ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 481 - 17/11/2009
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ECONOMIA & MEIO AMBIENTE
O que a imprensa não diz sobre a inflação da fome

Por Luciano Martins Costa em 15/4/2008

O noticiário dos últimos dias sobre o risco de uma crise inflacionária mundial, que afetaria com especial severidade os países mais pobres, oferece uma excelente oportunidade para se observar a dificuldade que tem a imprensa para dar uma interpretação mais profunda sobre o estado do mundo. Praticamente tudo que se publica é originado em duas ou três agências de notícias, o que induz a acreditar que se trata de uma deficiência planetária.

Vejamos os pontos principais do fenômeno: os preços dos alimentos básicos, in natura – parte do conjunto de mercadorias chamadas de commodities – vêm aumentando progressivamente ao longo dos últimos 16 meses, com uma aceleração acentuada no último trimestre. Trigo e arroz estão no topo da lista dos grãos mais consumidos, respectivamente a Oeste e a Leste do planeta. O milho completa o cardápio dos mais pobres, que são, segundo o informe Indicadores do Desenvolvimento Mundial para 2008, do Banco Mundial, 880 milhões de pessoas.

Esses indicadores vêm apontando o decréscimo do número de seres humanos extremamente pobres, que dispõem de valores correspondentes a menos de um dólar por dia. Essas são as pessoas que a imprensa chama pobres ou miseráveis, cujas vidas se caracterizam pela necessidade de lutar diariamente por alimento. São não-consumidores, não-cidadãos.

Antes que os sarcásticos elaborem a anedota de mau gosto, deve-se afirmar que o número de pobres não está acabando porque eles morrem. A pobreza vem diminuindo no mundo porque, desde o início deste século, os chamados países em desenvolvimento – sofisma menos indigesto para o que se chamava antigamente de Terceiro Mundo – apresentam uma taxa média de crescimento do PIB per capita de 4,8% ao ano. O PIB per capita resulta do cálculo da riqueza produzida pelo país, dividida pelo número de habitantes, o que revela quase uma ficção, conforme se dá a distribuição de riqueza e bem-estar – com os abismos sociais que se conhece.

Atenção para o fato de que o constante declínio da pobreza mundial desde 1993 aconteceu principalmente na zona rural, visto que a miséria nas cidades permanece mais ou menos constante. A ONU estima que 80% do declínio da pobreza rural se deve à melhoria das condições de vida no campo, e não à migração para as cidades. Isso deve ser levado em conta no noticiário sobre a crise que pode afetar a produção de alimentos.

Fronteiras agrícolas

A "inflação de alimentos" tem parte da origem nesse fenômeno: mais gente cisma de comer todos os dias, aumenta a pressão da demanda sobre a oferta, o preço sobe. Essa a explicação que a imprensa nos empurra nas primeiras linhas das reportagens. É como se o editor nos dissesse: "Procura maior, demanda menor, preço sobe. É o capitalismo, seu estúpido". Até o presidente Lula comemorou: é a "inflação do bem", aquela que aparece porque o miserável está saindo da miséria. No fundo, ele tem razão, mas seu raciocínio não completa o desenho.

Tem mais. Nos parágrafos seguintes, os jornais e revistas nos dizem que o preço dos alimentos subiu também porque parte das terras agriculturáveis está sendo utilizada para a produção de biocombustíveis. E os acionistas das empresas petrolíferas sorriem, abrem a caixa de anúncios, investem na semeadura de suspeitas sobre os projetos de substituição da matriz energética petrolífera. Em algum canto, alguém observa que o problema da competição entre o vegetal para consumo e o vegetal para fazer combustível acontece principalmente nos Estados Unidos, onde a disponibilidade de terras agriculturáveis é muito pequena. Nada a ver com o etanol brasileiro. Mas isso fica no pé da matéria.

O Brasil tem um potencial de quase 70% de suas terras agriculturáveis esperando o plantio de vegetais, sejam eles destinados a alimentar pessoas, gado, aves ou preparados para se transformar em álcool ou óleo combustível. Pela mesma razão, não há forma inteligente de justificar o avanço das lavouras sobre o cerrado e a Amazônia. A crença de que o brasileiro tem que escolher entre alimentar seu povo e abastecer seu carro é fruto de uma avaliação divulgada por Lester Brown, criador do WWI – sigla em inglês de World Watch Institute, que no Brasil se chama Instituto Mundial para a Liberdade, o Progresso e a Paz Global –, especialista em economia agrícola.

Muitos outros especialistas o contradizem e consideram sua campanha "comida versus combustível" pura demagogia. Pelo menos no caso do etanol brasileiro, a expansão da lavoura com finalidade de produção de combustíveis necessita apenas de mais ordenamento e mais responsabilidade dos empresários rurais. O Brasil possui uma área total de 845,94 milhões de hectares de terras agriculturáveis, das quais utiliza apenas 263,58 milhões de hectares para atividades agrícolas, ou seja, menos de 32% do seu potencial. Isso indica a possibilidade de expansão das fronteiras agrícolas do país e da capacidade de ampliação da produção de grãos, sem que seja necessário destruir nossa riqueza natural. Além disso, a agricultura brasileira, mesmo em pequenas propriedades, vem melhorando enormemente sua produtividade, na medida em que práticas primitivas de preparação e plantio vão sendo substituídas com a assistência de técnicos qualificados formados por aqui.

