ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 442 - 24/11/2009
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MÍDIA E SAÚDE
Cursos de "humanização da medicina"

Por Paulo Rosenbaum em 17/7/2007

O primeiro aforismo hipocrático sentencia: a arte é longa, a experiência difícil, a ocasião fugidia. A medicina é mais que uma disciplina, ela é um extenso campo com fronteiras muito plásticas. O enorme interesse do público por notícias desta área pode estar radicado em aspectos que estão para além da mera curiosidade científica ou da predisposição hipocondríaca das sociedades modernas. A medicina aponta para uma percepção clara e direta: de algum modo, ela tem ou terá a ver com nossas vidas e com as vidas das pessoas que conhecemos. Pode-se evitar muitas profissões e contornar muitas atividades. Dificilmente deixaremos de deparar – em algum ponto de nossas vidas – com a necessidade de um encontro médico.

O grande foco de debate da mídia científica e, portanto, sua pauta preferencial, têm sido as pesquisas de novos fármacos, descobertas de síndromes e patologias, além das inovações da tecno-ciência aplicada aos ambientes hospitalares. Entretanto, pelo menos um aspecto parece ter ficado negligenciado no ensino praticado nas Faculdades de Medicina: encontrar meios mais apropriados de facilitar o contato entre dois sujeitos que são médico e paciente. Portanto, não é nada fortuito que o Ministério da Saúde tenha tido uma específica e continua preocupação com este tema e que se venha detectando a instalação de cursos de "humanização da medicina" nos ambientes universitários.

Correntes emergentes

A medicina outorgou-se o modesto titulo de "a mais nobre dentre todas as artes". Por uma simples justificativa, enunciada abertamente pelo pai da medicina: o cuidado dos semelhantes. A anamnese é um ato que se repete desde que Hipócrates inventou a história clínica como técnica. Em cada encontro, este cuidado sempre foi o patrimônio líquido da relação. Relação que foi a pauta de quase todos os humanistas da história da medicina. O consenso entre eles era de que o encontro terapêutico não é somente um instrumento acessório; ele pode ser essencial, o coração do método e, por vezes, a principal ferramenta terapêutica disponível. Desta perspectiva, a consulta médica seria uma espécie de procedimento insuperável em todas as atividades clínicas. E não só para que se desvende o nome da moléstia, nem dar para às pessoas orientação conveniente, mas principalmente para estabelecer o vínculo terapêutico. Alguns dizem que se trata de uma ex-função do médico. A divisão de trabalho teria sido simplesmente resolvida com a adoção das técnicas psicoterápicas. Assim, cada um operaria sobre sua área do conhecimento e o hífen que separa psique de soma teria o devido encaminhamento, já que as palavras e as coisas estariam legitimamente divorciadas.

Mas a hermenêutica filosófica nos diz que a ciência não pode ser tomada somente como os procedimentos típicos das ciências naturais. A ciência é um procedimento analítico que interpreta culturas, que atualiza a realidade prática dos homens. A medicina representa bem esta fusão entre ciências naturais e humanas. É assim que o cuidado médico pode vir a assumir uma dimensão ainda mais ampla. Decerto ele atravessou inúmeras crises na história. Esteve seriamente ameaçado pelas promessas de uma razão tecnológica e pela chamada "medicina baseada em evidências", porém reergueu-se. Até chegar a ser considerado um aspecto-chave em pelos menos duas outras moderníssimas correntes emergentes nas ciências da saúde. Trata-se da "medicina baseada em narrativas" e da "medicina centrada no paciente".

Desafio pedagógico

Parte expressiva da comunidade médica, especialmente sanitaristas e epidemiólogos, conhecem muito bem a realidade do solo. Estão cientes de que não há uma única solução para os graves problemas crônicos de saúde da população brasileira. Dentro de parâmetros ético-científicos e desde que contenham alguma plausibilidade biológica, as soluções podem se articular em muitas medidas que implicam, inclusive, aceitar a diversidade e o controverso. Devem incorporar, portanto, a diversidade de procedimentos terapêuticos existentes, pois a manutenção desta pluralidade parece ser um forte desejo da sociedade.

