ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 445 - 24/11/2009
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LUSÓFONOS & LUSOFONIA
Língua portuguesa, ainda sem acordo

Por Deonísio da Silva em 7/8/2007

Brasil e Portugal já fizeram acordos ortográficos outras vezes, mas não se entenderam. Em Portugal, vale o de 1945. No Brasil, o de 1943. Se todos os países lusófonos assinarem o novo acordo ortográfico ora em gestação, ele entrará em vigor em 2009.

A proposta de reforma da língua portuguesa tem o fim realizar a unificação ortográfica entre o Brasil, Portugal e os países lusófonos: Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Há ainda outras nações em que a língua portuguesa é uma das oficiais.

Macaqueando o modelo americano, que tudo quantifica, já surgiram cálculos, não se sabe bem apoiados em quê, dando conta de que a nova gramática vai alterar 1,6% do vocabulário luso e 0,5% do brasileiro.

Como vemos, não é apenas com a independência política que certas sutis complexidades da língua são resolvidas. Hegel ("o senhor está também dentro de você"), que foi colega de seminário do poeta Hölderlin ("o homem é Deus quando sonha e mendigo quando pensa"), e Freud ("no princípio não foi o Verbo, foi a ação), saberiam explicar por que razão fala-se apenas em dois vocabulários, o brasileiro e o luso. E as nações africanas de língua portuguesa, onde entram? O Prêmio Camões de Literatura pelo menos atribui o galardão alternadamente a escritores de Portugal, do Brasil e de nações africanas lusófonas.

Sumos pontífices

O acordo é polêmico e vem despertando críticas diversas, muitas das quais mal sustentadas, pois não se trata de proibir as variações da fala e, sim, de unificar a escrita, como já aconteceu com a língua árabe, que, embora falada de diversas maneiras em 15 países, é escrita por todos do mesmo modo.

Um bom dicionário de língua portuguesa tem hoje cerca de 200 mil palavras. Na verdade, é melhor usar verbete ou entrada, em vez de palavra, para designar tal quantia.

Vamos a um pequeno exemplo. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa anuncia em sua versão eletrônica (2.0, conteúdo revisado) que foram reunidos ali 228.500 verbetes, que trazem 380.000 acepções. Chefiam a equipe editorial do projeto – que leva o nome do fundador, Antônio Houaiss – Mauro de Salles Villar e Francisco Manoel de Mello Franco. [Há alguns erros etimológicos, como no verbete "urucubaca", que estava no português bem antes da gripe espanhola, como demonstrei em outro artigo – "A urucubaca do presidente" (rolar a página).]

O Houaiss, à semelhança de congêneres como o Aurélio e o Michaelis, é insuficiente para escritores de prosa de ficção, mas ferramenta completa para quaisquer outros consulentes.

Infelizmente, no Brasil, contistas, romancistas e poetas, mesmo os mais conhecidos, ainda não são bem aproveitados em escolas, universidades e academias. A razão é muito simples: exigem antes o atestado de óbito dos autores. E, claro, eles não podem atender ao requisito.

Vou dar o exemplo de Clarice Lispector. Jovem professor universitário, tive dificuldades de levar livros de Clarice para a sala de aula e para as bibliografias. Muitos dos que hoje ganham dinheiro com sua obra – para dizer o mínimo, bolsas para estudar ou orientar teses sobre sua obra – desprezaram seus livros quando a escritora estava viva e precisava muito dessas atenções, sem contar que as merecia.

Uma simples mesa-redonda com alguns escritores de criação poderia diluir certas travessuras de doutos professores que insistem em reiterar que não é preciso estudar a gramática da língua portuguesa, que a função da língua é apenas a de comunicar. Quem pensa assim, deveria ceder o posto a Chacrinha ou a alguém com o perfil dele. Pelo menos, as aulas não seriam chatas. Quantos universitários não desistem logo no primeiro semestre, justamente por dificuldades de ler, escrever, pensar, argumentar etc. em língua portuguesa!

De acordo com tais sumos pontífices, se você fala ou escreve de um modo que todos entendem, está bom assim, não é preciso estudar tanto, não é necessária a relação bunda-cadeira-hora, sem a qual nada se aprende direito. E esses ignorantes, apoiados em diplomas concedidos por pares seus que pensam a mesma coisa, seguem pontificando que não é preciso ler e muito menos estudar os textos fundadores de nossa língua portuguesa. Tal situação pode ser designada pela expressão científica "fim da picada".

