ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 503 - 24/11/2009
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LEITURAS DE VEJA
Para ser um especialista em educação

Por Gabriel Perissé em 16/9/2008

Que características deve ter alguém para ser um especialista em educação? Teoricamente, esse especialista tem autoridade para escrever sobre o tema, criticar, analisar, palestrar, oferecer sugestões práticas. É possível distinguir o especialista em questões educacionais daquele que emite opiniões mais ou menos oportunas?

A revista Veja propõe um tipo de especialista. É o que se autodeclara expert em educação pelo fato de ser especialista em economia. Na última edição (nº 2078) de Veja, Camila Pereira entrevista o norte-americano Eric Hanushek, cujos trabalhos inspiram outros dois economistas que escrevem sobre educação: Claudio de Moura Castro e Gustavo Ioschpe. (Os dois são autores de um estudo recente que difunde o pensamento representado por Hanushek.)

A tese defendida por esses economistas é a de que a qualidade da educação é o principal impulso da economia. Uma vez que o nosso nível educacional está baixo, conclui-se que o desenvolvimento do país corre sérios riscos. Pensando em termos econômicos, o principal "produtor" de boas aulas é o professor. Portanto, deveria ser instaurado um ambiente competitivo, como nas grandes empresas, para que os bons docentes fossem incentivados com salários melhores e os maus, se não se corrigirem, devidamente afastados.

Lista de evasões

Analisada a situação desse ponto de vista, simplifica-se o problema e encontra-se a solução fácil, óbvia, científica! O resto são intuições, mitos esquerdistas, corporativismo dos sindicatos de professores, opiniões vazias (opiniões não alicerçadas em números), desconhecimento das práticas vitoriosas de países (tão parecidos com o Brasil...) como Finlândia e Coréia do Sul!

Outro tipo de especialista, que não escreve em revistas de grande circulação, seria o professor que está na sala de aula, que enfrenta as dificuldades reais e complexas da educação brasileira. Este docente muitas vezes concluiu a sua graduação em faculdades privadas, fez alguns cursos de aperfeiçoamento com sacrifício, talvez um mestrado, mas sempre aprende mais com a vivência do que com os livros.

Este especialista (para o qual o economista da educação há de reclamar o uso das aspas) depara com problemas concretos que interferem no aprendizado das crianças e jovens: o ambiente familiar (ou a falta de ambiente familiar) desses alunos, o lugar adverso em que vivem, a precariedade física de muitas escolas e o desânimo de alguns professores (há os que entregaram os pontos e, não raro, porque estão doentes).

Este especialista enfrenta, sobretudo, o que se costuma chamar de "sistema", um conjunto de práticas impostas que os professores se vêem na obrigação de adotar, como na questão da aprovação de alunos sem condições de prosseguir... mas que precisam prosseguir de alguma forma, porque a fila anda... ou cresceria a indesejável lista das evasões.

Leituras de fácil digestão

Muitas cidades brasileiras, muitas capitais, registram altos índices de aprovação no Fundamental I (do 1º ao 4º ano, ou ao 5º, se já foi adotado o sistema de 9 anos), mas um número expressivo desses aprovados tem graves dificuldades para ler, escrever e realizar operações matemáticas. Todos os alunos vão para o Fundamental II (os 4 anos restantes, antes do ensino médio), e seus professores de língua portuguesa, matemática, história, geografia, ciências, inglês e educação artística vêem-se perante o grande dilema: ensinamos o conteúdo previsto para os alunos mais adiantados ou tentamos alfabetizar os mais atrasados?

Houve interesse (legítimo) em manter a criança e o jovem na escola, mas os especialistas, os professores, não foram consultados sobre a viabilidade do que se propunha, ou não foram auxiliados para fazer da progressão continuada um caminho de estudo, e não de mera aprovação.

Se aspas devem ser usadas contra algum tipo de pretenso especialista, ficariam reservadas para aqueles autores que se arvoram a dizer o que bem entendem sobre educação e, pior, com grande aceitação por parte dos professores. Não me cabe citar nomes, mesmo porque algum tipo de serviço motivacional esses autores oferecem. São auto-ajudistas. Assim como Paulo Coelho fez milhares de leitores brasileiros entrarem numa livraria pela primeira vez na vida, assim também muitos professores encontram nessas leituras de fácil digestão receitas e frases de estímulo para o seu cotidiano.

Espaço para o educacionista

Alimento que não encontram quando lêem textos de autores sérios, pesquisadores universitários brasileiros ou estrangeiros, verdadeiramente especialistas em educação, pedagogos, filósofos, sociólogos ou psicólogos, cuja linguagem lhes parece hermética: "epistemologia apriorista", "angústia simbolizada", "o imperativo categórico da instância escolar" etc.

