ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 431 - 24/11/2009
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ROBERTO CARLOS — 2
O que é "contexto desfavorável"?

Por Paulo Coelho em 3/5/2007

Reproduzido da Folha de S.Paulo, 2/5/2007, seção Tendências/Debates; intertítulos da Redação do OI

Tenho uma grande admiração por Roberto Carlos – recentemente, um dos mais importantes programas da BBC Radio me perguntou a lista de cinco discos que eu levaria para uma ilha deserta, e incluí um dos seus. E, apesar dos problemas normais decorrentes de uma relação profissional, tenho um grande respeito pela editora Planeta, que publica minhas obras no Brasil e em vários países de língua espanhola.

Dito isso, é com grande tristeza que leio nos jornais que, na 20ª Vara Criminal da Barra Funda, em São Paulo, os advogados do cantor Roberto Carlos e da editora Planeta fizeram um acordo que prevê a interrupção definitiva da produção e comercialização da biografia não-autorizada Roberto Carlos em Detalhes, do jornalista e historiador Paulo Cesar Araújo. O editor diz um disparate para salvar a honra, o cantor não diz nada e o autor fica proibido de dar declarações a respeito. E estamos conversados.

Estamos conversados? Não, não estamos, e tenho autoridade para dizer isso. Tenho autoridade porque, desde que publiquei meu primeiro livro, tenho sido sistematicamente atacado.

Nem um minuto

Creio que qualquer pessoa em seu juízo normal sabe que, a partir do momento em que sua carreira se torna pública, está exposta a ter sua vida esquadrinhada, suas fotos publicadas, seu trabalho louvado ou enxovalhado pelos críticos. Isso faz parte do jogo e vale para escritores, políticos, músicos, esportistas. Nem sempre essas críticas são justas e, muitas vezes, descambam para ataques pessoais.

Recentemente, um jornalista da mais importante revista brasileira disse que "Paulo Coelho não é apenas mais um mau escritor: seu obscurantismo é nocivo. Não se deve perdoá-lo pelo sucesso". Não sei o que estava propondo com essa frase, e não me interessa. Poderia alegar que minha honra está sendo atacada, que me acusa de ser um perigo para meu país, que deseja que eu seja preso. Mas vejo essas diatribes com outra ótica: elas fazem parte do jogo. A única coisa que não faz parte do jogo é a calúnia, e, pelo que me consta, isso não foi tema da ação judicial que levou à proibição de Roberto Carlos em Detalhes.

Até hoje, desde que publiquei O Diário de um Mago, há 20 anos, vi milhares de críticas negativas, mas apenas duas ou três calúnias a meu respeito, graças a Deus. Não me dei ao trabalho de contra-atacar porque não achei que valia a pena, embora me reserve esse direito se algo muito sério acontecer. Recentemente, em um jornal espanhol de primeiríssima linha, simplesmente inventaram uma resposta a uma pergunta a que havia me recusado responder. Claro, enviei uma carta ao diretor, e o jornalista teve que arcar com as conseqüências.

Estou pronto para defender minha honra, mas não vou perder um minuto do meu dia telefonando para um advogado e procurando saber o que faço para defender minha vida privada, já que ela não mais me pertence.

Implicações maiores

Diz o velho ditado: "Quem está no fogo é para se queimar". Eu acrescento: Quem está no fogo é para ajudar a fogueira a brilhar mais ainda. Não adianta o meu editor declarar que fez o acordo "porque o contexto era desfavorável". Ele precisa vir a público explicar qual é esse contexto – ou seja, se estamos falando de calúnia. Neste caso, tem meu apoio integral, pois calúnia é sinônimo de infâmia. Mas, caso contrário, está colaborando para que comece a se criar um sério precedente – a volta da censura.

Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da "invasão de privacidade" já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs.

Também continuarei sendo editado pela Planeta, pois temos contratos assinados. Mas insisto: gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de "contexto desfavorável".

Desfavorável é fazer acordo a portas fechadas, colocando em risco uma liberdade reconquistada com muito sacrifício depois de ter sido seqüestrada por anos a fio pela ditadura militar.

E não entendo por que você, Paulo Cesar Araújo, "se comprometeu a não fazer, em entrevistas, comentários sobre o conteúdo do livro no que diz respeito à vida pessoal do cantor" (Ilustrada, 28/4). Não é apenas o seu livro, cujo destino foi negociado entre quatro paredes, que está em jogo. É o destino de todos os escritores brasileiros neste momento.

Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor.

