ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 435 - 24/11/2009
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CASO RCTV
As concessões não são vitalícias

Por Edgard Rebouças em 29/5/2007

Todo este espaço aberto na mídia brasileira para falar sobre o caso da não-renovação da concessão de uma das emissoras da Radio Caracas Televisión (RCTV) é bem sintomático para tentarmos compreender o que se passa atualmente no Brasil.

Seria de levantar suspeitas o motivo pelo qual de uma hora para outra a imprensa nacional resolveu sair de sua tradicional posição de costas para a América Latina, se neste exato momento não estivessem em pauta os debates em torno da classificação indicativa na TV e da regulamentação da publicidade de bebidas e de alimentos que causam obesidade. Tanto a decisão do governo venezuelano como as propostas dos ministérios brasileiros da Justiça e da Saúde estão sendo colocadas no mesmo balaio do "atentado à liberdade de expressão" e da "volta à censura". Mas a questão de fundo de ambos os casos é a eterna disputa entre o interesse público e o interesse privado.

No caso da RCTV, o que mais foi dito é que seria fechada a emissora que se opõe ao governo de Hugo Chávez. Só que a imprensa brasileira, sempre superficial, "esqueceu" de apurar um pouco mais o histórico da "injustiçada" emissora. Pois, ao que consta, já em 1976, a RCTV foi tirada do ar por três dias por veicular notícias falsas; em 1980 ficou 36 horas fora do ar por causa de sua programação sensacionalista; em 1981, foram 24 horas de penalidade por exibir cenas pornográficas em horário inadequado; em 1989, mais 24 horas fora do ar por ferir a lei ao veicular publicidade de cigarro; e em 1991, teve um de seus programas humorísticos tirado do ar pela Corte Suprema por ridicularizar as pessoas.

Não bastasse todos esses problemas relativos ao conteúdo, há ainda os processos na Justiça por sonegação fiscal entre 1999 e 2003, e por veiculação dos discursos do almirante Molina Tamayo e dos generais Nestor Gonzáles e Guaicaipuro Lameda, em favor do golpe militar de 11 de abril de 2002. Ambos os casos: enganar o fisco e incitar o povo a um golpe de Estado, são ações puníveis constitucionalmente em qualquer democracia do mundo; pior ainda em se tratando de uma concessão pública como as emissoras de televisão. Vale lembrar que, bem ou mal, Hugo Chávez foi eleito e reeleito nas urnas.

Vale o que está escrito

Outro ponto também não divulgado pela imprensa brasileira é que a não- renovação da concessão foi apenas de uma das emissoras do grupo 1BC (1 Broadcasting Caracas), que continua operando com suas empresas de rádio, TV a cabo, internet e fonográficas. A falta de informação deve ser pelo fato de recebermos notícias da Venezuela por agências americanas, inglesas e francesas, ou por correspondentes brasileiros em Buenos Aires. Até pela proximidade geográfica, certamente jornalistas de Roraima teriam informações mais confiáveis.

O caso da RCTV não tem nada a ver com censura ou com atentado à liberdade de expressão. Da mesma forma que não é censura, no Brasil, os casos da regulamentação da classificação indicativa e da publicidade de bebidas alcoólicas e alimentos prejudiciais à saúde – todas iniciativas previstas na Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

A (de)formação da opinião por parte da mídia em geral é tratada pelo foco das questões ideológicas. As empresas de comunicação tentam sempre afirmar seu papel de defensor da democracia; o que de certa forma era válido nos séculos 18 e 19, quando os jornais davam voz àqueles que se opunham aos regimes autoritários. Mas a partir do final do século 19 e início do 20, a imprensa perdeu seu papel de quarto poder para se tornar uma empresa comercial como qualquer outra.

O que está por trás de todo este tempo e espaço destinados ao caso RCTV – maior do que o destinado a muitas outras questões de relevância na América Latina – é uma preparação de terreno para a defesa teoria do vale-tudo. Assim, em nome da "liberdade de expressão", pode-se desrespeitar os direitos humanos, invadir privacidade, acusar sem provas, corromper... É a moda da tal "liberdade de expressão comercial", neologismo criado pelos empresários do setor no Brasil.

