ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 487 - 17/11/2009
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ACORDO ORTOGRÁFICO
E a montanha pariu um rato

Por Deonísio da Silva em 27/5/2008

Assinado em 1990, o Acordo Ortográfico foi aprovado há pouco mais de uma semana no Parlamento de Portugal, por 230 votos a 3. Portugal terá prazo de seis anos para adaptar-se. No Brasil, o prazo de adaptação foi fixado em três anos, a contar de 1º de janeiro de 2009.

O deputado português Mota Soares deu o tom: "A língua portuguesa é o maior patrimônio que Portugal tem no mundo". Camões o exemplifica, mas Machado de Assis também.

Um deputado inglês poderia dizer a mesma coisa do inglês. Milton e Shakespeare são os emblemas. Um francês diria o mesmo do francês e ilustraria o dito com Balzac, Proust. Um italiano defenderia o italiano e ao aludir a Dante e Boccaccio deixaria clara a universalidade de sua língua. Um espanhol proclamaria o espanhol. Cervantes lá, García Márquez e Alejo Carpentier, entre tantos outros cá, marcariam as fronteiras.

Um alemão poderia dizer o mesmo da língua de Goethe? Acho que não, mas este é outro problema. Muitos até lêem em alemão, como lêem em latim e em grego, mas falar é outra coisa.

Num debate com Alberto Dines, autor de Morte no Paraíso, livro em que fez seu filme Lost Zweig (afinal, quando será lançado?), o cineasta catarinense Sílvio Back, que fala fluentemente o alemão, saiu-se com esta frase polêmica: "O alemão é uma língua morta".

Submissão ao Brasil

Antes de mais nada, aos números do Acordo Ortográfico – sem perder, entretanto, a sua relatividade. Eis as populações dos países lusófonos (dados de 2007).

Brasil: 190,3 milhões; Portugal: 10,6 milhões; Angola: 16,9 milhões; Moçambique: 20,5 milhões. Outras nações onde o português é língua oficial, como é o caso de São Tomé e Príncipe, com 157 mil, e Cabo Verde com 530 mil, seriam, quando muito, municípios brasileiros.

São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Manaus e Porto Alegre, as nove grandes metrópoles brasileiras, têm mais falantes do que todas as nações lusófonas. São Paulo e o Rio de Janeiro têm o dobro da população de Portugal, que nos deu a língua-mãe.

Outros números – estes da incidência das mudanças que, diga-se, afetarão a escrita, não a fala – revelam que Portugal terá 1,42% de suas palavras mudadas. No Brasil, este índice cairá para 0,43%. Por isso, alguns intelectuais portugueses falam em submissão aos interesses brasileiros.

Como assinalou o Estado de S.Paulo, no primeiro editorial de segunda-feira (26/5), as mudanças são modestas.

Digno e justo

Em vez de regras, o leitor entenderá melhor os exemplos.

Em Portugal, doravante se escreverá ação, adoção, ótimo. Estas palavras já são escritas assim no Brasil. Mas lá ainda mantêm mudas, embora escritas, as consoantes "c" e "p". Os portugueses escrevem "acção", "adopção"e "óptimo".

Outra mudança modesta: cai o trema, menos nos nomes próprios derivados. No Brasil há cerca de 20.000 palavras com hífen. O Acordo Ortográfico abole o hífen quando o segundo elemento começar por "r" ou "s". Hoje escrevemos ultra-som e ultra-secreto. Os hífens irão quase todos para as cucuias.

Cai o acento circunflexo em palavras terminadas com hiato. Não escreveremos mais "vôo" e "enjôo", mas, sim, voo e enjoo.

Cai também o acento agudo em palavras terminadas em "eia"e "oia". Não escreveremos mais jibóia e idéia, mas, sim, jiboia e ideia.

É verdadeiramente digno e justo e também salutar, parodiando conhecida frase da liturgia cristã, mexer na escrita da língua portuguesa, unificando-a. O árabe fez isso com êxito. Mas tudo indica que se o Acordo ficar nessa mixaria de mudança, diremos depois: a montanha levou duas décadas para parir um rato.