Tanto o auto-ajudista quanto o hermético mais atrapalham do que ajudam. O primeiro oferece paliativos. O segundo, afasta.

O desejável seria encontrar especialistas que reunissem as melhores características dos modelos mencionados nos parágrafos anteriores.

Um especialista com formação acadêmica que soubesse comunicar-se com o professor brasileiro. Sejamos realistas: a nossa formação inicial não permite a muitos docentes discutirem de maneira sofisticada... e talvez isso nem seja tão necessário. A melhor virtude do profissional do ensino é a sua dedicação e muitas vezes ele se deixa desvalorizar pelo poder público porque recebe algum tipo de remuneração afetiva no âmbito da sua comunidade.

Que o especialista especial não desprezasse os dados que a economia e a estatística nos entregam, contanto que saiba relativizá-los, dando à experiência prática um destaque que incomoda, e muito, os que vivem longe, bem longe, sonhando com a sala de aula finlandesa.

Que o educacionista, para usarmos uma palavra que o senador Cristovam Buarque gosta de repetir, seja um especialista realista e obtenha mais espaço na mídia. Quem sabe, até mesmo em alguma página da revista Veja.

Comentários (10)
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Rubens Prector , Guarulhos-SP - Dentista
Enviado em 18/9/2008 às 8:48:48 PM
O governo paulista não conseguiu cumprir nenhuma das quatro metas a que se propôs para a melhoria na qualidade do ensino na rede estadual, para o período entre 2004 e 2007. O objetivo era, no geral, reduzir a repetência e a evasão dos alunos, tanto no ensino fundamental (1ª a 8ª série) quanto no ensino médio (antigo colegial). Em três dos quatro indicadores, a situação chegou a piorar. Foi o caso, por exemplo, da reprovação no ensino médio: a meta era diminuir de 9,3% para 7% a proporção de alunos que repetem de ano. A taxa, porém, subiu para 17,6%. O único que melhorou -evasão no ensino médio- ficou abaixo da meta (era 8,4%, esperava-se 6%, mas ficou em 6,5%). Os objetivos foram determinados pelo então governador Geraldo Alckmin (PSDB) no Plano Plurianual 2004-2007. O plano, uma obrigação legal, determina as prioridades do governo para o período e fixa indicadores para o acompanhamento da eficácia das políticas. A vigência do plano se estendeu até o primeiro ano da gestão José Serra (PSDB). Pesquisas nacionais e internacionais ligam a reprovação à piora na aprendizagem e ao aumento do abandono. A situação dos países com bons rendimentos nos testes educacionais apontam para a mesma direção. Finlândia e Chile têm baixas taxas de reprovação, de 1% e 2%, respectivamente, no antigo primário.
Rubens Prector , Guarulhos-SP - Dentista
Enviado em 18/9/2008 às 8:38:04 PM
O P$DB tranformou a educação de SP em comércio. Os alunos entram ignorantes e saem alienados. Como o P$DB sempre foi criticado pela péssima estrutura de ensino que criou e mantém em SP, a idéia brilhante de excluir as repetências nada mais é que uma prática criminosa para com a formação de nossos alunos. Se os mesmo sempre sairem das escolas com a desformação tucana que foram sujeitos, só restará aos mesmos assitirem tv para o resto da vida, e a ler a revista Veja, o que indicaria um baixo nível de desenvolvimento cognitivo.
Augusto Cézar  Contreiras de Almeida , Guará-DF - Professor
Enviado em 18/9/2008 às 12:07:21 PM
A visão neoliberal da educação (só é bom aquilo que produz resultados com números) tenta sufocar todo tipo de pensamento contrário. A relação docente é uma relação humana, entre dois entes (professor e aluno) e isto é algo que não pode ser medido e é tão ou mais importante do que a frieza dos números. De que adianta aprovar alunos que mal sabem interpretar uma texto? Querer implantar uma competição entre os professores é individualizar o processo educativo levando a um caminho perigoso e afastando a classe educacional de suas lutas coletivas. Abraços.
Raphael Carvalho , Recife-PE - Petroleiro
Enviado em 17/9/2008 às 11:45:40 AM