Coisas nossas

Conhecido por seu bom humor, o brasileiro adotou um curioso e humilde epíteto para o dicionário, entretanto injusto para com o animal: pai-dos-burros. Quem já cavalgou, sabe, por experiência, que o burro é inteligentíssimo. Burro é o cavalo: este, sim, esporeado, vai aonde não poderia ir, complicando a vida do cavaleiro. À beira de um pântano, por exemplo, o burro empaca.

O verbo empacar veio do quíchua alpaca, animal menor que a ou o lhama, de couro avermelhado. Quando não quer continuar a caminhada, ele se deita no chão e dali só sai arrastado, porque levantar não se levanta.

Pai-dos-burros é expressão de origem controversa. Teria vindo da profissão do pai do autor do Aurélio, o lexicógrafo e filólogo brasileiro Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, verdadeiro homem de letras, tradutor e ensaísta, que pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Os direitos autorais do dicionário Aurélio pertencem hoje ao grupo Positivo.

O pai de Aurélio fabricava carroças e charretes muito confortáveis, não apenas para os usuários que iam sentados, mas também para os burros que as puxavam. Já era então comum a expressão "Não tenho palavras para agradecer", com que os usuários elogiavam a perfeição daquelas charretes.

Aurélio as tinha e por isso fez um pequeno compêndio de elogios, na verdade o seu primeiro dicionário. Nele os usuários encontravam as palavras adequadas para endossar o trabalho de seu pai. E o filho do fabricante pouco a pouco foi deixando de ajudar o pai na confecção daquele meio de transporte tão concreto e passou a cuidar de outros transportes, o das palavras, tornando-se autor do dicionário brasileiro mais traduzido no mundo (cerca de oitenta idiomas).

Um dos pesquisadores a registrar tal versão foi Diógenes Praxedes (Jornal de Brasília, DF, edição de 8/12/2001). O Almanaque Santo Antônio 2003 endossa a mesma versão, usando como referência o citado jornal.

O acordo está tecnicamente em vigor desde o dia 1º de janeiro de 2006, por força de decisão tomada por chefes de Estado de nações lusófonas, em encontro realizado em São Tomé e Príncipe, de que participou o presidente Lula.

Bem Brasil. O acordo está em vigor, mas só entrará em vigor em 2009, se entrar...

Se der, voltarei ao assunto.

Comentários (3)
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Toninho  Lima , Rio de Janeiro-RJ - Publicitário
Enviado em 8/8/2007 às 5:28:22 PM
Ler, ouvir ou ver o mestre Deoníso é sempre um prazer. Sua cultura sem ranço e seu palavreado solto e fácil escondem uma erudição que poucos que conheci ostentam. E, na verdade, ele procura não fazer dela um manto de respeitabilidade. Mas antes uma passagem clara e acessível para todos aqueles que desejam conhecer as curiosas histórias de nossa língua portuguesa. Estive apenas uma vez com o Deonísio. E foi o suficiente para me tornar seu admirador.
Noemia Monteiro Bito , Maceió-AL - Pedagoga
Enviado em 8/8/2007 às 11:34:50 AM
Agradeço muito por este artigo. Estou justamente escrevendo uma monografia sobre os estudantes africanos lusófonos e o uso do português brasileiro. Alguns apresentaram dificuldades de aprendizagem e a causa indicada foi justamente o mal uso do português. Isso me motivou a desenvolver um estudo com esses alunos que iniciam seus estudos acadêmicos no Brasil, como membros do Programa de Estudantes Convênio de Graduação (PEC-G), sem apresentarem o certificado de proficiência em língua portuguesa (CELPE-Bras) e sem necessidade de prestar exame vestibular, porque já são passam por seleção em seu país de origem. Mas, em muitos casos, por conta da má qualidade da sua formação inicial e do uso mais comum dos diversos dialetos locais que da língua portuguesa, entre outros fatores, percebe-se claramente que precisamos, junto com eles, no mínimo rever os nossos parâmetros do que é língua portuguesa, se desejamos nos entender como lusófonos. Espero que o assunto seja retomado, assim como espero que alguns sítios sejam indicados para quem deseja se aprofundar mais sobre o assunto.
Carlos Pompe , Brasília-DF - jornalista
Enviado em 7/8/2007 às 12:11:22 PM
Excelente texto. Mas temo que haja uma imprecisão: se o espírito não me engana, quem escreveu que no princípio foi a ação foi o Goethe, e não o Freud. Mas, provavelmente estou errado e Freud explica...
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