Comentários (10)
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Jonas Paulo  Negreiros , Jundiaí-SP - técnico em eletrônica
Enviado em 3/6/2008 às 6:42:40 AM
Gostria de saber quantas reformas ortográficas sofreu a língua inglesa nos últimos quatrocentos anos.
Jorge Cortás Sader Filho , Niterói-RJ - advogado/escritor
Enviado em 2/6/2008 às 1:13:25 PM
Reformas mínimas. A maior é a do trema, assim mesmo com ressalvas. Mas o hífen, cheio de regras, praticamente não sofreu alteração nenhuma. É muito difícil mexer na lingua portuguesa. Ela é rica demais.
Silas de Oliveira e Silva , a coruña, españa-IN - professor
Enviado em 29/5/2008 às 2:52:19 PM
Creio que Portugal ganharia muito com a unificação, devido à diversidade de vocábulos oriundos dos povos que se miscigenaram com os indígenas já existentes no Brasil. Aceitar e colocar em prática tal acordo é, antes de mais nada, um exercício de reflexão de todo o período pós e pré-colonial.
Flaviane Faria , Lisboa-IN - Jornalista e doutoranda em Linguística
Enviado em 28/5/2008 às 6:16:07 PM
Belas as palavras do Ministro português. Resta agora fazer entrar o Acordo na cabeça limitada dos portugueses...Sou brasileira e estou vivendo em Lisboa há 8 meses, e já ouvi cada barbaridade...Coisas do tipo:"onde já se viu uma coisa dessas?antes de chegarmos ao Brasil, com a Família Real, vocês só falavam a língua dos índios e dos africanos... ensinamos a língua-mãe a vocês e, agora, querem impor a língua errada dos brasileiros pra nós???" Esse relato de um português só vem a comprovar que Portugal estagnou no tempo; vive do passado glorioso que ficou para trás, e é incapaz de compreender que o português só é uma das línguas mais faladas no mundo por causa dos falantes brasileiros.
Isabela Gaia Gonçalves , São Paulo-SP - Estudante de Jornalismo
Enviado em 28/5/2008 às 11:50:11 AM
"Um espanhol proclamaria o espanhol" Que espanhol, meu caro?
Marco Antônio Leite , São Caetano do Sul-SP - TST
Enviado em 28/5/2008 às 8:29:00 AM
Senhor Tanure, um homem com fome perde o poder de aprendizado, acaba se distanciando do saber, a fim de batalhar o básico para sobreviver. Falar bem ou mal a língua portuguesa para a maioria das pessoas não diz absolutamente nada, o essencial é levar alimento para a sua família. Senhor uma pessoa paupérrima se preocupa mais em comer ou com a limpeza da casa? Acorda, mudando ou não algumas palavras da língua portuguesa, com certeza nada mudarão na forma de o brasileiro escrever ou falar o básico corretamente, o que esta em jogo no momento é virar o placar para reverter o quadro atual de pobreza. Nem todo sábio tem o poder de conhecer a língua falada e escrita?
André  Tanure , Rio de Janeiro-RJ - Gestor Público
Enviado em 27/5/2008 às 10:26:07 PM
Se acham que devem deixar de se peocupar com a língua para resolver primeiro o problema da fome então passem a se comunicar por gestos como os neandertais. A língua é importantíssima como afirmação política e social. Um indivíduo que não domina sua língua querendo ou não é um pária. Ou você contrataria um advogado que fala " a gente vamos"? Realmente deve-se buscar uma gramática mais facil e lógica, sem as infindáveis exceções que aterrorizam os estudantes e demais usuários frequentes da linguagem escrita. O portuga que fique esperto, senão vira dialeto do espanhol, como o Galego.
Márcio Simões , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 27/5/2008 às 7:50:06 PM
Os parlamentares nos impõem o jeito de escrever as palavras. Eles até fixam prazos: a partir do dia X, nada de "idéias". Por que permitimos essa intromissão? É sinal de que somos um povo banana?
Marina  Daniel , Campo Belo-MG - Estudante
Enviado em 27/5/2008 às 7:30:29 PM
Enquanto problemas como fome , miséria , desemprego e iflação estão em pauta no mundo atual , essas "autoridades" se preocupam com pequenos detalhes da ortografia.A cada década ( quem sabe ano) há uma pequena mudança na acentuação gráfica ,no uso do hífen , etc. Agora :qual o real motivo de tudo isso? Nós , estudantes , é que sofremos com tais mudanças desnecessárias .Ficamos confusos ao fazer uma redação ou prova, ficamos sem saber como será a avaliação dos vestibulares. Se o Acordo Ortográfico é uma forma de modernizar a linguagem escrita , poderá ser também uma forma de retardamento na conclusão de nossos estudos.
Marco Antônio Leite , São Caetano do Sul-SP - TST
Enviado em 27/5/2008 às 4:35:57 PM
A mudança de algumas palavras da mal usada língua portuguesa, o que poderia refletir em melhorias para os pobres que habita os países que falam o português. Com certeza nada mudaria, pois esses quase cidadãos continuariam na penúria da miséria absoluta e relativa. As "autoridades" ao invés de estarem preocupados em universalizar a língua através da correção, se é que esta errado ou inadequado para os novos tempos, de algumas palavras, poderia muito bem fazer uma distribuição de renda mais justa e adequada para os pobres viverem melhor. Ou não?
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