Qualquer tipo de exclusão apriorística dentre as várias possibilidades terapêuticas só faz endossar o obscurantismo, ao invés de, supostamente, combatê-lo. Este é o essencial do pensamento dialógico. Implica no compromisso – através da conversação – de acolhimento das várias racionalidades. Claro que, para não fugir da tradição de repetição erros antigos, existem os sempre refratários à tolerância. E isto acontece nas duas frentes. Há os que insistem em "racionalizações dementes", como denunciou Edgar Morin, outros em generalizações sem suporte científico algum. Vez por outra, confrontam-se publicamente.

E é neste contexto que o cuidado se impõe como agenda nas ciências da saúde. Não porque os pesquisadores o escolheram como prioridade, nem porque uma decisão governamental qualquer assim determinou. Mas porque é o que vem emergindo de questionários qualitativos e entrevistas com as pessoas que buscam assistência médica. É o que os sujeitos das várias sociedades – e este parece ser um fenômeno mundial – desejam. Não só precisam narrar suas histórias clínicas e aportar suas vicissitudes biográficas, como esperam dos médicos um elemento insubstituível que a simples prescrição de fármacos não atende. Esperam uma espécie de suporte subjetivo com forte ênfase na escuta e na solidariedade. Concordam os educadores que se trata de um imenso desafio pedagógico, já que parece ser dificílimo ensinar tema tão delicado, especialmente dentro da atual disposição dos currículos universitários nas ciências da vida.

Diálogo científico

O registro da expansão mundial das chamadas medicinas integrativas – com forte apoio da OMS e recomendação no relatório da Academia Americana de Ciências de 2005 – nada mais é do que o produto indireto deste desejo de milhões. Erra, grosseiramente, quem aposta que esta tendência mundial é um movimento rival da medicina comum. Ou que estejamos testemunhando apenas um processo de competição comercial. Não que a filantropia seja exatamente a preocupação central das grandes corporações farmacêuticas, mas não é mais crível que fabulosas teorias conspiratórias ainda sejam o epicentro dos debates.

O que realmente interessa é garantir o nascimento de uma novíssima medicina, que encontre na pluralidade das estratégias meios reais e cientificamente mediados de cuidar, promover a saúde e curar as pessoas enfermas. A multiplicidade de enfoques aumentaria muito esta perspectiva e foi exatamente este o espírito do diagnóstico que a Organização Mundial de Saúde emitiu em seu relatório de 2004.

É muito provável que a resistência à aceitação das medicinas integrativas – notadamente da homeopatia e da acupuntura – como áreas específicas do conhecimento médico ainda esteja ligada à memória de um embate ideológico que, embora já superado, ainda é mantido nos bolsões mais dogmáticos. A sociedade teria muito a ganhar se a insistência no enfrentamento migrasse para o genuíno diálogo científico.