Validade endossada

O problema real, no caso brasileiro, tem origens mais antigas do que a invenção do velho Proalcool: trata-se da gestão territorial do país, que nunca considerou seriamente uma reforma agrária com o pressuposto da sustentabilidade. A lavoura avança sobre a floresta porque é administrada por delinqüentes, sob a proteção de governos de estados que formam a Amazônia Legal e sob o olhar complacente do governo federal. A ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, é quase uma extraterrestre nesse ambiente. Muitos desses delinqüentes são agricultores pobres, sem terra, que são tangidos pelo avanço dos latifúndios. Eles queimam a floresta, formam pastagens, soltam o gado, depois fazem o rocio. Atrás deles vem o agronegócio.

Mesmo o álcool de milho, alternativa tecnológica dos Estados Unidos baseada na tradição da agricultura local, não deverá no longo prazo continuar sendo um fator de inibição para a produção agrícola. Com o avanço das pesquisas tecnológicas, estamos perto de poder produzir álcool com a palha e a espiga do milho. Como não consta entre as preferências gastronômicas, nem mesmo dos mais pobres, a degustação de espigas, naturalmente as sementes de milho seguirão sendo destinadas ao consumo humano e animal e as demais partes da planta, inclusive a haste, irão para a usina de álcool.

Claro que os subsídios do governo americano aos seus agricultores representam uma pressão adicional sobre o movimento inflacionário que nasce nos preços dos alimentos. Como é que um agricultor da África ou do Peru pode competir com um produtor do Meio-Oeste americano? Observe-se que os insumos agrícolas são fornecidos por multinacionais, que dominam também o mercado de sementes e equipamentos, e pode-se calcular o que é esse tal de mercado "livre". Esse aspecto adicional da notícia também aparece nas reportagens, meio envergonhadamente, mas não há jornal ou revista que se aventure a colocar em dúvida a validade do sistema econômico que se afirma "liberal".

Sistema de castas

Por último, mas não menos importante, vem outro ângulo da questão, que tem seu endereço muito longe das lavouras de milho, de trigo ou de arroz: o mercado de ações, onde as commodities vêm ocupando um espaço cada vez mais relevante. De olho na inclusão de quase 1 bilhão de indivíduos na lista dos seres humanos que insistem em se alimentar diariamente, e com a perspectiva de consolidação da indústria de combustíveis alternativos – o mercado de commodities também lida com minérios e outros produtos cuja demanda cresce continuamente –, os investidores depositaram fortunas nas bolsas, na expectativa de aumento dos preços. Em algum momento, a expectativa se realiza, os preços começam a subir, mais investimento é derramado na fogueira, e de repente o mundo se assombra com uma inflação de alimentos básicos.

Já não se pode, como teria feito Maria Antonieta, sugerir que, não havendo pão, os pobres comam brioches. Ou, numa versão nacional, não havendo farinha para tapioca, que se coma caviar. Afinal, somos todos politicamente corretos. A imprensa, então, nem se fala. É profundamente ecológica e socialmente responsável. Basta ler os cadernos especiais sobre Amazônia que são publicados de vez em quando.

Você, leitor e leitora, ainda vai ler muito mais sobre essa crise, porque não há recursos no sistema econômico mundial para contê-la antes que provoque muita fome e distúrbios sociais. Não por falta de dinheiro, mas por falta de lideranças, de vontade política, de condições logísticas e de desprendimento.

O dinheiro necessário para salvar alguns milhões de seres humanos ameaçados pela inanição é uma bagatela: 500 milhões de dólares. Isso é uma fração da fortuna pessoal do mais vistoso empresário brasileiro pertencente à cepa dos "sustentáveis". O que você provavelmente nunca vai ler é uma análise honesta da imprensa sobre o sistema econômico que divide os seres humanos em castas e considera que uns podem tudo e outros… bem, esses outros não compram jornais.

