ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 462 - 24/11/2009
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EDITORES NEGLIGENTES
Entre o jabaculê e a agenda que interessa

Por Luciano Martins Costa em 4/12/2007

Durante debate realizado na sede da Fiesp, na sexta-feira (30/11), o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, observou que existiam pendentes de julgamento no Brasil, em 2005, 40.225.320 processos, para um total de 14.602 magistrados.

Trata-se de um número absurdo, que define a real impossibilidade de aplicação da justiça em larga escala e num padrão de acerto compatível com o regime democrático.

A imprensa fez registros burocráticos do evento. Deveria ter oferecido mais. Não que o ministro ou os demais participantes do debate, como os professores Gustavo Franco e Maria Tereza Sadek, tenham conseguido cobrir toda a abrangência da questão. Mas, por se tratar de reflexões sobre a eficiência da Justiça e sua eficácia na economia, o tema merecia ser levado para muito além do portentoso edifício da Federação das Indústrias no Estado de São Paulo.

As conclusões dos estudos apresentados indicam que a ineficiência do sistema judiciário brasileiro representa um dos mais graves riscos para o desenvolvimento da nossa jovem democracia. Os números do fracasso em fazer Justiça são também um reflexo do tamanho da ambição regulatória que toma conta dos demais poderes – o Legislativo e o Executivo, autarquias e outras instituições, em todas as instâncias – pródigos em produzir leis e normas em geral. O ordenamento legal do Brasil é composto por 3.600.000 leis, o que torna impossível a aplicação equânime das regras e abre uma vantagem desmedida para aqueles que podem pagar os melhores serviços advocatícios.

As grandes questões

Assim, numa demanda entre uma pequena empresa que fornece para uma multinacional, a primeira perde logo na largada: por mais justa que seja sua posição, o poder de fogo do oponente, atuando diretamente na ação ou através dos poderosos lobbies que cercam o ambiente dos tribunais, torna o jogo absolutamente desigual.

Por que a imprensa deveria estar prestando atenção a oportunidades como essa, em que um ministro do Supremo Tribunal Federal aceita se submeter publicamente a questionamentos de economistas, como os dirigentes do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), pesquisadores como Maria Tereza Sadek e companheiros de magistratura como a desembargadora Marli Ferreira, presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região? Porque ali estava o conhecimento que a imprensa deve aplicar quando trata, por exemplo, da sensação de impunidade que os brasileiros demonstram em pesquisas sobre a questão da Justiça.

Se os editores não movem seus corpinhos para fora das redações, em busca do conhecimento onde ele se manifesta, seguiremos tendo que encarar reportagens levianas, embasadas em crendices e preconceitos.

Ocorrem regularmente, nas grandes cidades brasileiras, encontros e debates sobre as mais importantes questões que recheiam as páginas de jornais e revistas. Mas raramente são vistos nas platéias aqueles profissionais que determinam a orientação das reportagens ou definem a pauta da imprensa. No caso do evento citado, as trocas de conhecimento entre os participantes permitiriam a qualquer jornalista atento fundamentar pelo menos três ou quatro das grandes questões que freqüentam a mídia recentemente, como as concessões de liberdade provisória para acusados de crimes contra a economia popular, a proposta de prorrogação da CPMF, as vulnerabilidades do sistema representativo, a reforma tributária e a própria natureza do sistema judiciário brasileiro.

Alegres confraternizações

Limitados ao trajeto entre suas casas e as redações, os editores ficam longe dos lugares onde a inteligência se manifesta. Como se tivessem que carregar um fardo pesado nos glúteos, preferem o conforto de suas cadeiras às platéias dos eventos onde o Brasil ainda se pensa. Sempre se pode dizer que a agenda dos editores é complicada, que falta tempo até para conciliar a vida profissional com a necessidade de dar atenção à família. Mas a agenda se torna mais flexível em outras ocasiões, muito especialmente no final do ano, quando as grandes empresas promovem jantares e almoços regados a vinho de qualidade, com direito ao tradicional jabaculê na saída.