No entanto, se o que está escrito na Constituição continua valendo, os canais de rádio e televisão são concessões públicas, devem respeitar as leis do país, e, assim como na Venezuela e no resto do planeta, as concessões de radiodifusão não são vitalícias.

Comentários (21)
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Vinicius Velasco , Rondonópolis-Mt - Estudante
Enviado em 6/6/2007 às 11:33:37 PM
A imprensa tem que ser livre e não justa. Quer justiça vai ao tribunais, querer calar a imprensa em nome de justiça é um idiotice. Se foi ofedendido, enganado, ludribiado ou qualquer coisa pela imprensa procure um tribunal que ele dara a pena merecida. Se formos calar todos que erram seriamos um mundo de mudos. Viva a liberdade de imprensa. [ ] ditador Chávez.
Wagner  Pillon , Marília-SP - militar
Enviado em 6/6/2007 às 1:34:06 PM
Esclarecedor o seu artigo, era uma das versões que estava faltando para montar o quebra-cabeça existente na mente de todas as pessoas, composto, como toda história, por "três lados" - o de chaves, o da emissora e o da verdade. Cabe ao povo venezuelano questionar um ato de governo legítimo (embora de cunho claramente político)? Cabe aos estudantes da USP questionar um ato de governo, também legítimo (que vizava maior transparência na prestação de contas da universidade)? A parcialidade das matérias jornalisticas tem nos impedido de formar nosso juízo acerca dos acontecimentos, como se estivéssemos adquirindo um pacote casado "notícia e interpretação" sem que tivéssemos sequer elementos capazes de nos despertar para outra direção. Ainda fica a impressão de que Chaves é um aspirante a ditador, um monstro teatral cômico, porém, neste caso, não arbitrário.
Jairo Oliveira , Belo Horizont-MG - Profissional autônomo
Enviado em 6/6/2007 às 11:38:39 AM
A comparação com Hitler é exaustivamente aproveitada por todos os colunistas contrários à medida de Chavez. Sejamos francos: não se está questionando o modus operandi governamental de Chavez e sim a não concessão de uma renovação de TV. Não gosto de Chavez, acho rídiculas ou verdadeira teatralidade as provocações que o mesmo faz aos EUA e por aí vai. Mas, mesmo não concordando com o mesmo em diversas atitudes, não vou concordar, de forma alguma, que uma emissora de TV conclame golpe, incite ao assassinato de um presidente e comemore a deposição do mesmo ao vivo. TV não é para isso, não mesmo!
Carlos Alberto  Lungarzo , São Paulo-SP - Cientista
Enviado em 5/6/2007 às 2:19:33 PM
Esta matéria é de uma transparência, rigor, lógica e sensateza abrumadora, e constitui, um pouco como efeito colateral, uma demonstração de quanto a grande mídia pode manipular o pensamento das pessoas. Com efeito, se não fossem os descabidos esforços feitos pelas redes de TV em todo o Continente, as agrupações de classe, e até os não necessariamente prestigiosos parlamentos de alguns países, ninguém observaria com horror uma medida absolutamente legítima, como a de se recusar a renovar uma licença. Embora a matéria aqui comentada é particularmente precisa, não cabe dudar que muitas outras pessoas devem ter pensado de maneira parecida. O fato de que essas pessoas não tenham podido manifestar-se prova, cruelmente, como o 80% ou mais da população estamos privados da liberdade de expressão, COM ou sem RCTV.
Jairo Sarmento , Camboriú-SC - Inspector
Enviado em 5/6/2007 às 12:37:12 PM
Hitler tambien foi eleito pelas urnas...........
Jairo Oliveira , Belo Horizont-MG - Profissional autônomo
Enviado em 5/6/2007 às 11:58:51 AM