Comentários (14)
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Antonio de Paula Rocha Lima , Paracambi-RJ - aposentado
Enviado em 11/5/2007 às 12:34:55 AM
Tal como Roberto Carlos, Paulo Coelho é insuportável e chato. Tudo o que ele escreve é o lixo da sub-literatura. Todavia, ao criticar a atitude do rei dos bregas no caso do livro da sua biografia, eu concordo plenamente com o [ ] escritor.
Marcos  Garrido , Niterói-RJ - Administrador
Enviado em 10/5/2007 às 3:59:26 PM
Quando em um mesmo "imbroglio" vemos figuras tão representativas da nossa "cultura", como o "rei" Roberto Carlos e o "escritor" Paulo Coelho e o pior, o espaço que o referido ocupa na mídia, a vontade que dá é parar de ler jornal, desligar a televisão e esquecer a Internet.
Darlan Moreira , Natal-RN - Estudante
Enviado em 7/5/2007 às 3:19:31 AM
O tal livro deveria era "vazar" para internet acidentalmente.
Ivan Moraes , Newark, NJ-MG - sem profissao
Enviado em 4/5/2007 às 11:43:23 AM
"Temos algo muito grave quando é exigido que o escritor não dê entrevistas sobre seu livro. É medida que lembra Stalin, afinal, deve esquecer a própria obra!": esquece a "arte" da "obra" por um minuto, Sergio Coutinho: ou a editora levou mais dinheiro que o autor ou nao levou. Contratos de propriedade intelectual de hoje, e principalmente os de companias internacionais, sejam eles a respeito de musica, software, filmes, ou livros, concentram dinheiro nas maos de grandes companias e os musicos, programmadores... autores sao mao-de-obra somente.
Claudio Faria , Niterói-RJ - Analista de Faturamento
Enviado em 4/5/2007 às 10:09:41 AM
A respeito da opinião do leitor Sérgio sobre os comentários feitos ao Paulo Coelho, julgo importante averiguarmos de quais fonte partem eventuais comentários contundentes e significativos. Não mencionar nossas impressões sobre o Paulo Coelho dentro desse contexto e apenas incensá-lo seria o mesmo que aplaudir o Bush após um seu hipotético discurso sobre a paz na terra e a fraternidade entre os homens. Além disso, deixei claro que apesar de concordar com o que o Paulo Coelho escreveu, manifestei minhas dúvidas sobre sua sinceridade ao fazê-lo. Afinal, se há alguém cujo espírito sedento de marketing é afiadíssimo, esse alguém é o pseudo-"mago".
Sérgio Coutinho , Maceió-AL - Professor universitário
Enviado em 4/5/2007 às 9:36:35 AM
Discordando dos colegas de coluna, não está em discussão o que pensamos sobre a obra de Paulo Coelho nem de suas colunas. Nada falarei sobre isso. Está em discussão seu artigo para este Observatório. Neste sentido, ele demonstra preocupações extremamente sadias. A liberdade de expressão está ameaçada. Não é simples invasão de privacidade sendo reprimida. O problema não se encerra no recolhimento dos exemplares do livro. Temos algo muito grave quando é exigido que o escritor não dê entrevistas sobre seu livro. É medida que lembra Stalin, afinal, deve esquecer a própria obra! Como cobrar algo assim de um escritor? E os anos de pesquisa, caberia indenização da editora? Um outro drama é alegar "contexto desfavorável". Desfavorável para quem? Que contexto? Roberto Carlos não cai do pedestal na música brasileira. Não lembro de um contexto que lhe seja desfavorável. Se não se tem o direito de debater sua carreira, não se trata de invasão de privacidade mas de arrogância. Mais importante do que discutir quem gosta ou não dos livros e artigos do Paulo Coelho é questionar por que apenas ele se manifestou abertamente contra a censura permitida por Paulo Cesra Araújo.
Eduardo Dorneles , Porto Alegre-RS - Designer Gráfico
Enviado em 4/5/2007 às 1:46:52 AM
Paulo, é melhor você continuar tomando chá com bolachas na Academia Brasileira de Letras, que é o melhor que você sabe fazer. Concordo com a proibição. A invasão da vida particular de pessoas famosas tem um limite, e este limite já foi ultrapassado há muito tempo.
Mauro  D.Fant , Belo Horizonte-MG - Publicitário
Enviado em 3/5/2007 às 7:56:14 PM
Como nunca gostei de Roberto Carlos, pouco me importa a sua vida pessoal, e jamais compraria uma biografia sua, autorizada ou não. Mas acho que enfim, o "rei" sentiu que realmente é uma "majestade" a ponto de propor a queima de livros. Que tristeza!!!!
Vanessa  Prateano , Curitiba-PR - Estudante de jornalismo
Enviado em 3/5/2007 às 5:58:04 PM