 

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Comentários (11)
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Roberto Ribeiro , Aracaju-SE - Arqueólogo
Enviado em 18/4/2008 às 10:30:42 AM
Faltou citar o óbvio, o petróleo. Com o barril de petróleo a 113 dólares, os insumos ficam insuportavelmente caros. Tratores se movem a petróleo, não a biodiesel, os alimentos são transportados por caminhões, trens e navios movidos a petróleo. Ninguém vai ao Mato Grosso a pé para comprar óleo de soja, frango, milho. O preço do petróleo é um fator decisivo na formação do preço dos alimentos.
Marco De Bona , Urussanga-SC - Eng. Químico
Enviado em 16/4/2008 às 9:53:15 PM
Faltou abordar o desperdício de grãos e calorias que é a criação de animais para abate. A quantidade de alimentos (grãos) disponível hoje é suficiente para alimentar várias Terras, mas a criação animal desperdiça consome 10 calorias e produz apenas uma, sem contar os gastos com água. Existem hoje mais de 6.000.000.000 (bilhões) de bois e vacas, isso sem contar frangos e os demais.... Em vez de alimentar os humanos, os grãos são usados neste mercado, consumido pelos mais ricos. Essa é a verdade!
HELCIO FARIAS , Curitiba-PR - Indrustriário
Enviado em 16/4/2008 às 1:09:47 PM
Boa tarde Sua análise esta correta, inclusive traçando um paralelo entre seu artigo e as ações do Ministério da Agricultura, o ministério deve tomar ações em carater de urgência, sendo elas, de apoio ao agricultor para adversidades climáticas, e garantia de venda de safra devido impossibilidade de negociar frente a variação dos preços devido a especulação de mercados. Investimentos agricolas na Amazônia. Pois o agricultor brasileiro ainda se encontra cativo do banqueiro, que inviabiliza seu negócio, devido a agricultura ser um negócio de alto risco. Obrigado
Paulo Sousa , balneário camboriú-SC - jornalista
Enviado em 16/4/2008 às 11:45:50 AM
Bom, então o senhor não deve estar lendo os mesmo jornais que eu. Todos têm citado essas razões para a crise. Até os telejornais apresentam esse conjunto de causas: mais consumo, oferta estancada, subsídios, barreiras, etc. Só não com este viés anticapitalista e antidemocrático que o senhor carrega em todas as linhas. No seu entender, a culpa é do capitalismo malvado. O problema, ao contrário, é de falta de abertura de mercados.
erika de Lima Liberatti , Itanhaém-SP - advogada
Enviado em 16/4/2008 às 11:08:46 AM
Gostei da matéria, bastante elucidativa. Parabéns pela escolha do tema e as informações bem colocadas.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 15/4/2008 às 3:06:31 PM
Como diria o Bush : "No hay tortilla ? Hey Chico, go to drink tequila!" Pelo menos assim eles esquecem a fome...
Henrique Gomes da Silva , Campinas-SP - Psicólogo
Enviado em 15/4/2008 às 12:49:09 PM
Faltou o link: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story
/2007/08/070817_comidanolixo_cv_ac.shtml
 Abraços.
Henrique Gomes da Silva , Campinas-SP - Psicólogo
Enviado em 15/4/2008 às 12:29:04 PM
Sr. Ivan Bispo. De acordo com a BBC, cerca de 30% dos alimentos são desperdiçados nos países ricos. Na grã-bretanha e nos EUA, esse número chega a 40%. No Brasil é de 30%, concentrado no campo e relacionado ao armazenamento e transporte. E os orgãos internacionais estão preocupados com o desperdício apenas nos emergentes, vai entender...
Marco Antônio Leite , SCS-SP - TST
Enviado em 15/4/2008 às 12:26:54 PM
De que forma os pobres ou como queira, miseráveis, vão passar fome com o aumento do custo de vida com relação à produção de grãos e similares. Se o pobre for passar mais fome do que já passa, com absoluta certeza, aja urna funerária para embalar os milhões de cadáveres que estarão à disposição nos países pobres. Aqui no país do faz de conta que esta tudo bem com a economia, anualmente, existe uma estatística não divulgada de milhares de pessoas que passam fome literalmente e, outras tantas que morrem de inanição. Se essa noticia for verdadeira pelo menos metade da população brasileira desaparecera da face desta terra de sofistas profissionais.
Paulo Bandarra , Porto Alegre-RS - Médico
Enviado em 15/4/2008 às 11:32:40 AM
Eu diria que a crise é manipulação de informação. Por que o BIRD e a ONU condenam o Brasil por plantar biocombustível e exportar alimentos, mas não condena a Índia e a China por não produzirem seu próprio alimento? Que obrigação possuí os brasileiros de exportar? Pode estar perdendo a oportunidade comercial, mas certamente quem não está produzindo seus alimentos são os grandes consumidores dos mesmos! Eles devem planejar a sua produção e usar o seus espaço que nem mesmo para biocombustíveis estão fazendo! Primeiro devem fazer a sua parte antes de chorar pelos produtos que não produzem dentro da sua terra agriculturável. A China já foi a maior exportadora de arroz.
Ivan  Bispo , Cristalina-GO - Gestor ambiental
Enviado em 15/4/2008 às 11:25:21 AM
Luciano, um outro aspecto a ser abordado é o desperdício de alimentos. Quanto se desperdiça de alimentos aqui no Brasil e no planeta? Sobras no prato, mal acondicionados. Quando vou até um aterro sanitário e vejo as sobras de alimentos, fico muito triste e me perguntando quanto custa tudo aquilo? A inflação nos preços dos alimentos passa também por um consumo responsável de alimentos.
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