ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 501 - 24/11/2009
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ELEIÇÕES 2008
Quando vamos eleger a educação?

Por Gabriel Perissé em 2/9/2008

Uma instigante matéria na revista Época (nº 536, de 25/8/2008), com a assinatura de Isabel Clemente e Mariana Sanches, propõe discussão das mais importantes. As duas jornalistas mostram que o político sensível às questões educacionais não angaria a desejada popularidade.

O exemplo mais gritante seria o ex-ministro da Educação e ex-governador do Distrito Federal, o senador Cristovam Buarque. Apesar de sua paixão, de seus escritos, de sua luta e ações concretas a favor da educação, não se reelegeu em 1998 para o governo do DF e em 2006, concorrendo à Presidência com um discurso voltado prioritariamente para esta problemática, não conseguiu comover nem convencer os eleitores.

Uma das explicações para o fenômeno: a maioria dos brasileiros prefere votar em quem promete cuidar de assuntos urgentes como saúde, alimentação, transporte, moradia, emprego, segurança, meio ambiente. Como se educação não fosse tão ou mais urgente e não trouxesse benefícios diretos. Bendito imediatismo, o nosso! Bendita seja também a nossa ainda limitada percepção de que estudo é luxo!

Propostas genéricas

Pensando com as células cinzentas do político profissional, se educação não é prioridade, para que preocupar-se, para que projetos? E, prefeito eleito, governador eleito, que vantagens há em gastar muito com escolas, com professores, se o povo não reconhece o esforço no pleito seguinte?

Contudo, o mesmo pragmatismo recomenda não deixar o tema de lado. Os candidatos à prefeitura da cidade de São Paulo, por exemplo, tangenciam o assunto, cada um a seu modo.

Geraldo Alckmin oferece propostas genéricas ou que chovem no molhado, dentre as quais: aperfeiçoar o plano de carreira dos professores, melhorar seus salários, formação continuada para os docentes; criar vagas em creches, no ensino infantil e implantar o ensino fundamental de 9 anos; a figura do professor visitador; educação profissional para jovens; refeições e merenda escolar; uniformes completos para as crianças; transporte escolar; abrir as escolas nos fins de semana com programas esportivos, culturais e de lazer; aderir aos movimentos "Todos pela Educação", "Movimento Nossa São Paulo" e PDE do MEC...

Crianças e jovens pagam o preço

Marta Suplicy pretende criar a Rede CEU (os Centros Educacionais Unificados são a versão paulista do Ciep de Darcy Ribeiro e Brizola), eixo de seu programa para a educação, em que itens já conhecidos, funcionando como propaganda das realizações passadas, tornam-se propostas para o futuro: material didático, uniformes e transporte escolar gratuitos, merenda escolar, criação de vagas, efetivação de professores concursados, redução da evasão escolar, laboratórios de informática e salas de leitura, e o Programa Escola Aberta, oferecendo atividades culturais e de lazer nos finais de semana para a comunidade, como preconizava Gabriel Chalita, ex-secretário de Educação de Alckmin.

O atual prefeito, Gilberto Kassab, prefere enfatizar o que já realizou (ou o que Serra fez tendo Kassab como vice-prefeito): acabou com as escolas de lata (herança deixada por Celso Pitta e não solucionada por Marta Suplicy), definiu como prioridade a alfabetização até os 8 anos de idade, lançou o programa "Ler e Escrever" com o segundo professor em sala de aula e construiu 25 novos CEUs.

Diante do que propalam, está tudo indo relativamente bem na educação, falta apenas aprofundar alguns aspectos, manter vivo o que está caminhando e implantar boas idéias, nem tão novas assim. Por não serem conhecedores do tema (como Cristovam Buarque), pensam na educação como uma tarefa a mais a ser administrada.

Se políticos e população eleitora concordam neste ponto, se a educação pública não precisa de um choque, de uma atitude revolucionária, torna-se bandeira menor, bandeirinha de campanha. Crianças e jovens pagarão o preço agora. E, mais tarde, todos nós.

