ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 443 - 17/11/2009
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TAM, VÔO 3054
Internet sucumbe ao espírito de porco

Por José Paulo Lanyi em 24/7/2007

Em tempos de tragédias anunciadas, sempre há lugar para o grotesco. Se os fatos ferem, a repercussão pode agravar, e nisso a mídia colabora. Há alguns dias, o UOL escorregou em uma pocilga, convidado por um leitor que chafurdava nos escombros das vidas de milhares de pessoas atingidas direta ou indiretamente pelo acidente de Congonhas. O internauta enviara ao portal uma fotomontagem que "criava" uma vítima que estaria por se jogar da janela do prédio da TAM Express. O UOL publicou a cena, e, avisado do engodo por outros leitores, retirou-a com atraso, como observa a ombudsman do portal, Tereza Rangel:

"A imagem entrou no fotoblog da redação às 11h19, foi para a home do portal às 12h20. Às 12h48, um leitor já alertava para a montagem. Foram mais 11 manifestações sobre a farsa no fotoblog, de 12h53 até 13h41. A foto ficou mais de uma hora na home do portal e só foi retirada do fotoblog às 14h20. Um erramos foi produzido às 14h33. Ele, porém, ficou restrito à lista de Erramos e a um texto onde antes havia a foto no fotoblog. Para a gravidade do problema, deveria ter sido publicado na home do portal imediatamente. Só foi para lá às 15h55, depois de a ombudsman requisitar uma explicação à redação e depois de ter sido reescrito, às 15h53."

Não é de hoje que se tem optado por delegar ao público as prerrogativas que caberiam aos jornalistas. Em São Paulo, emissoras de rádio lançaram, há alguns anos, o expediente do "ouvinte-repórter" – que entra no ar com informações sobre a cidade, sobretudo trânsito. Em meio a exemplos de trotes e palavrões, há casos de ouvintes que desmentem o verdadeiro repórter da emissora, desmoralizando, ao vivo, um profissional que, uma vez contratado, deveria contar com a confiança do veículo. Ainda que não sejam advertidos pela chefia, nesse confronto entre informações divergentes, os repórteres ficam expostos ao vexame. É o resultado de um meio cômodo de gastar menos e "cobrir" mais, dado o tamanho da cidade.

Genericamente, essa auto-armadilha tem até nome: "jornalismo cidadão". Sim, trata-se, em última análise, de uma redundância conceitual, mas não é o mais grave, como acabamos de testemunhar com o UOL.

Corrida do ouro

Na internet, a cobertura do acidente de Congonhas motivou uma espécie de corrida do ouro de imagens e outras informações. Em meio a notícias estarrecedoras, portais publicavam chamadas que incentivavam, freneticamente, o envio de relatos. Foi-se o tempo em que o "furo" era um apanágio jornalístico. Hoje quem dá o "furo" é a fonte. Nesse ritmo haverá quem proponha a criação do "Prêmio Esso – Categoria Internauta"...

Como se sabe, o espírito de porco é um atributo porcino e, não raro, humano. Nenhuma novidade. Tivemos agora mais exemplos entre os leitores. A colunista Soninha Francine, jornalista sensível e responsável, apresentou-nos uma amostra, em seu blog na Folha Online:

"Aos que chegaram a ler o comentário postado comemorando a morte de um tucano, peço desculpas. Ele nunca deveria ter sido publicado. Quando os comentários se acumulam demais, aprovo todos para que sejam logo tornados públicos, mesmo que não tenha tempo de respondê-los. (Às vezes o tempo passa e eu acabo não respondendo nenhum). Mesmo os mais grosseiros, do tipo `relaxe e goze´ e `relaxe e morra´, como há vários aqui. Por norma, só não publico obscenidades stricto sensu. O resto, um retrato de como as pessoas pensam, deixo passar. Mas às vezes corro os olhos tão rapidamente antes de aprová-los que acabo aprovando, sem perceber, um comentário lamentável, monstruoso, inadmissível, como o que citei acima. Um pavoroso sinal de como temos lidado com a política. Já o tirei do ar".

Na Argentina, o diário La Nación deu destaque ao desastre aéreo em São Paulo. Sob uma de suas notícias online sobre o acidente, pôde-se ler, no fórum dos leitores, a seguinte manifestação de um suposto cidadão do país vizinho, mensagem que assim se traduz: "Só consigo pensar que eles ganharam da gente na final". Essa evidente referência ao desfecho da Copa América, como razão para indiferença ou maus desejos, foi rechaçada, pouco depois, no comentário de uma possível compatriota do mente-curta em questão. Elegante, a leitora sugeriu-lhe que revisse as suas prioridades de vida.

