ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 433 - 24/11/2009
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LEITURAS DE VEJA
A darwinlatria continua

Por Michelson Borges em 18/5/2007

Mais um festival de preconceito e desinformação. Só posso qualificar dessa forma a matéria de capa da Veja desta semana (9/05), "A revolução sem fim de Darwin". O "gancho" é a exposição que leva o nome do naturalista inglês, inaugurada na semana passada no Museu de Arte de São Paulo (Masp) e que permanece em cartaz até 15 de julho.

Segundo o texto assinado por Gabriela Carelli e Leoleli Camargo, com reportagem de Marcio Orsolini, "a exposição atrai sobre Darwin a atenção que ele merece como um herói da razão e um inimigo da superstição e da ignorância". Logo de cara, eles mostram o objetivo da matéria: incensar mais uma vez o Darwin-ídolo e alfinetar os criacionistas e todos os que discordam dos pressupostos darwinistas.

O festival de desinformação começa com a seguinte afirmação: "...parece natural nos vermos habitando uma esfera que gira sobre o próprio eixo e em torno do Sol. Mas por milênios se acreditou em uma Terra plana como um campo de futebol sustentada pelos ombros fortes de um titã que se apóia sobre os cascos de tartarugas. A evolução lenta das espécies ao longo das eras formando linhagens que desembocam nos atuais seres vivos. Isso é o Darwin. Antes dele? Acreditava-se na versão religiosa segundo a qual por volta do ano 4004 a.C., de uma só tacada, Deus criou o homem, a mulher e os demais seres vivos exatamente como eles são agora. Essa visão pré-darwinista, que só sobrevive dentro dos círculos religiosos, tem conseguido ultimamente uma projeção assustadora. À luz desse retrocesso, relembrar as conquistas de Darwin torna-se um imperativo".

O caminho "errado"

Primeiramente, é bom deixar claro, mais uma vez, que o geocentrismo e o fixismo não são idéias bíblicas. O mal-entendido se deve ao fato de o catolicismo ter importado as idéias geocentristas de Aristóteles e as incorporado à sua teologia. Quando Copérnico e Galileu se insurgiram contra essa idéia, não estavam combatendo a visão bíblica, mas sim a concepção católico-aristotélica vigente. A Bíblia, na verdade, sugere a redondeza da Terra e afirma que nosso planeta está suspenso no vácuo sideral (cf. Is 40:22 e Jó 26:7). O ano 4004 a.C. para a Criação também não é bíblico e foi estabelecido pelo arcebispo James Ussher.

Quanto ao fixismo, ainda que alguns criacionistas mal informados sustentem essa idéia, ela igualmente não é bíblica. Quando a Gênesis informa que Deus criou os seres vivos "segundo a sua espécie" (lembrando que o termo "espécie" aqui não tem a mesma conotação da taxonomia moderna), não está dizendo com isso que eles não poderiam passar por alterações morfológicas limitadas. Senão, como explicar a abundância de tipos de cães, por exemplo, ou mesmo as diversas etnias humanas? Ao repetir o argumento do fixismo ad nauseam, a imprensa apenas contribui para manter a ignorância acerca das idéias criacionistas.

Mais à frente, o texto de Veja afirma que os argumentos de Darwin contribuíram para que "a criação do mundo como descrita na Bíblia [fosse] desmontada". Não sabia disso! Então é preciso avisar os inúmeros cientistas, pesquisadores e intelectuais que crêem no relato de Gênesis de que eles estão num caminho totalmente errado!

Cadeia de causas e efeitos

Veja cita o filósofo Philip Kitcher, da Universidade Columbia e autor do livro Living with Darwin (Vivendo com Darwin): "A publicação de A Origem das Espécies destituiu a vida humana de qualquer superioridade em relação aos animais, enterrou o conceito de divindade e pôs fim a milhares de anos de irracionalidade na comunidade científica e em parte da sociedade." Ao dizer isso, Kitcher está chamando de irracionais os próprios "pais da ciência", que nos legaram o método científico. Senão, vejamos:

René Descartes, matemático e filósofo do século 17 – Para ele, as leis matemáticas investigadas pela ciência eram legisladas por Deus da mesma maneira que um rei determina leis para o seu reino. Em termos históricos, a ciência nasceu "de um ato inteiramente baseado na fé em que o Universo possuía uma ordem e que esta podia ser interpretada por mentes racionais" (Loren Eiseley).