Na mesma semana em que se realizava o debate na Fiesp, muitos editores e colunistas foram vistos em alegres confraternizações com executivos de empresas anunciantes, onde tinham que suportar algumas maçantes apresentações sobre resultados financeiros e ações filantrópicas, em nome do bom relacionamento. Claro que relacionamento faz parte, mas não é tudo. Nem só de jabá viverá o jornalismo.

Comentários (9)
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Cláudia Monteiro , Fortaleza-CE - jornalista
Enviado em 10/12/2007 às 2:24:52 PM
Concordo plenamente. Em Fortaleza observa-se a mesma realidade triste. Sem tendência de mudanças, infelizmente.
Ricardo Camargo , Porto Alegre-RS - advogado
Enviado em 9/12/2007 às 3:23:06 PM
O texto, ainda, aponta para outros dados importantes, que são o fenômeno que o processualista italiano Francesco Carnelutti - que não tem os seus grandes méritos empanados pela sua militância fascista - denominou "inflação legislativa", de que decorre a perplexidade mesmo dos dotados de conhecimento especializado e torna o artigo 3º da Lei de Introdução ao Código Civil uma verdadeira peça de ficção jurídica - o conhecimento universal da lei - e a dificuldade de cobertura dos processos judiciais por parte dos jornalistas, de tal sorte que emergem, nos casos de maior repercussão, francos erros de perspectiva e crucifixões absolutamente desnecessárias.
José Orair Silva , Belo Horizonte - MG-MG - Bancário
Enviado em 8/12/2007 às 3:40:50 PM
Muito bom o comentário do Sr. José de Souza Castro. Realmente, ao que parece, a honra dos meritíssimos vale muito mais do que a honra dos comuns mortais. E assim, a mídia, punida exemplarmente nos seus ataques a membros graduados do judiciário, está aprendendo a escolher melhor os seus alvos.... Uma revista semanal de milionária tiragem vem sendo repetidamente condenada em ações por perdas e danos morais, porém os valores estão muito distantes daqueles concedidos aos meritíssimos...
José de Souza  Castro , Belo Horizonte-MG - Jornalista
Enviado em 7/12/2007 às 5:22:58 PM
Muito bom artigo, Luciano Martins. Concluí nesta semana a publicação do livro "Injustiçados - O caso Portilho" na Novae e no blog Tamos com Raiva. Principalmente, neste último, na área de comentários, fui mostrando como a imprensa não tem tratado como devia os problemas do judiciário - e as causas disso. A principal causa é que ela está intimidada pelas sentenças que condenam a imprensa a altas indenizações quando ela cuida dos erros dos juízes. A última foi contra a TV Globo,que denunciou a venda de sentenças por um juiz do Mato Grosso do Sul. O juiz de primeira instância condenou a TV a pagar ao juiz mais de R$ 1 milhão, o Tribunal de Justiça (onde hoje o juiz acusado é desembargador) baixou para 500 mil e agora o STJ para 250 mil. É muito dinheiro até para a Globo. Tomei a liberdade de copiar os dois primeiros parágrafos do seu artigo no Tamos com Raiva, na área de comentários, pois é lá que vamos atualizando nossos artigos.
Fábio de Oliveira Ribeiro , Osasco-SP - advogado
Enviado em 7/12/2007 às 10:59:52 AM
Você tem toda razão. Entretanto, se esqueceu de ressaltar dois fatos: enquanto os juizes ganham salários gordos e aposentadorias gratificantes para gerenciar um serviço deficiente, a população está substituindo a tutela do Estado pela vingança privada (que é mais rápida, menos burocrática e certamente menos onerosa). Não seria o caso de reduzir os salários e privilégios dos juizes e desembargadores para permitir a contratação de mais mão de obra? Aí é que a porca torce o rabo. A elite do funcionalismo exige compromisso, envolvimento e sacrifício da população que paga impostos. Mas quando ousamos exigir deles sua cota de sacrifícios eles fazem uma gritaria danada (como ocorreu no caso da reforma da previdência de juizes e promotores). Não estamos à beira do colapso. Estamos no meio dele, mas os aristocratas do funcionalismo parecem sofrer da mesma miopia que seus coleguinhas franceses de 1788. Quando forem decapitados pelos agentes da República do Tráfico não verterei uma lágrima por eles.