Como reza o aforismo, "o papel aceita tudo". Dá-se o mesmo com a tela do computador. No webjornalismo, mais do que o dever de deletar – recurso que sempre será tardio–, impõe-se a obrigação de checar e de triar para evitar o pior. Não custa lembrar que os meios mudam, mas o imperativo jornalístico do bom senso deve permanecer em todas as fases da produção.

De preferência, com jornalistas fazendo jornalismo.

Comentários (18)
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José Paulo Lanyi , São Paulo-SP - Jornalista
Enviado em 31/7/2007 às 2:20:12 PM
Prezado Roberto Ribeiro, no terreno do estilo, a escolha das palavras sobressai e se faz com base em uma série de fatores, como conhecimento da língua, musicalidade, ritmo, intenção e observação dos usos e costumes, entre outros. Estrangeirismos, peregrinismos ou barbarismos podem se incorporar à língua nativa, o que não resulta em nenhum absurdo, desde que prevaleça o bom gosto- o que pode ser discutível, mas jamais imposto (até rimou, não...?). No jornalismo, a palavra "checar" se consolidou na rotina e não é tida como "vetada" do ponto de vista estilístico. Há quem possa pensar diferente, mas ainda que assim o seja, não ostentará o cajado da verdade, não sem a possibilidade de ser contestado com conhecimento de causa. A língua é viva, tanto quanto a escrita. Não se deve mumificá-las.
Alberto Guzmán Garcia , São Paulo-SP - Engenheiro
Enviado em 31/7/2007 às 10:46:27 AM
Não apenas no UOL, nas no IG, também li o "depoimento " de uma suposta passageira de um vôo vindo de Maringá no dia seguinte ao acidente, que precisou arremeter, pousando minutos depois, no qual dizia que os passageiros firam apavorados com o ocorrido. Nada de mais se coincidentemente não tivesse ouvi na Jovem Pan um passageiro do mesmo vôo declarar ao desembarcar que o comandante informou aos passageiros sobre o que seria feito, tranquilizando a todos. Ou seja foi dado espaço a uma "pseudo-vítima" de algo que não ocorreu. Precisamos todos (imprensa, sociedade e autoridades) a termos acima de tudo respeito pelas famílias das vítimas e em casos como estes por pessoas que precisam pegar um avião por obrigações profissionais, mesmo que com medo. O fato precisa ser diviguldo, mas ouvindo responsáveis e entendidos no assunto, não curiosos ou políticos oportunistas (CPI do "apagão"), que se tornam especialista num piscar de olhos (ou seria nos flashes/olofotes da imprensa). Deixemos de ser "urubus" buscando incessantemente a trágedia de vez.
Roberto Ribeiro , Aracaju-SE - arqueólogo
Enviado em 30/7/2007 às 11:21:51 AM
"Checar" é um anglicismo terrível e deselegantíssimo. O verbo inglês "to chec" se traduz em português por "verificar". Por que não "obrigação de verificar"? Se o jornalista não sabe nem português, como quer que se valorize sua profissão?
Virginia Furtado Leite , Goiânia-GO - jornalista
Enviado em 26/7/2007 às 10:21:52 AM
Realmente, as matérias, artigo ou seje lá o que for, devem ser comentadas, escritas e até faladas por profissionais do ramo.È por isso que não temos tanta credibilidade mais,os ratos de opiniões querem tomar nosso espaço.Temos que fazer algo e urgente contra isso.Quanto a opinião do Argentino;só poderia ter vindo deles, do lado de lá.
nivea santos , são paulo-SP - r.públicas
Enviado em 25/7/2007 às 6:52:54 PM
Professor Avelino e Ibsen, o fato é que temos de focar o assunto do acidente, ainda que a culpa seja do piloto, do Lula, da Tam... enfim, o que não podemos é agir mais ou menos como o Argentino citado no texto do Lany, ainda que em outro contexto. Se agirmos assim, seremos enganados para sempre. Na minha opinião, os grandes culpados são as duas Cias Tam e Gol... que faziam conchavos com com pudessem para terem seus vôos autorizados, enquanto a infra estrutura não recebia o mesmo benefício. As duas querendo dominar o mercado...
Ibsen Marques , São Paulo-SP - Técnico Eletrônico
Enviado em 25/7/2007 às 4:11:57 AM
