ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 452 - 24/11/2009
  Diretório Acadêmico
Início > Índice Geral > Diretório Acadêmico + A | - A
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
 

IMPRENSA POPULAR
Do jeito que o povo gosta

Por Leonardo Siqueira em 25/9/2007

Reproduzido do Canal da Imprensa nº 76, 13/9/ 2007, do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Adventista, Campus Engenheiro Coelho (SP)

Um levantamento feito pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) entre janeiro e novembro de 2006, publicado na edição do dia 5 de fevereiro de 2007 do jornal Meio e Mensagem, revelou um aumento de 6,19% da circulação de jornais em relação a 2005. Segundo dados do IVC, o crescimento dos populares é o principal propulsor do aumento da circulação de títulos no País.

A situação é curiosa. O popular Extra, do Rio de Janeiro, detém a terceira posição no ranking dos jornais mais vendidos, à frente de periódicos de tradição como O Estado de S.Paulo e Zero Hora. O Diário Gaúcho aparece em sétimo e é o segundo entre os populares de maior circulação. Mas a receita dos chamados light paper´s vai além de um texto chamativo ou apelo sensual, estereótipos do jornalismo "espreme que sai sangue" - geralmente associado às publicações de apelo popular. No caso do Diário Gaúcho, objeto da presente análise, a participação do público e o preço acessível (em média 0,50 a 0,75 centavos) justificam um expressivo número de leitores e posiciona o jornal como líder de mercado no segmento dos populares em Porto Alegre e na região sul do País. Em apenas sete anos, o DG abocanhou cerca de um milhão e meio de leitores e superou a liderança histórica do Rio de Janeiro, uma das capitais com maior índice de leitura de jornais em todo o Brasil.

Quais os elementos discursivos de legitimação da fala popular no Diário Gaúcho? De que maneira a participação do leitor reflete o conteúdo produzido pelo jornal? Um periódico para ser popular precisa apelar ao sexo e à informação bizarra? É o que este artigo pretende analisar. Para tanto, foram avaliadas quatorze edições do jornal entre os dias 16 e 23 de agosto e 28 de agosto a 4 de setembro.

Jornalismo e entretenimento

O ex-editor-chefe e atual diretor da Rede Gaúcha, Cyro Martins, destacou alguns elementos da política editorial do DG em entrevista concedida ao programa Argumentos da TV PUC, em 2000. Segundo ele, o leitor potencial do jornal é conservador. "O DG jamais publicará páginas de sangue, aberrações, linguajar chulo e nudez ginecológica", afirmou. Será? O apelo sensual ganha destaque em boa parte das edições. "Sheron ‘duas caras´" (16/08/2007), "Gêmea má às turras com a boa" (17/08/2007), "Uma pecadora em alta" (18/08/2007), Camila é um brinco (28/08/2007), "Encha os olhos de paz" (03/09/2007), para não citar todas as capas analisadas. Na editoria "Retratos da fama", por exemplo, há espaço para fofocas e detalhes da vida de celebridades. Em alguns casos, a legenda de algumas fotos é bastante sugestiva: "Nas curvas de Bárbara, o Véio vai estacionar..." (03/09/2007), "O Véio pode ser terapeuta, massagista, médico do coração... Tua Samu... Esse corpinho não nasceu para sofrer" e "Quem mandou ser gostosa?" (04/08/2007).

É bem verdade que os atuais populares adotaram uma política editorial menos agressiva e sensacionalista em comparação às décadas de 50 e 90. Mas a espetacularização da notícia, o apelo sensual e as editorias de entretenimento ainda ajudam a vender uma porção de exemplares. Se não vendem, ao menos, estimulam e divertem o público. Afinal, uma importante parcela da classe B, C e D encontra no jornal, nas palavras cruzadas, na informação bizarra ou realização do sonho de um leitor o lenitivo para a dura rotina de trabalho. Da condução apertada, do "cafezinho" frio na rodoviária.

Uma coisa é divertir o leitor, humanizar a notícia, tendo em vista a tendência do jornalismo na era do entretenimento. Mas apelar para o sexo, mesmo de forma sutil, é um grave erro. Ou não. Para o meio impresso, pode ser uma opção lucrativa a fim de conter a perda de anunciantes e leitores.