No tempo dos meus pais, quem não sabia ler era reprovado. Hoje tem acompanhamento psicológico, terapeuta, aula de reforço. E afinal parece que nada disso funciona - tenho apenas 21 anos e estou pela segunda vez estudando na UFPE. Lembro que vários colegas de quando eu era 3o ano do ensino médio não tinham a menor idéia de como fazer uma simples redação, e acabaram sem acesso a uma formação superior de qualidade aceitável. Concordo com a idéia da "seleção natural". Em uma empresa é assim mesmo, quem não produz vai pra rua. É claro que a educação não é uma mercadoria, mas se fosse aplicado o princípio da seleção natural pouquíssimos alunos restariam nas escolas, mas na minha opinião é isso que importa - a qualidade, e não a quantidade.
Carlos N Mendes , Santos-SP - industriário
Enviado em 17/9/2008 às 8:41:56 AM
Escola competitiva ? Por quê os repórteres de "Veja" não vão entrevistar os pais japoneses que viram seus filhos de 14, 15 anos se matarem por tirarem um "B" em matemática ? Talvez seja essa a solução para melhorar nosso desempenho escolar : seleção natural - só as melhores notas sobrevivem...
Jaime  Guimarães , Salvador-BA - professor
Enviado em 16/9/2008 às 9:20:33 PM
Gabriel, você tocou em um ponto interessantíssimo: a questão da aprovação automática nas séries do fundamental I. Faço parte de uma comunidade voltada a professores no orkut ( ei, existe vida e debate inteligente no orkut, oras!) e discutíamos justamente este aspecto das escolas. Não que o sistema de ciclos seja de todo ruim, ele apenas foi implantado sem levar em conta as especificidades da educação brasileira e todos os seus problemas. E o professor do fundamental II, que não teve em sua formação seja na graduação e na especialização nenhuma referência à alfabetização, fica literalmente perdido com a quantidade de alunos que mal sabem ler e escrever. Diante disso há dois especialistas: o "especialista" que prefere culpabilizar totalmente o professor pela falência da escola pública e bradando a todo o instante que "na Finlândia é que é bom" e o especialista que reconhece as deficiências do sistema e estuda o problema considerando todos os aspectos. Eu acho uma afronta referir-se aos colunistas da VEJA como "especialistas em educação". Podem ter um título, é verdade, conseguido em alguma pós ou curso qualquer. Mas se Gustavinho tivesse que fazer uma pesquisa de campo para comprovar suas teses, teria que ir para a Finlândia.
Rodrigo Santos , Chapadinha-MA - servidor público
Enviado em 16/9/2008 às 9:10:10 PM
Em umas das 40 propostas para melhorar o Brasil, Veja desfere a seguinte pérola quando defende (corretamente) a ampliação do ensino técnico: "O ensino de geografia, ciências sociais e outras áres de humanas conta pouco." (edição de 10/09/2008, pág. 112)Precisa-se dizer mais algumas coisa.
José  da Silva Souza , Rio de Janeiro-RJ - Professor
Enviado em 16/9/2008 às 6:09:22 PM
A Veja só quer que voltemos ao positivismo do século XIX. Cada dia mais reacionária... credo!
Ricardo  Pereira , Campinas-SP - quimico
Enviado em 16/9/2008 às 3:47:18 PM
Auto-ajudista? Será que meus ouvidos internos ouviram o nome do Gabriel "Chaleira" Chalita, nosso iluminado ex-secretario, autor de livros do genero? Perdoe-me, mas como ex-professor do ensino publico paulista, qualquer referencia a esta sumidade me dá urticaria, por motivos obvios... Em relação à Veja, qualquer reportagem sobre educaçao que seja produzida pelo genio Ioschpe vem tao carregada de certezas neoliberais e cientificistas que é perda de tempo comentar ou discutir. Além disso, a Abril tem interesse aberto no tema por conta da produçao de material didatico que ela pretende vender ao governo. Perde-se completamente o distanciamento necessario para qualquer analise sobre o tema. Em resumo, qualquer coisa que traga a chancela do Civita só tem um destino: esgoto!
Bernardo Caprara , Porto Alegre-RS - Jornalista/Cientista Social/Professor
Enviado em 16/9/2008 às 3:42:33 PM
Teu artigo é de grande valia, muito interessante, além de levantar uma questão fundamental, na minha modesta opinião, acerca do cotidiano de sala de aula: a relação entre o professor e o conhecimento, mais a forma de construí-lo em conjunto com os estudantes. Não podemos cair no senso comum; mas também estacionar no "academicismo" não leva a resultados valiosos. Me incomoda muito que economistas tentem passar para o ambiente da educação práticas empresariais... educação não é mercadoria, e a dinâmica da aprendizagem não é a mesma dinâmica de uma fábrica.
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