Professor Avelino, acho que Escola de Base e Lula não são a mesma coisa. No caso da Escola de base, seus dirigentes não tinham nenhum representante da mídia disposto a dar voz à sua versão e muito menos força para exigi-lo. No caso do Lula, por mais que a mídia o "persiga", ele é notícia qualquer órgão da imprensa ficaria muito contente em entrevistá-lo ou poderia mesmo convocar uma coletiva e se postar diante do Brasil, expor sua posição e rebater as críticas (com fatos e números; sem palavras vazias ou discursos de palanque). O fato é que independentemente dos exageros e distorções, não se tomou nenhuma ação gestora para resolver os graves problemas do transporte aéreo. A única coisa de que ouço falar é boicote dos operadores e mesmo esse são inteligíveis na medida em que sobre eles está recaindo toda a culpa do que vem ocorrendo na aviação brasileiro, isso quando não se fala em sabotagem nos Sindactas da vida. Só falta agora acusar a oposição de ter infiltrado sabotadores e controladores rebeldes na aviação brasileira.
Alexandre Carlos Aguiar , Florianópolis-SC - Biólogo
Enviado em 24/7/2007 às 9:18:16 PM
Jornalistas fazendo jornalismo, no Brasil, é o mesmo que vovozinha comendo o lobo-mau. Na minha área, antes de uma informação ser veiculada, deve passar por um crivo meticuloso e calibrado, sem o qual será tratada como especulação. No meio jornalístico, que se confunde com o senso comum, há a velha frase que diz "um jornalista não deve dormir com a notícia", ou seja, veicular primeiro e verificar depois. Se fizer mal a alguém, abre-se uma errata e, se possível, em letras bem pequenas, para não dar prejuízo. Posso elencar os exemplos?
ronaldo  prado , vitoria da conquista-bahia-DF - empresario
Enviado em 24/7/2007 às 8:03:57 PM
Atualmente quando acompanho uma noticia , antes de dar crédito eu primeiro me pergunto até onde vai o grau de isenção daquele veículo de comunicação , daquele(a) colunista . A partir daí , sei o que está por trás notícia.
João Paulo Santos , Porto Alegre-RS - Jornalista
Enviado em 24/7/2007 às 6:52:25 PM
Após o acidente mandei por vários dias seguidos emails a uma rádio local. Todos com informações técnicas importantes que, de alguma forma, acrescentavam e esclareciam pontos importantes do que estava sendo discutido. Algumas delas garimpadas da internet, como um manifesto da Associação Internacional dos Pilotos, que reiterava o alerta feito há mais de 20 anos (!!!) para os riscos de acidentes aéreos em áreas superpovoadas das grandes metrópoles e a necessidade urgente da construção de áreas de escape nestes aeroportos. A diferença era que um dos jornalistas do programa tinha conhecimento do assunto. Então o problema não está na fonte mas no jornalista que escolhe o que deve ser publicado e até no seu poder de contestar o que é dito. Para fazer isso, o profissional deve estar bem informado, o que não acontece na maioria das vezes.
Avelino de Oliveira , Sorocaba-SP - Professor
Enviado em 24/7/2007 às 5:30:50 PM
Qual a diferença eentre fotomontagem e reportagem montagem? Porque se critica um e não o outro?! Ou vocês se iludem que durante o acidente aéreo fomos devidamente informados? Me lembra o caso da Escola Base. Todos atirando contra, não é o mesmo caso do Lula?Todos atirando contra. Onde há jornalismo sério nisso?! Saudações
Roelton Maciel , Joinville-SC - Estudante
Enviado em 24/7/2007 às 3:46:40 PM
Além de desvalorizar o verdadeiro jornalista, a contribuição de amadores - quando mal executada - põe em xeque a própria credibilidade do conteúdo jornalístico. Atos como esse devem levar a boa imprensa a questionar os limites da interatividade e o papel de editores e repórteres em coberturas de grande apelo, para que o veículo não falte na apuração e também não delegue seus profissionais ao simples trabalho de reproduzir notas da maneira mais rápida que puder.
Clodoaldo Damasceno , Natal-RN - Publicitário
Enviado em 24/7/2007 às 2:04:38 PM
Veja só, caro José Paulo, o que diferencia a internet de outras mídias é exatamente sua natureza plural. A realidade - que você prefere que seja a de "jornalistas fazendo jornalismo" - é que a relação entre fonte e recepção da informação mudou. Ela hoje é dispersa, perdeu a natureza monopolista que sempre teve. Alguns, como você, talvez ainda não tenham percebido ou não quiseram se render ao novo tempo, tal qual pés velhos que não se conformam com botas novas. É lamentável que a incensibilidade de muitos possa fazer desse ambiente democrático uma fonte de atitudes toscas ou grosseiras, mas também é lamentável que ainda haja quem queira monopolizar a produção da informação, o direito de difundir idéias - mesmo que essas sejam apenas toscas ou grosseiras. O caos democrático da internet não "sucumbe" ao espírito de porco, como sugere, mas o abraça como abraça qualquer outro tipo de idéias, sejam ou não concordantes com você ou comigo. O erro cometido por um grupo de comunicação, UOL, ou as grosseirices em uma seção de cartas de um jornal argentino não dão argamassa suficiente para segurar seu pilar argumentativo. Não se avalia toda a duna por meio de um caroço de areia.
