A QUE SE DECLARA "CONTRA" MAS, SIM, A QUE CONCORDA MAS.. DEVE SER DESCUTIDA, VAMOS AMADORECER A IDEIA, ETC. - A IDEIA É PERFEITA E NECESSARIA, O POVO NÃO PODE DEPENDER SOMENTE DA MÍDIA QUE, EVIDENTEMENTE, TEM SEMPRE UM PATROCINADOR. É PRECISO CRIÁ-LA E SUBMETER ÀS CRITICAS. "A SORTE DEVE SER LANÇADA" - VILAR
sebastiao santana , varginha-MG - aposentado
Enviado em 6/4/2007 às 9:06:50 AM
alguma atitude tem que ser tomada e urgente tem que ser dado o ponta pe inicial mesmo se errando o alvo voce hoje nao tem o que assistir nas televisoes brasileiras. salvaria os jornais, mas este se especializaram somente a noticias ruins dizem que as boas nao dao audiencia. onde e feito uma apologia ao crime nas grandes capitais. porque nao regionalizar 50% dos noticiarios ( por lei) pelo menos ficaremos sabendo dos crimes que acontecem em nossa regiao que e o que nos interesssa. bom era o tempo que a tupi record e outras davam opcoes para voce assistir o futebol onde quizesse e nao nessa mafia da rede globo. e as novelas indecente que estao deteriorando os conceitos de nossa juventude e contribuindo para os divorcios. se nao interessa fazer o bem que nao se faca o mal. precisava se rever o poderio economico das redes isto e um perigo para a soberania nacional cultural e politica tem meios de impedir o dominio de uma rede sobre as demais e so nao ter medo de enfrenta-la . gostaria que o telespectador nao fosse tao alienado e se revoltasse contra os big brother da vida ( caca niquel ) que cada vez fortalece mais o caixa de certa empresa. voces tem forca e contam com a opiniao publica tenham coragem suficiente para comecar hoje a reviravolta televisiva. antes de criticar melhor ajudar. um abraco
Jose Roberto Nobrega , rio de janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 4/4/2007 às 11:05:30 PM
Não seria difícil montar uma TV Pública brasileira nos moldes da inglesa BBC. Bastaria juntar as estruturas da TVE/RJ com a da RADIOBRÁS, e partir para a montagem da tal Rede Pública com forte um forte conteúdo cultural e informativo. Mas por que não fazem? Porque a RADIOBRAS tem seus quadros preenchidos por funcionários estáveis, ou concursados, sendo, por conseguinte, descompromissados com o monarca de plantão, e a TVE - nesse ponto a esquerda deveria se lembrar da luta que foi para que ela se mantivesse fora das garras do governo, com um modelo de gestão que não a tornasse chapa-branca como a TV-Cultura -, é independente e abriga em seus quadros gente até do PSOL (como o combativo jornalista Mlton Temer). Esse é o temor de todos quando o nosso querido e amado Rei Luiz vem com toda essa conversa mole de TV Estatal. O que ele quer é ter o controle do conteúdo e da informação, sim. Montá-la à base de uma Agência Reguladora, com quadros nomeados por indicação e prova de títulos (participação em seminários com personalidades como José Dirceu, Ricardo Kotscho, Paulo Henrique Amorim, Giuseppe Cocco, Wallace Herman, Geo Brito, Giuliano Bonorandi, Gabriel Priolli, Diogo Moyses, Adair Rocha, Nega Gyzza, Celso Horta, Jailson de Souza, Carmen Luz, Écio Salles, Ivana Bentes e outros, e atos públicos da CUT e do MST, por exemplo). postado por http://politicacomovcve.blogspot.com
Edison Chechi , Porto Feliz-SP - Jornalista
Enviado em 4/4/2007 às 4:13:52 PM
Sinceramente, adoraria ler um texto melhor. Gostaria de ler o texto que tratasse com dignidade este tema e não com a pequenez apresentada. Não tenho dúvidas que a televisão é um objeto da iniciativa privada, tal como conhecemos. Mas, acredito, que o Estado, no mundo moderno, deve ter os melhores meios de comunicação. E, sinceramente, se uma TV fosse capaz de ser a dona do país, convenhamos, já somos escravos há muito tempo. o Brasil precisa de pluralidade.
Marco Costa Costa , São Caetano do Sul-SP - T.P.A.
Enviado em 4/4/2007 às 2:43:50 PM
Caro Luiz, quando se fala na comunicação de massas, estamos dizendo que tanto faz canal aberto, fechado, estatal/público, no Brasil todos estão preocupados em alienar o telespectador. Infelizmente pouquíssimos programas são aproveitáveis. Abraços Marco. Obs.: No Brasil a eterna escol não quer e não deixa o povão evoluir intelectualmente. Este é o nosso drama!
