ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 491 - 24/11/2009
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A IMAGEM FIXA
(que, no entanto, se move)

O divertimento como modo de produção

Por Eugênio Bucci em 24/6/2008

Uma vez fiz uma escala em Las Vegas e dormi lá. O hotel em que me hospedaram era um cassino, um cassino transcontinental. No final da tarde, tive que cruzar, por algum motivo, o espaço do cassino propriamente dito. Fui buscar um copo d’água, comprar uma barra de chocolate, ou tinha de ir ao outro lado do edifício para ver alguma coisa no estacionamento. Não lembro mais o motivo que me fez empreender a travessia. Mas eu me lembro da cena. As máquinas de videopôquer, desligadas, perfiladas e mortas sobre o mofo do carpete infecto.

Eram três máquinas paradas. Depois eram seis. Eram dez. Eu andava pelos corredores e elas eram incontáveis. Eram muralhas de máquinas de videopôquer, uma fileira depois da outra, tantas que me pareceram centenas.

Mais à frente vinha o descampado reservado à roleta e mais outras engrenagens do jogo. Eu caminhava a passos rápidos, guiado pelas poucas funcionárias, moças com coletinhos pretos sobre camisas acetinadas, calças compridas, crachás. Elas patrocinavam a servidão de passagem de que eu me servia. Fora isso, aquele era um lugar não estava aberto ao público. Aquele era um lugar inexistente. Mais um pouco e a multidão o invadiria, como numa enchente.

Lazer fabril

Foi então que aquele cassino me pareceu uma fábrica vazia – e aí começa a minha história. Eu passeava por uma fábrica vazia. Eu olhava para o cassino parado e via uma fábrica. Não importa por que o cassino estava fechado àquela hora. Seria o horário de manutenção? Um descanso semanal dos motores? Hora da faxina semanal?

Cassino? Eu disse cassino? Corrijo. Era uma fábrica. Eu olhava e via, cada vez mais, a fábrica. Não, aquilo não era um parque para adultos, um centro de lazer e jogatina. Era uma fábrica a espera dos operários. Atrás das portas imensas, lá na parede do outro lado, poderiam estar os relógios de ponto para que os trabalhadores carimbassem seus cartões.

Inertes, as máquinas ao meu lado não eram capazes de produzir riqueza. Por isso eram uma fábrica. Elas precisavam da força humana para se mover, para que as moedas tilintassem, as sirenes zunissem, as luzes piscassem. Só assim elas produziriam mais magnetismo, mais visibilidade para seus signos, mais corpos humanos para movê-las, mais desejo para idolatrá-las, mais olhar para amplificá-las, mais... valor.

Logo mais, aquele imenso chão de fábrica iria acender as suas luzes.

Aí, viriam os proletários. Eles viriam salivando, aquele chão iria virar um formigueiro, fervilhando de proletários. Proletários inusitados, proletários jogadores, mas proletários. Naqueles minutos entendi que são proletários os jogadores que fazem funcionar os cassinos.

Com algumas particularidades, eu sei, mas são proletários. Em vez de vender sua força de trabalho para o dono das máquinas, eles pagam, veja que coisa, eles pagam como se comprassem fragmentos de prazer que imaginam extrair daqueles caixotes de metal e vidro. Pagam e adquirem o formidável direito de entregar seus músculos e suas energias vitais àquela linha de montagem subterrânea, naquele porão sem janelas, sem nada que deixe o sujeito saber se, do lado de fora, é dia ou é noite.

Os vigilantes, aqueles que iriam chefiar os operários que estavam do lado de fora, já se preparavam para abrir as comportas. Aquilo quase tinha um ar de escritório de contabilidade com uma decoração de motel.

Logo depois, a multidão em tropéis disputaria faminta os postos de trabalho (digo, de diversão) a partir dos quais faria girar os meios de produção (de prazer), os meios de produção (de vício), os meios de produção de papel moeda.

Como se fosse uma fábrica.

Essa idéia ficou comigo. A imagem que eu tinha da fábrica, uma imagem fixa, deslizara para o lugar da imagem do cassino. Eu olhava para o cassino e não conseguia mais ver cassino. Via apenas fábrica. Tanto a idéia ficou comigo que, horas mais tarde, desci para ver as pessoas jogando (digo, trabalhando) e para ver se eu mudava de idéia (digo, de imagem). Eu olhei para elas, atentamente, e o que eu vi foi exatamente isso:

Elas trabalhavam sem descanso, sem trégua, sem mais remédio. Elas iriam passar horas ali, dias, se deixassem. Além de depositar o suor nos comandos daqueles meios de produção, deixariam também dentro das engenhocas as suas economias. E sairiam contentes, realizadas, bêbadas, cansadas, mais pobres, mais gastas.

