ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 441 - 24/11/2009
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FIM DE MONITOR
Governo mexicano "desliga" programa de rádio

Por Wladir Dupont em 10/7/2007

Enquanto na Venezuela o presidente Hugo Chávez liquidava rápido, com muito barulho midiático e demagogia política, a emissora de televisão RCTV, no México, num processo lento, implacável e silencioso, o governo de Felipe Calderón finalmente tirava do ar o programa noticioso de rádio mais antigo e de maior prestígio do país, Monitor, criado e dirigido pelo radialista José Gutiérrez Vivó havia 33 anos.

Semana passada, Gutiérrez Vivó, em seu estilo sóbrio mas firme e cortante, anunciou o término das transmissões do programa (em duas emissoras de AM, para a cidade do México) nos seguintes termos: "Morreu Monitor, estamos tristes. Que o destino cobre a conta de cada um pelo que fez... Muitíssimo obrigado por estes 36 anos". Não antes de explicar aos seus fiéis ouvintes que o Grupo Monitor, proprietário das duas rádios, estava à beira da falência: "A publicidade não entra e não entra porque há indicações para que não entre... É um boicote econômico."

Agora, além da quebra iminente, Vivó terá que arcar também com as conseqüências de uma greve dos empregados sindicalizados, que não recebem seus salários há três meses devido à penosa situação econômica da empresa. Constrangido, conhecedor das práticas mafiosas do sindicalismo mexicano, ele logo reconheceu a dívida com seu pessoal: "A greve se deve ao fato de que não cumprimos com nossos deveres econômicos para com nossos trabalhadores".

Direita, esquerda

Não há dúvida de que se trata, entre outras coisas, de um pérfido bloqueio publicitário em cima da empresa, para calar de uma vez a voz independente, o rigor e a integridade de Vivó, sua longa e séria trajetória no rádio mexicano – virtudes que há pouco lhe renderam um Prêmio Nacional de Jornalismo. Mas ele, raposa velha, sabe também que o sufoco econômico imposto ao seu grupo é só um aspecto da situação.

De fato, a tão alardeada recente liberdade de expressão no México, sobretudo a partir do governo anterior, o de Vicente Fox, quando a mídia passou a gozar de uma autonomia crítica e informativa jamais vista no país, dá agora sinais de vida, embora de forma sub-reptícia, sem escândalos, exercida onde mais dói aos jornalistas-empresários, caso particular de Vivó: no seu bolso e no caixa da empresa.

Segundo ele mesmo conta, o processo para neutralizá-lo de uma vez começou há três anos, ainda no governo de Fox, incomodado com o tom sempre áspero do programa, matutino, contrastando com o estilo áulico e servil de outros colegas do rádio. Ou, pelo menos, mais suave e complacente nas críticas ao governo. Já naquela época, a publicidade diminuía e aumentavam os obstáculos burocráticos no trato com as autoridades.

A situação agravou-se quando o político de esquerda Andrés Manuel López Obrador escolheu o programa de Vivó para anunciar sua intenção de candidatar-se à Presidência do México, parada que acabou perdendo para o conservador Felipe Calderón numa eleição não isenta de dúvidas e suspeitas em relação ao resultado final. Até hoje, López Obrador garante que houve fraude na contagem dos votos e que foi ele o vencedor das eleições.

Crime e castigo

A partir do dia em que López Obrador foi entrevistado por Vivó no rádio, a pressão endureceu, sob a acusação de que o radialista revelara enfim sua opção política à esquerda, postura que lhe causaria maiores perdas de anúncios no programa. Durante algum tempo, ele ainda contou com a possibilidade, salvadora, de receber uma indenização de 21 milhões de dólares de um grupo radiofônico poderoso no México, Radio Centro, por rompimento de um contrato anterior.

Contudo, Radio Centro conseguiu dirimir parte do conflito a seu favor na Câmara Nacional de Rádio e Televisão, recusando-se, até agora, a pagar a soma milionária e piorando ainda mais a situação econômica da empresa de Vivó (o conflito agora espera a decisão do Supremo Tribunal de Justiça). Dono de duas emissoras, Vivó também é empresário e membro da Câmara, mas na condição de grupo menor, em dificuldade, não tem tido chances diante de Radio Centro, dona de enorme cadeia de rádios por todo o México e próxima ao governo federal.