João Motta , Florianópolis-SC - dentista
Enviado em 4/4/2007 às 1:23:45 PM
Acho pertinente a idéia de uma rede pública de TVs aproveitando a infra que já existe. Pode virar chapa branca? Pode, os exemplos das educativas nos estados estão aí para comprovar. Depende de como o Congresso e a sociedade civil vão atuar no processo, também somos responsáveis, é um debate importante que temos que encarar. Como contribuinte sou obrigado a bancar as TVs privadas que considero horríveis, prefiro bancar as TVs Culturas da vida.
Andrea  canto , rio de janeiro-RJ - artista plástica
Enviado em 4/4/2007 às 1:08:26 PM
O que acho realmente estranho nessa discussão é que parece que a Tve pública não existe, fica-se discutindo a criação de uma Tv Pública que já existe, que é a TVE! Porque não dotá-la de um orçamento maior, melhorar a transmissão do sinal, mexer na programação para torná-la mais atraente ? A TvE do Rio e a Tv Cultura tem bons programas, entre outros o Roda Viva, que é um programa de entrevistas muito bom, o Cadernos de Cinema, o Espaço Publico, programa de debates de alto nível., etc etc. mas o noticiário é muito fraquinho, sempre a favor do governo...será que eles não querem isso? Estou achando meio esquizofrênico esse debate...
Luiz Geremias , Curitiba-PR - jornalista
Enviado em 4/4/2007 às 12:36:32 PM
Marco Costa Costa, por favor, me esclarece uma coisa: haverá maior alienação do que a das tvs comerciais? Além daquele jornalismo folhetinesco, que é político partidário e não se declara assim, o entretenimento beócio diverso transmitido... haverá algo mais estúpido e alienante? A sua preocupação é que a tal tv pública (ou estatal, tanto faz, o debate me parece vazio) mantenha ou piore esse nível? Abraço
barbosa barbosa , bh-MG - historiador e documentarista
Enviado em 4/4/2007 às 7:51:14 AM
Primeiro: quanto ao que vc escreveu, Hoineff, "mas é metalúrgico de formação", menos, menos, menos preconceito. Segundo: ainda não lí o projeto quanto a "tv pública do Lula", mas realmente essa TV descarta a experimentação, a criatividade de TVs como s TV Cultura de SP ou a Rede Minas?
Paulo rosa Rosa , Brasília-DF - vendedor
Enviado em 3/4/2007 às 7:13:40 PM
Seria interessante, pois com certeza teríamos, mais i opções, pois esse modelo brasileiro manipulador de tv abertas muitas imperialistas, poderia mudar e ganharia sim, o povo brasileiro ...
Nelson Hoineff , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista
Enviado em 3/4/2007 às 6:48:09 PM
Prezado Afonso Klautau: autorizo a reprodução, sem dúvida
Lica  Cintra , Rio-RJ - educadora
Enviado em 3/4/2007 às 4:26:18 PM
O fato de um tema como esse estar na pauta principal do governo, em minha avaliação, já é importante. Concordo com as críticas ao conceito de TV pública expresso pelas palavras de Lula mas não acho que sua fala seja a proposta do governo, longe disso. Franklin Martins, por exemplo, deixa claro que o debate está aberto e que essa proposta de formato ainda não existe. Em breve acontecerá o I Forum de TV Pública, organizado prelo Minc, que também dará subsídios para o desenho dessa rede pública de TV. Considero a questão da mídia estratégica na conquista da cidadania e acho que estamos num momento propício para o debate, é só ficar esperto!
Marco Costa Costa , São Caetano do Sul-SP - T.P.A.
Enviado em 3/4/2007 às 3:40:33 PM
Senhor escriba, tanto faz público ou estatal o objetivo é um só. Alienar o grande público televisivo, através de sofismas, mostrar um Brasil que não é real e manter o povão sentadinho no sofá, isso quando tem sofá, aí senta no chão mesmo!
Afonso  Klautau , Belém-PA - Jornalista/publicitário/ex-professor
Enviado em 3/4/2007 às 1:03:01 PM
Nélson: Você não deve lembrar de mim, mas já participamos juntos de algumas mesas de eventos nacionais sobre televisão pública, na época em que eu fazia Mestrado na ECA e editava o boletim Intercom, quando a Ana Maria Fadul era a presidente. E, depois quando fui diretor da TV Cultura do Pará e presidente da Funtelpa - Fundação de Telecomunicações do Pará - que administra a TV e a Radio Cultura daqui. Pois bem, depois da apresentação, te peço permissão para reproduzir teu artigo no meu recém criado blog - akaamazonia.blogspot.com - já que, se escrevesse tão bem, assinaria embaixo, sem mudar nada. Na semana que vem, vai haver um Fórum nacional aqui em Belém discutindo as Tvs Públicas. A notícia saiu hoje em poucas linhas. Vou saber mais e, se você quiser, lhe informo. Por isso, a atualidade de seu texto. Espero sua aprovação. Um abraço, Afonso Klautau
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