Van Helmont, um dos primeiros químicos – "Creio que a natureza é o projeto de Deus, por meio do qual uma coisa é aquilo que é, fazendo ou agindo como lhe é ordenado."

Nicolau Copérnico, astrônomo polonês – "As leis da natureza não são intrínsecas e não podem ser deduzidas a priori: antes são impostas ou infundidas por Deus", e só podem ser conhecidas a posteriori, por meio da investigação empírica.

Galileu Galilei, físico, matemático e astrônomo italiano – Ele argumentou que não podemos presumir saber como Deus pensa; devemos sair e olhar para o mundo que Ele criou (inaugurando assim o método científico).

Isaac Newton, físico, matemático e filósofo inglês – Segundo ele, o principal objetivo da ciência é realizar uma argumentação retrospectiva ao longo da cadeia de causas e efeitos mecânicos "até chegar à primeira de todas as causas, que certamente não é mecânica", e que, para Newton, é Deus.

Discussões intramuros

"O método experimental foi mais bem-sucedido do que jamais poderia se imaginar", observa Eiseley, "mas a fé à qual ele deve sua existência também tem uma dívida para com o conceito cristão da natureza de Deus." A crença num Deus fidedigno e racional levou ao pressuposto de um universo racional e ordenado. E, de acordo com Eiseley, "a ciência de hoje ainda é mantida por esse pressuposto". Irracionalidade, Veja?!

Depois, a revista de maior circulação no país traz mais duas afirmações taxativas e equivocadas: "Darwin só tem inimigos fora da ciência"; e "foi necessário um século de descobertas para que a teoria da evolução de Darwin se comprovasse plenamente, em todos os seus aspectos", nas palavras do biólogo David Mindell, da Universidade de Michigan.

Primeiramente, é bom que se saiba que há muitos cientistas que discordam de Darwin em vários aspectos. Dentro do movimento do Design Inteligente há até agnósticos, cuja motivação nada tem que ver com religião. Apenas perceberam que há insuficiências epistemológicas no darwinismo. Há muitos outros (professores universitários, inclusive) que preferem não sair do armário com receio de perder prestígio e mesmo verbas para pesquisa. E, que eu saiba, nem todos os aspectos do darwinismo estão comprovados, como sustenta Mindell. É fácil dizer coisas desse tipo para leitores não afeitos às discussões intramuros no mundo dos darwinistas. Quer um exemplo?

Ilógicos e irracionais

No dia 13 de dezembro de 1998, o caderno "Mais!" da Folha de S. Paulo trouxe na capa o título "Extremos da Evolução". Nos artigos, foram abordadas as divergências entre expoentes evolucionistas como Richard Dawkins e Stephen Jay Gould. Apesar das discordâncias entre os evolucionistas, o comentário de John Maynard Smith, um dos papas da biologia moderna, é conclusivo: "Por causa da excelência de seus ensaios, [Gould] tornou-se conhecido entre não-biólogos como o mais destacado teórico da evolução. Em contraste, os biólogos evolucionistas com quem discuti seu trabalho tendem a vê-lo como um homem cujas idéias são tão confusas que quase não vale a pena ocupar-se delas, mas alguém que não se deve criticar em público por ao menos estar do nosso lado contra os criacionistas" (New York Review of Books, novembro de 1995).

Veja informa ainda que "nos Estados Unidos – onde 54% dos adultos dizem descender de Adão e Eva, segundo um levantamento recente do Instituto Harris Poll – menos da metade das pessoas crêem na teoria da evolução de Darwin", e que "as escolas infantis russas também vêm sendo palco de campanhas contra o darwinismo. Há poucos meses, manifestando seu apoio a um grupo de pais de alunos que processou uma escola por manter apenas a teoria da evolução das espécies no currículo, o patriarca da Igreja Ortodoxa russa declarou que a teoria de Darwin é ‘baseada em argumentos deturpados’ e que ‘não há provas concretas de que uma espécie possa se transformar em outra’". O patriarca tem razão.

E a revista conclui com esta pérola: "A fé humana já se provou resistente a todos os argumentos da lógica."

Pois é, Newton, Galileu, Copérnico e Pascal eram todos ilógicos e irracionais...