O leitor como fonte

Na imprensa popular a esfera do oficialismo é restrita, exclusivamente, a explicação de um problema que atrapalha a comunidade. Ao contrário dos jornais tradicionais ou de referência, o especialista é apenas uma fonte secundária. O cidadão comum participa da discussão de políticas de administração pública, sugere alterações na aplicação dos recursos federais, reivindica melhorias no transporte público, saneamento básico. Enfim, a ótica do problema é vista de baixo para cima. O líder comunitário, o dono do barzinho e o vendedor ambulante dificilmente são entrevistados pelos jornais de referência. Nos periódicos de fala popular, porém, o público das camadas mais baixas da sociedade tem vez. Mas ela se dá em um ambiente de dominação, conforme pontua a jornalista e doutora em Comunicação Márcia Franz Amaral:

"Numa análise mais detalhada, percebemos que permanecem as relações de dominação, e a fala do leitor é performática, não inaugura práticas novas de jornalismo popular. Ao contrário, fideliza os leitores a formas de entretenimento travestidas de jornalismo em que as side stories importam tanto a ponto de apagar o que ocorre nos bastidores onde muito se decide. O lugar de fala do leitor no texto inclui a projeção de sua localização no espaço das diferenças sociais." (AMARAL, Márcia Franz. A fala popular e a realização do jornalismo).

O perigo dessa verticalização da fala, da ponta inferior para o topo, é atraente, mas revela suas debilidades. Um problema da população local pode ser confundido com o dilema de um leitor. E esse dilema nem sempre apresenta uma real necessidade do grupo que o leitor representa. A linha parece mais tênue na medida em que a fonte comum, ao invés de esclarecer ou solucionar o problema, retira o acontecimento de sua esfera social e a limita ao acontecimento, a notícia anômala, a sua cosmovisão de mundo. As matérias "INSS não alivia nem operada" ( 17/08/2007 ), "Éramos seis, agora somos nove" ( 28/08/2007 ) reforçam essa idéia.

Talvez esta postura revele um recurso estético, de mercado, haja vista a demanda que esse público requer: histórias humanizadas, a fala do próprio leitor como atribuição de status perante a sociedade em que vive , ou de uma participação política. O perigo está em perverter alguns elementos básicos do jornalismo como relevância e proximidade e trocá-los pelo espetáculo, lucro, entretenimento. E é aí que o jornalismo não se deixa realizar completamente. Quer dizer, até que ponto a participação do público e a demanda de um mercado específico influenciam a cobertura jornalística de um veículo de comunicação? Difícil responder.

Assistencialismo

Além da verticalização da fala popular, a interação com o público não privilegia temas de repercussão nacional. Quando a agenda do Congresso é mencionada a abordagem gira em torno de escândalos, denúncias de corrupção ou movimentos cívicos que envolvam grandes capitais ou mesmo a própria Porto Alegre. Das capas analisadas apenas uma tratou da política a partir de Brasília: "José Dirceu vira réu". Na mesma capa, o colunista apresenta a seguinte chamada: "Macedo e governo Lula" ( 28/08/2007 ).

E mesmo a cobertura da política regional não oportuniza o poder de fala aos representantes do Estado. A fala deles, porém, fica restrita em segundo plano. O assistencialismo e a prestação de serviços são características fortes do DG. Contudo, o serviço que o periódico presta à comunidade pode servir, inclusive, para promover o próprio jornal – já que a fala política é ausente. Assim, o jornal se firma como mediador da relação política: e essa interação tem apenas uma via. Ou seja, o leitor é informado dos abusos e descasos dos governantes, mas a explicação e a interação do Estado com o cidadão é restrita a um espaço pequeno, quase insignificante.

O assistencialismo é freqüentemente utilizado nas edições de aniversário do jornal, segundo constatou Amaral (2004). "Um ano junto dos leitores", "Vidas que o Diário modificou" (17/04/2001). No segundo ano, as chamadas "Vidas que ficaram melhor", "Compromisso com a comunidade: o Diário não esqueceu destes e de outros casos" e "Os problemas eram nossos. E, juntos, buscamos a solução" (17/04/2002) legitimam o discurso de dominação e assistencialismo. As vidas transformadas pelo jornal também são destaques nos aniversários de três e quatro anos: "No nosso aniversário uma homenagem aos leitores: 3 anos!", "Desaparecidos: Diário aliviou drama de 52 famílias este ano" (17/04/2003) e "E neste domingo...a festa é sua, a festa é nossa, é de quem vier!" e "Quatro anos: muito obrigado, leitores!" no aniversário de quatro anos (18/04/2004).

