ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 465 - 24/11/2009
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CONCESSÕES DE RADIODIFUSÃO
Os privilégios do bispo Edir Macedo

Por Elvira Lobato (FSP) em 27/12/2007

Copyright Folha de S.Paulo, 24/12/2007; título original “Governo ignora limite para concessões de canais de TV”

Apesar do discurso oficial pela democratização da mídia, o governo Lula derrubou, na prática, o limite de propriedade de concessões de radiodifusão que vigora desde os anos 60. Com anuência do governo, o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, é acionista de três emissoras de TV no Estado de São Paulo: duas como pessoa física e uma por meio de pessoa jurídica.

O limite estabelecido no decreto-lei 236 (de 1967), que está em vigor, é de duas TVs por Estado. Foi extrapolado em junho de 2005, quando a Rádio e Televisão Record S.A – concessionária da cidade de São Paulo – comprou, de bispos da Iurd, 30% da TV Record de Franca.

Macedo já possuía duas concessões de televisão em São Paulo, como pessoa física. Ele tem 90% da concessionária da capital (os outros 10% estão em nome de sua mulher, Ester Bezerra) e 63% da TV Record de Rio Preto.

O Ministério das Comunicações declarou à Folha que aprovou a transferência das ações da emissora de Franca por entender que o limite se aplica apenas a pessoas físicas.

A interpretação é contestada por especialistas ouvidos pela Folha. Na opinião do ex-ministro das Comunicações Juarez Quadros do Nascimento e de três advogados consultados, a transferência foi ilegal.

Para o consultor jurídico da TV Cultura de São Paulo, Fernando Fortes, a TV Record de Franca estaria passível de perder a concessão.

A avaliação dele é de que, se prevalecer a interpretação do ministério, o limite de propriedade de radiodifusão cai por terra.

As empresas do setor, tradicionalmente, burlam o limite, registrando as concessões em nome de diferentes membros da famílias, mas a artimanha é considerada legal, porque, individualmente, os acionistas ficam dentro do limite.

Pessoa jurídica

O caso de Macedo pode abrir caminho para que um mesmo acionista controle número ilimitado de emissoras, por intermédio de pessoas jurídicas.

Até 2002, pessoas jurídicas não podiam ser acionistas de concessionárias de rádio e televisão. Apenas pessoas físicas – brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos – eram admitidas.

Há cinco anos, o artigo 222 da Constituição foi alterado para permitir a participação estrangeira de até 30% nas empresas de mídia.

A emenda – regulamentada pela lei 10.610, em dezembro de 2002 – também permitiu a participação de pessoas físicas em até 100% do capital de emissoras de radiodifusão.

Ações das emissoras da Rede Record foram transferidas para a Rádio e Televisão Record S.A, de propriedade de Edir Macedo e da mulher.

O presidente Lula autorizou a transferência indireta do controle da TV Record de Franca em junho de 2005, pelo despacho nº 52.

O ex-ministro das Comunicações Juarez Quadros do Nascimento, que estava no cargo quando a lei 10.610 foi aprovada, diz que o limite de propriedade tem de incluir as participações de pessoas físicas e jurídicas. Para ele, o limite de propriedade de concessões é importante para evitar o monopólio de grandes grupos.

Fortes diz que, por maior que seja a cadeia societária, é preciso identificar a pessoa física existente por trás da pessoa jurídica para o limite de concessões. ""Não existe respaldo legal para excluir as pessoas jurídicas desse cálculo. Elas não podem ser usadas como subterfúgio", afirmou.

Para ele, as ações preferenciais (sem direito) também contam no cálculo. A participação indireta de Edir Macedo na TV Record de Franca é com ações preferenciais.

"O texto é claro: não poderão ter concessão entidades das quais faça parte acionista ou cotista que integre o capital de outras empresas executantes do serviço de radiodifusão além dos limites fixados", declarou.

***

Ministério diz que lei trata só de pessoa física

O Ministério das Comunicações afirmou que o Código Brasileiro de Telecomunicações de 1962 e o decreto-lei 236 de 1967 só disciplinam as participações acionárias diretas de pessoas físicas em empresas de radiodifusão e que as participações indiretas, por meio de pessoas jurídicas, não são disciplinadas em lei.

Com isso, o ministério entende que os limites de propriedade de televisão -no máximo duas emissoras por acionista, no mesmo Estado, e máximo de dez em todo o país- não se aplicam às ações adquiridas por empresas, como no caso da compra de 30% da TV Record de Franca, no interior do Estado, pela Rádio e Televisão Record S.A, do bispo Edir Macedo.