***

Em tempo: o repórter Marcio Orsolini (da Veja) me ligou na quinta-feira (10/5) e fez algumas perguntas sobre a editora para a qual trabalho e sobre os livros didáticos que produzimos para a rede educacional adventista e para colégios de fora da rede. Nossos livros, seguindo orientação da LDB 9.394/96 (os alunos devem criticar objetivamente as teorias científicas como construtos humanos de representação aproximada da realidade, e que essas teorias estão sujeitas a revisões e até descarte, e que o ensino médio tem entre suas finalidades habilitar o educando a ser capaz de continuar aprendendo, a ter autonomia intelectual e pensamento crítico), apresentam de forma crítica as duas visões sobre as origens (criacionismo e evolucionismo), sendo, portanto, mais completos que os livros-texto convencionais. Curiosamente, não apareceu uma linha sequer na matéria de Veja sobre essas informações. Cumpri fielmente meu papel de "assessor de imprensa", fornecendo dados e telefones. No entanto, mais uma vez fiquei desiludido com a "grande imprensa" e sua parcialidade típica...

Comentários (10)
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Alvaro Augusto de Almeida , Curitiba-PR - Professor
Enviado em 17/5/2007 às 2:21:05 PM
Sobre esse assunto, postei no meu blog uma contribuição mais completa, embora modesta: http://alvaroaugusto.blogspot.com
Eduardo Ferreira , Rio de Janeiro-RJ - Analista de Sistemas
Enviado em 17/5/2007 às 2:08:19 PM
dois comentários sobre o texto: - Teoria científica, por definição, é refutável. Se os fatos ou os experimentos a negarem no futuro, reescrevam-se os livros de ciência. - Criacionismo não é ciência nem biologia, está ligado à religião. Logo, não poderia conviver lado a lado num livro de ciências. Se se desejar ensinar o criacionismo, use as aulas de religião. Nas escolas particulares, pois no ensino público não pode. um último comentário: morro de pena das crianças que estudam na escola do autor.
Marcus Pessoa , Belém-PA - Estudante
Enviado em 17/5/2007 às 4:59:42 AM
O Observatório publicando textos de criacionistas? Isso é o fim do mundo tal como o conhecemos. E pensar que foi neste Observatório que eu li o extraordinário artigo de José Colucci Jr. desmontando as falácias do astrólogo e dublê de colunista Olavo de Carvalho sobre a teoria da evolução. Muito, muito decepcionante isso.
Alvaro Augusto de Almeida , Curitiba-PR - Professor
Enviado em 16/5/2007 às 6:10:06 PM
É sempre curioso ver como matérias e artigos sobre evolução despertam a ira de religiosos, quase sempre cristãos. Nunca vi um budista indignado em ver o homem removido do centro do universo e demovido de seu papel especial reservado pela bíblia. Para o budismo, por exemplo, o fato do homem compartilhar sua herança com outras espécies é quase uma tautologia. Contudo, não sou budista nem darwinista. A evolução não é um "ismo" ao qual se adere por questão de fé. A evolução (e não o "evolucionismo") é uma teoria científica. Para refutá-la, não cabe citar autoridades ou mostrar indignação. Não cabe mostrar o desacordo dos biólogos, pois isso ocorre em todas as áreas científicas (até em ciências exatas como a física). Basta mostrar um fenômeno que esteja em desacordo com ela.
Ronaldo Cordeiro , .-MG - .
Enviado em 16/5/2007 às 11:51:15 AM
Certamente os criacionistas, inclusive mas não só os do Design Inteligente, têm grande habilidade de vender seu peixe. Afinal de contas, o Observatório não costuma publicar artigos que defendam a visão de outras correntes anti-científicas ou anti-históricas igualmente sem pé nem cabeça, como as dos que negam que o HIV cause a Aids, dos que negam que o Holocausto ocorreu, que negam que o homem pisou na Lua, ou que dizem que os atentados de 11 de setembro foram obra do governo Bush. Todas elas pretendem desafiar fatos bem fundamentados e estabelecidos na ciência e na história, apresentam a seu favor de suas teorias pessoas supostamente bem esclarecidas que as apóiam, em vez de apresentar fatos a seu favor tentam atacar falhas na idéia adversária, e alegam teorias de conspiração malévolas para justificar o sucesso das teorias estabelecidas. Só faltou falar em Thomas Kuhn e "paradigmas" para o texto do Michelson ficar ainda mais típico. Enfim, criacionistas parecem achar que são imensamente originais e importantes, e que têm uma missão de enorme relevância para a humanidade. Mas não estão sozinhos no fertilíssimo campo de teorias conspiratórias malucas. O Observatório bem que poderia filtrar um pouco mais esse tipo de bobagem. Uma teoria ridícula não é menos ridícula apenas por ser religiosa.