À medida que as perspectivas ficavam mais dramáticas, o radialista sentia que o tapete estava para ser puxado de forma definitiva. Assim, um pouco antes de que Calderón tomasse posse, Vivó recebeu uma mensagem escrita de gente do futuro governo, bem ao estilo oficial mexicano – discreta, sem alarde, mas nem por isso num tom menos ameaçador:

"Vocês estão de castigo. Vamos ver como se comportam. Se não quiserem difundir nossa informação, tudo bem; se não, tudo bem também. Quando considerarmos que existe um bom comportamento, então arranjaremos uma entrevista do programa com o presidente Calderón."

Comentários (9)
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Ricardo Camargo , Porto Alegre-RS - advogado
Enviado em 16/7/2007 às 9:20:47 PM
A história deste programa de rádio está parecendo muito com a do Correio da Manhã, que teve de cerrar as portas, no Brasil, por falta de ranúncios, em 1975, e isto depois de ter sido um dos veículos de comunicação social que haviam participado da campanha pela deposição do então Presidente João Goulart. Quanto à questão da Cultura FM abordada pelo comentarista abaixo, houve uma série de considerações tecidas ao pronunciamento de Alberto Dines sobre a abordagem feita pela Vejinha acerca do tema.
ubirajara sousa , slz-MA - psicólogo
Enviado em 16/7/2007 às 8:07:33 PM
Sr. Apolônio, um dos traços marcantes do ditador é a megalomania. E, diante dos seus dois comentários, sobretudo o que é dirigido ao senhor Marco Paraná, ele está bem marcante no senhor. Por que, então, esse comportamento esdrúxulo? Como teria agido o senhor, acaso fosse um presidente e tivesse como seu confrontador um poderoso dono de uma (ou mais de uma) empresa de mídia? Ora, se com alguém que nem sequer fez qualquer referência ao senhor; apenas colocou a sua idéia, o seu modo de pensar, a sua maneira de ver um determinado assunto, o senhor procurou desqualificá-lo, para mim a resposta é óbvia. Espero que o OI continue a permitir o livre pensar, respeitados os limites da boa educação e os direitos individuais consubstanciados em leis. E que o senhor Marco Paraná saiba que há muitos que pensam como ele.
Francisco Mazziotti , São Paulo-SP - Publicitário
Enviado em 16/7/2007 às 12:59:59 PM
O encerramento de (apenas) um programa de rádio no México faz mais barulho do que a extinção de 17 programas da rádio Cultura FM. O burocrata de plantão na rádio (Paulo Markun) simplesmente eliminou o programa de maior audiência e mais 16 outros de nível excepcional, sem nenhum motivo plausível. O Paulo Markun é da chamada "esquerda escocesa", aquela categoria que vive criticando, com um copo de scotch na mão esquerda. É também especialista em traço. Ele não sossega enquanto a rádio não der traço de audiência.
Apolonio Silva , São Paulo-SP - Físico
Enviado em 13/7/2007 às 11:04:28 AM
Parece que o estudante de jornalismo está com a idéia fixa na questão venezuelana, e a razão embotada não consegue sair do "loop" fechado ideológico. Ele nem se dá conta mas a fórmula para o fim completo da liberdade é justo o que ocorreu no Paraná. No momento em que o Estado deixar de zelar pelo correto investimento de sua verba publicitária e conduzi-la para veículos sobre os quais detem poder através da indicação direta de seu conselho e de seus presidentes, a liberdade de informação foi para o espaço. É incrível como a realidade atropela esse povo, passa por cima deles, quebra todos os ossos das concepções anacrônicas e eles não se dão conta do aconteceu (ou fingem não se dar conta). Está explícito o desastre, pelo que ocorreu no México, na idéia de TVs públicas associadas a governadores [ ] como o comedor de mamona paranaense. Qual o correto direcionamento?, perguntará o neófito ainda refém da impregnação ideológica a que foi submetido em seus anos de doutrinação univarsitária. Pois é simples: que as TVs disputem pela qualidade de sua programação, aferida pelos telespectadores, e não por um punhado de ditadores, acostumados com a doutrinação desde o berço, ávidos por submeter a todos os seus próprios critérios de qualidade. O Estado deverá buscar aquelas que atingem o público determinado de acordo com o objetivo da campanha. É tão simples e tão antigo.