Comentários (8)
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Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 25/7/2007 às 6:20:09 PM
Apesar do homeopata Hylton Sarcinelli Luz , Rio de Janeiro-RJ - aplaudir de pé por abordar este problema e abir este debate, o mesmo não mais voltou! Refere o mesmo que “A crise na medicina só não está visível porque a indústria do entretenimento e da publicidade mantém o público hipnotizado”. Realmente a mídia tem muito da sua responsabilidade por não trazer para o nosso país sobre a situação desta falácia no mundo, onde o Brasil é o único país que reconheceu este inimigo da ciência (veja o linguajar do Dr Hylton) como “especialidade”. No resto do mundo ela é praticada por leigos e esotéricos (junto com as outras alegações integrativas) e não é reconhecido por nenhum organismo científico. Nos EUA, dito pelo Dr Paulo Rosenbaum que foi referendado pela academia de ciência, ela nem mesmo é praticada por médicos ou vendido em farmácias! É tratado como placebo sem perigo, desde que em altas diluições, aquelas que os homeopatas alegam serem mais fortes! Isto sim que é lucro fácil. Vender placebo a preço de remédio! Pena que a nossa mídia apenas se encanta e não informa a situação da mesma de verdade! Mas infelizmente nossas autoridades apenas tomam providências depois de calamidades públicas. Antes disto se omitem e empurram com a barriga as decisões e tomadas de posição que deveriam tomar!
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 25/7/2007 às 5:05:30 PM
Apesar do homeopata Hylton Sarcinelli Luz , Rio de Janeiro-RJ - aplaudir de pé por abordar este problema e abir este debate, o mesmo não mais voltou! Refere o mesmo que “A crise na medicina só não está visível porque a indústria do entretenimento e da publicidade mantém o público hipnotizado”. Realmente a mídia tem muito da sua responsabilidade por não trazer para o nosso país sobre a situação desta falácia no mundo, onde o Brasil é o único país que reconheceu este inimigo da ciência (veja o linguajar do Dr Hylton) como “especialidade”. No resto do mundo ela é praticada por leigos e esotéricos (junto com as outras alegações integrativas) e não é reconhecido por nenhum organismo científico. Nos EUA, dito pelo Dr Paulo Rosenbaum que foi referendado pela academia de ciência, ela nem mesmo é praticada por médicos ou vendido em farmácias! É tratado como placebo sem perigo, desde que em altas diluições, aquelas que os homeopatas alegam serem mais fortes! Isto sim que é lucro fácil. Vender placebo a preço de remédio! Pena que a nossa mídia apenas se encanta e não informa a situação da mesma de verdade! Mas infelizmente nossas autoridades apenas tomam providências depois de calamidades públicas. Antes disto se omitem e empurram com a barriga as decisões e tomadas de posição que deveriam tomar!
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 23/7/2007 às 6:31:57 PM
Eu queria saber do homeopata Hylton Sarcinelli Luz , Rio de Janeiro-RJ - por que o governo quebra patente de medicamentes farmacológicos e não faz o mesmo com a homeopatia? Se a homeopatia servisse para alguma coisa a não ser dar lucro apenas para esta terapia do placebo, ele teria que fazer isto para tratar as doenças. Mas como é completamente dispensável, pelos motivos óbvios, nem mesmo a ANVISA avalia os mesmos, placebos estabelecidos na medicina internacional! Mas é mais uma manifestação na Internet do homeopata Sarcilelli Luz mostrando que a homeopatia NÃO é um especialidade médica e nem tem com ela nenhuma afinidade. Sua paixão são as formas que se propõem alternativas à ciência e à medicina científica! O que é óbvio, pois são irmãos do mesmo baú das invenções do exercício irracional das terapias NÃO provadas! A volta as formas das trevas de tratar as doenças! http://www.avozdocidadao.com.br/detailAgendaCidadania.asp?ID=680
maria amaral amaral , sao paulo-SP - veterinária homeopata e historiadora da ciência
Enviado em 20/7/2007 às 9:03:15 PM