Ivan Bispo , Cristalina-GO - gestor ambiental
Enviado em 24/7/2007 às 1:56:29 PM
Eu, como usuário direto e diário da web, tenho visto que a responsabilidade é do "louco" que colocou a fotomontagem, pergunto: O que é jornalismo? Respondo: é a informação precisa publicada. Onde está a responsabilidade do jornalismo ou seu departamento? Parece que todos querem mesmo é fazer publicidade contrária ao governo que está no poder. Aprendemos a ler, navegar na net, etc. Não queiram nos enganar, como houve essa fotomontagem, também tem havido informações sérias. Diploma de jornalismo para quê mesmo!!!???
Marcos Aurélio , luziânia-GO - Funcionário Público
Enviado em 24/7/2007 às 1:44:15 PM
O cidadão tem o direito de se expressar e transmitir aos outros suas informações, quando ele próprio noticia evita que as informações sejam distorcidas por jornalistas inescrupulosos, isso é liberdade de expressão, que não é um direito apenas de jornalistas como a imprensa brasileira pensa. Fiquei curioso com uma coisa, você defendem que pior que um jornalista transmitir uma informação falsa ou inverídica, é ele ser desmentido?
Fábio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 24/7/2007 às 12:52:08 PM
O fato referido pode ser desdobrado em dois aspecos. 1) Impossível deixar de admirar a criatividade e capacitação técnica do internauta que fez a fotomontagem (cujo mérito é atestado pelo fato de ter sido engolida como representação da verdade pelo UOL); 2) A apressada distribuição da imagem como sendo real pelo UOL, o que demonstra que a checagem da informação sucumbiu ao desejo de "furar" a concorrência. Interessante notar que a pressa do UOL só teve como efeito expor ao ridículo o jornalismo do portal, porque em termos de jornalismo "on line" em tempo real a informação errada pode ser corrigida à qualquer tempo.
Evandro Assis , Blumenau-SC - Jornalista
Enviado em 24/7/2007 às 11:52:43 AM
Interessante levantar a discussão. Mas é preciso ficar claro: alguém "colaborou" enviando a fotografia. Quem deveria checá-la? O espírito de porco ou os jornalistas? O Jornalismo Cidadão (e não há nada de redundante, já que no conceito original pouca gente ainda acredita) está exposto aos mesmos riscos do fazer jornalismo tradicional. As informações recebidas devem ser checadas antes de publicadas. A diferença é que o número de fontes agora é tremendamente maior. Portanto, há mais trabalho por fazer. Quando passamos também esta responsabilidade ao cidadão, ocorre o que ocorreu no caso citado.
Sergio Azevedo , Macaé-RJ - Administrador
Enviado em 24/7/2007 às 11:23:02 AM
Parabéns ao autor do artigo. E ao Observatório por voltar a fazer seu brilhante trabalho de observar a imprensa.
Ubirajara Oliveira , rio de janeiro-RJ - produtor cultural
Enviado em 24/7/2007 às 11:10:42 AM
Quem trabalha em produção de eventos sabe disso: a massa é burra! Se alguém der um tiro em meio a uma multidão não adianta o cara em cima do palco ficar gritando "calma pessoal, não feriu ninguém"... Todos iram correr apavorados. Quando se está diante de algo, como o caos aéreo, há dez meses anunciado o melhor a fazer é tentar prevenir o inevitável, o erro, o acidente, o horror. É a lei de Murphy em ação. Foi assim com o acidente dos fogos em Copacabana, o furacão Katrina no EUA. Outra tragédia anunciada que espero não ver são as multidões que se aglomeram no Rio de Janeiro em shows de rua, sem a mínima estrutura, sem áreas de escape, em meio ao tráfego de carros e residências. E olha que volta e meia o MP entra na história e tenta interditar. Mas vem o interesse econômico e libera. É interessante notar que, por trás de todos esses eventos trágicos tem aqueles que inflam as expectativas. Quantos não foram os que ufanisticamente se vangloriaram do crescimento da indústria aérea, economistas, jornalistas, etc. Nessas horas o crítico é sempre visto como um chato, o mané natureba com visão politicamente correta de tudo. Tem uma propaganda rolando por ai, promovida por uma associação de propaganda qualquer que esse indivíduo, crítico contumaz, acaba sendo confundido com o censor. http://politicacomovcve.blogspot.com
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