Marco  Paraná , Curitiba-PR - Est. Jornalismo
Enviado em 12/7/2007 às 4:03:23 PM
...Bem, os EUA já cancelaram 141 Tvs nos ultimos anos, a Inglaterra 41 TVs, e lá não precisa esperar a renovação pra terminar as transmissões, executa e pronto, alguem já ouviu isso em algum lugar? Aqui no Paraná tem a TV Educativa, de manhã tem a melhor programação infantil do Páis, a da Padre Anchieta, sem comerciais e violencia, um nojo pra produtor que ganhe com a má cultura infantil, e a tarde programas educativos que ajudam na concientização em relação ao cotidiano, e a noite entrevistas com personalidades reconhecidas pela sua colaboração ao engrandecimento do Homem enquanto ser. Por isso acredito que a salvação da cultura popular brasileira seja as Rádios e TVs Publicas, como é o caso das Tvs Educativas dos estados onde elas funcionem. Para complementar, o Governo do Paraná cortou todos os contratos com TVs, Jornais e Rádios Privadas, economizando 20milhoes por mês, e foi uma dor de barriga danada de boa esta de cortar geral, sendo que teve grupos de TVs que receberam publicidades do governo Lerner(DEMoCRATAS) anterior a este, 1,256bilhoes em 8 anos, e caso alguem quiser comprar "todos" estes grupos de uma só vez, vai gastar 800 milhoes, é comprar todas as empresas, e se for bom negociador sai por menos, claro. ...Qual é o preço da liberdade de Imprensa???????
Apolonio Silva , São Paulo-SP - Físico
Enviado em 11/7/2007 às 4:44:04 PM
Aliás...vou me ancarregar de enviar o artigo para as entidades que andaram defendendo o que está fazendo o governo de Calderón. Ciro, PHA, e outras sumidades que assombram a república.
Apolonio Silva , São Paulo-SP - Físico
Enviado em 11/7/2007 às 4:41:39 PM
O que o artigo mostra são as dimensões do problema da liberdade de imprensa e sua complexidade. Enquanto os simplícios de plantão estão preocupados com a Globo, não se dão conta dos mecanismos (indiretos! no caso) que um governo tem em mãos para atingir esse ou aquele inimigo político (calculem os gênios, o poder de fogo de um governo: se fez isso com uma imprensa privada, imagine o que não poderia fazer com a tal da imprensa pública). Mas esse povo não está aí para entender algo. Tem seu propósito implícito que não é outra coisa a não ser o fim da liberdade de expressão, seja pelos mesmos mecanismos que o México utilizou, seja pelo que passa em cabeças de Ciros Gomes, Paulos Henriques [ ], com o direcionamento de verbas publicitárias dirigidas por um governo - que foi rigorosamente a mesma coisa. O que é absolutamente cômico é que os mesmos que aplaudem Chavez, ameaçam a Globo e tomam esse caso (do México) como paradigma de liberdade de imprensa (já que o que fez Calderón não é outra coisa diferente do que vem sendo defendida por PHA, Ciro e outras cabeças pensantes que viraram vidraça, mas desejam ser intocáveis pela crítica). O PT é menos prejudicial do que o petismo, que se constituiu numa massa de manobra que deixa de lado a ética e estão prontos para por a mão nas fezes assim que o Guia de plantão mandar. PT...quem te viu há 20 anos atrás...
Dante Caleffi , Rio de Janeiro-RJ - publicitário
Enviado em 10/7/2007 às 7:01:10 PM
Há uma imprecisão jornalística no primeiro parágrafo.Barulho midiático e demagogia,foram promovidos pelos associados da SIP.Velhos conspiradores e golpistas, exclusivos, da América Latina. Aqui, também não é fácil sobreviver, tendo como vizinho a monopolista Rede Globo.Fazem ,por barbas de molho,campanha nacional e continental,a favor de uma tal de democracia de informação.Logo ela, a veneranda vênus. E arrastou o congresso ,para uma saia justa,estimulando protestos junto ao governo venezuelano,pela não renovação(que ,medo!) da concessão da RCTV.
Wanderley DINIZ , Brasília-DF - Jornalista
Enviado em 10/7/2007 às 6:54:43 PM
Uai... onde estão os defensores da liberdade de imprensa? Não vi nada sobre o assunto na grande imprensa, e muito menos na Rede Globo, que demonizaram Chavez. Quantos órgãos, quantos programas, quantos profissionais não foram assim punidos, no exterior e aqui na pátria amada idolatrada salve salve, pelas mesmas razões?
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