Comentários (5)
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Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 7/9/2008 às 4:27:48 AM
Desculpe sr. Roberto. Sei que Argentina atual está precisando de exorcismo, no mínimo. Eu quis apenas enfatizar que, se estamos perdidos no rumo de nossa educação, não é por falta de exemplo. Sarmiento foi um presidente argentino que, na década de 1860, percebeu a importância da educação e resolveu se concentrar nela. Basicamente, abriu escolas até onde só havia ovelhas e aplicou a lei da obrigatoriedade universalmente - "aplicar a lei " é uma expressão que dá alergia em pele de brasileiro. O resultado foi uma Argentina quinta potência econômica mundial na década de 1910. Seu túmulo na Recoleta recebe menos flores do que o de Evita, mas veja bem, enquanto os argentinos dão valor aos estadistas, nós só lembramos do Airton Senna. As prioridades você elege, os resultados você colhe. Escola virou "passar de ano", ao invés de "estudar e aprender". Não tem segredo, esse é o ponto.
Roberto Ribeiro , Aracaju-SE - Arqueólogo
Enviado em 5/9/2008 às 10:34:03 AM
No meu comentário anterior está "ouvessem" perdoem o lapso. Mas então? A Argentina é um paraíso na Terra? Isso eu não sabia. A educação brasileira até Vargas tinha uma destinação certa, a formação de funcionários públicos ou semi-públicos e caixeiros de venda. Assim, a educação primária tinha aqueles imensos problemas com bananas e bolachas, muito úteis para quem iria fazer troco no balcão, caligrafia para quem iria ser escriturário, ou pelo menos anotar claramente as contas na caderneta, e só. Aritmética, um pouco de escrita e ideologia verde-amarela. O suficiente para trabalhar na venda. O ensino ginasial e colegial, visava formar burocratas. Daí nada prático ensinavam, apenas regras de gramática, regras de ortografia, regras, regras. Os únicos cursos profissionalizantes eram o normal, para as moças, formando reprodutoras do Estado, e contabilidade, formando burocratas mais especializados. Por fim, o ensino superior era Direito e Medicina, burocratas e semi-burocratas. A coisa deixou de funcionar qdo não houve mais correspondência entre as necessidades da sociedade e o ensino. Engenheiros, técnicos, sociólogos, filósofos, correspondem a sonhos de como a sociedade quer ser, não de como ela realmente é. O ensino brasileiro está intoxicado de Bovarismo. Há um programa chamado "Salto para o Futuro" cujo nome já indica isso. Não há futuro, apenas modelos de futuro
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 4/9/2008 às 1:56:23 PM
Esse pensador francês não entende nada de Brasil! Nós íamos criar a faculdade pública para refino de cocaína, mas só quem tivesse a disposição de pagar o valor de um BMW zero km. ia obter a vaga. Aí íamos ter multidões de favelados fora do mercado do tráfico, sem direito a uma formação profissional decente. O povo da zona sul iria se opor ferozmente à iniciativa de criação de cotas para a formação de refinadores vindos da Rocinha e..., enfim, se tivéssemos tido um estadista disposto a gastar tempo e dinheiro em educação básica verdadeira e saúde preventiva, como tiveram os argentinos do século XIX com Sarmiento, não perderíamos hoje tempo com coroneizinhos e vereadores profissionais perpétuos nesse país de renegados úteis e assistencialistas hipócritas.
Roberto Ribeiro , Aracaju-SE - Arqueólogo
Enviado em 4/9/2008 às 9:24:41 AM
Certo pensador francês, no programa Roda Viva, há muitos anos atrás, disse que se ouvessem cursos sobre refino de cocaina e gerência de ponto de drogas, o ensino estaria salvo. Queria ele dizer que a educação está descolada da realidade. A verdade é que a educação atual, baseada nos princípios da Revolução Francesa, altamente controlada pelo Estado em nome da "universalidade" está em crise em todo o mundo. Ensina-se o que as pessoas não querem estudar e fica-se lamentando a falta de interesse. Fiz o curso de letras e nele os professores diziam que ensinar gramática é errado, que se deve ensinar a interpretar textos e não regras autoritárias sem relação com a vida do aluno. Por muito tempo achei que devia ser assim, mesmo que o aluno QUISESSE aprender gramática, que seus pais QUISESSEM que ele aprendesse gramática, o professor DEVIA ensiná-lo a interpretar, pensar, etc. Com o tempo eu percebi que esta postura é altamente autoritária, pois o professor decide o que é melhor para o aluno, mesmo que ele não queira, pq se ele é idiota o bastante para querer aprender gramática, o professor, iluminado, deve ensiná-lo a redigir e interpretar, mesmo contra a sua vontade. Se o aluno quer decorar nomes e datas, o prof. de história, DEVE ser contra e ensinar o que ele acha melhor, etc. Assim, o ensino se reduziu à aquilo que o sistema quer, imposição em nome da liberdade e do criticismo...
Simone Carioca Guimarães , Rio de Janeiro-RJ - Jornalista Freelancer
Enviado em 3/9/2008 às 5:49:19 PM
Invejo a sua esperança com relação a política! Eu não acredito mais, para falar a verdade, nunca acreditei e nunca acreditarei. Eu acredito muito mais nas ONGS e no voluntariado com relação a questões de educação. Os resultados tem sido mais práticos e imediatos. O máximo que faz alguma coisa são alguns bancos que estimulam o voluntariado. Mas, a política, não acredito mais!! É isso, gostei do artigo!
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