Há conclusão possível?

Claro, a história do cassino é apenas uma síntese. Talvez metafórica. A indústria do entretenimento é isso. Exatamente isso.

Ela soube elevar a alienação a uma forma suprema de gozo e transformou o chamado tempo de lazer em tempo de trabalho concentrado. A imagem da linha de montagem como um moedor de corpos e consciências é pré-histórica. Você viu o Carlitos em Tempos Modernos, naturalmente:

Lá está ele, digo, lá estava ele, todo importante porque tinha um emprego e pensava que comandava as engrenagens, sem perceber que estava dentro delas. Lá estava ele na cartilha demasiadamente literal de Charles Chaplin, transformou Hegel e Marx em pastelão para crianças. Pois aquilo, que era tão fácil, agora é pré-história. As fábricas são pré-históricas – aquelas fábricas, mas não todas as fábricas.

Alguns acreditam que as fábricas perderam terreno para os "serviços", dizem que estamos em um tempo "pós-moderno" ou "pós-industrial", mas não viram que todo o resto, todo o lado de fora da fábrica, tudo aquilo que parecia pertencer ao "tempo livre" se estruturou como atividade fabril – e febril.

O divertimento virou um modo de produção e foi por aí, por essa indústria do imaterial, que as vias da acumulação se destravaram.

A diversão é o iPod do povo.

Jogue o seu game e você moverá mais engrenagens. Ouça o seu MP3 e você moverá engrenagens. Assista na TV ao seu jogo de domingo à tarde, cerveja na mão, e moverá as engrenagens. Não vale dizer que o cinema falado é o grande culpado da transformação. Não vale fazer greve contra a energia elétrica. Sonhe o seu sonho mais doce de felicidade e verá que ele já é uma espécie de mercadoria. Pois então sonhe – pois, sonhando, você moverá as engrenagens.

Ah, sim, e antes que você alegue que isto aqui não tem nada a ver com imprensa, eu aviso, com um alerta que rima: você é que pensa.

 