Também não gosto de Paulo Coelho, pelas mesmas razões explicitadas pelo leitor Cláudio Faria. Mas o que o escritor (?) disse acima faz todo sentido. E Roberto Carlos não merece a fama que tem, tanto por suas músicas redundantes e sem graça, quanto por sua atitude de só querer colher os louros da fama (fim de ano na Globo seria um deles?), reservando os percalços da mesma para os "plebeus". O "Rei" deveria saber que uma pessoa, ao cair no gosto popular, ao contratar assessores de imagem, ao aparecer em colunas sociais, programas de tv e etc., está concordando com a exposição de sua pessoa. Não concordo com Paulo Coelho quando ele diz que a vida pessoal acaba para o famoso, que ela não mais pertence a ele. Mas, de certa forma, é impossível preservá-la como RC o quer. E a volta da censura, mesmo que sutilmente, é algo inadmissível. Mas dá pra entender o Roberto nessa questão. Enquanto muitos artistas eram exilados, faziam músicas de protesto, corriam o risco de ser mortos, e suas obras sentiam na pele o peso da censura, o "Rei" continuava por aí, cantando sobre horizontes com pássaros, índias e amores impossíveis. Ele, com certeza, não sabe de verdade o que é ver uma obra realizada a muito custo ser tratada dessa maneira abjeta.
Claudio  Faria , Niterói-RJ - Analista de Faturamento
Enviado em 3/5/2007 às 4:32:35 PM
Não gosto nem um pouco do escritor Paulo Coelho. Suas crônicas em jornais em geral são medíocres, com textos "chupados" de diversas obras de cunho espiritual, metafísico e filosófico de diversas culturas. Eu faria a mesma coisa e cobraria bem menos. Seus livros são pueris e sua imagem de "mago" (abandonada posteriormente - o que causou decepções em vários de seus ardorosos e acríticos fãs) soa-me como hipócrita. Ao contrário de muitos, já li e não gostei. Mas sou obrigado a concordar com cada palavra de seu artigo. O que fizeram com o Paulo Cesar Araujo foi uma covardia, nada mais do que isso. E o "santo" Roberto revelou-se mais paranóico e desequilibrado do que já sabiamos ser. Mas, visto que a imagem que tenho de Paulo Coelho também não está associada à transparência, pergunto-me se não há uma boa dose de falsa indignação em seu desabafo.
Fábio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 3/5/2007 às 3:16:35 PM
O acordo não só desrespeita sua profissão Paulo. Desrespeita, também, seus direitos de cidadania internacionais consoante texto que publiquei aqui no OI (e que reproduzi por pura provocação no CMI de Portugal http://portugal.sarava.org/ler.php?numero=128662&cidade=1). Você que é um cara conhecido mundialmente e tem cabedal, deveria encabeçar a ação a ser ajuizada na Comissão Interamericana de Direitos Humanos e na Corte Internacional de Justiça.
Ivan Moraes , Newark, NJ-MG - sem profissao
Enviado em 3/5/2007 às 12:42:26 PM
"gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de "contexto desfavorável"": nao, nao precisa nao. Ou os custos da impressao, distribuicao coleta, e destruicao foram cobertos nesse acordo ou nao foram. Uma editora que esta "se instalando agora no Brasil" segue o dinheiro. Quanto ao judiciario nao ter jogado esse processo porta afora aa primeira vista, nao foi isso que aconteceu com os processos contra os blogs? O "precedente" ja estava precedentado ha anos...
Marco Costa Costa , São Caetano do Sul-SP - T.P.A.
Enviado em 3/5/2007 às 11:42:46 AM
Estou de acordo com o Juiz da 20ªVara criminal da Barra Funda, pois foi muito sensato a posição da justiça quanto a proibição do lixo cultural do "MORA BICHO". Trata-se de um compositor de letras de conteúdo nada poético, muito menos filosófico, que gravou muitas músicas de Martinha, Luiz Airão, principalmente do tremendão Erasmo Carlos entre outros compositores. Pergunto, que história musical e de vida esse cidadão tem para pôr no papel de um sagrado livro biográfico. RC vá procurar sua turma, que hoje encontram-se no ostracismo. Quanto ao Juiz está de parabéns, só lamente pelo tempo perdido pelo escritor.
Raymundo  LIma , Maringá -PR - Professor/ Psicanalista
Enviado em 3/5/2007 às 11:30:14 AM
Na contramão dos meus coleguinhas, eu gosto de ler Paulo Coelho. Sobretudo, gostei de ler essa carta que desafia o editor e autor do livro sobre o Roberto Carlos justificar os motivos de tal acordo, o "contexto desfavorável". Paulo Coelho também é exemplo de resistência a critica rasa, panfletária, sádica e cínica. Quem resite a crítica nesse pais merece brilhar e ser realmente "popular" como elé é.
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