Agenda pública

O DG constrói um discurso focado na cidadania e agenda pública da capital gaúcha. A maior parte das pautas gira em torno da gestão municipal e problemas da população local. As chamadas remetem à fiscalização de obras da prefeitura, sistema municipal de saúde, transportes e segurança. Na capa do dia 16 de agosto o jornal trata, dentre outros temas, da fiscalização das áreas de risco e a falta de pessoal para suprir a inspeção dos locais com perigo de desabamento. Para tanto, usa o título "Muito trabalho, pouco fiscal". Na capa do dia seguinte, segue matéria no rodapé sobre o transporte público e a preservação de pontos de ônibus da capital: "Paradas de Assis Brasil na miséria". Mesmo assuntos de repercussão internacional, geralmente esquecidos pela imprensa popular, ganham destaque: "Terremoto no Peru mata mais 500" (17/08/2007).

E os populares, são, sem dúvida alguma, uma importante ferramenta para a ação social. Refletem o interesse da comunidade por assuntos que, normalmente, não receberiam a atenção dos jornais tradicionais. A razão é simples: o buraco na rua, a falta de encanamento na vila do morro e a precariedade de atendimento no postinho não chamam a atenção da imprensa grande, muito menos a fala do cidadão comum. Contudo, a ausência da fonte primária, o apelo sensual e o assistencialimo barato estão longe de inaugurar uma nova prática de jornalismo popular.

Mas o Diário tateia em direção ao rumo certo: o da desmistificação do jornalismo popular calcado no sangue e sexo e o incentivo do agendamento social.

Comentários (0)
Comentar
Compartilhe
[imprimir] [enviar por email ] [link permanente]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Evite vulgaridades e simplificações grosseiras. Não escreva em maiúsculas: isso dificulta a leitura do texto e, na linguagem da internet, é interpretado como gritos. Mensagens que não atendam a estas normas serão deletadas, e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
         
Nome :   Sobrenome :
E-mail:   Profissão:
Cidade:   Estado:
Comentário:


para o limite de 1400.
 
The CAPTCHA image
Clique aqui para ouvir o
texto soletrado(mp3)
Digite no campo abaixo o texto
que você vê na imagem ao lado.

 
Compartilhe este texto
Blig Blig BlinkList BlinkList BlogBlogs BlogBlogs BlogLines BlogLines Delicious del.icio.us
Digg Digg Furl Furl Google Bookmarks Google Bookmarks Linkk Linkk Magnolia ma.gnolia
netscape Netscape netvibes Netvibes newsvine Newsvine reddit reddit Stumble Upon Stumble Upon
Technorati Technorati Twitter Twitter Windows Vista Windows Vista Yahoo! MyWeb Yahoo! MyWeb Facebook
Leonardo Siqueira

Outros artigos desta Seção
IMPRENSA POPULAR
Jornalismo que faz sucesso
Carina Bentlin, Priscilla Stehling e Raphael Vaz
25/9/2007
"Popular não é
sinônimo de torpeza"

Leonardo Siqueira
25/9/2007
Sensacionalmente
correto

Cígredy Neves
25/9/2007
A elite popular
do jornalismo

Rogério Cardoso
25/9/2007
Do jeito que
o povo gosta

Leonardo Siqueira
25/9/2007
JORNALISMO E LITERATURA
Imaginário x realidade: a representação ficcional
Adriano Piekas
25/9/2007
XIII EXPOCOM
Qualidade de produções laboratoriais em xeque
Pery Negreiros
25/9/2007

Últimos 5 artigos de
Leonardo Siqueira
IMPRENSA POPULAR
"Popular não é sinônimo de torpeza"
25/9/2007
HIPERTEXTO
Um novo cenário para a comunicação
26/6/2007
Mais artigos de
Leonardo Siqueira >>