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Comentários (9)
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marcos omag , sao paulo -SP - auxiliar judiciário
Enviado em 2/7/2008 às 2:21:02 AM
Em tempos de tudo em "tempo-real", que não por coincidência refletem a produção capitalista do "just-in-time" que vigora no neoliberalismo, tudo na Indústria Cultural deve digerido rapidíssimamente, e a reflexão é mal vista pelo fascismo de mercado.
Rodrigo  Spagnol , São Paulo-SP - Ócio
Enviado em 29/6/2008 às 2:12:10 PM
Amiguinho jornalista quer brincar de etimologia? Então brinque e leia direito o que eu escrevi. Em nenhum momento eu duvidei do significado da palavra, que sei muito bem ser, em parte, o que você mostrou. Apenas frisei que o que você disse é óbvio, e que, desde que seja uma ação consciente (de pessoas preparadas por uma boa educação), não há nenhum problema em se "divertir". Pior que isso é a crença que as pessoas devem ser tuteladas, protegidas das "diversões", que é o que está implícito no texto. Para ficar bonitinho, vou recorrer a Tocqueville: "Os males da liberdade se corrigem com mais liberdade" e Hannah Arendt: "O sentido da política é a liberdade". Claro que são necessárias certas regulações, mas na esfera cultural isso é perigosíssimo, deve-se quase sempre optar pela auto-regulamentação. Enfim, a etimologia da palavra não foi meu argumento. Jornalistas deveriam saber ler. E a raiz correta do verbo "divertir" é a seguinte: "Dis"= aparte / de lado + "de" + "vertere" = virar / girar etc.
Maurício Tuffani , São Paulo-SP - jornalista
Enviado em 29/6/2008 às 11:07:05 AM
"Divertimento é o que é: DIversão", foi dito abaixo. Mas uma simples consulta a um dicionário poderia ter sido útil antes de tal unilateralismo com pretensão etimológica. Além de "algo que serve para divertir", o Houaiss, por exemplo, mostra "diversão" também como "mudança de direção" e com o significado militar de "ação que tem a finalidade de desviar a atenção do inimigo". E, antes que eu me "distraia", parabéns ao Eugênio pelo artigo.
Rodrigo  Spagnol , São Paulo-SP - Ócio
Enviado em 28/6/2008 às 3:52:30 PM
Eugênio, pelamordedeus. Ler muito Adorno dá nisso, essa visão totalmente anacrônica e caricaturada do mundo. Você ao menos deveria ter tido a decência de fazer referência à Escola de Frankfurt, porque é cristalina a ligação entre o seu texto e as teses de tal Escola. Leia (direito) Marshall Mcluhan, aprenda um pouco de economia, teoria política, psicologia coletiva. Ah, vale a pena etimologia. Divertimento é o que é: DIversão. Não são estes exemplos inerentes ao capitalismo (que realmente podem alienar) que configuram o problema central, mas a Educação, tanto pública quanto familiar. Esse materialismo marxista que sempre culpa o "sistema", além de comprovadamente errado, já está démodé... Enfim, meu problema com o seu texto é a submissão intelectual dele. Além claro, de discordar com os pressupostos.
Rubens Prector , Guarulhos-SP - Administrador
Enviado em 25/6/2008 às 11:29:42 PM
"A imprensa tem como primeiro dever ser livre, independente, qualidade é algo secundário" - Eugenio Bucci. Grande Eugênio. Por isso sua matéria com fotinhas, não? Estás certo, deixe a qualidade para lá!
Rubens Prector , São Paulo-SP - __
Enviado em 25/6/2008 às 11:17:09 PM
alfredo sternheim, deixe o PSDB continuar mostrando sua capacidade de gerenciamento da cultura e entretenimento aqui em São Paulo. Parece que eles, os pássaros de bico comprido, ainda não entenderam o porque da repulsa do eleitorado pelos seus candidatos.
alfredo  sternheim , são paulo-SP - jornalista/cineasta
Enviado em 25/6/2008 às 3:12:10 PM
Na discussão sobre o entretenimento, é preciso deixar de lado qualquer subjetivismo.Para uns bingo é um divertimento, para mim não, mas acho válida a opçãoque gera empregos, em má hora proibida.Relevante é discutir o uso do dinheiro público na indústria do entretenimento. Por exemplo, a questão da OSESP (orquestra Sinfonica do estado de SP) que rcebe verbas do governo estadual paulista. É correto nosso dinheiro financiar exibiçõe no exterior a um custo elevadissimo, dar entretenimento para os estrangeiros? Acho ofensivo o regente ganhar 100 mil por mês e o governador do estado 14 mil. Isso em um país cujo salário médio é inferior a de 4salários mínimos.Uma distorsão gritante há muito aceita pela mídia. O secretário de cultura, Sayad, parece que quer mudar esse quadro de esbanjamento. Mas enfrenta várias barreiras e nenhuma solidariedade na imprensa. Espantoso. Para vários que têm recursos para pagar ingressos,a OSESP é um bom entretenimento. Realmente, ela tem ótimos músicos que ganham , no máximo, 18 mil, segundo li em reportagem. Mas é um entretenimento carissimo levando em conta as verbas e o salário do regente-titular que se revela hoje na Folha, arrogante. É preciso dar um basta para verbas públicas (renúncia fiscal, etc) mal aplicadas em nome da cultura e do entretenimento (caso Chatô, por exemplo). Os jornalistas, como o ilustre articulista , podem colaborar
Fernando Meiras , São Paulo-SP - Dentista
Enviado em 25/6/2008 às 12:07:29 AM
Claro que tem a ver com imprensa, sim. Não há o que questionar, afinal a relação entre imprensa e alienação é o maior exemplo de regressão da sociedade capitalista. E Bucci é um daqueles que aponta o problema sabendo que fez, e faz, parte da causa do mesmo. Ridículo!
Fernando  Trindade , Brasília-DF - advogado
Enviado em 24/6/2008 às 12:05:36 PM
Um texto que "dá o que pensar", como esse, já terá "cumprido a sua missão". Talvez por livre associação à medida que lia a descrição do cassino e via as ilustrações me vieram as imagens de neon colorido, o acrílico (e demais) dos cenários como que virtuais de que a Globo é o maior - e mais fake - exemplo. Atenciosamente, FTrindade Parabéns ao Bucci. Fernando Trindade
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