Molly Perach , Sao Paulo-SP - --
Enviado em 7/12/2007 às 10:39:47 AM
Você tem toda razão. Ninguém mais quer mexer seu corpinho do lugar, nem prá ir até a redação. Alguns, inclusive, quando aparecem, estão até de bengalas e com os glúteos enormes. Isso sem falar no peso imenso do ego, que se move mais lentamente ainda. É só olhar e enxergar a nossa realidade jornalística.
Ricardo Camargo , Porto Alegre-RS - advogado
Enviado em 5/12/2007 às 11:21:16 PM
O problema da relação entre o processo e a economia-curiosamente,este foi o tema da minha tese de doutoramento,cuja versão comercial foi ofertada ao mercado em 2001 sob o título"Direito Econômico - aplicação e eficácia"-envolve não só o número de processos em todo o país,mas também as próprias peculiaridades de cada região-nas regiões Sul e Sudeste,mais urbanizadas,tende a haver maior procura do Judiciário do que em regiões como Norte,Nordeste e Centro-Oeste,onde muitos,pelo que se lê nos anais das Conferências Nacionais da OAB,ainda acreditam na justiça pelas próprias mãos -,a matéria mais freqüentemente levada(cível,criminal,trabalhista),se os temas são mais repetitivos ou são daqueles que demandam mais aprofundado exame dos fatos,se se está diante de causa de pouca expressão,no sentido da dimensão do conflito(separações,divórcios,guarda de filhos,investigação de paternidade,execução de nota promissória,despejo por falta de pagamento)ou se se trata de conflitos de interesse de maior repercussão...estas variáveis foram objeto de análise,em termos de Sociologia Jurídica,na obra conjunta de Mauro Cappelletti e Bryant Garth intitulada"Acesso à justiça",traduzida pela hoje Ministra Ellen Gracie Northfleet.O que tudo isto tem que ver com o texto glosado?Tudo,porque se trata dos elementos indispensáveis à compreensão do debate do qual participaram as personagens referidas no artigo
Kleber Carvalho , B.H.-MG - -
Enviado em 4/12/2007 às 4:12:55 PM
Você finaliza seu texto com a frase:" nem só de jabá viverá o jornalismo", ao fazer esta afirmação, lança no inconsciente coletivo uma dúvida atroz, ou você afirma nas entrelinhas que o jornalismo vive de jabá, o que é sintomático, ou você prega que um dia ( talvez lá prá 2099) o jornalismo terá o jabá como um luxo, algo supérfluo. A leniência dos editores e colunistas talvez esteja diretamente vinculada a este jabá a que você se referiu, sem esquecer que muitos também levam o jabá para posições ideológicas, faz parte do jogo sujo da mídia, notadamente a tupiniquim.
Marco Antônio Leite , SCS-SP - TST
Enviado em 4/12/2007 às 2:51:19 PM
O artigo fala em jovem democracia, mas não explica para quem essa jovem democracia trabalha. Considerando tratar-se de um jovem, suas atitudes nem sempre são adequadas com o pensamento dos ditos adultos, no caso da Justiça, vemos muito mais INJUSTIÇAS que são feitas ao conjunto da classe trabalhadora, do que propriamente dito JUSTIÇA. Há maioria dos processos são vencidos pelos que possuem poderes econômico ou político, quando um trabalhador ganha um processo, o valor da causa sempre é irrisório, neste caso acaba beneficiando o patrão. Quanto a jovem, com essa mentalidade juvenil o povo sempre estará fuzilado e abandonado a própria sorte.
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