Arthur Alencastro Puls , Porto Alegre-RS - Estudante de Jornalismo
Enviado em 16/5/2007 às 2:06:26 AM
Os trechos citados realmente denotam uma matéria mal-escrita, mas o articulista precisou apelar para a retórica, envolvendo grandes nomes teístas da ciência para tentar manter sua posição. Como já foi dito noutro comentário, a teoria do Evolucionismo é a que apresenta o maior número de evidências (os fósseis de hominídeos estão aí...). A argumentação do articulista pareceu falha, pois não são citados fatos que comprovem sua posição, nem mesmo os tais professores universitários que defendem o desenho inteligente.
Pesky Bee , São Paulo-SP - Cientista
Enviado em 15/5/2007 às 6:31:54 PM
O articulista junta-se aos inúmeros criacionistas e religiosos que batalham com todas as forças contra uma das mais bem estabelecidas construções intelectuais da humanidade, a evolução biológica por seleção natural, com um número imenso (e diariamente crescente) de evidências em seu suporte. A razão da batalha? Apenas porque essa teoria frustra de forma direta e contundente os seus mais preciosos dogmas religiosos. É notório observar que os criacionistas que investem contra a evolução, dizendo haver "furos" e buracos na teoria, esquecem-se todos, de que não há suporte algum à alternativa que proclamam. Pretendem substituir a válida e isenta investigação científica por dogmas e construções não testáveis e arbitrárias. Em tempo: expor crianças à dúvida entre evolucionismo e criacionismo é equivalente a ministrar um curso de química dando igual tempo a alquimia e magia. O malefício na cabeça das crianças é similar, se não pior.
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 15/5/2007 às 5:04:58 PM
Hoje em dia, artigos científicos devem constar se existe algum impedimento ou comprometimento maior do autor com o artigo que escreve. E, claro, que o nosso jornalista (apenas) está contaminado até as raízes do cabelo com a defesa intransigente da bíblia como verdade suprema! Não lhe permite as emoções raciocinar além dela, e se mostra completo nisto na sua forma de argumentação primária! Ora, mencionar inúmeros cientistas do passado que professavam a fé em Deus esquecendo que se não fizessem acabariam na fogueira pelos religiosos da sua época, é uma forma falaciosa de argumentar! A ciência busca o que se pode evidenciar de demonstrar, e não é o que faz o pueril criacionismo que deseja comprovar a bíblia para vender a sua fé como verdadeira e não como um amontoado de textos contraditórios e sem fundamento, próprio de pessoas ignorantes que vagavam pelo deserto provocando genocídios para surrupiar o que acreditavam que seria a sua terra prometida! Acreditar isto como revelações científicas e como revelados por um demiurgo para estas pessoas primitivas como verdade atenta contra o senso racional! Uma verdade sem paralelo nos povos que não tiveram contato, e que apenas levaram a intolerância ao superlativo entre os homens de todos os tempos! Tanto Galileu como Darwin erraram, mas não aproveitamos as suas descobertas como “revelações”, mas pelo que se evidenciam!
Roberto Takata , são paulo-SP - estudante
Enviado em 15/5/2007 às 3:47:29 PM
O articulista erra em dois pontos em sua observação "Em tempo". Primeiro, a LDB 9.394/96 fala em visão crítica *objetiva* e não pra apresentar uma teoria religiosa (isto é, o criacionismo) como científica. É como falar q por ter um apêndice sobre receitas culinárias, um livro de biologia fica mais completo. Segundo, evolucionismo NÃO é um teoria sobre origem da vida. É sobre a origem da diversidade. A vertente científica atualmente mais difundida sobre a origem da vida é a abiogênese. []s, Roberto Takata
Marcos Andrade , Campinas-SP - Estudante Universitário
Enviado em 15/5/2007 às 3:31:04 PM
O artigo esclarece alguns erros cometidos pela reportagem da revista e é muito bem fundamentado em sua refutações. Entretanto, apesar das lacunas na Teoria da Evolução, ela ainda é até hoje a mais verossímel e a melhor explicação que a ciência já conseguiu sobre a origem da vida e a evolução das espécies. Pode-se discordar ou refutar muitos de seus aspectos, mas o Evolucionismo é ciência. O criacionismo não.
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Michelson Borges

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