Um artigo brilhantemente escrito, mas que reflete o lado de um profissional homeopata, o que é compreensível, mas que não assinalou algo indiscutívelmente muito importante: todo profissional de saúde sério deste país está com problemas. Problemas de formação, problemas para exercer com correção sua profissão, problemas com limitações de terapêutica, com aviltamentos de seu salário, de sua honra e o mais grave, o de seus ideais. Ainda compartilho da opinião daquele que disse que o homem é aquilo que seus sonhos são. Isso sim deve ser discutido e combatido. Àqueles que discutem a cientificidade da Homeopatia, e concordo que esta discussão tem que ser muito bem feita sobre toda e qualquer terapêutica, coloco que se deve separar a clínica e a terapêutica homeopática da pesquisa e delimitação de modelos para discussão do funcionamento do medicamento homeopático. Enquanto no primeiro temos procedimentos e técnicas sendo feitos e são ensinados há anos, com uma reprodutibilidade muito boa (ainda que pobremente reportada para os padrões científicos que estamos acostumados com os medicamentos sintéticos e substitutivos), a segunda está sendo feita, montada, discutida por grupos multidisciplinares e com metodologias transdisciplinares. São desafios inerentes a todos campos de conhecimento que usam outros modelos de ser vivo e de matéria como seu norte e como cerne de seu trabalho.
Hylton Sarcinelli Luz , Rio de Janeiro-RJ - médico homeopata
Enviado em 20/7/2007 às 5:41:23 PM
Aplausos de pé, para este colega que trás à luz o aspecto humano do afazer médico, recolocando-o de volta no cenário, expondo-o a reflexão e ensejando um debate que a sociedade carece. Certamente que há muito o que ser dito sobre este tema no campo da saúde, mormente pelos que são usuários. No entanto, não podemos dizer que seja pequeno o desconforto dos profissionais diante de tantas situações em que as dores e os sofrimentos não se acomodam com exames e medicamentos violentos, que mais degeneram do que recuperam. A crise na medicina só não está visível porque a indústria do entretenimento e da publicidade mantém o público hipnotizado. "Venceremos a morte e superaremos as deficiências" são as miragens diuturnamente renovadas e maquiadas com a última tecnologia da moda. Assim, a indústria mais rendosa do planeta e que é dirigida por números do mercado financeiro, fabrica novidades e quiquilharias que empanam os sentidos da estreita parcela que decide sobre tudo e consome desenfreadamente. Assim, aquilo que move os interesses em saúde deixou de ser o homem, deixou de ser a saúde, deixou de ser a dor humana e os meios de aplacá-la. Hoje aquilo que é central nos debates sobre investimentos em médicina o retorno financeiro que irá gerar. Assim, aplaudo de pé este colega por ousar abordar este problema e abir este debate.
Felipe Faria , Rio de Janeiro-RJ - estudante
Enviado em 20/7/2007 às 12:33:56 AM
Excelente até chegar na homeopatia. Não dá.
Roberto Takata , sao paulo-SP - estudante
Enviado em 19/7/2007 às 3:39:59 PM
É triste todo esse blá blá blá. A questão não é e nem pode ser ideológica. Ou a homeopatia cura doenças com maior eficiência do q os métodos convencionais ou não cura, ou traz melhora para a saúde do paciente ou não traz. Isso independe de ideologia. Mas como a homeopatia é incapaz de demonstrar essa alegada capacidade, volta e meia seus defensores recorrem a essa conversa mole de "paradigmas" (pobre Kuhn). []s, Roberto Takata
CELIO  LEVYMAN , SÃO PAULO-SP - Médico
Enviado em 17/7/2007 às 7:20:21 PM
Embora o bojo do texto seja de irreparável desenho,tanto assim que há anos há várias experiências para introdução de disciplinas de humanidades nos cursos de medicina,inclusive com publicações especializadas,não havendo como negar que a relação médico-paciente é essencial;é falacioso tentar desmembrar a mesma dos assim chamados pelo autor "avanços tecno-farmacológicos".A dissociação de conhecimentos de ciências humanas do ensino médico acompanhou a glorificação exagerada do pensamento positivista,e certamente um melhor preparo prévio ao ensino médico de per se seria desejável.Contudo,há vários caminhos para se tentar corrigir,ou ao menos acrescentar,algo mais aos cursos médicos.O autor erra redondamente quando irresponsávelmente diz que a medicina esteve sériamente ameaçada pela medicina baseada em evidências:essa prática científica é a base do conhecimento técnico estatísticamente analisado,e longe de ter desaparecido,só faz crescer.Da mesma maneira,nomeia como medicinas integerativas homeopatia e acupuntura,como um debate ideológico abandonado.Ao menos em relação à homeopatia,a questão não é ideológica,e sim baseada na cîência:o contato médico-paciente não é propriedade da homeopatia,e sua eficîência e bases estão para ser comprovadas,dos mais simples métodos científicos à própria medicina baseada em evidências;medicina não é tradicional,alternativa,integrativa - é uma só.
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