A informação oficial é que a transferência das ações da TV Record de Franca foi analisada pela Secretaria de Serviços de Comunicação Eletrônica e pela consultoria jurídica do Ministério das Comunicações e, ainda, pela chefia de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, com assessoramento da Advocacia Geral da União.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo o ministério, autorizou a transferência em 20 de junho de 2005, pelo despacho 52, publicado no Diário Oficial da União.

Para o Ministério das Comunicações, não há risco de a concessão da TV Record de Franca ser cassada, uma vez que ele entende que não foram infringidos os limites de propriedade de emissoras estabelecidos pelo decreto-lei 236.

Universal e Record

Procurada pela Folha, a Igreja Universal do Reino de Deus não quis se manifestar sobre o assunto das concessões de TV e recomendou ao jornal que procurasse o Ministério das Comunicações. A Rede Record foi informada do teor da reportagem, mas também optou por não dar entrevista. (E.L.)

Comentários (11)
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Haertel Duarte , Venda Nova do Imigrante-ES - Bancário
Enviado em 28/12/2007 às 10:26:08 PM
Meu caro Carlos Antonio, ao contrário do que você entendeu, ninguém aqui está defendendo a ilegalidade, muito pelo contrário. O que todos entendem, e eu acredito que com muita razão, é que a matéria da FSP tem endereço certo, ao procurar atingir apenas um dos que burlam a lei, ignorando os demais. Também não somos inocentes ao ponto de acreditar que tudo não passa de pura coincidência. Embora alguns cidadãos não acreditem, a nossa "grande imprensa" não faz nada por acaso, tudo tem uma finalidade concreta e com certeza as denúncias a outros políticos às quais você se refere, deve ter atingido apenas aos que não rezam na cartilha dos barões da mídia nacional.
Lucas Artur , Paiva-MG - estudante
Enviado em 28/12/2007 às 7:55:06 PM
O problema que esse negocio de laranja não acontece só nas redes de rádio e tv, acontece também, em impresas de todo o tipo, por que? Por que no Brasil as leis são tão bem feitas, que qualquer advogado mais esperto acha uma brecha, pra fazer uma ilegalidade se tornar legal. Então o nosso leque de debate, é muito mais amplo do que agente imagina.
Arnaldo Brito , São Paulo-SP - Dentista
Enviado em 28/12/2007 às 6:53:15 PM
Quem tiver olhos que veja e ouvidos que escute: Era uma vez um homem que criou a um conglomerado da mídia na Bahia. Seus eleitores ouviam e viam todos os dias toda a sua programação, levando boa quantia em dinheiro dos anunciantes. Certa vez um homem lhe questionou se o conglomerado da mídia baiana servia para perpetuar seus projetos políticos e familiares,. Nâo, meus negócios na mídia são apenas para levar a boa informação aos meus leitores, ouvintes e telespectadores, respondeu dono do conglomerado de midia baiana. Como você faz isso? indagou o homem. ..Todos os dias eu planto notícias boas, em meu conglomerado de mídia baiano, fazendo com que pensem que eu sou bonzinho e capaz o suficiente para governar em prol deste belo estado. Assim, ganho com os anúncios dos patrocinadores e além disso, perpetuo a palavra do meu partido e orientação política. Quem nos ouve não tem outras opções de mídia....E assim, o conglomerado de mídia baiana e a vênus platinada, se livraram das mesmas acusações que Edir Macedo foi acusado.
José Orair Silva , Belo Horizonte-MG - Bancário
Enviado em 28/12/2007 às 10:14:08 AM
Não tenho nenhuma simpatia pelo bispo mas se o distinto for condenado ao inferno por esse pecado ele não estará sozinho. Em sua companhia estarão inúmeros senadores, deputados, proprietários de outras redes de TV, etc. A lente da jornalista é muito seletiva, talvez tenha recebido uma pauta muita restrita do tipo: "vá pesquisar irregularidades do bispo, faça isso e nada mais do que isso, não queremos saber de outras coisas..." E lá se foi a pobre jornalista, a remexer em tanta sujeira até encontrar a parte que interessa a seus patrões...
Fabiano Mendes , Belo Horizonte-MG - Rep Comercial
Enviado em 28/12/2007 às 8:55:52 AM