Não gosto do Chavez, ele é cheio de teatralidade para um presidente. Mas, no caso da não renovação, que a imprensa brasileira teima em dizer cassação, da RCTV, ele está certo. Mas, o meu espanto maior é ver um artigo a favor da não concessão da renovação, pois a maioria está contra. A Globo, em nenhum momento, explica o motivo da não renovação. Na maioria das vezes, quando explica diz que a emissora é acusada de SUPOSTAMENTE ter participado do golpe de estado em 2002. Não é suposição, ela participou mesmo, incitando inclusive ao assassinato do presidente. "Vale lembrar que, bem ou mal, Hugo Chávez foi eleito e reeleito nas urnas.", muito bem lembrado pelo autor da matéria, mas parece que a maioria midiática não concorda com isto.
Alexandre Martins , BH-MG - Designer
Enviado em 5/6/2007 às 9:53:00 AM
Edgard Rebouças, PARABÉNS pela sua lucidez. DUVIDO que se alguém aqui, que tanto critica a atitude do Chavez, estivesse no lugar dele, não faria a mesmíssima coisa (OU PIOR), afinal, quem, com um mínimo de bom senso, poderia permitir que um concessionário montasse um plano tão maquiavélico NOTORIAMENTE contra os princípios democráticos e deixasse que tudo ficasse por isso mesmo depois do que aconteceu? ME POUPEM!!! O povo brasileiro precisa deixar de ser masoquista e passar a pensar mais nos nossos problemas e ajudar a erguer um país de verdade. Abram o olho!
walkiria de sousa , goiânia-GO -
Enviado em 3/6/2007 às 2:10:23 AM
quanto é que você ganha para defender o indefensável?! ou faz isso de graça e por ignorância e má fé mesmo?! faça-nos um grande favor, mude-se para a venezuela para ver o que é bom para a tosse... e já vai tarde!
Carlos Henrique Abrantes , Brasília-DF - Cientista político
Enviado em 2/6/2007 às 10:37:51 PM
Uma coisa é uma empresa de telecomunicações não ter seu contrato de concessão renovado! Outra coisa COMPLETAMENTE DIFERENTE é, além de não ter o contrato renovado, essa empresa ter TODOS os seus bens, instalações e equipamentos confiscados pelo governo!! Sem sombra de dúvida, eu prefiro ter que conviver com as notícias tendenciosas e superficiais e os programas idiotas de uma rede Globo da vida, a ter na presidência da república um filhote de Fidel!!!
João Pequeno , Rio de Janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 2/6/2007 às 12:55:14 AM
Escreve aí. Mas, por favor, não coloca vírgula onde não deve não, tá?
Luiz Geremias , cuririba-PR - jornalista
Enviado em 1/6/2007 às 4:04:29 PM
Dá pra escrever um novo FEBEAPÁ com alguns comentários escritos aqui. Mas é bom saber que tem gente que "pensa" desse jeito.
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - médico
Enviado em 31/5/2007 às 8:00:26 PM
Vitalícios são os ditadores comunistas. Estes só matando ou morrendo para o povo se libertar! E existe quem aprecie!
João Pequeno , Rio de Janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 31/5/2007 às 6:52:01 PM
Um jornalista escrevendo assim escracha, viu? "Mas, não é possível não renová-lo, não é?" Nossa... Bem colocada a legislação do fürher. Ele também dizia que era pro bem comum. Chavez, ao contrário da RCTV, soube traduzir o que pesnava o povo. Por isso decidiu eliminar o inimigo do qual o povo gostava tanto.
Luia Geremias , Curitiba-PR - jornalista
Enviado em 31/5/2007 às 6:49:01 PM
É Darci. Chavez é um nazista. O papai noel e o coelhinho da páscoa concordam. Olha, o despertador tocou, tá na hora de acordar. Desculpe a brincadeira, mas que é engraçado, ah isso é.
Darci Debastiani , Blumenau-SC - advogado
Enviado em 31/5/2007 às 4:45:02 PM