Elvira, é demagogia, hipocrisia ou falta de conhecimento sobre o assunto ao acusar o Presidente Lula de que permitiu o Bispo Macêdo ser sócio de três emissoras no Estado de São Paulo? Moro em Minas e aqui até bem pouco tempo atrás, a família Marinho, aquela que é proprietária da Rede Globo, era sócia das emissoras em Montes Claros, no norte do Estado, em Governador Valadares no leste do Estado, em Varginha e Juiz de Fora. Em São Paulo na cidade de Santos, São José do Rio Preto, e outras cidades. Sabem o que eles fazem para burlar a lei? Usam os nomes de sobrinhos, netos, e outros parentes da família, ou seja os tais laranjas que eles tanto condenam. As únicas emissoras que eles não têm participação tão ativa, estão no Sul do País, que é a rede RBS que compra a programação Globo, tanto é que se vc viajar para aquela região, descobrirá que eles têm uma certa autonomia em relação a Globo. Como vc vê, se é que o Lula errou, pelo menos foi mais honesto e transparente que seus antecessores, ou vc acha que não sabiam das falcatruas da Globo?
carlos  antonio , são josé dos campos-SP - funcionário público
Enviado em 27/12/2007 às 11:27:22 PM
Estranho ver quantos comentaristas apoiam a ilegalidade. Sempre com a velha e descarada tese do golpismo da imprensa, sempre tentando mostrar a ilegalidade como comum, praticada por todos e, por consequência, perdoável. Ora, se a Folha levantou o caso, parabéns aos jornalistas. Os problemas dos políticos com empresas de comunicação já foi objeto de inúmeras reportagens da mesma Folha. O lamentável é que a notícia demonstra que, com Lula e o PT, nada mudou. Continuamos no mesmo pântano.
Haertel Duarte , Venda Nova do Imigrante-ES - Bancário
Enviado em 27/12/2007 às 10:04:45 PM
É muito bom ver um jornal de prestígio como a FSP preocupado com a legalidade na concessão de emissoras de rádio e televisão no Brasil. Assim como foi falado abaixo, recomendo que a FSP explore bem o assunto pois a pauta será extensa e se, conforme se espera, for fundo no assunto, teremos muitas revelações interessantes para comentar neste ano que inicia. Difícil imaginar que tal iniciativa tenha apenas a intenção de atacar o Sr. Macedo e sua igreja. Assim sendo senhores jornalistas da FSP, mãos à obra.
Jose de Almeida Bispo , Itabaiana-SE - Publicitario e radialista
Enviado em 27/12/2007 às 9:09:09 PM
O estranho é que a campanha política contra Lula e o PT movida pelos Frias - grupo Folha - venha parar aqui no OI. Quer provas de que é campanha política? Porque não dar destaque à aprovação da Lei que permitiu a tal outorga, ocorrida em dezembro de 2002? Quem era o presidente da República em 2002? Isso aqui é um forum de debate sobre a imprensa ou apenas mais um canal de eco à uma certa mídia golpista?
valmir Perez , Campinas-SP - lighting designer
Enviado em 27/12/2007 às 3:35:48 PM
Quem tiver olhos que veja e ouvidos que escute: Era uma vez um homem que criou uma igreja. Seus fiéis levavam até ele todos os dias uma boa quantia em dinheiro. Certa vez um homem lhe questionou se o dinheiro que erracadava ficava com ele,. Nâo, dou tudo para Deus, respondeu o pastor de almas. Como você faz isso? indagou o homem. Todo domingo me reúno com a família e amigos no templo. Jogamos todo o dinheiro para cima. O que Deus pegar é dele, o que cair é nosso. Mas Deus é muito bom para nós e então pega muito pouco do que jogamos.
Alisson Coelho , Novo Hamburgo-RS - estudante
Enviado em 27/12/2007 às 11:03:04 AM
Concordo plenamente com o Marcelo. A questão das cocessões no Brasil é uma vergonha A lei é cheia de buracos. Se o bispo quisesse tinha colocado um laranja como fazem os deputados e senadores, ele teh que foi bem honesto deixando em nome proprio e no nome de uma empresa sua! Que façam reportagem sobre todas as concessões no Brasil, levantem os verdadeiros donos, prendam laranjas moralizem esse negocio! Não fiquem levantando apenas um lado da questão!
Marcelo Ramos , São Paulo-SP - Publicitario
Enviado em 27/12/2007 às 10:31:31 AM
Acho ótimo a campanha de "moralização" da Folha, vamos apoiar, vamos moralizar, vamos acabar com essa festa nas concessões de radio e TV. Nesse sentido, a Folha deveria dar o exemplo fazendo uma matéria de 10 páginas sobre parlamentares que possuem concessão de TV e rádio. Claro, há parlamentares de todos os partidos, inclusive do PSDB, mas isso é só um detalhe, já que a Folha quer moralizar. Também sugiro uma matéria sobre o Grupo Abril, dono irregular de Canal a Cabo em diversas cidades. E se for pra investigar, sugiro uma pauta à Folha, já mencionada aqui no OI, sobre a compra da Fernando Chinaglia Distribuidora (a maior do Brasil) pelo grupo Abril, o que configura monopólio. Vamos lá, prezados da Folha, estou apoiando sua campanha de moralização da mídia.
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