Para os que defendem a legalidade do ato de Chaves: Item 23 do Programa do NSPDA – Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores (Partido Nazista) : 23. Pedimos a luta pela Lei contra a mentira política consciente e a sua propagação por meio da Imprensa. Para que se torne possível a criação de uma imprensa alemã, pedimos que: 1. Todos os diretores e colaboradores de jornais em língua alemã sejam cidadãos alemães. 2. A difusão dos jornais não alemães seja submetida a autorização expressa. Estes jornais não podem ser impressos em língua alemã. 3. Seja proibida por lei qualquer participação financeira ou de qualquer influência de não alemães em jornais alemães. Pedimos que qualquer infração estas medidas seja sancionada com o encerramento das empresas de impressão culpadas, bem como pela expulsão imediata para fora do Reich os não alemães responsáveis. Os jornais que forem contra o interesse público devem ser proibidos. Pedimos que se combata peã lei um ensino literário e artístico gerador da desagregação da nossa vida nacional; e o encerramento das organizações que contrariem as medidas anteriores. Chaves está no caminho. Só lhe falta um Rommel.
Luiz Geremias , Curitiba-PR - jornalista
Enviado em 31/5/2007 às 12:54:25 PM
A concessão da globo termina? Mas, não é possível não renová-lo, não é? Afinal, a globo é do povo e, conforme o dines diz no seu texto, logo alí ---->, a rctv também era do povo. Só não soube interpretar direito o desejo deste quando tramou o golpe. Isso acontece.
João Pequeno , Rio de Janeiro-RJ - jornalista
Enviado em 30/5/2007 às 6:18:40 PM
As concessões não são vitalícias. Já as ditaduras, por vezes, são - Chavez, após tentar um golpe de estado, foi eleito pelo povo, mas não liga se este mesmo povo é contrário ao fechamento da RCTV e isso é coisa de ditador. Depois, podem vir outras até a única voz seja a do gran hermano. Vitalícia é a cara-de-pau de usar situações de 1976 como se estivessem ocorrendo hoje. Vitalícios são erros de concordância como "não é censura, no Brasil, os casos". Claro que não é . Casos são, no plural. Vitalício é o espírito autoritário e chapa branca de quem diz que "O caso da RCTV não tem nada a ver com censura ou com atentado à liberdade de expressão" e que defende uma "classificação indicativa" que classifica como indesejáveis meros diálogos em que um dos personagens demonstre egoísmo
MAURÍCIO  ANTUNES ARIEDE , Rio Negro-PR - Técnico Eletrotécnico
Enviado em 30/5/2007 às 1:21:32 PM
Finalmente um artigo coerente, mostrando a verdade sobre o fechamento da RCTV e mostrando que SIM, aqui no Brasil também deveríamos debater este assunto, especialmente o governo. Ou alguém acha que nossas emissoras de TV não seguem regras semelhantes de concessão? Parabéns a Edgard Rebouças pelo ótimo artigo, pela lucidez, pela lógica e pelos argumentos. Somente ainda não entendi por que o Alberto Dines escreveu aquele outro artigo, alguns dias atrás, aqui neste mesmo Observatório, defendendo a RCTV.
Antonio Carlos Silva , Rio de Janeiro-RJ - Funcionário Público
Enviado em 30/5/2007 às 1:15:30 PM
É lamentável que o Presidente Lula esteja viajando na maionese e assim colaborando com a debochada expressão "liberdade de expressão " frequentemente proferida pela corrupta e golpista mídia brasileira .
Vinicius Peraça , Pelotas-RS - Estudante de Jornalismo
Enviado em 29/5/2007 às 8:22:18 PM
Finalmente li algo um pouco mais sensato sobre o caso da RCTV, Infelizmente a nossa imprensa nacional (vulgo Rede Globo) tenta passar ao povo a impressão de que é algo totalmente ditatorial uma emissora de TV perder a concessão. Ainda mais em se tratando de ser a emissora "líder de audiência" na Venezuela, segundo a própria Globo. Espero que pelo menos alguma parte considerável da imprensa leve o tema a um patamar mais amplo, de discussão, debate, conflito de idéias. Contudo, acho difícil que isso venha a acontecer...
Lica Cintra , Rio-RJ - educadora
Enviado em 29/5/2007 às 5:19:55 PM
Se não me engano este ano, 2007, termina a concessão da Globo...
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